Chá da tarde
- on 12 de novembro de 2009, às 0:00h
- Divina comédia humana
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Pintura: Elyse

Dancin’ Days – As Frenéticas (Nelson Mota/Rubens Queiroz)
A idéia tinha sido de Ana Lu, mas foi Julinha quem reuniu as amigas em sua casa para um chá da tarde. Como não havia razão para postergar o encontro para o dia seguinte, resolveram fazer tudo, assim mesmo de improviso, em pleno sábado à noite. É verdade também que no lugar do chá foi servido vinho – Cecília foi quem sugeriu, para dar uma animada – mas a essência do encontro permaneceu intacta. Jogariam conversa fora, trocariam confidências e falariam da vida alheia.
O bate-papo inicial girou em torno de amenidades e houve mesmo debates animados sobre a nova bolsa de Ana Lu, a bebedeira do ex-marido de Regina na festa de aniversário de casamento de Cecília e, principalmente, como a física quântica é capaz de explicar um monte de coisas inexplicáveis, inclusive a razão pela qual os homens não podem ver um rabo de saia.
Foi nesse ponto que Ana Lu, depois da quarta taça de vinho, reconheceu que os homens são mais cúmplices uns com os outros do que as mulheres. E, como prova irrefutável, perguntou se alguma delas já tinha ouvido uma criatura do sexo feminino – umazinha que fosse – dizer que “homem de amiga minha, pra mim, é mulher!”, e caiu na gargalhada. Julinha ainda ensaiou uma contra-argumentação, afirmando que as mulheres não diziam isso por pura obviedade, mas a sua tese foi prontamente rejeitada pelas outras.
Regina, inclusive, deu seu próprio testemunho em favor da teoria de Ana Lu. Ela contou que, alguns meses depois do divórcio, teve o primeiro encontro romântico com outro homem. No taxi, na volta para casa, ela resistiu o quanto pôde à tentativa de seu acompanhante, que queria, a todo custo, que ela desse para ele, até que, para a sua surpresa, o taxista se meteu em conversa tão íntima para opinar que não havia mal nenhum nisso, pois se via que o distinto cavalheiro era um homem de bem.
Depois das palavras de Regina, as quatro amigas concluíram o óbvio, que nenhum homem presta. Ficou, porém, alguma incerteza quanto ao fato de que eles pertençam mesmo a uma sociedade secreta, cuja finalidade é acobertar as safadezas uns dos outros. Se tal sociedade existisse, seria assim como uma fraternidade com códigos e sinais próprios, feito a maçonaria.
E foi para esclarecer de vez a questão que Pedro teve que levantar do sofá, para atender uma ligação da Julinha.
― Alô?
― Pedro? É a Júlia.
― Oi, Julia, tudo bem?
― Eu estou ótima. Olha, você pode chamar o meu marido para eu dar uma palavrinha com ele?
― Jorge?!
― Claro! E eu por acaso tenho outro marido, além do Jorge?!
― Não, Júlia, claro que não…
― Ele saiu daqui dizendo que ia pra sua casa jogar pôquer com você e mais alguns amigos.
― Pois é, o pôquer…
― Pois é, o pôquer. Então chama o Jorge pra mim.
― Não vai dar, Júlia.
― Por que não?!
― É que o Jorge não está.
― Aquele safado mentiu pra mim de novo?! Vai ver foi encontrar alguma sirigaita!
― Que é isso, Júlia?! É que o Jorge está, mas não está, entende?
― Não entendo, não!
― É que ele saiu pra comprar mais cervejas, mas daqui a pouco volta.
― Sei…
― Quando ele chegar, eu digo para ele ligar pra você, está bem?
Quando Pedro ligou para Jorge a fim de preveni-lo que sua mulher estava louca à sua procura, foi Julinha quem atendeu o celular, com todas as amigas a sua volta ouvindo a conversar pelo viva-voz, já que o marido dormia em sua cama, no seu próprio quarto, enquanto o chá da tarde, no sábado à noite, rolava a poucos metros dali, na sala de estar.
