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Eu, robô
Máquina II (Belchior)
Dimas Lins
Na falta de tempo, na absoluta falta de tempo, resta-me apenas cuidar da menina que ainda não chegou. Corro agora de um lado para o outro, para garantir que ela tenha toda a atenção que eu possa dar, quando nascer.
Se não vim aqui por uns dias, foi por ela. E se não rabisquei alguma coisa - algo que tornou de mim um homem tão perdidamente apaixonado - é porque não pude. E embora o coração padeça - pelas crônicas e contos não materializados - e deixe as minhas mãos um tanto trêmulas, pela saudade do toque do teclado, nada havia o que eu pudesse fazer. Entre um tiquinho e outro de tempo que tenho livre das obrigações, o corpo não agüenta. E quer cama, e cai no sono, e apaga.
E mergulhado no cansaço, desorganizo minhas noites para aproveitar melhor o dia. Mas, às vezes, de quando em quando, espio pela janela e olho a estrada em frente da minha casa.
- Tem alguém aí?
Quando vejo uma alma viva, mesmo virtual, boto a cara no mundo e puxo uma conversa preguiçosa, até que o sono me alcance. E ele alcança. Se ter um filho é mesmo padecer no paraíso, acho que eu já estou por conta. Mas não reclamo. Aliás, reclamo, mas só pela falta de tempo.
Mas não é apenas pela garotinha que vem lá que ando tão ocupado. Além do trabalho, de onde tiro o meu sustento, e das palavras que, vez por outra, escorregam da minha mão para atravessar essa estrada, me sinto atraído por esse mundinho danado feito de megabytes, css, plugins e php, que é capaz de ligar Recife, o centro do meu universo, a qualquer parte do planeta. E, de Pernambuco, sigo escrevendo para o mundo, ainda que ninguém leia, e fazendo páginas na internet, somando minhas palavras a tantas outras.
Também resolvi aprender a tocar violão. Por um sonho adolescente e por minha filha, é claro. Já aprendi a tocar - maneira de dizer, pois dói até nos meus ouvidos - duas músicas: Cai, cai balão e Atirei o pau no gato. No ritmo que estou, provavelmente daqui a dez anos, ainda estarei executando as mesmas canções.
- Cai, cai balão de novo, papai?!
- Mas minha filha, é com tanto carinho! Ouve só mais um pouquinho, vai?
- Está bem! Mas só desta vez, viu?!
Talvez eu queira - não sei bem - aproveitar cada dia de sua infância, que já já começa, para reviver um pouco da minha.
Tudo está quase pronto e eu espero descansar um pouco, antes que ela chegue. Mas até lá, me sentirei uma máquina, pois não posso parar, enquanto faltar a mínima coisa.
Eu, robô.
Passa cansaço, passa, que não posso dar conta de tudo com você na minha cola!
4 comentáriosConversando na mesa de bar
Pintura: Vicent Van Gogh

Conversando no bar - Elis Regina (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Dimas Lins
Crônica inverossímil de uma conversa em mesa de bar
Estávamos às voltas com uma celebração, mas àquela altura havia apenas resquícios de uma lembrança remotamente depositada entre os neurônios do hipocampo (segundo Houaiss, aquela estrutura curva existente na parte medial do soalho do corno inferior do ventrículo lateral cerebral acusada sem provas de ser a responsável pelo armazenamento da memória).
E não importava. O caráter essencial e determinante do encontro orbitava em torno de si próprio. Nenhum motivo especial, nenhuma razão particular. Bastavam apenas duas condições para justificar a convergência de interesses: boa conversa e cerveja no copo. Existem certamente estudos científicos baseados em pesquisas realizadas com alcoólatras inveterados que apontam que apenas a segunda condição é necessária. Há controvérsias quanto à questão. Assim, defender uma tese apontando para qualquer das direções só fará mesmo sentido numa mesa de bar onde, é claro, tudo tem cabimento.
