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Antes da enfermidade

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Vem (Vanessa da Mata)

Dimas Lins

Ela abriu a torneira e deixou a água escorrer para dentro da banheira. Sentou-se na borda e, delicadamente, com o toque dos dedos, experimentou a temperatura. Derramou pequenas porções de sais de banho e inclinou o rosto em direção ao vapor. Cerrou os olhos, entonteceu-se com o aroma e depois sorriu, perdida em pensamentos apaixonados. Ainda distraída, levantou-se e deixou a toalha cair ao chão, exibindo a simetria do seu corpo moreno para olhar nenhum. Com movimentos sutis, mergulhou na mistura deliciosa de água e espuma e encostou a cabeça na borda, deixando também exposta a ponta de um dos joelhos. Ficou naquela mansidão por algum tempo e só então se pôs a roçar suavemente a esponja em si mesma. Depois disso, levantou e dirigiu-se ao chuveiro para tirar a espuma. Ao final, enxugou seu corpo e embrulhou-se na toalha.

Já no quarto, olhou a cama, passou suavemente a mão sobre a colcha macia e apertou um dos travesseiros de pena de ganso contra o peito. Dirigiu-se ao guarda-roupa, abriu uma das gavetas e cobriu-se apenas com as peças mais íntimas especialmente compradas pela manhã.

Retornou ao banheiro e parou em frente ao espelho com o estojo de maquilagem. Por seu rosto triangular, passou uma camada leve de pó. Por seus olhos grandes, aplicou uma sombra clara sobre a pálpebra, um tom mais escuro ao longo da parte inferior dos olhos e máscara para os cílios. Pelos contornos grossos da sua boca, desenhou com o batom, em tom vermelho, logo abaixo da linha natural dos lábios. Penteou a sobrancelha, escovou os cabelos pesados e volumosos e borrifou pequeninas porções de um perfume marcante.

De volta ao quarto, foi tomada pela dúvida na escolha do vestido. Num tira-e-põe infinito, provou todas as cores e modelos. Por fim, optou por um vestido preto de alças finas, valorizando seus ombros e seios. O pescoço ficou desnudo, sem nenhum adorno, mas nas orelhas colocou um brinco de fios de ouro e gotas de diamantes. Nos pés, sandálias abertas de salto alto e fino na cor do vestido. Olhou-se no espelho e sentiu-se poderosa e confiante.

Na sala de jantar, uma mesa cuidadosamente posta para dois. Pratos de porcelana pintados à mão em harmonia com os talheres de prata, guardanapos de linho delicadamente presos a uma peça de metal, dois castiçais de cristal com velas longas e um vaso alto com lírios do campo graciosamente postos sobre uma toalha de linho branco. Ela acendeu as velas da mesa, além das outras espalhadas pela sala. Apagou as luzes e viu-se num ambiente ardente e sedutor.

Na cozinha, esperando para ser servido um confit de pato e risoto de funghi. Checou, por fim, as duas garrafas de Pinot Noir, as preferidas dele, de cor viva, aroma pronunciado e variado, sabor redondo e agradável.

Retornou à sala, colocou uma música romântica, conferiu as horas e sentou-se no sofá. Estava pronta e tudo era perfeito. Fechou os olhos e imaginou a noite. Dali a pouco, entraria num mundo de desejo e prazer. Viajou na canção e imaginou as mãos dele, seu toque e sua boca. Envolvida pelos pensamentos, sentiu os arrepios de seus pêlos, como se tiritasse de frio e depois levou suas próprias mãos ao colo. Ardia. “Vem, antes que haja enfermidade”.

O movimento dos ponteiros aumentava a sua ansiedade pela espera. Pegou o celular nas mãos e pensou em ligar, mas se conteve, para não deixá-lo perceber sua aflição. Segundos pareciam horas e minutos, a eternidade.

Repentinamente, a campainha tocou e seu coração disparou. Ajeitou-se no vestido e tentou parecer natural. Esperou um momento e abriu a porta. Recebeu-o com um sorriso e um leve beijo e convidou-o para entrar. Começava uma noite longa.

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