A cara de pau de Pedro foi censurada por todas, mas, ao desligar o telefone, elas reconheceram oficialmente a existência da tal sociedade secreta. Mesmo assim, Julinha achou um exagero quando Ana Lu disse que sentia uma pontinha de inveja dos homens, pois eles sim, sabiam se organizar.
Por isso, pelo sim, pelo não, Julinha concordou que as mulheres deveriam começar a se organizar também, já na próxima segunda-feira. “Antes tarde do que nunca”, enfatizou. Deste modo, pretende perguntar a Jorge, assim que ele acordar, se a tal sociedade secreta é registrada em cartório e tem isenção do Imposto de Renda. Melhor fazer tudo como reza o figurino, para não ter erro.


Dimas, divertidíssimo. Viajei agora…
Olha, desde pequena, fui acostumada a transitar pelos dois universos – masculino e feminino. A casa era cheia de rapazes e moças(todos primos), época boa, responsável pelo sentimento fraterno que temos até hoje. Na época, apesar de ter os mesmos sonhos das meninas, eu achava bem mais divertido as conversas, planos e artimanhas dos meninos, tendo participado, inclusive, de muitos deles. Simplesmente, adorava.
Enfim, são dois bichos bem diferentes mesmo, mas, no fundo, com mesmos sonhos.
Abraço.
Magna
Só você pra me fazer rir no meio de uma insônia, Dimas.
Eu não sei bem a razão dessa cumplicidade masculina, mas que ela existe eu não tenho dúvida. Tanto existe que um homem que não protege o outro diante de uma mulher ciumenta (ou desconfiada, como queiram) só pode estar dando em cima da tal ciumenta. É batata.
Mas isso tá mudando. A confraria feminina está tomando forma. Antigamente, por puro vício da intriga, se um marido ligasse para uma festa perguntando pela esposa, a mulher que o atendesse diria primeiro: “e ela veio, tem certeza? eu não a vi… mas peraí que vou procurar”. Pura sacanagem. Agora é diferente. Hoje, em situação similar, a mulher responde: “ah, ela veio sim. Ela e aquele primo delicioso que sempre a acompanha”. Outros tempos.
Dimas, tô voltando ao mundo blogueiro e já vi que vc aderiu ao twitter. Vou dar uma vasculhada para descobrir outras novidades e outras maravilhas no circuito blogueiros-amigos.
Abração.
Olá, Dimas, tudo bem? Já há algum tempo que estou para vir cá te visitar sob forte e inequívoca recomendação da Ana Cláudia, e é com muito gosto que li esse seu bem humorado “tratado” de fidelidade entre os homens. E é com muito gosto também que percebemos um movimento novo de “solidariedade” entre as mulheres, o que já não era sem tempo.
Abraço e ótimo final de semana.
Boca,
Obrigado pela visita. Uma recomendação de Cláudia é sempre uma honra. Verei se neste fim de semana tiro o Estradar da paralisação.
Abraços literários,
Dimas
“Dimas”
(rsrsrsrs) muito bom meu amigo !!!! Gosto muito de textos com um bom tom de humor, para descontrair, tal qual um bom ‘chá da tarde’ !!!!
PS. Tô com saudade da amiga ‘Rosemary Shirley’ !!!!
Abraços ameu amigo !!!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Pior que é assim mesmo, Dimas. Segundo Monique Evans, “mulher já nasce competindo”. Ô raça desunida, meu Deus! Imagine aí se as mulheres se organizassem do jeitinho que os homens se organizam? Seríamos implacáveis! Gostei muito do texto, em especial, do cuidado que você teve de inserir uma situação tipicamente feminina, isto é, um teste. Mulher quando se junta… até o diabo corre com medo! kkk
O gênero masculino é um credo… O homem está se especializando em humor!
Gostei do taxista. Talvez a maior prova de solidariedade masculina dessa história….