Mas voltando ao bar, já havia se passado algumas horas desde o início das nossas atividades etílicas e, exatamente por isso, a conversa entrava em sua fase mais enroscada e de difícil compreensão. Ela passava a pertencer a um universo nebuloso onde cada palavra só encontra sentido graças à alteração química na corrente sanguínea. Nessas ocasiões, o ar torna-se rarefeito, os lábios ressecam, a bexiga pede penico, o fígado, outrora resistente, implora por socorro, a língua perde a coordenação motora e atropela as palavras, os olhos sofrem um ataque de estrabismo, o estômago é acometido por uma súbita inflamação na mucosa e o nível mental regride a pelo menos um ponto abaixo do tolerável.
Em minha teoria, baseada em dado científico nenhum, as maiores discussões filosóficas devem ter ocorrido em uma mesa de bar. Como contraponto, as maiores bobagens provavelmente também foram ditas por lá.
- Você anda escrevendo umas coisas legais, embora sejam bem tristes.
- É que um psiquiatra amigo meu disse que tenho a alma melancólica.
- Qual psiquiatra?
- Artur.
- Artur?!
-É.
- Mas, Dimas… Ele disse isso pra mim também!
- Verdade, Artur?!
- Pode ser.
- Já vi que você diz isso pra todos.
- Coitados dos pacientes. Seja qual for a patologia, receberão o mesmo diagnóstico.
- Bobagem, Josias. Vocês não são meus pacientes. Afinal, não saio com eles para beber…
(Pausa para um gole de cerveja).
- …Exceto se pagarem a conta ou levarem a bebida para o consultório.
- É justo.
- De acordo.
- Então vamos organizar assim, eu tenho a alma melancólica e você, o coração sentimental. Que tal, Dimas?
- Melhor ouvir o psiquiatra. E aí, Artur?
- Pode ser.
- Pode ser ou é?!
- Pode ser que seja.
- Mudando de assunto, eu acho que de nós três você é quem escreve melhor.
- Deixa disso.
- Falo sério! Cada um tem o seu próprio estilo, mas você tem algo mais. É ou não é, Josias?
- É. Às vezes, você dá umas rajadas no texto que são fantásticas.
- Meus caros, suas críticas literárias não me servem. Dimas, por exemplo, quando ama alguém não enxerga os defeitos, só as virtudes.
- Mas eu não amo você.
- Que seja. Além do mais, aprendi com o meu pai a não dar importância aos elogios, pois eles levam à vaidade e “a vaidade é o prato dos parvos”, já dizia Jonathan Swift.
- Mas ele também dizia que os sábios também condescendem em comer desse prato muitas vezes.
- Apoiado, Josias! Aproveito a deixa e, além de retirar o elogio, ainda vou radicalizar. Você é uma usina de cinismo!
- Usina de cinismo é o cacete!
- Ué, pelo que eu entendi, você havia aprendido com seu pai a lhe dar melhor com essas coisas.
- É, mas aprendi com minha mãe a não levar desaforo pra casa.
- Agora, eu tenho mesmo é inveja de Josias. O cara escreve cada poema pra se lascar! Eu mesmo não sei fazer poema. Aliás, tenho a maior dificuldade em diferenciar poema de poesia, quanto mais escrever. Falar nisso, quanto tempo você leva para fazer um?
- Rapaz, depende. Às vezes faço em cinco minutos, mas já fiz um poema em três anos.
- Três anos?!
- É.
- É por isso que não dá para viver de literatura neste país.
- Você pode não fazer poema, mas suas crônicas sobre o cotidiano são muito boas, Dimas.
- Mas, Josias, eu não escrevo sobre o cotidiano.
- Como não?! Você só escreve sobre o cotidiano.
- Eu escrevo ficção.
- Ficção? Você já escreveu alguma vez sobre invasão alienígena? Quem sabe sobre uns vermes assassinos ou alguma viagem ao centro da terra?
- Mas tem uma crônica que eu falo em disco voador.
- Muito pouco. Além do mais, o disco voador é só a imaginação coletiva de alguns personagens. Você escreve mesmo é sobre o cotidiano.
- Meu Deus, não me reconheço mais! Sempre pensei que escrevia sobre ficção!
- Para ser escritor de ficção você precisa ousar mais, não é Artur?
