Opções:

Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Muito além do livro 2

Imagem: Vladstudio
literatura
(Either JavaScript is not active or you are using an old version of Adobe Flash Player. Please install the newest Flash Player.)
Um filho e um cachorro (Zeca Baleiro)

Nota do autor:

Sugiro aos leitores, para que se situem no contexto desta trama, que leiam a crônica Muito além do livro. Ela é elucidativa para ação dos personagens, que teimam em afirmar que é a arte que imita a vida e não o contrário.

“Antônio Rodolfo desceu as escadas e encontrou Rosemary Shirley na cozinha preparando o café da manhã. O sol atravessava a janela e penetrava no interior da casa com vontade. Lá fora, o dia estava lindo. Cá dentro, as paredes claras e os cômodos arejados davam uma sensação de bem-estar. Ele chegou de mansinho e a beijou na nuca. Ela flexionou suavemente o pescoço para frente e revirou os olhos. Depois, voltou-se em direção ao marido e concedeu-lhe um beijo na boca.

Assim que os dois foram à mesa, Valdecir, o filho de quinze anos, se juntou ao casal. Sempre sorridente, o menino falou apaixonadamente da aula de biologia que teria pela frente para, em seguida, convidar os pais a plantar uma árvore no jardim, tão logo ele retornasse da escola.

Ainda às voltas com o café da manhã, Rosemary Shirley, esposa amantíssima e dedicada, passou margarina no pão e, com amor, levou-o à boca de Antônio Rodolfo. Uma parte do alimento caiu no chão, mas foi logo devorado por Athos, o Rottweiler de estimação da família. “Todos acharam graça das peripécias do cachorro e assim teve início mais um dia feliz.”

₀₀₀

Tão logo digitei o ponto final, espreguicei os braços para cima e para trás em sinal de cansaço. Já era bem tarde, pois costumo escrever apenas durante a noite, onde tudo é bem mais quieto. Salva-se a inspiração, sofre o bolso com a conta de energia. É a prevalência do silêncio sobre a luz elétrica. Da literatura sobre a economia doméstica.

Ao girar a cadeira na intenção de me levantar, dei de cara com um homem barrando a passagem da porta. Saltei para trás e empunhei o notebook, tal qual um cavaleiro na idade média seguraria o seu escudo. Cheguei até a janela e pensei em pular, mas desisti, porque certamente não sobreviveria de uma queda do décimo nono andar. “Preciso trocar meu apartamento por uma casa”, pensei. Não havendo outra saída, voltei na direção do invasor e tentei negociar a minha rendição. Foi aí que a cena me pareceu familiar, como um déjà-vu.

― Espere! – disse – Mas você não é o Antônio Rodolfo?

― Finalmente o criador reconhece a sua criatura.

― Pois fique sabendo que eu quase borrei as calças por sua causa.

Ele ficou em silêncio e eu desconfiei que algo estranho – além da própria metafísica envolvida na questão, que consistia na abstração de conversar, em plena madrugada, com um de meus personagens – acontecia.

― Mas, afinal, o que você faz aqui?! – perguntei, intrigado.

Antônio Rodolfo saiu da penumbra e notei que havia em sua mão direita uma adaga, como da outra vez. Meu personagem tornava a me ameaçar com um instrumento pontiagudo e perfurante. Como autor, estava confuso. Também não sabia onde Antônio Rodolfo, que estava preso à minha estória, escondia tantas armas brancas.

― Tenho lido o que você anda escrevendo ultimamente – disse o visitante.

― E?

― Não tem sido do meu agrado.

― Mas eu não fiz tudo o que você me pediu, homem de Deus?!

― De certa forma, fez.

Não entendi o sentido de sua resposta, já que eu havia mudado toda a estória apenas para satisfazê-lo. Assim, já não fazia parte do destino de sua mulher ter um amante, nem de Antônio Rodolfo matá-la a golpes de punhal.

― Mas tornei vocês felizes, como um casal num comercial de margarina!

― Acontece que ninguém vive num comercial de margarina.

Meu personagem me explicou que sua vida não era o que ele esperava com as mudanças que eu fiz. Reclamou, por exemplo, dos nomes que escolhera para a sua família. Disse ele que Antônio Rodolfo era nome de personagem de novela mexicana e que Rosemary Shirley parecia coisa de Drag Queen. Não era à toa que toda a vizinhança pensava que eles eram gays e que sua esposa tinha feito uma cirurgia de mudança de sexo. Além do mais, seu filho estava freqüentando um psicólogo, já que todos caçoavam dele na escola, pois Valdecir era nome de mulher.

