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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Calor medonho

Artur Perrusi

Todo mundo sabe que faz um calor danado em Recife. É oleoso, pegajoso, opressor. Por isso, morando perto do rio, junto da água, portanto, coloquei um calção de banho, minhas sandálias havaianas e fui andar na avenida. As pessoas me olhavam, alguns de maneira curiosa, outros mais inquisidores — as velhinhas, aparentemente, constrangidas. É um lugar de exercício e de passeio, a avenida Beira-Rio. Voltei ainda com mais calor.

Tinha que ir à cidade, ali no final da Boa Vista, perto da ponte e do rio. Com tamanho calor, fui como estava, isto é, de calção de banho e de sandálias, mais uma bolsa com meus pertences. Fui de ônibus, já que estava sem carro. Achei estranhas as olhadas insistentes das pessoas na parada. Era um ponto de ônibus perto do rio. Quando subi para o ônibus, não fui barrado pelo cobrador, porque ele ficou, aparentemente, surpreendido demais comigo. Não entendi bem o motivo, mas não me importei e deixei pra lá. Consegui um assento e fiquei sozinho, ostensivamente sozinho. Ninguém queria, vá lá saber, sentar do meu lado. Tudo bem, sou solitário mesmo e detesto conversar com o vizinho num ônibus. O inimigo é o Vizinho. Eles sempre conversam sobre tudo e sobre nada. Fiquei na minha.

Saltei do ônibus nas imediações do rio e do cinema São Luís. O calor estava insuportável; o sol, de lascar. Ainda bem que pusera protetor solar, antes de sair. Notei que as pessoas me olhavam, algumas crianças apontavam, e eu continuava a não entender a razão. Fui numa lojinha perto do cinema, o único lugar do planeta que tinha a pilha de meu relógio. O funcionário me atendeu friamente. Uma mulher, ao meu lado, parecia mal-humorada e se abanava toda. Praticamente, não fui notado. Comprei minha pilha.

Atravessei o rio. Uma cidade com rio e mar tem seus privilégios. Recife podia ser linda, pensei. Não é. Mas, na ponte, apreciava a possibilidade de sua beleza. Sentia, também, seu cheiro real de mijo. Nunca entendi bem por que esse cheiro é tão presente. Os recifenses, no centro da cidade, mijam sem parar? Provavelmente, séculos de mijadas causaram essa impregnação. Talvez, os culpados tenham sido os holandeses. Amsterdam tem cheiro de mijo? Não me lembrava mais, infelizmente. Como fazia muito calor e um sol de rachar, a beleza potencial desmilinguiu-se como uma maquiagem num rosto cheio de suor.

Andei até o Paço da Alfândega. Ali, no xópi center, começaram os problemas. A segurança me barrou. Estava sem camisa. Achei justa a proibição. As regras eram claras. Fazia parte do jogo. Mesmo assim, insisti:

_Veja, eu compro uma camisa ali naquela loja.
_Não pode. Não pode entrar sem camisa. Pra comprar tem que entrar.
_Mas está um calor danado aqui fora. Andar de camisa nesse clima é maluquice.
_Aqui, não sinto calor.
_Claro, o senhor está num ambiente climatizado.
_Pois é…
_Não posso entrar?…
_Não.

Fui embora. Notei que o segurança falava no seu comunicador. Não me apontava, mas acho que falava de mim. Sem muito o que fazer, fui andando até o Marco Zero, lá junto do mar. Foi aí que percebi, aproximando-se, um carro de polícia. Os policiais saíram do veículo e pediram meus documentos. Tinha todos, inclusive meu passaporte, pois queria ir até a polícia federal, ali no cais do porto.

_Passaporte?! Perguntou um policial, o mais velho e com cara de experiente.
_Sim, vou à polícia federal.
_Seu passaporte está irregular?
_Não propriamente. Quero só atualizá-lo.
_O senhor pretende ir à polícia federal de calção de banho e sem camisa?

Comecei a me irritar com a pergunta impertinente e sem lógica.

_Faz um calor medonho, não acha?
_Com calor ou sem calor, não pode andar nu pela cidade.
_Não estou nu.
_Quase.
_E estou perto do mar.
_Não entendi a relação.
_Mar é água, assim como rio. Na praia, andamos de calção de banho. E ainda tem o calor…
_Não estamos na praia.
_Mas estamos pertíssimo do mar.
_O senhor não pode andar desse jeito no centro da cidade.

Comecei, de fato, a ficar irritado.

_Onde está escrito que não posso andar de calção de banho? Qual lei me impede de andar assim no Marco Zero?
_O título VI do Código Penal trata dos crimes contra os costumes.

Opa! Não é possível que tenha encontrado um policial inteligente e que conhece as leis. É muito azar.