- “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente; não ousar é perder-se”, já dizia Kierkegaard.
- Então eu estou num momento bastante ousado, pois já não tenho equilíbrio nenhum.
- Eu acho a obra de Kierkegaard de difícil interpretação.
- Eu acho mesmo é o nome de difícil pronúncia. Nem ouso dizê-lo, ainda mais nestas condições.
- Agora numa coisa vocês concordam. Ana é a musa dos blogues literários.
- Que Ana?
- Do Ninho dA’Ninha.
- Ah, Cláudia!
- Que intimidade é essa com a minha musa?
- Sou íntimo, meu chapa! Morra de inveja!
- Faltou ela no bar.
- Faltou.
- Tá faltando também cerveja.
- Garçon, mais uma!
Artur Perrusi é psiquiatra e editor do Blog dos Perrusi, enquanto Josias de Paula Jr. é sociólogo e editor do blog Inscritos em Pedra. Além dos blogues pessoais, os três personagens desta crônica também escrevem para o Torcedor Coral. Esta é uma obra de ficção, mas pode não ser, já que descobri que só escrevo sobre o cotidiano.
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O país da delicadeza perdida

Acalanto (Chico Buarque)
Dimas Lins
Em Porto Alegre, desde o dia anterior, um homem velho está jogado numa maca no corredor de um hospital público e agoniza. Sem assistência médica, apesar da insistência dos parentes, ele morrerá em alguns minutos. Faltam leitos, médicos, medicamentos e solidariedade, embora sobrem justificativas injustificáveis por todos os lados.
No Rio de Janeiro, um jovem de classe média sobe o morro para conseguir mais drogas. Com seu dinheiro, traficantes comprarão novas armas e, entre elas, estará um fuzil AK-47 com capacidade para despejar 650 tiros por minuto. Dali a cinco dias, uma bala perdida disparada deste fuzil matará acidentalmente um jovem estudante morador do morro. Ele chegará em casa no momento em que policiais e bandidos trocarão tiros na favela.
Numa esquina de Recife, uma professora, em poucos instantes, receberá uma bala na cabeça durante um assalto. Ela estará aguardando a luz verde do semáforo e tentará arrancar a toda velocidade ao perceber que uma arma está sendo apontada para a janela do seu carro. O ladrão fugirá, em seguida, carregando consigo uns poucos trocados e um celular.
Em Brasília, políticos rasgam diariamente a constituição federal, e legislam em causa própria. Numa inversão de papéis, estes servidores públicos servem-se daqueles a quem juraram servir, para aumentar suas riquezas, prestígio e poder.
Em poucas horas, numa favela em Salvador, um homem espancará seu filho de menos de um ano de idade até a morte. O pai alcoólatra alegará, em sua defesa, a irritabilidade causada pelo choro do bebê. O choro da criança virá da fome.
Em Belo Horizonte, na volta de um feriado, um motorista em alguns minutos atropelará um pedestre que caminha no acostamento. Preso em flagrante, ele alegará que apenas tentava fugir do engarrafamento e ganhar alguns minutos na viagem. O homem morto, um simples camponês, deixará mulher e filhos.
Em São Paulo, uma empregada doméstica baterá contra a parede a cabeça de uma velha dona da casa, uma mulher sozinha presa a uma cadeira de rodas, e causará traumatismo craniano. Os filhos ficarão horrorizados e esquecerão que foram responsáveis por deixar a própria mãe aos cuidados de ninguém.
Em Maceió, amanhã neste mesmo horário, um adolescente será assassinado por um cidadão comum por haver molhado suas calças, enquanto passeava de bicicleta numa rua alagada da cidade.
Somos um país infecto, bacterializado e apodrecido. Corre em nossas veias um sangue contaminado de coisas vis. Valorizamos a individualidade, a covardia, o egoísmo, a corrupção e a violência. Em contraponto, desprezamos a boa vontade, o respeito à vida, a compaixão e o amor ao próximo.
Somos um país de acomodados, de homens e mulheres voltados com os olhos para o próprio umbigo. Assistimos indiferentes à fome estender a mão nas janelas dos nossos carros, à miséria se deitar embaixo das marquises nas noites frias e à desesperança invadir os corações dos desprovidos do necessário.
