Invasão a domicílio
- on 29 de julho de 2009, às 0:00h
- Divina comédia humana
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Chico Buarque (Leonel Paiva e Julinho de Adelaide [Chico Buarque])
Ela se virou de lado e, ainda muito sonolenta, bateu no meu ombro. Disse que ouvira um barulho vindo da sala de estar e voltou a dormir. Não sei em que momento da história da humanidade convencionou-se que uma das funções do homem é checar, durante a madrugada, o barulho que inadvertidamente ecoa pelo apartamento ou mesmo no sonho de quem ainda dorme.
No início da nossa vida conjugal, ao ser acionado nessas circunstâncias, pulava da nossa cama pronto para defender o lar e proteger a mulher amada. Mas passados quase vinte anos de casamento, sem que nenhum indício de anormalidade no meio da madrugada fosse confirmado, cheguei à conclusão que eu era tão-somente vítima do sono agitado da minha mulher. Pobre de mim.
Sono interrompido pela vontade alheia, levantei da cama e segui em direção à cozinha para beber um pouco d’água. No caminho, parei ainda no quarto ao lado e olhei se as crianças dormiam bem. Todos dormiam o sono dos justos, menos eu que injustamente carregava nas costas o peso da responsabilidade dos meus ancestrais, protetores de lares e tribos. Por conta disso, a história me confiava à função milenar de guardião do apartamento 202.
Já na cozinha, abri a geladeira e enchi meio copo com água. Com a mão direita, levava o copo em direção à boca, enquanto com a esquerda roçava com as unhas o saco musculocutâneo. E foi no momento em que me encontrava com as duas mãos ocupadas que percebi um vulto saltando da área de serviço. E antes que pudesse tirar a mão de dentro do pijama e reagir, um homem apareceu na minha frente me apontando uma arma. Invoquei intimamente os meus ancestrais para que me enviassem tacapes e lanças, mas nada aconteceu. A verdade é que eu estava sozinho e indefeso contra um invasor bárbaro. Sem mesmo uma clava nas mãos, tentei usar o único recurso disponível. A boa e velha conversa fiada.
― Não se bula.
― C-como?
― Não se mexa, já disse!
― Ah! É que eu sou médico e por um instante pensei que o senhor fosse algum vendedor de remédios.
― Mmmm.
―O senhor disse alguma coisa ou foi só um gemido.
― Foi só um gemido.
― Entendo. Percebo que o senhor está um pouco agitado e com as mãos trêmulas. O senhor tem algum caso de Parkinson na família?
― Quem?
― Parkinson.
― Não conheço esse não.
― Não é quem, mas o quê. É uma doença neurológica que causa tremores, lentidão de movimentos, rigidez muscular, desequilíbrio, além de alterações na fala e na escrita.
― Tenho nada disso não, doutor. É que eu saí de casa muito cedo pra trabalhar e ainda não comi nadinha…
― Tome aqui esta maçã, que saco vazio não fica em pé – disse estendendo a mão esquerda para o meliante.
― Obrigado, doutor, mas falar em saco, eu vi onde era que o senhor estava com mão antes de pegar a maçã.
― Mmmm.
― O senhor disse alguma coisa ou foi só um gemido.
― Só um gemido.
― Entendo. Se o senhor não se incomodar, eu mesmo pego outra maçã.
― Sinta-se em casa. O senhor não quer que eu prepare um sanduíche? Tem suco na geladeira.
― Se não for muito incômodo…
― Incômodo nenhum.
― O senhor poderia lavar as mãos antes, doutor?
― Claro, claro!
― É muita gentileza sua.
― Gosto de receber bem as visitas em minha casa. Mas me conte… Há quanto tempo o senhor está nesse emprego?
― Que emprego?
― Ora, esse de visitar as pessoas em suas casas durante a madrugada.
― Isso não é emprego, não, doutor. Isso é bico. Eu era moto-boy, mas fui demitido por causa da crise econômica nos Estados Unidos. O problema foi com os gringos e eu paguei o pato, como se fosse amigão de Bush. Depois fui fazer biscates, umas coisas aqui e outras ali, mas não deu certo. Na verdade, peguei nesse serviço hoje. É que não agüentei mais ver as crianças com cara de fome. Matilde me deu a maior força.
