Muito além do livro 3 – Final
- on 29 de outubro de 2009, às 0:00h
- Divina comédia humana
- 8 Comentários
Imagem: Vladstudio

Palavras não falam – Mariana Aydar (Kavita)
Nota do autor:
Chega ao fim a saga de um escritor às voltas com a insatisfação dos seus personagens. Embora o tom da crônica ainda revele um flerte com a comédia, há, nas entrelinhas, um ar sombrio que se reflete no poder do criador sobre suas criaturas.
Na literatura, a morte, se tiver alguma graça, serve apenas para deleite de quem escreve ou de quem lê. Para o personagem, tudo é real. E observando a tríade envolvida – autor, personagem e leitor – percebemos com mais clareza, porque comédias e tragédias costumam se misturar. O que faz um rir, pode fazer o outro chorar.
Conheça o resto da trilogia:
A noite caía silenciosa. Abri o portão e caminhei sob a luz da lua. Gotículas de uma chuva fina, praticamente imperceptível, se depositavam sobre a superfície resfriada das folhagens. Tirei os sapatos para sentir o frescor da noite e pisei na grama molhada – e também em algo pastoso.
― Bosta!
Não era apenas uma maneira de falar. Tinha mesmo pisado em merda de cachorro. Antes que o segundo palavrão saltasse da minha boca, abri o manuscrito que carregava nas mãos e risquei a cena até meus pés tornarem a ficar limpo. Sentia o poder de estar, em pessoa, dentro da estória que eu mesmo havia criado.
Avancei pelo jardim até chegar à entrada da casa e toquei a campainha. Em poucos instantes, uma mulher abriu a porta e me perguntou amavelmente o que eu desejava. Ela era tão bonita, quanto eu a imaginara. Cabelos soltos, olhos negros e pele clara. Apresentei-me como um amigo de seu marido e fui convidado a entrar. Depois, sentei no sofá da sala de estar e esperei.
Enquanto aguardava, reconhecia cada móvel e cada detalhe do lugar. O lustre de cristal iluminando a mesa de jantar e os porta-retratos com fotos variadas da família sobre a mesa de canto, a mesma que outrora adormecera um punhal, me davam uma sensação familiar.
Tão logo me viu, o dono da casa tomou-se de espanto. Seus olhos se arregalaram e quase pude notar uma gota de suor se formando em sua testa franzida. Na minha mente de escritor, imaginei o suor frio descendo pelos vincos da região frontal da cabeça até se desmanchar no encontro com o chão. Sua pele descorada mostrava o quanto a minha visita era inesperada. Agora os papéis se invertiam e o fator surpresa estava ao meu favor.
― Você não vai apresentar o seu amigo, Antônio Rodolfo? – perguntou a esposa.
― Este é o… Escritor.
― Meu Deus!
― Não chego a tanto. Sou apenas um humilde criador.
― Não falei neste sentido.
― Compreendo.
― Mas já que você tocou no assunto, sendo eu sua criação, isto não significaria a mesma coisa?!
― Embora sua pergunta me envaideça, são coisas diferentes. Sou apenas o seu criador. Já o resto do universo, esse foi feito por outra pessoa, Maria Helena.
― Quem é Maria Helena?
― Você.
― Eu?! Mas eu sou Rosemary Shirley.
― Não é mais. Como criador, posso mudar o nome da criatura. Se não acredita em mim, pegue a sua identidade e confira o nome que está lá.
Maria Helena foi ao quarto e pegou o documento na bolsa. De volta à sala, visivelmente satisfeita, me agradeceu.
― E eu? – perguntou o marido.
― Você será apenas Antônio…
― Gostei. Simples e forte.
― …Mas não por muito tempo.
Antônio notou que eu ainda mantinha um aspecto grave e antes mesmo que ele perguntasse se havia algo errado, eu respondi.
― Você vai morrer, Antônio.
Antônio recebeu a notícia como um paciente terminal, que recebe do médico o anúncio de que lhe restam poucos dias de vida.
― Mas por quê?!
― Porque assim é a vida, Antônio. Até mesmo os personagens nascem, crescem, vivem e morrem.
― Nem todos os personagens precisam morrer. Na literatura, alguns são eternos.
― Você também será, assim espero, mas na memória dos meus leitores, Antônio, pois você não chegará ao último capítulo.
― Por que, meu Deus, por quê?!
― A criatura não pode se rebelar contra o criador. Isso é contra a natureza das coisas. Um escritor não pode viver sob a ameaça de um de seus personagens, porque, quando isso acontece, o criador se sente acuado, como uma presa, e não tem outra saída, senão atacar quem lhe ataca. É tudo uma questão de sobrevivência, Antônio. Se eu não te matar, outros personagens também se rebelarão, pois seguirão o teu exemplo.
