Céu de Brigadeiro
- on 18 de outubro de 2009, às 9:06h
- Tiquinho de nós
- 8 Comentários
Airplane: Pop Art Machine

Medo de Avião II (Belchior)
Costumo, por esses azares do destino, viajar de avião ao lado de homens que possuem o dobro da minha massa corpórea. Assim, sempre que piso em terra firme, tenho a sensação que durante a viagem fui atropelado, indo e voltando, por um pneu de um Boeing 747.
Daí a minha surpresa quando uma mulher magra, alta e muito bonita sentou-se ao meu lado. Tentei demonstrar naturalidade, mas não pude evitar que me escapasse um “oba!” boca afora no mesmo momento em que cerrei os punhos, como se comemorasse um gol do meu time. A minha admiração, esclareço antes surjam versões inoportunas, veio mais pela perspectiva de conforto e menos pela belíssima companheira de viagem, embora não desprezasse o prazer de uma boa companhia. Mesmo assim, o som baixinho da minha voz – não duvido – pode ter sugerido outra coisa à festejada passageira e mudado a história da viagem.
Ela me pediu licença com um sorriso acolhedor e tomou assento na poltrona do meio. Apesar dos seus sinais exteriores de simpatia, eu permaneci calado. Cuidei apenas de lhe dar passagem, devolvendo o mesmo sorriso amável. Não queria mudar a sorte de ter ao meu lado alguém que cabia perfeitamente em sua cadeira, por uma simples troca de palavras vagas dentro de um avião. Por isso, foi ela quem primeiro puxou conversa, enquanto eu iniciava a leitura da minha revista de atualidades e a tripulação demonstrava os procedimentos de emergência.
― IstoÉ? – perguntou ela, apontando para a minha revista.
― É, mas pode deixar de ser – respondi, surpreso com o meu próprio desembaraço.
Ela sorriu demonstrando alguma timidez para em seguida me perguntar o que eu estava lendo.
― Economia, mas prefiro política.
― Política?
― É. Política da boa vizinhança, principalmente em aviões.
O timing estava perfeito. Ela sorriu novamente de um jeito tímido que durou até o comandante solicitar que a tripulação se preparasse para a decolagem. Ela então se ajeitou na cadeira e checou se o seu cinto estava bem afivelado.
Quando o avião iniciou os procedimentos de decolagem, ela apertou a minha mão com força e jogou seu corpo para trás, como se tivéssemos acabado de decolar numa espaçonave e não num vôo comercial. Quando o avião atingiu a altitude de cruzeiro, ela, um pouco mais relaxada, confessou que sentia calafrios nos momentos de subida e de descida, já que, comprovadamente, há um maior número de acidentes aéreos nessas ocasiões. Em seguida, perguntou se eu não tinha medo de uma queda. Respondi que meu time já havia sido rebaixado tantas vezes, que eu perdi o medo de cair. Ela sorriu novamente e voltou a ficar descontraída.
A viagem prosseguiu e eu não pude deixar de notar que ela só largou a minha mão quando teve início o serviço de bordo. Depois, com delicadeza, ela passou um guardanapo no canto direito da minha boca a pretexto de uma boa higiene, o que serviu para aumentar a minha libido.
― Você tem dedos longos, como os pianistas. Por acaso toca piano?
― Não. Prefiro as curvas de um violão – disse, olhando discretamente para o seu quadril.
Ela deixou a aparente timidez de lado e, a certa altura da conversa, me convidou para sair.
― Não há muito que fazer do lado de fora do avião a esta altitude – respondi, me arriscando a perder a mulher para não perder a piada.
― Não, mas há o que fazer do lado de dentro – retorquiu, levantando-se do assento.
Ela avançou alguns passos e olhou uma vez para trás, antes de seguir em direção ao banheiro.
Sempre tive a fantasia de uma aventura a onze mil metros do chão, mesmo assim, tentei não chamar atenção. Levantei discretamente e também segui em direção ao banheiro. Finalmente, deixava as turbulências para trás, para viajar em céu de Brigadeiro.
Ou
Sempre tive a fantasia de uma aventura a onze mil metros do chão, por isso, saltei da cadeira o mais rápido que pude. Porém, antes que eu ficasse completamente de pé, senti uma forte pancada na cabeça. Ao abrir os olhos, me dei conta que havia atingido um homem com o dobro do meu corpo, que tentava guardar sua mala no compartimento de bagagem.
Já refeito, notei que eu havia caído no sono antes mesmo do avião decolar e tudo não passara de um sonho. A mulher magra, alta e muito bonita dera lugar a um homem que ocupava parte do meu assento, tornando o braço da minha poltrona uma extensão da sua. Começava, como de costume, outra viagem turbulenta.
Para alguns passageiros, céus de Brigadeiro existem apenas nos sonhos.



Enquanto estamos em tempos de vacas magras para inspiração, vem você esbanjando criatividade. Pois bem, ambos são ótimos. O primeiro final, digamos, ocorreu naturalmente pelo próprio movimento da história. O segundo, inusitado e seguramente mais divertido.
Ficou muito legal, Dimas.
Abraço.
Magna
Obs.:respondi seu comentário no Sementeiras. Vou tentar responder aos comentários também por lá, seguindo seu exemplo e de outros amigos.
Confesso que, com o azar do personagem nas viagens, pensei num desfecho sinistro.
Porém, a história tomou um rumo completamente diferente.
Põe essa na seleção das melhores.
PS: mandei a lista por email.
Dimas, te mando a lista essa semana!
“Céu de Brigadeiro” é forte candidata.
A história deu um voleio e mudou o prumo.
Muito bom.
É a sutileza desse Instittuto chamado Crônica: captar num só instante, a verdadeira essência das experiências cotidianas.
Eita “Dimas” …
Se não temos mais medo de cair, o que pode agora nos procupar é o medo de não subir !!!!
Muito bom o texto, uma pena seu sonho erótico ter sido apenas um sonho, ainda bem que o ‘brutamontes’ não ofereceu o ombro pra você meu caro !!!!
(rsrsrs)
Abraços e parabéns por mais uma crônica das boas !!!!
Uma espécie de crônica self-service. Ao leitor a oportunidade de escolher o seu final. Quanto à psicologia da composição, ocorreu-me uma explicação de ordem biográfica – e até mesmo frascária – para a opção onírica do segundo final: Lena chegou junto ao computador na horinha em que escrevias e te animavas em altos voos…
Geó, você pegou pesado.
Chamar Dimas de “frascário” é sacanagem (eheheheh).
Caro Poeta,
Nem frascário, nem frescário, sou mesmo é tricolor. E tricolor, como se sabe, não tem essas frescuras.
Em todo o caso, a explicação sugerida por você dá um belo tema para uma crônica. Vou pensar no assunto. Mais para a frente teremos novidades.
Dimas
Lembrei de uma história real.
Um amigo vinha da França para São Paulo. Ao seu lado, uma mulher belíssima, que mais tarde ele descobriu ser húngara. Pois bem. Mal o avião decolou, a loiraça pegou no sono acomodou a cabeça no ombro de meu amigo. DEve ter tido algum pesadelo, porque em menos de uma hora acordou aos gritos (já pensou, uma louca gesticulando e gritando em húngaro?). Depois dessa, ele mudou de lugar. Ficou com medo de ser fichado como “o tarado da húngara”.
Agora vou lembrar a ele que podia ser pior. Podia ser um homem com o dobro do tamanho dele dormindo com a cabeça encostada em seu ombro e acordando de um pesadelo aos berros…
De cá, prossigo na insônia aproveitando seu humor. Valeu.