Escondemos o sol dos desassistidos, semeamos a pobreza, cultivamos o desespero e colhemos bestialidades. Fingimos compaixão, imaginamo-nos solidários, mas pregamos o abandono. Somos homens e mulheres vítimas e algozes da nossa própria brutalidade.
Faltam-nos a generosidade de desejar bom dia e o interesse sincero pelo outro, pois nos acostumamos ao “cada um por si”. Faltam-nos o desejo da felicidade alheia e o querer bem do outro, sem a expectativa da contrapartida.
Faltam-nos a sensatez, a civilidade, a caridade, o perdão e o sacrifício. Faltam-nos Justiça, Estado e Governo. Faltam-nos coragem, vontade e indignação. Faltam-nos compreensão, amizade, razoabilidade e ação. Faltam-nos ser homens e mulheres de verdade. Falta-nos vergonha. Falta-nos sensibilidade. Falta-nos desapego. Falta-nos serenidade. Falta-nos poesia. Falta-nos razão. Falta-nos educação. Falta-nos querer.
Faltam um gesto, um abraço, um aperto de mão e um sorriso. Faltam gratidão aos pais e respeito aos desiguais. Falta-nos tolerância. Falta-nos esperança. Falta-nos carinho e atenção. Falta-nos amar.
Há um desencanto em mim. Há também aflição e temor. Quero ter um filho e vê-lo acordar disposto. Quero levá-lo para brincar nas praças e nos parques da minha cidade, como eu fiz um dia. Quero vê-lo sorrindo, maravilhado com o mundo e encantado com as pessoas. Quero muito um filho, mas tenho medo de despertá-lo no país da delicadeza perdida.
8 comentáriosUma crônica por acaso

Canção por acaso (Adriana Calcanhoto)
Dimas Lins
Alguns amigos têm me procurado para saber se estou bem. Alegre e satisfeito com a atenção e a demonstração de amizade, tenho sempre respondido que sim, que estou muito bem. Aproveito obviamente essas ocasiões para também perguntar se os amigos vão bem. Geralmente vão, mas, apesar da serenidade na troca de palavras, ainda permanecem desconfiados sobre o meu estado.
No começo, devo confessar, estranhei a preocupação, pois como me olhava no espelho diariamente e não via sinais de abatimento, ficava tentando imaginar por qual motivo algumas pessoas contavam com a possibilidade de eu estar com o espírito um tanto perturbado. A primeira coisa que pensei é que minha aparência deveria estar horrível. Como não gosto muito de me barbear, isso parecia fazer algum sentido.
Por isso, como primeira medida, tomei a resolução de fazer a barba mais vezes por semana. Não custava nada arriscar e talvez isso melhorasse um pouco o meu aspecto. E embora minha esposa agradecesse minha nova resolução envolvendo lâmina e espuma, as impressões sobre o meu abatimento não se modificaram. Só soube de que se tratavam as preocupações zelosas, quando recebi um e-mail de um amigo dizendo claramente sua motivação. Tentei tranqüilizado, também por e-mail, e acabei recebendo de volta uma mensagem de alívio.
É que alguns dos meus amigos têm acompanhado o Estradar e, obviamente, percebido alguns contos e crônicas um tanto mais densos e, à toa, acabam se preocupando. Perguntam se estou bem, se meu casamento também vai bem e seguem levantando todo tipo de suspeita sobre o que anda me afetando o pensamento.
Mesmo bem, achei que não deveria desprezar impressões de amigos tão leais. Depois de conversar com a minha esposa, decidi procurar alguém que entendesse do assunto e, como nestes casos não há nada melhor do que procurar um especialista, decidi me aconselhar com um psiquiatra. Porém, não poderia ser um profissional qualquer. Teria necessariamente que ser alguém gabaritado, pois, do contrário, um médico inexperiente poderia tomar-me por louco ou depressivo e eu teria muita dificuldade em provar o contrário, pois já havia suspeitas nesta direção. Procuraria, assim, o melhor entre os melhores.
