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As horas

Pela Internet (Gilberto Gil)
Dimas Lins
As horas passam devagar e eu batuco inquieto na mesinha do computador. Minha mulher estranha o barulho e vem ver se algum maracatu, por engano, não entrou em nosso apartamento. Como não havia sinais de carnaval em nenhum dos cantos da casa, sou forçado pelas circunstâncias a dar explicações sobre a minha euforia, já que estou parado em frente ao computador olhando para uma tela vazia.
Explico que minha euforia vem da ansiedade. É que aguardo a estréia do novo Estuário do jornalista, escritor e tricolor Samarone Lima. Digo que a qualquer momento o blog entrará no ar e que eu quero ser o primeiro a ter o prazer de vê-lo surgir em grande estilo. E conto orgulhoso que a ansiedade vem acompanhada de uma grande satisfação, vez que tive alguma participação na mudança de ares do Estuário.
Contente com a notícia, minha esposa resolve então sentar-se ao meu lado para, junto comigo, esperar que o blog dê o ar de sua graça. Embora prefira a solidão na hora da leitura, me aperto na cadeira e aceito de bom grado a sua companhia.
Mas nem bem me acomodo e já sou interrompido pelo toque da campainha, sempre descabida em horas inoportunas. Como minha esposa está grávida, parto com passos largos em direção à porta para ver quem é. E respiro aliviado ao ver a sua irmã chegar, pois sei que as duas certamente se distrairão jogando fora algumas conversas miúdas. Assim, eu, generoso que sou, abrirei mão da sua companhia para ter de volta a solidão da tela do computador.
Qual o quê. Sou pego de surpresa quando minha cunhada, ao saber da novidade, também decide esperar pela estréia. E não bastasse a contrariedade de ter perdido de vez a possibilidade de uma leitura sossegada, ainda sou obrigado a ceder o meu lugar, como bom cavalheiro que sou.
Agora estou em pé e com a visão atrapalhada pelas damas sentadas à minha frente. Mas antes que eu encontre a posição adequada para enxergar melhor a tela do computador, minha esposa, contagiada pelo clima de cinema em casa, me pede carinhosamente para fazer uma pipoca. E nem dá para dizer que não, pois ela aponta para a sua barriguinha e diz que é desejo provocado pela gravidez. Com a chantagem emocional, me dou por vencido e decido satisfazer sua vontade.
Mas nem bem começam a estourar os primeiros grãos de milho, meu vizinho bate a porta atraído pelo cheiro. E eu, achando pouco a situação, ainda dou com a língua nos dentes e entrego de bandeja que a pipoca é por conta da reestréia do blog de Samarone.
Em poucos minutos, meu apartamento está tomado de gente trazida pelo vizinho penetra. E tal é a confusão que até o síndico bate à minha porta para reclamar. Diz que havia chamado a polícia, mas, ao saber o motivo da balbúrdia, decidiu ficar. E a polícia, por sua vez, que entrou sem bater, ficou também, como ficaram todos aqueles que apareceram movidos pela curiosidade. E havia tanta gente que já não era possível permanecer em minha própria casa.
Por isso, tomo a escada do edifício e dou de cara com uma fila de gente subindo para o meu apartamento. Na rua, a cidade parece deserta e não é difícil imaginar aonde foram todos.
Depois de caminhar um pouco, finalmente encontro uma lan house. Não há ninguém por perto, nem mesmo o dono. Escolho um computador e espero pacientemente que o navegador da internet seja carregado. E ele abre. E finalmente surge diante de mim o que eu queria ver. Bonito e elegante, mas com a simplicidade de sempre.
Para Samarone, escritor das coisas mínimas e desnecessárias. 4 comentários
Cantiga do Estradar

Cantiga do Estradar (Elomar)
Dimas Lins
Peço licença aos senhores, donos da casa, para me apresentar. Nascido e criado em Recife, sempre me senti, desde criança, atraído por pequenas histórias do cotidiano. Eram pequenos acontecimentos com familiares, amigos, vizinhos, colegas de escola, professores e mesmo comigo. Ouvia cada narrativa ou vivia cada acontecimento como se estivesse em um filme, onde nós, reles mortais, éramos os legítimos protagonistas. Aos meus olhos infantis, estas narrativas tornaram-se fábulas que me instigaram a imaginação.
O tempo passou e como não houve outro jeito, eu cresci. Entretanto, o fascínio por histórias comuns e banais perdurou e passei a vislumbrar, ainda que com uma compreensão incipiente das coisas, o seu valor. A riqueza destes pequenos contos traduz as alegrias, tristezas, rancores, encatamentos e toda sorte de sabores que experimentamos, deixamos de experimentar ou experimentaremos ao longo das nossas vidas.
Gosto das coisas simples e admiro quem consegue enxergá-las e, mais ainda, transmiti-las com igual simplicidade. Não raro, costumo me isolar em meu próprio universo ao me deparar com as essas pequenas coisas da vida, o que considero a forma mais pura da beleza. Por isso, decidi juntar as palavras de tantas pessoas que enriqueceram minha vida, às minhas próprias, tão frágeis de qualidade literária, para criar o Estradar.
O Estradar é um espaço criado para contar um pouco dessas pequenas histórias. Por aqui passarão pequenos contos do nosso cotidiano, uns reais, outros nem tanto, que serão acompanhados de belas canções, na medida do possível. Será, enfim, uma estrada por onde passarão músicas e crônicas de uma gente brasileira.
O nome do blog vem da música Cantigas do Estradar, do cantor e compositor baiano Elomar, conhecido por sua linguagem dialetal sertaneja. A cantiga retrata as andanças de um sertanejo e suas duras passagens pelo sertão. Embora o blog não tenha compromisso com a forma ou com temas específicos, ocorreu-me que a palavra estradar representaria com simplicidade os caminhos que nos levarão a essas pequenas histórias.
Abrimos a porta da nossa casa. À nossa frente, apenas a estrada. Sigamos.
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