Onde há fumaça, há fogo 2
- on 9 de fevereiro de 2010, às 0:00h
- Divina comédia humana
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Sombrinha na mão, fazia eu o passo nas ladeiras de Olinda, seguindo e perseguindo um bloco de frevo aqui e outro de maracatu acolá, quando fui sacado abruptamente da multidão. Puxado pelos cabelos, fui conduzido à força até a calçada. Não pude deixar de pensar naquelas mulheres da pré-história assim levadas, de maneira tão gentil e delicada, por homens das cavernas, tacape na mão, num ato de disposição preliminar que geralmente dava início a algum empreendimento amoroso. Ainda bem que, tempos depois, inventaram o jantar à luz de velas, menos agressivo e de resultado mais satisfatório.
Mas, nas ladeiras de Olinda, preparei-me para algo menos afetivo. Poderia, por exemplo, estar sendo atacado por fanáticos seguidores de Pitombeiras, já que casualmente seguia a troça Elefantes, arqui-rival de antigos carnavais. Mas ao chegar à calçada, qual não foi a minha surpresa quando dei de cara com Nero, Imperador emperucado que botou fogo em Roma. Nosso último encontro, ainda me causava terríveis recordações. Por conta dele, fui alvo de investigação policial, onde se buscava apurar o meu envolvimento no incêndio criminoso que pôs abaixo o Mercado da Boa Vista, antigo reduto de boêmios e intelectuais e agora também de loucos de todos os gêneros. Ainda por sua causa, perdi a amizade e fui processo por Sigmund, psicanalista que ficou famoso por tratar das sem-vergonhices entre mãe e filho e que fincara raízes na bela praia de Intermares, território paraibano, onde também teve o seu consultório destruído por um incêndio provocado pelo Imperador. Ainda assim, com o couro cabeludo dolorido, como se houvera sido escalpelado, protestei pelos modos com que fui tratado. Em tom enérgico, disse que quem usava peruca era ele, não eu, portanto, aquilo doía pra burro. Ele demonstrou alguma irritação e foi aí que percebi que, em lugar de sua peruca de estimação, Nero apresentava alguns hectares de um desmatamento sem precedentes na história antiga.
Aportamos, não necessariamente por vontade minha, numa barraca de comes e bebes e passamos a conversar. Desgostoso, ele me contou, ao mesmo tempo em que pedia em meu nome uma cerveja e um Frango à Passarinha, que passaram a mão em sua peruca nas ladeiras de Olinda, quando ele acompanhava o Homem da Meia-Noite. O homem, não o da meia-noite, pegou fogo e quase pôs fogo no bloco, mas foi contido pelos foliões. Disse que acaso achasse o batedor de perucas, mandar-lhe-ia crucificar nos Quatro Cantos, no meio da folia de Momo. Se não achasse – eis o pior – poria fogo em toda a cidade histórica.
Tentei dissuadir meu pirômano amigo de tão assustadora idéia. Lembrei-lhe do desastre no Mercado da Boa Vista, do incêndio no consultório do Dr. Sigmund, da destruição de sua pousada em Porto de Galinhas e das cinzas que se transformou todo o seu império.
Nero ficou pensativo, comeu de uma tacada só o Frango à Passarinha e bebeu de um gole toda a nossa cerveja. Pediu um Sarapatel, segundo ele, invenção dos romanos, e começou a falar de sua vida. Visivelmente exasperado, contestou que o seu reinado estivesse sempre associado à tirania e extravagância, mas reconheceu uma ligeira predileção por uma ou outra crucificaçãozinha e pelas festinhas que costumava patrocinar regadas a vinho e a sacanagem muita. Negou envolvimento na morte do seu tio Cláudio e disse que se tornou Imperador em lugar dele, por causa muito justa.
Nero chorou sinceramente ao relembrar como havia ficado careca. Contou que tinha uma vasta cabeleira e que fazia sucesso com os meninos e meninas da sua época. Ele a havia mandado cortar, a pedido de sua mãe Agripina, para lançar moda nova no Império Romano. Aparou as madeixas e passou então a usar peruca, o que influenciou toda a corte de seu reinado. Logo, Agripina estava inaugurando a “Império do Chinó”, primeira loja de cabeleira postiça de Roma e ponto de partida para um projeto maior, o primeiro shopping da Antiguidade. Outras lojas de peruca tentaram abocanhar uma fatia do novo mercado, mas Agrepina passou a eliminar a concorrência, literalmente, com a ajuda do filho e de umas poucas crucificações. Certa vez, cansado da peruca, Nero decidiu deixar a cabeleira crescer novamente e foi aí que notou que, com o passar do tempo, o cabelo já não crescia mais. Tomado de cólera, mandou raspar a cabeça da sua mãe, para fazer-lhe novos cabelos, e ordenou a sua execução. Em seguinda, pôs fogo nos cabelos de toda a população e Roma então ardeu em chamas.
Decidido a interferir na história, comprei de um ambulante uma peruca colorida de palhaço e agraciei o Imperador. Ele se derramou em lágrimas sinceras e cobriu com satisfação a área de desmatamento capilar. Ainda emocionado, jurou deixar de lado essa mania incendiária e, prova disso, fez promessa de, na manhã seguinte, subir e descer ladeira fantasiado de bombeiro. Dei-lhe um abraço apertado e parti. Já ia indo longe quando ele me parou no grito:
― Pagai a conta, pagão!
Depois, seguiu atrás de um bloco, por certo, doido para incendiar o carnaval.




Amigo Dimas,
E o livro, tá de pé?
Gostei da crônica. Ritmo, transição, microuniverso, conjugação das estória.
Abraços.
Jonas
Isto é que chamo de viagem etílica-carnavalesca.
Humor em rítmo de frevo e cheio de achados.
Esse Nero da ilustração me é bem familiar…..
Nero é um louco! Incendiou meu consultório onde atendia o homem dos ratos. O bom foi que matou todos os ratos e curou meu paciente.
E Dimas é louco, também. Salva-se porque escreve bem.
Mas aparece em Intermares pra ver o que é bom pra tosse!
Caro Sigmund,
Ainda bem que o incendio no seu consultório não foi de todo ruim. A morte dos ratos veio bem a calhar. Lembro da ultima vez em que estive aí e fui analisado por um rato, pensando se tratar de um novo e revolucionário recurso da psicanálise. Inocentemente me conformava que cada doido tinha a sua mania.
Aproveito a missiva para mandar lembranças as tartarugas de Intermares, objeto de seu estudo sobre a infidelidade no reino marinho.
Abraços cordiais,
Dimas Lins