Ele chorou, mas eu mantive a firmeza, pois sabia que era ele ou eu.
― Escrevi um novo final, Antônio. Você terá uma morte gloriosa e transformará meu livro numa obra-prima.
Antônio correu para cozinha e vasculhou as gavetas, mas não encontrou nenhuma faca, nem nada cortante ou perfurante. Não encontrou nem mesmo um garfo ou uma colher.
― Tomei minhas precauções antes de vir aqui, Antônio.
Com a sentença de morte anunciada, ele superou seu medo, foi ao quintal e libertou o cachorro. Da porta, ordenou que o Rottweiler me atacasse.
― Não adianta, Antônio. Olhe novamente. Você não tem mais um Rottweiler. Seu cão é agora um Poodle mimado por Maria Helena.
Antônio se ajoelhou no chão e, agarrado às minhas pernas, pediu por sua vida.
― Você me deve isso, Antônio. Se você não morrer, serei assombrado por todos os personagens que eu já matei. Não seria justo com eles, nem comigo.
Antônio e Maria Helena se abraçaram sob forte emoção e depois se retiram para o quarto.
No caminho de volta para a minha casa, senti algum arrependimento por não ter dito a Antônio toda a verdade. O seu destino trágico não passava apenas pela insubordinação da criatura ao criador ou por eu temer a minha própria morte. Lutava por minha sobrevivência, só que de uma forma um pouco mais egoísta.
O fato é que eu temia que as interferências de Antônio fizessem o meu livro encalhar nas prateleiras das livrarias. Isto poderia ser um prenúncio da minha morte literária e eu não queria isso. Antônio morreria para que, quem sabe, de sua morte nascesse um grande escritor.
Na minha cozinha, já tarde da noite, preparei um sanduíche e sentei à mesa. Mas ao dar a primeira mordida, pensei que Antônio talvez morresse em vão, caso eu não me tornasse um grande escritor. Fui dormir com uma pulga atrás da orelha.



“Dimas”
…”por mais que eu tente, são só palavras, por mais que eu me mate são só palavras …”
Antes de mais nada, muito boa a escolha da música, influencia em nossa leitura!
E ‘Antônio Rodolfo’ se foi, fugiu do nosso imaginário, perdeu até seu ‘cachorro Rottweiler’, àquele mesmo, que faz uns ‘côcos como montes’ parecendo até a ‘Serra das Russas’ (Ducaldo, cuidado, imagine esses ‘montes em sua Cobertura nos Aflitos)! “Maria Helena Rosemary Shirley” pode então nos contar alguns de seus segredos … E estou cada vez mais convicente que a obra é que faz o autor, e aí, não acredito na necessidade de nenhuma ‘pulga atrás da orelha’, és um escritor de mãos cheias e de uma mente versátil … Como bem foi citado em sua nota acima o que faz um rir, pode fazer o outro chorar! E fomos pegos pelo um fim com gostinho de saudade!
Abraços!
Dimas, essa trilogia está fantástica. Sem tirar nem pôr. O tema é universal e guarda muita profundidade.
Não sei se já te disse isso, mas teu texto lembra um outro, de Pirandelo: “Seis personagens a procura de um autor”.
Os três contos estão irretocáveis! Sinceramente.
Um “grand finale”.
Trilogia muito criativa e bem resolvida. Vai para a lista.
Dimas, entrei com uma contra a velox!
Daí minha ausência.
Hoje consegui conectar-me.
E recebi esse presente.
Trologia fantástica.
Josias bem descreveu: o tema é vasto, doloroso, humano e coletivo. A ironia é uma faca. Ao tempo em que sangra, lembra-nos que o destino é um só. Daí a necessidade de rirmos, apesar do pranto.
Josias, vou lá no Inscritos. Só não fui antes porque estou em guerra com a Oi.
Leia-se: “entrei com uma ação contra a velox – Oi”.
Ah, não, já acabou? Acabou e com direito a pulga atrás da orelha. Ora bolas, mas creio que todo escritor precisa de uma pulga de vez em quando. Faz lembrar que há arte na vida ou vida na arte?
Muito bom, Dimas! Como já foi dito, trilogia perfeita.
Abração!
Magna
Será que o escritor matou mesmo o Antônio??? Sei lá! Sempre acho que os personagens fazem isso mesmo, vão conduzindo a história… as vezes de modo até meio tirano… E, mesmo mortos, ainda assombram!!!
Dimas,
Fazia tempo que eu não vinha aqui te visitar, né? A faculdade tem me deixado sem tempo de apreciar os belos escritos dos colegas de travessia pelo mundo mágico da escrita. Pensei em vir aqui apenas retribuir a visita, mas faz-se impossível… A cada visita uma bela surpresa! Gostei da trilogia, meu caro. Sou tua fã!
Abs.