Resolvi me informar por andava Sigmund Freud. Afinal, ninguém melhor que ele para desembaraçar o caso. Embora alguns atestassem que o pai da psicanálise já havia morrido, decidi confirmar a veracidade da informação. Depois de muitas pesquisas, não só descobri que ele está muito bem vivo, mas também morava próximo a minha cidade. Descobri mais. Descobri, por exemplo, que ele não é austríaco coisíssima nenhuma! Longe disso. Que apenas havia morado na França, onde fez doutorado. Na verdade, Sigmund é pernambucano e hoje clinica em João Pessoa sob a alcunha de Dr. Rutra, para manter-se incógnito. Como não tinha dúvidas das minhas fontes, peguei o carro e fui bater em Intermares, local de seu consultório, na filial paraibana.
Confesso que fiquei surpreso, quando o vi. Aquela imagem de homem de barba e cabelos brancos não era verdadeira. Tudo fazia parte do folclore em torno dele. Ele, na verdade, era mais baixo do que eu e tinha os cabelos castanhos, um pouco encaracolados. Perguntei, ainda tomado de grande espanto, por que ele aparentava ser tão jovem e também a razão de nunca revelar publicamente sua condição de brasileiro. Com um ar abusado, como se houvesse respondido tantas vezes a mesma questão, me disse que tem fez feito seguidas plásticas e aconselha o mesmo a qualquer um que entre em seu consultório. Além do mais, mantivera em segredo a sua brasilidade, para ganhar notoriedade por seu trabalho. Achava que ninguém daria bola para aquela história sobre Édipo e sua mãe. No máximo, apontar-lhe-iam o dedo e acusariam os brasileiros de serem todos pervertidos. Não queria isso.
Passada a fase preambular em que lentamente eu me acostumava com o seu forte sotaque pernambucano misturado a uma indisfarçável e artificial pronúncia alemã, Sigmund perguntou-me o que me angustiava. Disse-lhe que tudo estava bem comigo e que a questão era os amigos. Afirmou que se o problema não era meu, os amigos que viessem se tratar. Não dava. Eles eram muitos e a conta da consulta certamente sairia além da conta e da minha própria conta. Mas em poucas linhas, expliquei-lhe a razão de suas preocupações. Falei do blog e dos textos tristes que gosto de escrever. Ele se virou em direção ao seu computador e pediu-me o endereço na internet. Em poucos segundos, estava ele, o pai da psicanálise, lendo minhas crônicas. Primeiro deu uma leve risada e disse que tinha gostado de alguns contos psiquiátricos. “Muito loucos!”, foram suas palavras. Depois, mais sério, pôs-se a ler as crônicas carregadas de tristezas e amarguras. Leu dois ou três textos e, ainda com um ar grave, perguntou-me se eu amava a minha mãe. Respondi um óbvio “claro que sim!”, mas ele não mudou a fisionomia. Ao contrário, continuo a me fazer perguntas.
– De que forma?
– Como de que forma? Como mãe, é claro! - respondi meio aborrecido, imaginando aonde ele queria chegar.
Ele deu um suspiro contrariado e seguiu dizendo que a relação entre pais e filhos já não era mais tão interessante para a psicanálise. Em seguida, deu seu parecer. Disse que todo escritor, por natureza, tem a alma perturbada. Embora eu não seja escritor, posso dizer com convicção que, ao menos pelo espírito perturbado, estou no caminho certo. Assumo que, mesmo sem muita habilidade, misturo o triste e o engraçado, a loucura e a sanidade, pois assim são os corações humanos. Rabisco pelo acaso e pelo prazer da escrita.
Sigmund acrescentou que embora eu tivesse a alma melancólica, posto que enxergava beleza na tristeza, também tinha o coração travesso. Por fim, sentenciou que a única coisa que ainda aperreava o meu juízo era o velho e glorioso Santa Cruz Futebol Clube, mas isso não era culpa minha e que ele próprio também andava aperreado pela mesma razão.
Já em casa, concluí que certamente meus escritos podem confundir os amigos. Afinal, eles não conheciam esse meu lado rabiscador e de repente passaram a me enxergar como alguém “enterrado em meu próprio corpo”. Sem contar que uso a separação como tema recorrente em meus contos. Mas para tudo há uma razão.
