O labirinto
- on 8 de novembro de 2009, às 14:09h
- Meus caros amigos
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Pintura: Labirinti, Villeneuve

Kalina Paiva
Entrei num labirinto, ofuscada pela auto-suficiência. Dado o meu aguçado senso de direção, contumaz, percorri aquele espaço com a intimidade de quem encontra um velho conhecido. Contudo, aos poucos, fui perdendo a noção do quanto eu havia caminhado e adentrado nos idênticos átrios daquela construção. Obstinada, segui achando que saberia transitar por entre aquelas inquebrantáveis paredes.
Orgulhava-me por não precisar da ajuda de um fio que direcionasse os meus passos no momento em que eu decidisse voltar ao hall de entrada. À minha revelia, o destino tramava uma maneira de mostrar que eu não mais podia voltar pela porta que, outrora, eu entrara. Havia, portanto, outra saída me esperando, mas nem de longe eu desconfiara, muito menos tivera percebido, diante da tempestade de emoções enraizada em minhas entranhas.
Depois de caminhar por horas, incansavelmente, eu me convenci de que estava perdida naquele vasto labirinto. Lembrei, inclusive, das recomendações que me fizeram sobre um monstro terrível que habitava o coração daquele lugar. Se bem que, da forma em que eu me encontrava, não saberia dizer ao certo em que parte do corpo daquele lugar eu estava. Convenhamos, era-me indiferente àquela altura! E pensar que meu senso de direção nunca houvera falhado…
De repente, encontrei um corredor que me levava a uma escada. Era um ambiente com pouca luz, no entanto repleto de paz. Ali, eu experimentei uma sensação de segurança, pois eu jurava para mim que monstro algum se esconderia lá. Silêncio e pouca luz. Lá estava eu… perdida! Não tinha nada a perder e tinha muito a perder…
Para a minha surpresa, ouvi uma voz sublime, convidando-me para sentar ao seu lado. Embora aquela voz demonstrasse firmeza, encontrei certa melancolia. Pouca intimidade faz com que nos esquivemos de perguntar sobre o que não nos é devido. Convicta de que estava amparada, achei enfim um lugar seguro onde podia me esconder do monstro que habitava o labirinto. “E ainda tive ajuda”, pensei eu, imersa na minha inocência conspurcada pelo tempo e pela dor.
Falamos de coisas necessárias à vida. Reconheci, também, a essência da vida em seus olhos. Entre o dito, o não-dito e o interdito, conversamos, para não dizer que nos reconhecíamos. Comecei a ter medo de falar. Pouco tempo e muita dor revelam o deserto que há em nós, por isso fiquei reticente, pois eu já estava cansada de ter meus sentimentos turvados pela consternação.
Nunca pensei que, em minha parca existência, eu me sentaria para falar de coisas tão minhas com um ser desconhecido. Eu, simplesmente, nem sabia o seu nome. Minutos depois, falou-me: Eu me chamo Saudade.
Saudade? Eu estava cara a cara com a… Saudade? Não podia ser! Perplexa e espantada, quedei muda. Eu crescera com uma concepção de saudade e essa nova Saudade que se revelava a mim, decididamente, não se encaixava em meus paradigmas tão firmes e metrificados quanto uma obra arquitetônica neoclássica. Como pode a Saudade ser capaz de fazer com que eu me sentisse abrigada em pleno deserto? É lógico que aquilo tudo me inquietou. Eu até pensei em sair correndo, mas e se eu encontrasse o monstro que diziam habitar ali? A partir desse momento, percebi o quanto eu queria cuidar daquela que me cativara tanto.
Que me perdoem os poetas, mas agora, para mim, a Saudade tem um rosto, um nome, uma identidade. Falo isso não mais por só dela ouvir falar, mas sim porque tive uma – tão cúmplice, entretanto breve – experiência com ela. E, por mais que tentem os poetas incutir nos corações das pessoas que a saudade dói, se as pessoas conhecessem-na como eu, repensariam seus conceitos.
Convicta, afirmo que nós duas tínhamos dores tão próximas que, teve alguns momentos em que achei que era de mim que ela falava. Ela dói em si mesma e sua dor exala a poesia da vida, transcendendo todos os paradigmas poéticos. É difícil falar sobre a forma com que ela se mostrou a mim. Vejam a que ponto cheguei: tenho até lutado contra palavras e poetas…
A saudade se revelou a mim de um modo tão assustadoramente frágil e sutil, de uma forma tão cuidadosa, que as palavras se harmonizaram em nossos caminhos cruzados repentinamente.
Agora, enquanto escrevo, estou viva. A vida decidiu correr liberta dentro de mim. Não precisei de fio algum para sair do labirinto da Saudade, pois ela me deixou livre, a ponto de ter me prendido. Aliás, no labirinto, nunca encontrei monstros, Minotauro, górgonas ou qualquer ser mitológico. Sempre volto lá para falar com ela, a Saudade.
Foi assim a última vez em que estive sentada ao seu lado: fiquei sem saber o que falar, contemplei o seu rosto e a senti muito forte dentro de mim. Agora, fico a pensar em como deve estar, no que tem feito. Entendi que posso dela cuidar, estando perto ou longe.
Eu hei de encontrá-la novamente…



Adorei o texto, Kalina.
Acho que ainda me encontro no labirinto conversando com a minha.
Interessante esta tua abordagem. Esse labirinto que existe mesmo em todos nós e onde tantas vezes nos perdemos. Ele esconde desejos, sonhos e também saudade, esta criatura de duas faces. Se nos apaziguamos com ela, ela fica linda e amiga, se dela fugimos, transforma-se no monstro…o monstro do labirinto. Assim senti na tua história, assim também sinto.
Abraço.
Magna
Obs.:Dimas, meu querido companheiro desse mundo da blogosfera, muitíssimo obrigada pelas palavras em todos os teus comentários. Você sim me causou um “contentamento quase infantil”. Que Deus te abençoe, a ti, tua esposa e Maria Luíza…porque a sorte mesmo é poder amar verdadeiramente sem reservas, sem condições, simplesmente, porque não dá pra ser diferente…transborda. Abração.
Mais uma vez você nos presenteia com uma deliciosa leitura.
Parabéns!
Você escreve muito!
Li primeiro teu texto sobre amor e paixão. Agora este. Aqui, cara a cara com a saudade; lá, desejo forte de ter cara a cara o amor… Do casulo à borboleta é só uma questão de tempo! Tenho certeza.