Comer bem
- on 28 de dezembro de 2009, às 0:00h
- Divina comédia humana
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Ciume de você – Roberto Carlos (Luiz Ayrão)
Quando Mariana se casou com Osvaldo, todo mundo falou que ela fez um bom negócio, como se o casamento fosse um trato mercantil. Abstraindo-se a relação comercial que envolve toda relação afetiva, Osvaldo era, de fato, um bom partido.
Ele, por exemplo, sempre fora um homem atencioso. Sabia ouvir os contratempos e conflitos de Mariana como nenhum outro fora capaz em sua vida. Também era paciente. Certa vez, na véspera do natal, deixou a roda de cerveja com os amigos para passar, sem reclamar, horas a fio num shopping center acompanhando a noiva em suas últimas compras de fim de ano. Coisas do Osvaldo.
Osvaldo também estava em franca ascensão profissional, pois pelo terceiro ano consecutivo era promovido e já ocupava um lugar de destaque na empresa.
Mas, talvez, a maior virtude de Osvaldo – do ponto de vista de uma relação monogâmica, é claro – fosse a fidelidade. Nunca se soube de qualquer indício ou evidência que maculasse o respeito quase venerável que sentia por sua parceira. Nem mesmo os companheiros de farra tinham um tantinho assim para dizer algo que sugerisse um ato de infidelidade. Para os amigos, Osvaldo justificava sua demonstração de zelo com Mariana com uma simples brincadeira. Dizia que, se uma mulher já era difícil de administrar, imaginem então duas ou mais. Para as amigas, inclusive as de Mariana, ficava a convicção de que Osvaldo, como homem íntegro, devia considerar que pior que o peso da infidelidade à mulher amada, só mesmo o peso da traição sobre a sua consciência. Para os homens, enfim, ele era um tolo; para as mulheres, um santo.
Apesar de todas as suas virtudes – ou talvez por causa delas, não se sabe bem – Mariana morria de ciúmes de Osvaldo. Tinha medo, diziam as amigas, de perder um partidão daqueles. Não raro, Mariana fuçava suas roupas, carteira e objetos pessoais. Vasculhava gavetas, arquivos no computador e checava algum novo contato feminino no celular. Reclamava também das vezes que Osvaldo chegava tarde do trabalho. Ele, com toda serenidade, respondia que sua posição na empresa exigia certas obrigações, enquanto ela considerava esses excessos de horas-extras bastante suspeitos.
Mariana agora também implicava quando Osvaldo saía para ver o futebol ou beber com os amigos. Daí o seu afastamento um tanto forçado de amizades tão antigas. Para uns, botava a culpa nas obrigações profissionais; para outros, nos afazeres domésticos.
O tempo passou e Osvaldo já não trabalha mais até tarde. Ele aproveita o horário de almoço para fazer uma refeição rápida, lá mesmo no escritório. Desse jeito, consegue manter a alta produtividade sem desagradar a esposa. Também não sai mais com os amigos. Quem sabe assim não teria, enfim, um pouco de sossego.
Mariana estava satisfeita com a vida do marido, que tomou o hábito de ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Tanto assim que resolveu fazer-lhe um agrado e de surpresa decidiu preparar-lhe um filé ao molho de vinho tinto com risoto de champignon, seu prato predileto.
Nem bem parou na porta do prédio onde o marido trabalhava, Mariana o viu sair de carro do estacionamento e, como nos filmes de espionagem, resolveu segui-lo. Do taxi, ela observou quando ele apanhou uma mulher num bairro do subúrbio e seguiu para um motel. No portão de entrada da casa da felicidade alheia, Mariana armou um tremendo barraco. Tentou arrancar os cabelos da amante e só não atirou o filé em cima do marido, porque foi contida pelo segurança do motel, que pedia que Mariana se controlasse, pois ela estava num lugar de respeito. Exagero, é claro, do segurança, como bem afirmou Mariana, já que motel não era lugar de respeito, mas sim de sacanagem.
Osvaldo pediu que a amante tomasse um taxi e levou a esposa embora. Já em casa, os vizinhos tiveram que conter Mariana, que ameaçava matar o marido com uma faca de cozinha. Foi quando Osvaldo levou a mão ao peito e foi se ajoelhando devagarzinho até deitar-se no chão. Mariana largou a faca e correu em socorro do marido, ao mesmo tempo em que pedia para que alguém chamasse uma ambulância. A vizinha discretamente ainda insinuou que se ela queria mesmo matar o marido, aquela era uma boa oportunidade, mas ficou o dito pelo não dito.
Já faz alguns meses do incidente entre o casal. Os amigos desconfiam que Osvaldo simulara o ataque cardíaco, pois os laudos médicos não acusaram nada que indicasse problemas no coração. E tanto se surpreenderam com as peripécias de Osvaldo que o elegeram o canalha do ano.
Para as amigas de Mariana, ela foi a única culpada, pois o seu ciúme o empurrou para o caminho da perdição, transformando assim, um santo num pagão.
Mariana e Osvaldo estão fazendo terapia de casal e, por sugestão do terapeuta, ela agora permite que ele saia com os amigos. “Uma farrinha de vez em quando é até bom para manter um casamento saudável, pois abre espaço para a individualidade necessária em toda relação”, aconselhou o terapeuta.
Mariana aceitou o trato sob uma condição. Osvaldo agora almoça em casa todos os dias. Pelo sim, pelo não, melhor manter um olho no padre e o outro na missa. Além do mais, quem tem filé em casa não precisa ficar na rua comendo galinha.



Que tensão mais “rodriguena”, Dimas, a sensação de raiva, de revolta, de incredualidade que me tomaram durante toda a leitura do texto, me fizeram suar, a sério, enquanto o lia. Por Deus fiquei perplexa, sem contar a minha interação com os personagens, ora brigava com um; ora brigava com outro. Caramba, como achei-os ‘esquizofrênicos’, fiquei resmungando de raiva, conseguistes me deixar atônita com a passividade inicial do Osvaldo, e com a perseguição da Mariana, e no final de tudo, fiquei cantarolando o Chico Buarque: “…Te perdôo/Por ergueres a mão/Por bateres em mim/Te perdôo/Quando anseio pelo instante de sair/…/Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)/Te perdôo/Por contares minhas horas/Nas minhas demoras por aí
Te perdôo/Te perdôo/Te perdôo/Por te trair”.
Dimas,
Faço minhas suas palavras e desejo-te ainda que 2010 seja duas mil e dez vezes melhor do que o ano que encerrou…
Abraços
Muito boa.
Nelson Rodrigues em tempos de “almoço executivo” (eheheheh).