Opções:

Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Amor e paixão: a velha dupla que nunca fará as pazes

Amor

Kalina Paiva

Aos 32 anos, cheguei à conclusão: eu nunca amei ninguém! Pois é, se você ficou admirado (a), leitor(a), com o que leu aqui, lamento decepcioná-lo, mas nunca amei de verdade. Cazuza também disse isso em uma canção e ninguém o levou a sério. Certamente, pessoas que me conhecem também acharão a mesma coisa ao verem isso escrito aqui, no entanto permanecerei com esse acontecimento constatado há quatro semanas: eu nunca amei ninguém!

Alguns poderiam dizer que uma comprovação desse tipo é algo frustrante. Para mim, não. Ao menos, agora, eu sei o que não conheço. Talvez, assim, eu venha amar verdadeiramente um dia. Ao menos, dei o primeiro passo, escolhendo a floresta escura e não o caminho das flores: conheci logo a paixão. Com ela, tive experiências difíceis até de acreditar e de narrar. Hoje, não correria mais certos riscos, sinceramente, desnecessários.

É muito confortável lermos o poema Instantes, falsamente atribuído a Jorge Luís Borges, tagarelando aos nossos ouvidos:

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

[...] correria mais riscos…”

(Don Herold, autor de Instantes)

Até já gostei muito desse poema, no entanto Instantes se encontra no limiar entre o carpe diem horaciano e a falta de responsabilidade, depende de como o leitor olha para ele. Correr mais riscos? Uma vida construída sobre paixões, isso sim é correr riscos! Falo de paixões de todo tipo que levam a descontroles emocionais. A poesia nos testemunha tantos desatinos… O episódio de Inês de Castro que o diga!

Paixões são facilmente reconhecíveis e perecíveis também, pois tiram o nosso chão, a ponto de “funcionarmos” em caráter emergencial. Tudo passa a ser exigido, porém camuflado com as vestes da simpatia. Na paixão, o desejo fica salivando. Visceral e impulsiva, sua moeda é a posse e, automaticamente, o egoísmo.

Nesse terreno, existe um prazo de validade, que, segundo pesquisadores da Universidade de Stony Brooks, de Nova York, não é tão passageiro assim. Recentemente, esses cientistas descobriram, analisando a atividade cerebral de casais que estão juntos há pelo menos 20 anos, que a paixão dos primeiros anos não desaparece facilmente com o passar dos anos. A pesquisa feita pela universidade constatou que 10% desses casais mostraram as mesmas reações químicas em seus cérebros quando viram fotos de seus parceiros.

Tão logo me deparei com essa reportagem, pensei: como se já não bastasse ser difícil diferenciar amor e paixão na prática, agora a pesquisa nos diz que esse sentimento emergencial já consegue durar mais tempo, contrariando a ideia de que a paixão é breve, “um fogo de palha”, conforme nossos experientes avôs e avós – Um ano e três meses? Duas semanas? Um mês? 20 anos? A minha durou quase 12 anos bem distribuídos em picos de angústia, felizmente detectável ainda em idade balzaquiana!

Não sou exímia conhecedora da paixão. Mesmo tendo dela falado, continuo sem conhecer o amor, mas acredito que, quando ele estiver sorrindo para mim, será algo sublime que me levará a uma paz inexplicável e à sensação de estar plena. Quem sabe assim, num futuro próximo ou distante, poderei escrever algo a respeito da experiência com esse sentimento? O xis da questão é: como saberei quando o amor estiver sorrindo para mim, cara a cara? Meu único infortúnio é que não posso estabelecer um prazo para a criação desse novo texto, para decepção dos leitores.

6 Comentários para “Amor e paixão: a velha dupla que nunca fará as pazes”

  1. Gravatar

    Acho que essa sua angústia não é desacompanhada: muitos também não amaram de verdade. O amor é desses sentimentos raros, tal qual a felicidade plena (vai ver só exista em nossos ideais). A gente espera que a paixão fugaz se constitua em algo mais perene, mais tranquilo e conserve ainda a quentura própria da paixão… Penso ser difícil reconhecer cara a cara quando o amor estiver em nossas vidas; enquanto isso, encantemo-nos com o brilho dos pseudo-amores!

  2. Gravatar

    Kalina, temos quase a mesma idade e, provavelmente, experiências similares. Penso que o amor, quase sempre, se revela em retrospecto: na tranquilidade de se saber que não se perdeu tempo com o rumo escolhido; na calma um tanto estóica de se assmuir as renúncias necessárias. Há naquela canção, penso, uma bela metáfora sobre o amor e a paixão (“Abelha fazendo mel/Vale o tempo que não voou…”). Há um poema de fernando Pessoa – “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio” – que, por uma forma diferente, sinaliza o mesmo. Não te conheço para sustentar firmemente que nunca conheceste o amor… Se não, certamente ainda irás tê-lo “cara a cara”, como dizes. Pessoas sensíveis assim como você não passam a vida idiferentes a ele… Por ora, deixo-te um poeminha de Leminski:

    “Sossega coração
    Ainda não foi agora
    A confusão prossegue
    Sonhos afora
    Calma calma
    Logo mais a gente goza
    Perto do osso
    A carne é mais gostosa”

    Um abraço fraterno pra ti.

  3. Gravatar

    Kalina, já disseram que quando virmos o amor face a face, seremos anjos. É mais confortável para mim pensar no cotidiano, não fica tão distante. Por isto, prefiro seguir aprendendo, uma hora errando, outra acertando, mas todas sem procurar muitas definições. ‘Não ter amado’ é muitas vezes, como me parece a tua, uma constatação tranquila e indício do terreno que se quer seguir (isto é bom); noutra vezes, uma forma de dizer para o “ex-amor”: “eu não te amei, foi só paixão” (isto me parece mais afirmar o amor do que negá-lo).
    Vamos seguindo, então, com os encontros e, quando não der mais, despedidas.
    Beijo.
    Magna
    Obs.:ah, sou meio desconfiada com pesquisas americanas…há algumas vezes variáveis que escapam aos estudiosos.

  4. Gravatar

    Só tenho uma coisa a dizer sobre amor e paixão, vivi varias paixões mas só um amor e faz tempo, ora está perto, ora está longe!!! Bjoka!

  5. Gravatar

    Valeu, Kalina, você diz bem, manda ver um critério de sua percepção em forma de crônica – que bom

  6. Gravatar

    Acredito que o amor seja uma fantasia, daquelas em que nos projetamos plenos, saciados, nosso imaginário em busca de uma realização perfeita, uma obra prima. Mesmo acreditando dessa forma, também compartilho essa sua angústia – senti uma agressividade no seu texto que adorei -, uma quase revolta por não ter sido agraciada com a plenitude… mas, sem as paixões(de toda sorte)onde estaríamos? De que serviríamos?
    Que bom, de certa forma, que o imaginário existe como necessário, tangível, porque assim não desperdiçamos nenhuma paixão enquanto partimos ao seu encontro.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos!