Divã
- on 4 de janeiro de 2010, às 0:00h
- Divina comédia humana
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Efeito cartoon sobre foto: Dimas Lins

Da maior importância (Caetano Veloso)
Certa vez, escrevi no Torcedor Coral, meu blog sobre o Santa Cruz – um amor não correspondido – uma crônica a respeito de um torcedor que passava por uma crise de abstinência, pois fazia tanto tempo que não via seu time jogar, que lhe bateu um ataque de ansiedade. A narrativa despejava uma montanha de palavras num ritmo frenético que impediam ou dificultavam que o personagem chegasse a algum lugar.
É possível – ou até mesmo provável – que não haja valor literário nesta narrativa que agora faço. Mas a descarga de palavras é forte, como uma rajada de balas, e serve, ao menos, para quebrar a forma, a fórmula e o estilo.
Por isso, fiquei com o desejo de passar a ansiedade de outro personagem para os leitores do Estradar, para que o registro deste formato pudesse ficar por aqui também. Na pior das hipóteses, foi divertido fazer algo tão despretencioso, onde não se quer – ou usando a linguagem do personagem, talvez se queira – chegar a lugar algum.
Dimas Lins
Vou dizer uma coisa, antes que me arrependa. Digo isso, dessa maneira, antes de dizer qualquer coisa, porque quando a gente já começa dizendo uma frase assim é sinal de que vai se arrepender mesmo. E logo eu – por que não me arrependeria? – que tenho um sentimento de culpa que pesa uma tonelada, talvez mais que uma tonelada, quando digo uma coisa que não devia. Mas vou dizer, porque disse antes que ia dizer e não fica bem agora ficar calado ou voltar atrás.
Mas como disse – e não disse ainda, na verdade – tenho algo a dizer, e direi sem rodeios, embora às vezes ande em círculos e não consiga chegar diretamente ao ponto que desejo, porque entre o querer e o fazer há, em certas situações – situações inescapáveis – uma enorme distância. Digo isso, porque, exatamente neste momento em que desejo ir direto ao ponto, mesmo com o relógio correndo, dou voltas e mais voltas para dizer o que quero dizer, o que vou dizer. Mas quando algo nos atormenta é melhor deixar sair, botar pra fora, pois sempre há que se cuidar em primeiro lugar das coisas da alma – depois a gente cuida do resto – mas a força moral do espírito, essa mesma, que impulsiona a gente pra frente, que nos dá equilíbrio, deve mesmo vir em primeiro plano. A topada também nos impulsiona para frente, mas ao contrário da força moral do espírito, não nos dá o equilíbrio necessário para nos manter de pé. Mas falo assim, de cuidar das coisas da alma, porque um sujeito ruim da cabeça terá mais dificuldades que um homem são em fazer algo de útil na vida. Não que os inúteis não tenham lá suas utilidades, mas daquilo que penso e digo – não sei se falo com clareza – que é o que importa agora, não tem qualquer serventia.
Por isso, sem mais demora, porque não sou de me demorar – a não ser em situações iguais a esta, posto que ninguém, eu disse absolutamente ninguém, consegue ter autocontrole sobre algo que não controla – vou dizer o que quero, o que penso e o que pretendo. Farei isso, embora deixe bem claro, pois não quero que restem dúvidas, que o que eu vou dizer não é da conta de ninguém.
O que quero dizer, na verdade, é que não há outra verdade senão aquela que digo agora. E antes que me arrependa, que volte atrás – porque não sou de voltar atrás, a não ser quando me convém, porque às vezes convém voltar atrás – digo para quem quiser ouvir, ainda que reticente, com três pontinhos, com um pé atrás, que eu tenho uns surtos de ansiedade diante de uma mulher, uns ataques repentinos, umas coisa vindas do nada. Não exatamente do nada, porque nada vem do nada, mas de alguma coisa que não seja nada ou diferente de nada, se é que sou compreendido agora quando falo de absolutamente nada.
