Febre
- on 29 de agosto de 2009, às 13:28h
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Imagem: Vladstudio

Danza Española Nº 2 – Trio Gótico (Enric Granados)
Estive ausente por mais tempo do que pretendi. Dessa vez, não foi falta de inspiração. Minha filha esteve doente. Foram cinco dias de febre alta e de noites sem dormir. Até hoje não sabemos com exatidão o que ela teve. Sei apenas que nunca senti uma preocupação tão grande na vida.
Provavelmente exagero, afinal, sou, ou tento ser, escritor. Também sou pai e pais costumam exagerar sobre seus filhos. Mas isso não importa. O importante é que está tudo bem e estamos tranqüilos. Mesmo assim, deixo aqui o registro.
Dimas
A febre chegou ao quinto dia e, por isso mesmo, já não se vêem com freqüência as brincadeirinhas de todas as horas. Os pequenos pés da mocinha preferem não pisar o chão e seus passinhos ligeiros não caminham mais pela casa como de costume.
A bola amarela agora está encostada num canto qualquer e os gols imaginários da menininha fazem falta no campo de jogo encravado no meio da sala. Já não há quem corra atrás do agitado barquinho de corda pilotado por um pato doido que costumava cruzar a casa à toda velocidade. Ana Cecília, a boneca preferida, sente saudade dos abraços carinhosos que ganhava no colo da pequena dona.
Dóris, a centopéia de pano, sempre tão macia, reclama em vão que deixou de ser o consolo preferido do bebê na hora de tirar a soneca da tarde. Os guizos do sapinho Wallen, nome estranho dado pela babá, estão em silêncio à espera de alguém que possa sacudi-los de um lado ao outro. O cachorrinho dançante já não quer dançar e os livros infantis agora estão encostados na estante.
Os sorrisos são incompatíveis com a febre e desaparecem quando a temperatura do seu corpo miúdo aponta para o alto. A menininha, tão comilona, já não quer comer. E agora ela se apavora ao ter em seu campo de visão qualquer um que vista um jaleco branco. Foram exames, agulhas, torturas. Ficaram pequenos traumas.
Os dias são silenciosos e é durante a noite que o cansaço bate mais forte. Seu sono é inconstante e nessa inconstância a febre vai e vem. Ela já não se aninha mais no berço, como é o seu costume, e o colo agora é único leito que a conforta. Os cuidados redobram e os olhos da noite se voltam para o bebê.
Na casa que ninguém dorme, pai e mãe se revezam em medir a temperatura do neném. Trinta e oito, trinta e nove, quarenta. Seu queixo bate e, olhos cerrados, ela fala como se delirasse. Os medicamentos intercalados de quatro em quatro horas não dão conta de baixar a febre. Compressas de água fria, de instante em instante, repousam sobre suas articulações e tentam cumprir o que os remédios não foram capazes de fazer. E assim vai a noite se movimentando como o dia.
Digo para mim mesmo e repito sem muita convicção que é só uma febre e vai passar logo. Depois penso que minha mãe tinha razão: a preocupação com os filhos supera qualquer outra preocupação. Também não há amor maior. Ele nasce bem antes que uns e outro, pais e filho, se conheçam. É certamente o único amor em que depositamos a certeza que durará por toda a vida. E só um amor assim nos faz querer trocar de lugar com quem sofre.
A noite é longa e chove lá fora com chuvas no meu coração. O cansaço está comigo, mas já não o sinto. Não consigo relaxar. Quando o dia vem e finalmente ouço sua voz me chamar de papai, a alegria da alma vem, mas logo cede lugar à fadiga do corpo.
A febre por hora se foi e é aí que o sono bate. Enquanto a avó brinca com ela na sala, os pais dormem. É preciso reparar as forças, pois nunca se sabe quando a febre voltará.



Dimas, anote bem: não há de ser nada. Apenas um susto. Sua garotinha vai lhe dar tantas alegrias, que olharemos pra você e veremos uma Coruja. Opa, um Pai Coruja por inteiro. “Fé em Deus e Fé na vida, e Fé no que virá”. Pode ser piegas, mas é o o que sinto e é sincero, e isso basta.
Abraços
Jonas,
Obrigado pelas palavras. Minha filha agora está bem, mas o susto foi grande. E me pergunto depois disso para que servem os pais, senão para morrer de dores e amores pelos filhos.
Abraços,
Dimas
Dimas,
É vero. Como pai e avô, entendo cada letra do seu susto e até da agonia que é. A gente prefere que seja conosco, mas nunca com nossos filhos.
Merecemos lembrar Vinicius de Moraes:
Filhos…Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como o queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filho? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
Dimas,
Fico feliz de saber que agora está tudo bem. Imagino a agonia de vocês…
Sorte, saúde e paz a todos daí. Beijão.