O Estradar tem sido um companheiro inestimável que me permite experimentações literárias. E como não encontrei um único estilo que abrigue as minhas medidas, me aproveito de todos os que encontro pelo caminho para experimentar. Nem sempre o que escrevo está contextualizado no mundo real, a não ser, certamente, o fato de usá-lo como fonte de inspiração.
O coração humano, em toda a sua beleza e inquietude, é a minha musa inspiradora. A minha medida, enquanto rabiscador, é não ter medida. Procuro tentar todas as formas até encontrar o meu próprio caminho ou perceber que meu estilo é não ter estilo nenhum. O que me importa mesmo é o prazer incontrolável que sinto em escrever, ainda que o faça com certa fragilidade literária.
O Estradar tem sido um grande desafio, porque não é fácil associar uma música a um texto. De fato, em muitas situações, primeiro escolho a música, depois rabisco a crônica. Nesse aspecto, é o tema da música que determina o que o texto dirá. Por isso, o processo de criação, às vezes, tem sido lento e dolorido.
E não tendo um único estilo, se eu pudesse me definir como rabiscador, usaria as palavras de Adriana Calcanhoto, que, por acaso, me empresta sua música como âncora neste texto. Escrevo sem ordem, sem harmonia, sem belo, sem passado. Sem arte, sem artéria, sem matéria, sem artista, sem voz, sem formato. Sem escalas, sem achados, sem sol, sem tom, sem melodia. Sem tempo, sem contratempo, sem mito, sem rito, sem ritmo, sem teoria. Escrevo uma crônica por acaso e, quem sabe um dia, um texto sem palavras.
Ah, antes que eu me esqueça, aproveito para esclarecer aos amigos que meu casamento vai muito bem, obrigado, e que sou um homem feliz.
8 comentáriosQue a terra nos seja leve

Pequeno perfil de um cidadão comum (Belchior/Toquinho)
Dimas Lins
A morte ainda causa espanto. Não sei exatamente se o que me espanta mais é o fim da existência ou a ausência, em caráter definitivo, de quem amamos. Sinto-me incomodado em saber que, na maioria das vezes, esta separação permanente ocorre a contragosto dos que vão e dos que ficam. A natureza natural da morte encontra resistência na naturalidade do sofrimento, causado pela privação do convívio. Não importa se há outra vida além desta vida, pois, ainda assim, a morte causa a ruptura no tecido social, deixando um oco na célula familiar. E esse vácuo se estenderá entre os amigos, pelas ruas do bairro, pelos cantos da cidade e pelos rincões do país.
Soube da morte do pai de um amigo, poucas horas antes do funeral. Passei o dia anterior desconectado do resto do mundo, por causa da bateria do meu celular e, por isso, recebi a notícia apenas no dia seguinte.
Apesar da amizade de muito tempo, não conhecia seu pai. A bem da verdade, não sabia quase nada da vida dele, embora soubesse os detalhes de sua morte. Senti uma sensação estranha ao perceber que conhecia mais sobre as circunstâncias da sua morte do que sobre todo o resto de sua vida. Fiquei me perguntando sobre ele e tentando imaginar seu modo de viver.
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida
Na entrada do cemitério, emoções se misturam. Há um entra e sai de lágrimas e dores, enquanto ambulantes, flanelinhas e coveiros, imunizados pelo cotidiano, falam alto e até dão gargalhadas. O mundo dos vivos precisa de reformas.
Ao lado da minha esposa, atravesso em silêncio as ruas cercadas de mausoléus e me dirijo à capela. Lá dentro, entre preces e cânticos, encontro dezenas de pessoas mergulhadas em profunda tristeza. Embora não saiba o que fazer nessas horas, me aproximo do amigo e dou-lhe um abraço, sem dizer uma só palavra. O silêncio é melhor do que uma palavra errada. Ele, apesar da perda, parece bem, embora as aparências possam enganar.