Mas o fato é que não, definitivamente não, eu não tenho habilidade com as mulheres. Não quero que você me interprete mal, pois sei como funciona a mente humana, capaz de, propositadamente, julgar com dados poucos seguros, maliciar, maldar e espalhar mentiras pela vizinhança e muito além dela, posto que a internet está aí para levar verdades e inverdades aos quatro cantos do planeta. Por isso, digo, redigo e digo de novo que não caio do banco, não atravesso, não solicito, não participo, não peço passagem, não tenho uma vida dentro do armário, não ando como quem vai soltar um pum a qualquer momento e nem tenho atração por pessoas do mesmo sexo ou de outro sexo que achem que são, ou gostariam de ser, ou mesmo pretendem ser, do mesmo sexo que eu. Também deixo claro, como se o sol tivesse caído bem no meio desta sala, pois, como disse, sei como funciona a mente humana, cheia de malícia, de maldade, que não quero ser tratado como uma pessoa preconceituosa, uma vez que não sou, absolutamente não sou, de emitir opinião ou de deixar vazar sentimentos sem um exame crítico, uma análise acurada dos fatos, pois do contrário seria apenas presunção da minha parte achar isso ou aquilo das pessoas e eu não me considero de jeito nenhum uma pessoa presunçosa e também não acho isso ou aquilo das pessoas, senão com algum grau de certeza, mesmo sabendo que a certeza é relativa e depende do ponto de vista de cada observador.
Minhas palavras foram lançadas nesse nosso encontro – e peço-lhe logo que cumpra o seu juramento profissional e não as deixe sair desta sala, nem de boca em boca, nem andando, nem saltitando feito uma gazela – apenas para afirmar com toda franqueza que, embora não tenha nenhum dilema moral com a opção sexual de cada um, a essência do que trato aqui é outra: não tenho habilidade social com as mulheres e ponto final. Não exatamente ponto final, porque ainda não terminei, já que somente agora, depois de dar muitas voltas, coisa que tenho tentado evitar, começo a falar daquilo que finalmente interessa.
Quanto tempo ainda?!
Tenho dificuldades em penetrar nas trincheiras femininas – digo isso sem maldade alguma, pois não sou de maldar, de maliciar como tantos outros, portanto deixo claro que não trato aqui da copulação, do coito, mas de atingir a alma da mulher. Para que você possa fazer melhor juízo do meu juízo, digo, por exemplo, que é penoso visitá-la em seu consultório, pois antes de tudo, você é uma mulher e eu, como já disse, não tenho habilidade com as mulheres. E mesmo pagando para que você me receba bem e trate do meu problema, posto que isto esteja implícito em nossa relação profissional, tenho medo que você, sem motivo algum, já que não dou motivo para que ninguém me destrate mesmo sem motivo algum, bata a porta na minha cara.
A explicação dessa falta de habilidade com as mulheres, essa coisa toda que paralisa minhas pernas, braços e língua – língua, sim, porque se tiver que beijar uma mulher será com a língua e uma língua paralisada não beijará ninguém – se dá por uma razão, uma só razão, uma única razão, que é a razão pela qual fico assim, agoniado, com os pés e mãos suando, salivando, como se estive preste a comer um sarapatel no Mercado da Boa Vista – que é um manjar dos deuses, uma coisa de louco – com os olhos arregalados e com jeito de quem andou tomando drogas, logo eu que acho as drogas uma droga e não busco satisfação pessoal na química, porque eu já detestava química quando fazia segundo grau e não vejo razão para gostar de química agora. Neste aspecto, mais do que qualquer outro aspecto, prefiro a matemática, que é uma coisa mais lógica, com pé e cabeça, ao contrário da química que provoca mudanças no comportamento, porque não há outra coisa que justifique a TPM na mulher ou o meu estranho comportamento diante de uma criatura do sexo feminino, que não a química.
Já esgotou o tempo?!
Foi por isso – e somente por isso, não por outra razão – que pus tudo a perder na virada do ano, e tudo ficou estranho, e tudo ficou esquisito, quando conheci uma mulher maravilhosa, uma mulher sensacional, um manjar dos deuses – como o Sarapatel do Mercado da Boa Vista – uma mulher deliciosa, que tinha pernas, braços, peitos, boca, dentes, olhos e cabelos como nenhuma outra. Digo que conheci, mas na verdade eu não a conheci, ela me conheceu, pois foi ela, não eu, nem outra pessoa, quem tomou a iniciativa de puxar assunto antes da passagem do ano. Suei em bicas, as mãos ficaram geladas, tive taquicardia e quase o coração saltou pela boca quando ela disse oi. Ela poderia ter dito outra coisa, qualquer coisa, falar que o universo está se expandindo e, sendo assim, cada dia fica mais difícil que Deus nos enxergue de onde está, pois somos pequenos, minúsculos e insignificantes, que a minha reação seria exatamente a mesma. Oi já era uma coisa muito difícil de responder, o que dizer então de uma teoria metafísica sobre a miopia divina?
