No dia em que eu vim embora
- on 25 de junho de 2009, às 0:00h
- Republicação
- 8 Comentários
Pintura: Janet Karam

No dia em que eu vim-me embora – Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)
Não sou poeta. Não tenho as qualidades do amigo Josias. Mas um dia, depois de ouvir um disco antigo de Caetano Veloso, resolvi arriscar uns versos. Tinham a cara nordestina e a métrica da minha terra.
Eles foram publicados, aqui mesmo no Estradar, no dia 30 de junho de 2008. Como faz quase um ano, achei por bem trazê-los de volta. Pensei que seria uma boa maneira de passar o tempo, enquanto uma nova crônica não vem.
E ela virá – breve, breve – mesmo que Belchior teime em dizer “e não acredite nisso muito não”, com toda razão.
Dimas
No dia em que eu vim embora,
Não encontrei alegria em nada,
Senti saudade de casa,
Morri de medo aqui fora.
No dia em que eu vim embora,
Minha mãe me abraçou,
Meu pai me consolou,
E disse “meu filho, é hora”.
No dia em que eu vim embora,
Deixei tanta coisa pra trás,
Parti aflito, sem paz,
Tremi ao me ver mundo afora.
No dia em que eu vim embora,
Carregava apenas a esperança,
Saí sem dinheiro ou herança,
Levei só a dor de quem chora.
No dia em que eu vim embora,
Ir já não parecia tão certo,
Quase desisti, cheguei perto,
Que eu perguntei a Deus: “e agora?”
No dia em que eu vim embora,
Deixei discos, cadernos e livros,
Ficaram também os amigos,
Criança, rapaz e senhora.
No dia em que eu vim embora,
Muita gente na estação,
Tanto adeus, tantas mãos,
Tanta tristeza que aflora.
No dia em que eu vim embora,
Meu pai disse pra eu ser forte,
Minha mãe desejou boa sorte,
E pediu pr’eu escrever sem demora.
No dia em que eu vim embora,
Não prestei atenção na paisagem,
Encolhi e chorei na viagem,
Que nem vi beleza na aurora.
No dia em que eu vim embora,
Deixei um pedaço de mim,
Dizer adeus foi como um fim,
Pois às vezes a saudade apavora.



Parece que quase toda poesia traz uma música ou melodia com a qual é sonhada, sentida.
Eu, que me encontro às voltas com meu regresso, ao menos, em férias, mal consigo escrever ou imaginar palavras. No entanto, uma música vem à mente: “tudo outra vez” de Belchior.
Foi muito bom vir aqui hoje.
Valeu pela republicação, Dimas.
Abraço.
Magna
Dimas,
Do poema sentido e não escrito nasce o silêncio de todas as angústias. Foi bom você ter escrito e publicado esse poema, e melhor, ainda, o prazer da leitura. abraços
Dimas, saísse de uma “Bola dividida” para uma “bola dentro”! Poema com ritmo nordestino sem usar redondilha…
Valeu!
ps: Os dois excelentes comentários de Magna e Jonas deixam pouca coisa a dizer.
Belíssimas palavras. Sensibilidade pura!
Abs.
Não tive o sentimento de quem vai, mas o de quem fica. E vi, nos olhos dos amigos que partiram, exatamente esta dor. Por isso, teu poema é tão real, tão concreto, tão a cara de nossa terra… porque nossa terra, infelizmente, costuma expulsar seus filhos.
Depois que conheci o blog, graças a indicação de Artur, não consigo passar um dia sequer sem vir aqui. E sempre que leio ou re- leio um ou outro posto fico ainda mais encantada… Estou no aguardo de mais uma excelente crônica que há de vir.
Abs.
Priscila,
Reconheço a minha dificuldade em atualizar o blog, mas sigo tentando. Por enquanto, tentarei estabelecer a meta de uma crônica por semana. Ao menos isso. Depois, quem sabe, eu retome o pique de dois ou três textos semanais.
Mas não desista do Estradar. Siga por aqui.
Abraços literários,
Dimas Lins
Dimas,
Agradeço sua visita lá no meu espaço. Reconheço que tenho a mesma dificuldade que você, não costumo ser muito assídua em minhas atualizações. Sou de fases e tenho um defeito terrivel, vez ou outra tenho uns surtos e deleto tudo… devo ter alguma espécie de compulsão ou algo do tipo, não consigo ver muita coisa lá amontoada. Então, desde já previno-lhe que não se assuste caso algum dia você passe por lá e não tenha nada.
E certamente não desistirei do Estradar, gostei muito do conteúdo!
Forte abraço.