Morcegos
- on 7 de setembro de 2009, às 15:46h
- Divina comédia humana
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Doce Vampiro (Rita Lee)
Depois das doze badaladas noturnas todo gato é pardo e todo morcego é passarinho. Por isso, gosto da noite. Entretanto, mesmo sendo um caçador nato, como todo homem é, nada é tão fácil quanto parece. Como não tenho a cara do Reynaldo Gianecchini, meus cálculos estatísticos apontam que é preciso investir, a cada noitada, entre dez e quinze mulheres para me dar bem. É que, mesmo não sendo um perfeito modelo de estética, sou exigente quanto ao padrão feminino. Mesmo assim, tanto faz se ela é loira, morena ou negra. O mais importante é que ela seja absolutamente linda, atraente e sensual. Pelo meu nível de exigência – pois quero receber mais do sou capaz de oferecer – nem sempre sou bem-sucedido. Na maioria das vezes, não. E quando nada dá certo, deixo que umas boas doses de uísques façam o efeito desejado. Com elas na corrente sanguínea, toda mulher fica mais bonita. É uma questão de horas. Vinicius tinha razão. O uísque é o melhor amigo do homem. O uísque é o cão engarrafado.
Filosofia de bolso para os sábados à noite à parte, saio para mais uma caçada. Vou a boates ou bares de paquera, tanto faz. O aspecto mais valioso de uma caçada é que o local tenha um dancing ou alguma perspectiva de contato físico, mesmo que seja casual, como esbarrar em alguém na saída do banheiro e deixar que ela, sem querer – mas com você querendo – derrame um pouco da bebida sobre seu corpo. Se você tiver a habilidade necessária, não deixará que nada caia em sua camisa, afinal, a estatística da caça certamente o forçará a procurar outros alvos.
― Desculpe, foi sem querer. Deixa que eu limpo.
― Na minha casa ou na sua?
― Como?!
― Você quer me limpar na minha casa ou na sua?
― Cretino!
Volto ao meu assento no balcão do bar e ligo novamente o meu radar. As mulheres, percebo, estão sempre numa situação mais confortável que os homens, pois, como são o predicado da ação do verbo caçar, nesse jogo, têm a prerrogativa de decidir quem levará para passar consigo o resto da noite. No fim das contas, elas são as caçadoras e nós, a caça.
Olhos atentos, vejo que ao longe uma mulher deslumbrante me observa. Seus cabelos negros, sua pele branca, sua boca carnuda, seus seios fartos e suas pernas grossas não deixam dúvidas que estou diante de uma deusa. Uma deusa do amor. Está bem, está bem! Reconheço que não há nada mais piegas do que chamar uma mulher deslumbrante de deusa do amor, mas a pieguice é um defeito de todo bom caçador.
Ela não tira os olhos de mim e eu a mantenho sob o meu olhar. Não é um olhar qualquer. São olhos devoradores de um carneiro reprodutor. Ela está só e eu, enfim, decido me aproximar. Giro o meu corpo para apanhar minha bebida no balcão do bar, mas quando volto novamente em sua direção, percebo que ela já não está mais lá. Para a minha surpresa, ela está agora diante de mim, a dois palmos das palmas das minhas mãos.
Enquanto ela sorri e me diz um olá, eu a examino dos pés a cabeça. Curvas exuberantes, olhos de fogo e um corpo escultural. A mulher perfeita. Ela, pelo visto, não se importa que eu a coma com os olhos. É uma mulher que sabe o que quer. Em sua mão esquerda uma taça de vinho; na minha mão direita, o de sempre, o cão engarrafado.
Não disse nada. Não conseguia. Não é incomum, diante de uma mulher assim, que eu fique sem fala, perca as palavras. Ela, ao contrário, sentia-se absolutamente à vontade e perguntou sobre mim, sobre minha vida. Contei tudo em detalhes, coisa que nunca faço. Sinal de que estava me apaixonando, mesmo sabendo que um caçador não deve se apaixonar por sua presa. Sou um homem volúvel, o que posso fazer? Falei do meu trabalho, da minha dedicação e que dava meu sangue pela empresa. Ela demonstrou particular interesse por essa passagem e mordeu os lábios com sensualidade.
Também perguntei sobre ela. Era dona, segundo suas palavras, de um banco de sangue. Falou com paixão sobre a produção do sangue na medula óssea e também sobre os leucócitos, glóbulos brancos e vermelhos e hemácias. Explicou com fascínio seu interesse pelas plaquetas, por causa da função na formação dos coágulos. Não gostava do dia, do sol, da claridade. Sentia-se mais à vontade com a lua, com a noite escura, com os gatos pardos. Eu ouvia tudo atentamente, mas só pensava em sexo. Sexo primitivo, selvagem, animal.
Percebi que encontrara a mulher dos meus sonhos e que, com ela, minha vida seria eterna, ao menos enquanto durasse. Eu jovem, viril, intempestivo, aventureiro. Ela, madura, dona de si, inteligente e linda de matar. Eu sem trato nas palavras; ela com respostas para tudo. Perguntei quando ela amou pela última vez. “Faz séculos”, respondeu ao se referir a um tal de Vladimir, um conde de Budapeste. Inadvertidamente – talvez por instinto – perguntei a sua idade.
― Mil, trezentos e vinte e dois anos – disse, impassível.
― Já namorei mulheres mais velhas, mas nunca desse tanto – respondi com intrigante surpresa.
Ela perguntou se havia algum problema em nossa diferença de idade, afinal, eu só tinha vinte e oito anos.
Não havia nenhum. Um homem apaixonado não tem preconceitos. Ela se aproximou de mim e beijou minha nuca. Depois voltou sua boca para o meu pescoço e disse baixinho em meu ouvido:
― Vou te morder todinho.
Dorso arrepiado, mas com a resposta na ponta da língua, emendei: “na minha casa ou na sua?”.



Grande Dimas.
Há quem não acredite em vampiros.
Mas que eles existem, existem…
Abraços
Dimas,
Andei um tanto quanto ausente daqui, mas tô de volta. Gostei de ver que vc também está de volta.
Abs.
Lembrei da propaganda da Saveiro da Fiat. O cara é assaltado por formigas e socorrido por três mulheres estonteantes. O amigo só duvida da história porque as mulheres estavam numa Saveiro cabine dupla…
Vampira ou traveca???
Humor negro do bom.
Mas a dúvida de Ana Cláudia é procedente.