Espera, só mais um minutinho…
Ficamos então conversando, quero dizer, ela ficou conversando, pois eu só conseguia balançar a cabeça para cima e para baixo e às vezes para os lados e mesmo quando deu meia-noite, e soaram as dozes badaladas, e ocorreu a passagem de ano, e ela me abraçou, e me desejou um feliz ano novo, eu ainda só balançava a cabeça para cima e para baixo e às vezes para os lados. Ela me levou para a praia, e eu a segui balançando sem parar a cabeça, desta vez apenas para cima e para baixo, e eu só pensava “eu quero!, eu quero!”, quando ela se deitou comigo na areia e eu fiquei sujo de areia, e eu detesto ficar sujo de areia, porque a areia entra em toda a parte, até nas partes íntimas, e eu só queria beijar a sua boca, tocar em seu sexo, fazer sexo e ficar de boca fechada, só balançando a cabeça para cima e para baixo, não para os lados, porque não haveria razão para balançar a cabeça para os lados, mas ela não, ela gostava de falar, pois achava que eu não dizia nada, porque sabia ouvir, pois os homens não sabem ouvir, e eu também não, eu não sabia ouvir, pois ninguém, a não ser que esteja tendo um ataque de ansiedade, assim como eu estava, balança sem parar a cabeça para cima e para baixo e às vezes para os lados e eu já não balançava a cabeça para cima e para baixo, só para os lados, querendo que ela parasse de falar, que deixasse de blablablá, que me beijasse, para que tudo acontecesse, para eu tocar a minha língua na sua língua, minha mão no seu sexo, meu sexo no seu sexo.
Juro que estou terminando…
Foi nessa hora, nesse justo momento, nesse exato instante, que ela, ao invés de beijar a minha boca, de tocar a sua língua em minha língua, de tocar a sua mão em meu sexo, de tocar o seu sexo em meu sexo e de ficar de boca fechada – por que será que as mulheres têm que falar tanto? – me disse que pensava no aquecimento global, na camada de ozônio e no degelo da Antartida, que Recife será inundada daqui a cinqüenta anos, já que está abaixo do nível do mar, que o sertão vai virar mar, que o mar vai virar sertão, que enchentes, tsunamis e furacões devastarão a terra, porque os líderes mundiais não entraram em acordo sobre o clima em Copenhague. Eu parei também de balançar a cabeça para os lados, pois já tinha parado de balançar a cabeça para cima e para baixo, para finalmente abrir a boca e dizer que não custava nada ela ficar de boca fechada por um instante, um só instante, que ninguém consegue entrar no clima sabendo das condições do clima daqui a cinqüenta anos, que a temperatura poderia subir, mas do jeito que a coisa ia, outras coisas certamente não subiriam, porque isso não é hora para ficar sabendo que sua cidade será inundada e que me ocorreu que eu também, assim como tantos outros, provavelmente, não teria onde morar daqui a cinqüenta anos, por causa da inundação em Recife, que ela falava em furacões, mas talvez fizesse tempestade em copo d’água.
Ela levantou, talvez porque não gostasse do que eu disse, porque percebesse que eu também não sabia ouvir, assim como todos os outros homens, ou detestasse o som da minha voz, ou odiasse minha eloqüência, ou ainda achasse a minha língua ferina e línguas ferinas não merecem ser beijadas. Em silêncio – só agora ela fez silêncio – ela sumia da minha vista, enquanto eu gritava, eu implorava, que ela falasse do aquecimento global, da camada de ozônio e do degelo na Antartida. Foi aí que eu…
(…)
Eu bem sabia que estava certo quando desconfiei que um dia você, que recebe meu dinheiro para me tratar bem, para cuidar do meu problema profissionalmente, sem motivo aparente, me botasse para fora e batesse a porta na minha cara. Tomara que daqui a cinqüenta anos a enchente inunde também o seu consultório e…


Eheheheh!
Não tem Rivotril que resolva o problema desse cara. Aliás, nem a inundação do Recife daria conta dele.
Coitada da terapeuta.
Mais uma crônica sensacional! A cada post fico mais fã sua. Continue escrevendo, moço.
Bom fim de semana!
Abraços