Em pouco tempo, alguém se aproxima e pergunta sobre as circunstâncias da morte. Ouço o relato, exaustivamente repetido por ele - imagino - sobre o enfarte do pai na sexta-feira, a melhora súbita na manhã do sábado e o falecimento no meio da tarde. A morte ocorreu enquanto o pai conversava com o médico. Dizia que estava se sentindo bem e queria ser transferido da UTI para um apartamento no hospital. O médico, depois de dizer que melhor seria esperar até a segunda-feira, virou-se para falar com a enfermeira. Foi nesse exato momento que veio outro enfarto e travou-se uma luta para manter o paciente vivo. Não foi possível.
Depois do relato, o ouvinte se afastou e ficamos a sós. Meu amigo comentou que há vinte horas era massacrado por rituais fúnebres. Cansado, concluiu dizendo que queria apenas que tudo terminasse, para que todos pudessem descansar. Não entendo a maratona a que a família e os amigos têm que se submeter durante um funeral. Desde a liberação do corpo pelo hospital, a demora no IML e a contratação de uma agência funerária que, em muitos casos, age como urubus, não se importando com a dor da família. Mas o pior de tudo é o velório que, às vezes, leva a exaustão corações já exaustos.
Enfim, chega a hora de levar o caixão e me aproximo pela primeira vez para oferecer ajuda. Ao ver o morto, lembrei-me das palavras de Afta no Blog dos Perrusi, onde ela diz:
Mas havia um corpo ali dentro, um corpo morto, inerte, agressivamente inerte. O que choca naquele corpo é a radical ausência de movimento. A gente olha um corpo humano e espera ver alguma vida lá dentro. Mas ali não. O mais feio da morte é essa ausência absoluta de movimento. Olhando bem, o corpo tem tanto a ver com a pessoa que morreu quanto suas roupas ou até a madeira do caixão.
Saímos da capela em direção ao jazigo. Durante o percurso, o silêncio é interrompido apenas pelo vento nas folhas das árvores e pelas pisadas das pessoas que acompanham o cortejo. Numa das ruas do cemitério, uma cena me comove. Um homem vestindo uma farda de motorista ou de cobrador de ônibus está sentado à frente de uma das gavetas funerárias. Ele está só, de cabeça baixa e em silêncio. Ignorando a multidão, permanece na mesma posição, enquanto passamos. No túmulo, velas acesas. Dentro dele, talvez sua esposa, seu filho, seu pai ou sua mãe. Imaginar a sua história me deixa emocionado.
Era feito aquela gente honesta, boa e comovida
Que caminha para morte pensando em vencer na vida
O caixão encontra-se com seu jazigo e todos, em silêncio, esperamos. Antes de irmos embora, meu irmão recebe a ligação de um amigo em comum que também está no cemitério. Sua tia falecera no final da noite, por causa de um tumor na vesícula. Seguimos todos para abraçá-lo, inclusive, o que acabara de enterrar o pai. Conversamos um pouco, mas não acompanhamos o sepultamento. Havia muita morte no ar e era preciso respirar um pouco de vida. Despedimo-nos e deixamos a família em seu recolhimento.
Na manhã seguinte, já no trabalho, recebo a notícia do falecimento da mãe de um colega. Alguns amigos encaminham-se ao cemitério, mas eu prefiro seguir para casa. Parece que chegou o tempo de morrer e, por isso mesmo, é preciso cuidar dos vivos, enquanto há tempo.
Que a terra nos seja leve.
7 comentáriosMiséria em qualquer canto
Arte sobre foto: Dimas Lins

Milagres - Adriana Calcanhoto (Cazuza/Frejat/Denise Barroso)
Miséria - Adriana Calcanhoto (Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Paulo Miklos)
Dimas Lins
Tenho acordado todos os dias com a sensação de que o mundo anda mais pesado. Pelo menos pras bandas de cá, do hemisfério sul. E neste país, para onde a gente se vira, encontra um Brasil muito pequeno, onde falta alma e sobram miseráveis e patifes.