― Quem?
― Matilde, minha patroa, doutor.
― Ah! Se o senhor quiser, posso preparar uns sanduíches pra eles também.
― O senhor é gente muito fina, doutor – disse o invasor, já enxugando as lágrimas e me agradecendo pelo obséquio.
Não agüento ver ninguém chorando, mesmo um homem que invade a minha casa durante a madrugada. Por isso, abracei-o e aproveitei o momento para tirar a arma de sua mão. Já mais calmo, perguntei-lhe como conseguira entrar no meu apartamento, “Subi pela varanda, doutor”, ele disse e acrescentou “é melhor o senhor botar grade”. Concordei.
Já com o dia clareando, ele se despediu com a promessa de que eu tentaria lhe arranjar um emprego no consultório, como moto-boy. Seria um bico até as coisas melhorarem nos Estados Unidos. Ele agradeceu e disse que Matilde precisava conhecer o doutor gente fina que lhe ajudou. Depois, apertou minha mão, pediu licença e foi em direção à porta da casa. Confiança restabelecida, indeferi.
― Pela porta, não!
Pedi que ele me desculpasse, mas teria que sair pelo mesmo lugar por onde entrou. De outra vez, quem sabe, como convidado, retornaria pela porta da frente. Ele pediu desculpas e desceu pela varanda do apartamento até sumir do meu campo de visão.
Ao voltar para a cama, minha mulher perguntou que barulho era aquele. “Não era nada”, respondi. Afinal, ela jamais acreditaria em mim. Depois fui dormir pensando o que diabos eu iria fazer com um moto-boy no meu consultório.



“…Não se bula”.
A crônica alimenta o imaginário dos leitores, porquanto da simplicidade ou aparente banalidade do assunto traçado, é que nascem as grandes verdades do cotidiano. E requer concisão. Você, leitor, que pensa ser fácil tal exercício, experimente…
Valeu, DIMAS!!
Ps – Já estava em tempo…
Deliciosamente divertida…
Jonas,
Já estava em tempo mesmo. Acho que as férias estão me fazendo bem. A crônica é despretensiosa, apenas um exercício de escrita para quem anda sem inspiração. Espero que a partir dessa surjam outras e outras. Ando com saudade de escrever temas mais tristes. Vamos ver o que acontece.
Fabiana,
Obrigado, mais uma vez pela visita.
Dimas
Dimas,
Concordo contigo, acho que as férias estão te fazendo bem mesmo… e pra quem andava sem inspiração acho que ela tá de volta, né?
Estou anciosa já pelas próximas crônicas que virão.
Bem, então só me resta desejar que as suas férias continuem lhe trazendo inspiração.
Abs.
Eis que o cronista volta com a corda toda!
Muito boa, Dimas. A sua história vem de mansinho, gerando curiosidade, vontade de ler mais. Parte da sagrada missão exclusivamente masculina de acordar no meio da noite para averiguar o ambiente, prossegue no que se pensa ser uma rotina manjada, surpreende com o ladrão e o diálogo, e termina de modo “Dimasiado”: com a auto-gozação (beleza, se livrou do assalto. Mas… o que fazer com um motoboy na clínica?).
Já espero ansiosa pela próxima. Triste ou não.
No início do diálogo me lembrou até uma velha piada sobre um assaltante nordestino.
Divertidissimo, Dimas!
Abraço.
Magna
Onde estás??? Estou convocando os tricolores a comparecerem lá em Palavraspontes. É que postei um desabafo e quero compartilhá-lo. Um desabafo escrito duas horas depois do jogo contra o CSA. Ou seja, vá preparado: o conteúdo é um pouco desalentador…
Tuas palavras foram perfeitas, lá no palavraspontes: o sentimento foi exatamente esse: a dor silenciosa de esperança assassinada. Compartilhemos este vazio de torcedor silenciado, pra ver se ele fica menor… Saudações tricolores.