_Você está me dizendo que andar de calção de banho, nesse calor infernal, é um atentado ao pudor?
_Mais do que isso: minha dúvida, agora, é saber se haveria um atentado ao pudor sem violência.
_Violência?! Qual é a violência que estou cometendo?
_Ao pudor das pessoas, meu senhor.
_Mas, por exemplo, o atentado ao pudor mediante fraude exclui a violência!
_Pode ser… O senhor, então, confessa o atentado ao pudor e, ao mesmo tempo, que está fazendo uma fraude?
_Confesso nada. Só tentei dizer que tem atentado ao pudor sem violência.
_Estou, assim, diante de um atentado ao pudor sem violência?
_Você quer me empulhar. Eu não quis dizer isso.
_O senhor quer dizer o quê, afinal de contas?
_Quero dizer que tenho direito a andar de calção de banho no Marco Zero.
_Não tem. O senhor atentou ao pudor do segurança do xópi e daquela senhora ali.

De fato, tinha uma velhinha no outro lado da calçada. Quando me viu olhando, gritou:

_Tarado!!!
_Viu, só!? A senhora ali está indignada com o senhor. Por falar nisso, o senhor é um tarado?!
_De jeito nenhum! Não me ofenda. Essa senhora deve ser da Opus Dei!
_Aquela senhora acusou o senhor de tarado. Tenho que interrogá-lo. Gosta de meninas ou de meninos?

Fiquei fulo de raiva. Tentei ser irônico e desafiei, de vez, a autoridade e os bons costumes.

_Menininhas. Não gosto de velhinhas, certamente.
_De que idade?
_Nove anos. Pode ser de dez, onze, doze, no máximo. Quando aparecem os peitinhos e os pentelhos, não acho mais graça, meu pau já não fica duro.

O policial abriu bem os olhos, olhou o colega e disse:

_Chico, algema esse fdp aqui. Esse tarado!
_Não, não, estou brincando! Veja, tenha calma, por favor. O calor está infernal. Saio de casa de calção de banho, estou junto do mar e da água, e me chamam de tarado.
_Não se brinca com autoridade, meu senhor.
_Tudo bem, mil desculpas. Estou estressado. Sinto-me injustiçado.
_Não é o senhor que decide sobre a justiça nesse mundo. Vamos levá-lo à delegacia.

Fiquei com medo; na verdade, apavorado. Eu, na delegacia, preso numa cela com outros presos, e de calção de banho! Ia me lascar, com certeza. Decidi apelar. E lancei uma última cartada.

_Veja, a gente podia discutir melhor. Sabe como é que é, né? O preço da justiça… E fiz a minha melhor cara de jeitinho.
_A justiça é incorruptível, senhor, seus agentes, não. O senhor está muito encrencado.
_A gente podia se acertar. Juro que volto, agora, pra casa.
_Se acertar? Isso é uma cantada?
_Não, não! Não é isso…
_Estou brincando.
_Aaah…
_O senhor volta de táxi.
_Tudo bem, de táxi. Quanto?
_Cem reais.
_Mas isso é um roubo!
_O senhor está me chamando de ladrão?
_Não, não, estou achando caro, só isso.
_É o preço da liberdade para um tarado.
_Não sou tarado. Estou só de calção de banho e…
_150.
_Tá certo, tá certo! Mas só tenho 120.
_Fechado. E se manda daqui, senão aumento o preço.

Eu me mandei. Com toda essa confusão, senti-me completamente nu. Estava envergonhado e com um pudor digno de Madre Teresa de Calcutá.

Consegui apenas o quarto táxi. Todos passavam e aceleravam quando me viam. O taxista me perguntou:

_O senhor foi assaltado?
_Fui. Só me deixaram o calção de banho.
_Pensei que fosse uma sunga.
_Pois é…

Cheguei, enfim, em casa.

Fui direto ao chuveiro e tomei um baita de um banho.

Fazia um calor medonho.

Crônica publicada originalmente no Blog dos Perrusi.

6 Comentários para “Calor medonho”

  1. Gravatar

    Eita “Artur” …

    Quando vou visitar nosso amigo “Ducaldo” lá na Livraria Cultura do “Paço”, dou uns mergulhos no ‘Cais’ … Ducaldo apenas me aconselha a ter cuidado com as pedras!

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    Olá
    Cheguei ao seu blog através das indicações de Samarone, e , tudo isto aconteceu mesmo????????
    É até engraçado, se não fosse trágico, ainda bem que se safou.mas , que bobagem, a pessoa pode andar sem camisa. Agora , só de calção de banho acho que ainda não estamos acostumados, mesmo com o calor!Mas atentado ao pudor, acho que é demais !
    Luisisna

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    Luisiana,

    Seja benvinda! Apesar de cara de mofo, o blog está funcionando. É que passei um mês sem computador e aí ficou difícil atualizar. Devagarinho, vou botando cada coisa em seu lugar.

    Abraços literários,

    Dimas Lins

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    Tudo aconteceu mesmo. Inclusive, a estória é bem mais pesada. Ele não falou que roubaram o calção de banho. Foi preso nu, correndo na ponte. O coitado ficou traumatizado; atualmente, só anda de burca, por segurança.

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    Ah,Freud, Freud…quando você não explica, complica.
    Dimas, cadê? Saudade de tuas crônicas.
    Abraço.
    Magna

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    Magna,

    estou voltando. Tive varias dificuldades, entre elas, viajei e depois passei um mês sem computador.

    Alias, pretendo também voltar a ler os blogues como o seu, que deixei alheio a minha vontade.

    Saudações literárias,

    Dimas Lins

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