Ontem, enquanto ia de casa para o trabalho, conversávamos dentro do carro, meu irmão, minha esposa e eu sobre pequenas imperfeições da vida e da degradação humana. Falávamos com uma ponta de tristeza, pois, às vezes, não reconhecemos o mundo em que vivemos. A bem da verdade, durante o trajeto, optei pelo silêncio, pois ando um pouco cansado de ouvir, falar, ler e ver sobre essas coisas ruins. E, nesse brasil, minúsculo e deformado, é só o que vemos.
Chego ao escritório sem graça e sem ânimo, pois o trabalho quando não dá prazer, dá trabalho. Sou varrido todos os dias para dentro de um furacão de interesses e um jogo de empurra, onde o responsável pelas coisas ruins é sempre o outro. Neste mundo corporativo distorcido, as pessoas socializam seus próprios erros e costumam trazer para si méritos que nem sempre são seus. Parecer é mais importante do que ser e, nessa inversão de valores, a imagem ganha uma outra dimensão. No final das contas, tudo é vaidade.
Saio do trabalho e o fim do expediente é um breve, muito breve, momento de prazer. No carro, a conversa entre os mesmos passageiros da ida é outra, desta vez, mais amena. Nos sinais, homens, mulheres e crianças pedindo esmolas disputam espaço com os vendedores dos mais diversos produtos. Num desses semáforos, o carro parado à minha frente é atacado por um assaltante de arma em punho. O assaltante, um homem negro e magro que trajava uma camisa verde clara e bermudas, parece não se incomodar em agir à luz do dia sob os olhares apavorados de centenas de espectadores. E se no meu carro o pânico é geral, imaginem o que deveria estar se passando na cabeça do homem de cabelos brancos que estava sendo roubado, enquanto respeitava as leis do trânsito. Manobro rapidamente e saio em velocidade, enquanto meu irmão liga desesperadamente para o 190 da polícia. Uma policial feminina atende ao telefone, registra a chamada e lamenta o nível de violência da cidade. Enquanto a polícia desabafa, o mundo desaba em nossas cabeças.
Durante o resto da viagem, não se falou em outra coisa. E eu, que não queria falar de coisas ruins, me pego contando a história do quase assalto que sofri, quando dois ladrões cercaram meu carro e me apontaram uma pistola. Naquele dia, fiquei surpreso com a minha reação, pois ao invés de abrir a porta, engatei a primeira marcha, acelerei o carro e saí pela contramão. Quando percebi a bobagem que tinha feito, pensei em dar marchar ré e pedir desculpas aos ladrões. No dia seguinte, uma professora tentou fazer o mesmo, num sinal em Boa Viagem, e acabou assassinada.
No final do caminho de volta para casa, a consciência aperta e a gente discute se dava para fazer mais do que fizemos. Às vezes, bate essa sensação ruim de, após abandonar o próximo numa situação difícil, imaginar se não era possível fazer mais, além de ligar para a polícia. A conclusão de que nada poderíamos fazer contra um revólver não nos conforta e voltamos para casa nos sentindo abandonados pelo Estado. A Colômbia agora é aqui, pois lá o mundo está um pouco melhor.
À noite, saio de casa e vou à padaria comprar algumas coisas para comer mais tarde. No rádio, ouço a notícia de que, enquanto deputados se desentendiam no plano físico com seguranças do congresso, o senado, assim minúsculo mesmo, absolvia seu presidente da acusação de ter suas despesas pessoais pagas por um lobista. Do legislativo brasileiro, não espero outra coisa, mas, infelizmente, isso também não me serve de consolo.
Na saída da padaria, eu sou obrigado a dar um trocado ao flanelinha, para que, possivelmente, ele possa proteger meu carro dele mesmo. E, assim, de maneira forçada, acabo contribuindo para uma melhor distribuição de renda no país.
Num mundo onde as crianças brincam com a violência, os pais não impõem limites aos filhos e as pessoas só querem levar vantagem em tudo, só é possível ver miséria em qualquer canto. Infelizmente, é a violência, não a poesia, que toma conta das ruas.
Amanhã será um novo dia e, certamente, pequenas novas tragédias do cotidiano acontecerão. E eu, já sufocado por essas coisas do mundo, me pergunto que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver. Pelo visto, meu ânimo não deve melhorar tão cedo.
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