Bola dividida
- on 19 de maio de 2009, às 0:00h
- Divina comédia humana
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Bola dividida (Luiz Ayrão)
O Maurinho brigou com a Gigi e se mudou de mala e cuia para a casa do Guimarães. “Seria por alguns dias”, garantiu. Mesmo assim, a Darlene não gostou. Não queria abrigar em sua casa um salafrário que traíra a sua melhor amiga. Mas os argumentos do marido acabaram convencendo a mulher quando ele alegou que não poderia deixar na mão um amigo de infância e, é claro, concordou em dar em seu aniversário aquela jóia que ela tanto desejava.
No começo, a Darlene ficava de tromba para o Maurinho. Por isso, ele procurava minimizar a sua presença e tentava, na medida do possível, não incomodar o casal. O Maurinho, por exemplo, evitava comer em casa para não dar trabalho, mas, mesmo assim, recolhia e lavava toda a louça do jantar. Não fazia isso apenas por delicadeza ou por um gesto de gratidão. Fazia, principalmente, por uma questão de higiene.
Maurinho era assim. Tinha compulsão por limpeza. Gostava de manter a ordem no lar, ainda que fosse no lar alheio. Reclamava quando o amigo, na hora do futebol, colocava a cerveja em cima do centro – “é para não manchar o móvel” – ou quando caíam cinzas do seu charuto no tapete – “presta atenção no serviço, Guima!”.
Maurinho surpreendeu o Guimarães e a Darlene quando, num sábado de manhã, decidiu, por conta própria, arrumar a casa. Ficou uma beleza, um brinco mesmo, mas o Guimarães achou tudo aquilo um exagero. Já a Darlene não só desfez a tromba, como também passou a enxergar o Maurinho com outros olhos.
- Que beleza, hein Maurinho? E eu que nem sabia que você era assim tão prendado.
Nas conversas com a Gigi, Darlene já não era mais tão incisiva como antes. Ao contrário, chegava mesmo a defender o Maurinho.
- Aquele calhorda!
- Sei não, Gigi, sei não. Vai ver que você deu algum motivo para o Maurinho.
- Mmmm.
O Maurinho também gostava de cozinhar e era conhecido por suas incursões na culinária francesa. Aliás, desde o dia em que ele fez o seu famoso ensopado de carneiro que o Guimarães percebeu que, sempre que o Maurinho chegava em casa, a Darlene dava um jeito de ir passar um batom ou uma coisa assim.
À medida que o tempo passava, a Darlene ficava mais satisfeita com a presença do Maurinho em casa e o Guimarães botava cada vez mais tromba para o amigo. Não era apenas ciúme. Era, sobretudo, uma questão de sobrevivência. Seria, por assim dizer, o macho dominante tentando manter o macho rival longe de sua fêmea, de sua comida e de se território.
Maurinho já não falava mais em procurar outro lugar para morar. E sempre que o Guimarães tocava no assunto, a Darlene botava panos quentes dizendo que não havia razão para tanta pressa, que ele era praticamente da família.
A Gigi já nem ligava mais para a Darlene para reclamar do Maurinho. De uns tempos para cá, ela preferia mesmo era falar com o Guimarães.
- Aquele calhorda!
- Um canalha, Gigi! Um canalha!
Mas chato mesmo foi quando o Guimarães chegou em casa e encontrou o Maurinho lavando as calcinhas da Darlene.
- Ô, Guima! Não tem nada demais.
- Ou ele ou eu, Darlene! Ele ou eu!
Maurinho foi morar com o Fagundes por uns tempos e dizem que a Rebeca, mulher dele, já demitiu a empregada.
Na casa de Guimarães, a vida voltou ao normal. Ele agora pode assistir ao futebol e não tem mais problemas se manchar o móvel com a cerveja ou se deixar cair um pouco de cinza no tapete.
A Darlene também voltou ao normal, embora às vezes fique suspirando pelos cantos da casa. Guimarães só não sabe dizer se os suspiros são pela vontade de comer novamente o ensopado de carneiro ou por não sentir mais o cheiro de jasmim que o Maurinho deixava em suas calcinhas.



Oi, Dimas. Tô retornando ao mundo dos blogueiros e me deparo aqui com o marido que eu nunca tive coragem sequer de pedir a Deus, de tão impossível que seria. Com o Maurinho eu casava. Com cheirinho de jasmim.
E o livro, em que pé está?
Claudinha,
O livro está parado, pois ainda não fiz a seleção das crônicas.
Também estou procurando quem publique. hehehe
Beijos e valeu pela volta.
Ah, e o Ninho da Ninha, volta quando?
Dimas
Velho Dimas,
Parabens pela volta.
Entre os personagens Maurinho e Guima, eu sou o Maurinho.
Vovô Libar
Dimas,
Li todas as crônicas. A impressão: excelente. Publicá-las seria uma hipótese que você não pode desconsiderar. Aliás, como tudo na vida, vá à luta para conseguir reuní-las nesse instituto perene chamado Livro.