― Até o cachorro tem um nome mais bacana que o meu! – protestou.

Reconheci que não era meu forte escolher nomes para os meus personagens, mas tentei minimizar a questão.

Ele também insistiu para que eu acabasse com essa história de Valdecir ficar só pensando em plantar árvores, que isso pegava mal, já que todos os garotos de sua idade estavam mesmo era pensando em namorar. Achei preconceituosa a sua observação, mas decidi não contestar. No fundo, acreditava que ele iria gostar de ter um filho envolvido em toda essa onda verde.

Pelo que pude notar, o casamento também não ia bem. Antônio Rodolfo disse que agora sua mulher o odeia, pois, por minha causa, ela passava o dia cuidando da casa, lavando e cozinhando, como se fosse uma escrava.

Por fim, ele ainda reclamou do Rottweiler, afinal, onde já se viu criar um animal daquele tamanho como cão de estimação? “Se fosse um poodle, ainda vá lá, mas um Rottweiler?!”, protestou. Antônio Rodolfo confessou que uma vez quase perdeu o braço, na hora de lhe dar comida e que agora só sai de casa quando o cachorro está dormindo, com medo que algo de ruim lhe aconteça.

Depois de ouvir tudo atentamente, respirei fundo e peguei o copo d’água que estava sobre a mesa do computador. Disse, contrariado, que mudaria as coisas novamente, mas com a condição de registrarmos nosso acordo em cartório, para não haver problemas futuros. Ele concordou e apertamos as mãos. Por fim, pedi para que me entregasse a adaga, como garantia da minha segurança, e levei-o até a porta.

― Precisamos parar de nos encontrar desta maneira – protestei.

― De qual maneira?

― Você com uma faca na mão e eu me borrando nas calças.

Ele sorriu e se despediu de mim.

Um pouco mais tarde, pensei na possibilidade de entregar ao personagem o seu próprio destino. Não é assim que acontece com os grandes escritores? Além do mais, seria mais fácil que ele mesmo escrevesse a sua vida do jeito que achasse melhor e me deixasse em paz.

Antes de dormir, porém, não me saiu da cabeça que Rosemary Shirley, afinal, não era um nome tão mal assim.

4 Comentários para “Muito além do livro 2”

  1. Gravatar

    De fato, Dimas, vida e arte…difícil definir quem imita quem se a própria vida é uma arte…às vezes um quadro em branco-preto, noutras um sulrealista, uma melodia de Bach, a gosto do freguês.
    Pros personagens deve ser mais fácil: é só ir lá com uma adaga ou punhal(eu iria com uma peixeira) e exigir mudanças urgente ao criador. Para nós, é bem diferente, é como na conclusão: “entregar ao personagem o seu próprio destino”, o problema é que muitas vezes se estranha a obra e culpa-se o Criador, que não tem nada a ver com a história.
    Achei MARAVILHOSAS ambas as crônicas. Divertidíssimas, ri demais e o melhor, nos jogam na cara nossa própria insatisfação.
    Agora, cá pra nós, Antônio Rodolfo, Rosemary Shirley e Valdecir? Misericórdia!! Ele tem toda razão. Melhor ser o cachorro.
    Abraço.
    Magna
    Obs.:ah, esta não pode faltar no livro, aliás, as duas.

  2. Gravatar

    … rsrsrs, muito bom “Dimas”,

    Agora “Mary Shirley” ficava melhor … Já o cachorro tem um nome legal, mas prefiro ele fora da história, tenho um medo danado de cães, e logo desse calibre (Rottweiler) …

    Abraços!

  3. Gravatar

    O personagem tem toda razão – os nomes, exceto o do cachorro, são horrorosos.

    E viver num comercial de margarina só não é pior do que viver num comercial de creme dental – os mais idiotas de todos.

    Discordo da reclamação quanto ao Rottweiler – é uma raça bonita, morde muito e late pouco. O ideal para mim,que gosto de silêncio e de não ser incomodado.

    Seleciona pro livro.

  4. Gravatar

    Essa está genial! Ri bastante. É engraçada do começo ao fim. E o tema está muito, mas muito bem resolvido. Na veia!

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!