Entre a poesia e a prosa
- on 4 de outubro de 2009, às 0:00h
- Tiquinho de nós
- 20 Comentários
Pintura: Brigitte Bardot

Brigitte Bardot (Zeca Baleiro)
“A saudade é Brigitte Bardot acenando com a mão num filme muito antigo”
Zeca Baleiro
Rosinha riu a valer com a ansiedade do mocinho da história. O riso frouxo diante da TV expôs seus dentes postiços e forçou-me a reparar nas mudanças provocadas pelo tempo. A pele viva e macia enrugara e os cabelos negros tornaram-se todos brancos. Seus seios há tempos não eram mais firmes e um par de meias de compressão escondia as inúmeras varizes e cobria as pernas que um dia já foram belas.
Tão logo o herói tomou a mocinha em seus braços, Rosinha, com um leve sorriso, voltou-se em minha direção e disse que eu também já beijei assim. Depois, tornou a olhar novamente para a TV.
O beijo do mocinho e as palavras de Rosinha me lembraram de um tempo que a gente não esquece, quando já se é velho. Perdido nalgum canto do pensamento, distanciei-me de tudo, como se alguém me desligasse ao apertar um simples botão. Eu pensava na juventude deixada para trás com uma ponta de tristeza. Reconhecia que percorrera muito chão e que agora caminhava para a morte e me afastava cada vez mais do vigor da vida. Em meus pensamentos, passeava entre sentimentos, como a falta e a saudade, tentando entender a diferença sutil entre uma e outra coisa.
A falta – perambulava no vão da mente – é o tempo que já não existe, enquanto a saudade é o sentimento melancólico de incompletude, porquanto já não é possível viver num tempo que já passou.
Balançava-me na cadeira e também entre uma e outra filosofia menos significante, quando o herói se ajoelhou aos pés da sua amada. Rosinha projetou então seu corpo para frente, cheia de expectativa, pressentindo o que viria a seguir.
A falta – continuei, ignorando o amor do herói – é a ausência, já a saudade é o vazio. Um é a despedida, o outro é a solidão de quem fica. A falta é a morte, enquanto a saudade é o fim de quem vive.
Rosinha chorou quando o herói pediu a mão da mocinha em casamento. Chorou, como se dentro da história vivesse e como se todo aquele amor pudesse saltar da ficção para conviver entre nós no mundo real. Meus olhos pesavam e nessa insustentável leveza, mergulhei ainda mais em loucos pensamentos.
Concluí que a falta é o prato incontido, enquanto a saudade é a fome incontida. Um é concreto e o outro, abstrato. De um lado, a causa, na outra ponta, a conseqüência. A falta é a origem de tudo, mas no fim, é a saudade que dói.
Eu segurei a mão de Rosinha e enxuguei suas lágrimas. Ela apoiou suas mãos em meu braço e recostou sua cabeça em meu ombro. Depois disso, adormeci.
Acordei mais tarde com o seu chamado. Ela me trouxe um chá de camomila e disse que ele acalmaria as minhas tormentas, como se fosse capaz de ler os meus pensamentos. Tomei o chá em longos goles e repousei a xícara sobre a mesinha de canto. Depois, segui Rosinha até o quarto.
Já deitado, pensei na falta como a prosa e na saudade como a poesia. Rosinha me deu um beijo na testa e disse um “boa noite, meu velho!”.
Já não sentia mais falta nem saudade. Apenas o calor do corpo da mulher que jurei amar por toda a minha vida. E assim, ao seu lado, como em todas as noites, dormi em paz.



Lírico!
Belíssimo, Dimas!
Parabéns.
Que bonito, Dimas! Lindo mesmo.
Entre a falta e a saudade, resta mesmo é a vida. Porque falta é prosa e saudade, poesia.
Abraço.
Magna
Magna,
Pura coincidência. Tinha acabado de comentar no teu blog, quando vi que você comentou por aqui. Sintonia é assim, como um leitura em voz baixinha, de menor intensidade que um susurro.
Esta crônica foi inspirada, por incrível que possa parecer, num artigo sobre futebol do amigo Paulinho, autor do primeiro comentário.
Obrigado pela visita.
Dimas
Dimas,
Agradeço a visita ao intervalo mental. Fiquei feliz ao abri-lo e ver um comentário seu. Quanto ao novo post, faço minhas as palavras dos comentadores anteriores a mim…
Abs.
Fui em busca do artigo do Paulo e me deparo com fotos antigas, jornais antigos, realmente inspirador.
