Opções:

Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Febre

Imagem: Vladstudio
proteção
(Either JavaScript is not active or you are using an old version of Adobe Flash Player. Please install the newest Flash Player.)
Danza Española Nº 2 – Trio Gótico (Enric Granados)

Estive ausente por mais tempo do que pretendi. Dessa vez, não foi falta de inspiração. Minha filha esteve doente. Foram cinco dias de febre alta e de noites sem dormir. Até hoje não sabemos com exatidão o que ela teve. Sei apenas que nunca senti uma preocupação tão grande na vida.

Provavelmente exagero, afinal, sou, ou tento ser, escritor. Também sou pai e pais costumam exagerar sobre seus filhos. Mas isso não importa. O importante é que está tudo bem e estamos tranqüilos. Mesmo assim, deixo aqui o registro.

Dimas

A febre chegou ao quinto dia e, por isso mesmo, já não se vêem com freqüência as brincadeirinhas de todas as horas. Os pequenos pés da mocinha preferem não pisar o chão e seus passinhos ligeiros não caminham mais pela casa como de costume.

A bola amarela agora está encostada num canto qualquer e os gols imaginários da menininha fazem falta no campo de jogo encravado no meio da sala. Já não há quem corra atrás do agitado barquinho de corda pilotado por um pato doido que costumava cruzar a casa à toda velocidade. Ana Cecília, a boneca preferida, sente saudade dos abraços carinhosos que ganhava no colo da pequena dona.

Dóris, a centopéia de pano, sempre tão macia, reclama em vão que deixou de ser o consolo preferido do bebê na hora de tirar a soneca da tarde. Os guizos do sapinho Wallen, nome estranho dado pela babá, estão em silêncio à espera de alguém que possa sacudi-los de um lado ao outro. O cachorrinho dançante já não quer dançar e os livros infantis agora estão encostados na estante.

Os sorrisos são incompatíveis com a febre e desaparecem quando a temperatura do seu corpo miúdo aponta para o alto. A menininha, tão comilona, já não quer comer. E  agora ela se apavora ao ter em seu campo de visão qualquer um que vista um jaleco branco. Foram exames, agulhas, torturas. Ficaram pequenos traumas.

Os dias são silenciosos e é durante a noite que o cansaço bate mais forte. Seu sono é inconstante e nessa inconstância a febre vai e vem. Ela já não se aninha mais no berço, como é o seu costume, e o colo agora é único leito que a conforta. Os cuidados redobram e os olhos da noite se voltam para o bebê.

Na casa que ninguém dorme, pai e mãe se revezam em medir a temperatura do neném. Trinta e oito, trinta e nove, quarenta. Seu queixo bate e, olhos cerrados, ela fala como se delirasse. Os medicamentos intercalados de quatro em quatro horas não dão conta de baixar a febre. Compressas de água fria, de instante em instante, repousam sobre suas articulações e tentam cumprir o que os remédios não foram capazes de fazer. E assim vai a noite se movimentando como o dia.

Digo para mim mesmo e repito sem muita convicção que é só uma febre e vai passar logo. Depois penso que minha mãe tinha razão: a preocupação com os filhos supera qualquer outra preocupação. Também não há amor maior. Ele nasce bem antes que uns e outro, pais e filho, se conheçam. É certamente o único amor em que depositamos a certeza que durará por toda a vida. E só um amor assim nos faz querer trocar de lugar com quem sofre.

A noite é longa e chove lá fora com chuvas no meu coração. O cansaço está comigo, mas já não o sinto. Não consigo relaxar. Quando o dia vem e finalmente ouço sua voz me chamar de papai, a alegria da alma vem, mas logo cede lugar à fadiga do corpo.

A febre por hora se foi e é aí que o sono bate. Enquanto a avó brinca com ela na sala, os pais dormem. É preciso reparar as forças, pois nunca se sabe quando a febre voltará.

4 Comentários para “Febre”

  1. Gravatar

    Dimas, anote bem: não há de ser nada. Apenas um susto. Sua garotinha vai lhe dar tantas alegrias, que olharemos pra você e veremos uma Coruja. Opa, um Pai Coruja por inteiro. “Fé em Deus e Fé na vida, e Fé no que virá”. Pode ser piegas, mas é o o que sinto e é sincero, e isso basta.
    Abraços

  2. Gravatar

    Jonas,

    Obrigado pelas palavras. Minha filha agora está bem, mas o susto foi grande. E me pergunto depois disso para que servem os pais, senão para morrer de dores e amores pelos filhos.

    Abraços,

    Dimas

  3. Gravatar

    Dimas,

    É vero. Como pai e avô, entendo cada letra do seu susto e até da agonia que é. A gente prefere que seja conosco, mas nunca com nossos filhos.

    Merecemos lembrar Vinicius de Moraes:

    Filhos…Filhos?
    Melhor não tê-los!
    Mas se não os temos
    Como sabê-lo?
    Se não os temos
    Que de consulta
    Quanto silêncio
    Como o queremos!
    Banho de mar
    Diz que é um porrete…
    Cônjuge voa
    Transpõe o espaço
    Engole água
    Fica salgada
    Se iodifica
    Depois, que boa
    Que morenaço
    Que a esposa fica!
    Resultado: filho.
    E então começa
    A aporrinhação:
    Cocô está branco
    Cocô está preto
    Bebe amoníaco
    Comeu botão.
    Filho? Filhos
    Melhor não tê-los
    Noites de insônia
    Cãs prematuras
    Prantos convulsos
    Meu Deus, salvai-o!
    Filhos são o demo
    Melhor não tê-los…
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?
    Como saber
    Que macieza
    Nos seus cabelos
    Que cheiro morno
    Na sua carne
    Que gosto doce
    Na sua boca!
    Chupam gilete
    Bebem xampu
    Ateiam fogo
    No quarteirão
    Porém, que coisa
    Que coisa louca
    Que coisa linda
    Que os filhos são!

  4. Gravatar

    Dimas,

    Fico feliz de saber que agora está tudo bem. Imagino a agonia de vocês…
    Sorte, saúde e paz a todos daí. Beijão.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!