Abraços
Ps- entre os blogs que você indica, um chamou minha atenção. É o “Inscritos em Pedra”. Fiquei impressionado. É poesia em estado puro. Há um Poeta novo em nossa terra, chamado Josias de Paula Jr.
Jonas,
Obrigado pelas palavras generosas. Estou selecionando um material com a intenção de publicar um livro de crônicas. Pode demorar, mas é uma questão de tempo.
Quanto a Josias, o popular Geó, ele também é cronista do Torcedor Coral. O Inscritos em Pedra estava adormecido por um tempo, mas agora volta com força total. Como comemoração pela volta, estarei presenteando o nosso poeta com um novo site, que pretendo começar a construir ainda este mês.
Aqui mesmo no Estradar, escrevi uma crônica chamada Vocação em sua homenagem. No final do texto tem um poema dele chamado “Após a capital queda” que é fantástico. Recomendo a leitura.
Abraços,
Dimas
Texto divertido, Dimas. A princípio pensei que o final apontaria na direção da canção “À nível de…”, de João Bosco e Aldir Blanc. Mas o desfecho é menos escrachado e mais sutil.
Josias,
Já que você postou aqui agora, aproveito a chance: li os seus poemas (graças ao Dimas, que me fez convite pra conhecer o Estradar). Minha esposa é testemunha: fiquei impressionado. São poemas de primeira linha. Conheço uma boa lista de Poetas Pernambucanos, os da nova geração, aqueles da geração de 65, os denominados marginais, os consagrados e etc. Desde garoto leio poemas. Tenho tanto amor pela poesia que a reputo como a mais tormentosa das artes literárias. Não intitulo Poeta qualquer um. Jamais. Você sim. Não sei se você publicou em livro. Não sei seus contatos com o mundo poético. Também não sou critíco literário. Mas siga em frente.
Saudações
Ps – Dimas, vou ler neste instante a crônica e o poema, abraços.
Jonas, muito obrigado pelas palavras. É um baita de um incentivo. Nunca publiquei, mas evidentemente tenho pretensões. Contudo, como tu bem sabes, o mercado editorial no país não é maré mansa. E para poesia…
Mais uma vez, obrigado pelas palavras.
Dimas, tinha pensado exatamente o mesmo que Geó. De toda forma acho que o Maurinho anda comendo a Darlene, a Rebeca e a Gigi também. Bom rapaz esse Maurinho.
Ah, ia esquecendo…
Bem que mammãe me dizia que ser limpo e organizado servia para algo.
Humildemente, defenderei o óbvio: Maurinho é gay, muito e absolutamente gay. E Darlene é uma Maria Cristina (mulheres que adoram gays). Simples. Guima é muito inseguro, além de não reconhecer o óbvio, claro. Na verdade, dando o toque rodriguesiano, Darlene está dando para o porteiro do prédio, Bio, que é tricolor e vive disso, mas um dia será morto com um tiro na cabeça.
kkkkkkkkkkk, e eu não enxerguei o óbvio ululante! Artur tem razão…
Enxergando o óbvio ululante perrusiano, ainda bem que nao segui os conselhor da minha santa mãezinha.
Artur, inveja mata!!!
Artur, uma dúvida:
O biu vive de ser tricolor, de ser porteiro ou de comer a darlene?
Oi Dimas, é a primeira vez que comento aqui, aliás é a minha primeira visita ao teu blog. O conheci por indicação de um grande amigo seu, Artur e confesso: Gostei muito do que li. De hoje em diante serei presença constante por aqui! Parabéns, muito bons seus escritos.
Quanto ao conteúdo da crônica muito interessante. Maurinho é o sonho de consumo de toda mulher! **RISOS**
Artur, meu caro, esse teu comentário sei não…sinto cheiro de inveja no ar. **RISOS**
Abs.
Priscila,
Seja bem-vinda. Prometo manter o blog atualizado.
Quanto ao Maurinho, sei não… Talvez ele seja do tipo que pense “mulher de amigo meu pra mim é… mulher!” e apenas tenha compulsão por limpeza. Cada doido com sua mania.
Falar em doido, acho que há um recalque de Artur nessa história de gay. Vai entender o que se passa na cabeça de um psiquiatra.
Abraços,
Dimas
Vamos lá Dimas! O Josias anda atualizando o Inscritos, com os poemas. Nós, seus leitores, estamos aqui de prontidão.
Dimas,
Obrigada pelas boas vindas.
Concordo contigo, essa história de gay está carregada de um ‘quê’ de recalque de Artur, é fato!Mas vai saber mesmo o que se passa pela cabeça do nosso DR. Perrusi, né?
Aguardo anciosa os novos escritos.
Forte abraço!
Jonas,
Estou me organizando para tentar manter o blog atualizado. A partir desta semana espero ver as coisas melhorar. Não perca as esperanças, meu amigo!
Abraços,
Dimas
Dimas,
retornando a leituras dos teus escritos me deparo com esse ótimo conto/crônica…
Muito legal, singelo, sureal e engraçado… que bom que retornas…
abraços,