Fiquei, na verdade, me perguntando, sobre o porquê dos tricolores escreverem tão bem. Taí um bom tema para uma crônica, Dimas. Eu, que não tenho cor alguma, mas uma simpatia imensa por essa combinação de cores do Santinha, vou no rastro das letras que saem das mãos tricolores e sempre é um grande prazer. Minha lista de escritores tricolores tem crescido: você, Samarone, Fabiana Coelho, Josias(que anda precisando atualizar o blog), Ana Cláudia, Naire. Misericórdia! E minha simpatia aumentando.
Abraços.
Magna
A falta alimenta. É cheia. Guarda expectativas: como a gente esperando a próxima postagem de nossos blogueiros preferidos (vc entre eles). A saudade é, como vc bem disse, a fome, a barriga vazia. Xêro grande pra vc. E, valeu Magna, pelo comentário sobre os escribas tricolores.
Dimas,
primeiramente obrigado pelo comentário e o incentivo para que volte a escrever e públicar no blog, não vou desistir, mas estou dando um tempo, pois estou com muitos compromissos, inclusive de leituras, pois estou estudando para tentar entrar no mestrado.
Bem, quanto ao esse belíssimo texto só tenho a lhe dizer que parabéns e que vc deveria públicar um livro de contos e crônicas, tem textos maravilhosos teus aqui, poderias até pedir que os teus leitores escolhessem/sugerissem/selecionassem alguns e você ai decidiria.
Sei da dificuldade de ter uma editora para públicar, mas talvez Sama pudesse te ajudar, quem sabe te apresentando alguns editores para que envies um livro para analise.
Abraços,
… Saudade às vezes é como um poço sem fundo, não acaba nunca !!!!
Muito bonito o texto “Dimas”, parabéns mais uma vez e saiba que vc é uma pessoa maravilhosa !!!!!
Abraços !!!!
Velho Dimas,
Você tá escrevendo quase tão-bem quanto seu sogro.
Parabéns pela proximidade.
Vovô Libar.
Velho Dimas,
A escolha da música Brigitte Bardot, de Zeca, foi uma escolha
feliz e apropriada.
Parabéns de novo.
Vovô LiBaR.
Dimas, UM GOLAÇO ESSA CRÔNICA!
GOL DE PLACA! A LA RAMON, FACÓ, NUNES.
Abraços
Ps – Por onde anda o Poeta Josias?
Enquanto curtimos a saudade dos versos de Geó, estamos em boa companhia com sua prosa/poesia.
Êpa! cheguei atrasado e tudo já foi dito a respeito dessa bela crônica.
Direi apenas que está na minha lista de favoritas para um possível/provável livro……
Dimas,
Andei mexendo nas configurações lá do blog, espero que tenha consigo dar um jeito lá e você não mais tenha dificuldades em comentar.
Abraços
* onde está escrito consigo, lê-se conseguido.
Magna,
A razão de tantos tricolores escreverem bem talvez esteja na purificação da alma. Afinal, dizem que o sofrimento purifica.
Sirley,
A idéia de publicar um livro já foi tomada. A questão é só fazer a coletânea. Aliás, ótima a idéia de contar com a colaboração dos leitores para a seleção dos textos. Quem se habilita?
Amigo Libar,
Ainda não consegui escrever como você, mas sigo tentando. Quem sabe um dia eu não chego lá?
Amigo Jonas,
Troco meus textos por jogadores como esse que você descreveu de novo no meu Santinha. Quanto a Josias de Paula Jr., esse é um safado. Mas ele vai voltar às boas com o Inscritos, porque vou criar um blog para ele. A condição é ele voltar a versejar. Muito justo.
Ducaldo,
Desde já você está convocado a dar uma mãozinha na seleção das crônicas para publicação.
Priscila,
Cheguei hoje de viagem, mas vou no seu blog testar a nova configuração. Vamos que vamos.
Abraços literários,
Dimas Lins
Dimas, conte comigo! Se for pra ajudá-lo a selecionar seus belos textos, conte sempre comigo!
Avante!!
Golpe baixo. Você sabe que eu gosto de cavoucar os arquivos de tudo que é blog….
Tô nessa. A primeira já está escolhida….
Jonas e Ducaldo,
Então está combinado. Mãos à obra. A seleção das crônicas será o primeiro passo para a publicação do livro.
Abraços,
Dimas Lins
Dimas, vamos lá. Com muita honra.
Vou começar e passo pelo e-mail.
Abraços.
Rapaz, bem que disseste que eu ia gostar… Essa bateu na veia. Me veio uma vontade grande de dialogar com esse texto lá no Inscritos… Oxalá eu consiga. Afinal, “chega de saudade”, mas nunca se basta de poesia.
Essa tem de estar na antolgia.