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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

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Miséria em qualquer canto

Arte sobre foto: Dimas Lins
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Milagres - Adriana Calcanhoto (Cazuza/Frejat/Denise Barroso)
Miséria - Adriana Calcanhoto (Arnaldo Antunes/Sérgio Brito/Paulo Miklos)

Dimas Lins

Tenho acordado todos os dias com a sensação de que o mundo anda mais pesado. Pelo menos pras bandas de cá, do hemisfério sul. E neste país, para onde a gente se vira, encontra um Brasil muito pequeno, onde falta alma e sobram miseráveis e patifes.

Ontem, enquanto ia de casa para o trabalho, conversávamos dentro do carro, meu irmão, minha esposa e eu sobre pequenas imperfeições da vida e da degradação humana. Falávamos com uma ponta de tristeza, pois, às vezes, não reconhecemos o mundo em que vivemos. A bem da verdade, durante o trajeto, optei pelo silêncio, pois ando um pouco cansado de ouvir, falar, ler e ver sobre essas coisas ruins. E, nesse brasil, minúsculo e deformado, é só o que vemos.

Chego ao escritório sem graça e sem ânimo, pois o trabalho quando não dá prazer, dá trabalho. Sou varrido todos os dias para dentro de um furacão de interesses e um jogo de empurra, onde o responsável pelas coisas ruins é sempre o outro. Neste mundo corporativo distorcido, as pessoas socializam seus próprios erros e costumam trazer para si méritos que nem sempre são seus. Parecer é mais importante do que ser e, nessa inversão de valores, a imagem ganha uma outra dimensão. No final das contas, tudo é vaidade.

Saio do trabalho e o fim do expediente é um breve, muito breve, momento de prazer. No carro, a conversa entre os mesmos passageiros da ida é outra, desta vez, mais amena. Nos sinais, homens, mulheres e crianças pedindo esmolas disputam espaço com os vendedores dos mais diversos produtos. Num desses semáforos, o carro parado à minha frente é atacado por um assaltante de arma em punho. O assaltante, um homem negro e magro que trajava uma camisa verde clara e bermudas, parece não se incomodar em agir à luz do dia sob os olhares apavorados de centenas de espectadores. E se no meu carro o pânico é geral, imaginem o que deveria estar se passando na cabeça do homem de cabelos brancos que estava sendo roubado, enquanto respeitava as leis do trânsito. Manobro rapidamente e saio em velocidade, enquanto meu irmão liga desesperadamente para o 190 da polícia. Uma policial feminina atende ao telefone, registra a chamada e lamenta o nível de violência da cidade. Enquanto a polícia desabafa, o mundo desaba em nossas cabeças.

Durante o resto da viagem, não se falou em outra coisa. E eu, que não queria falar de coisas ruins, me pego contando a história do quase assalto que sofri, quando dois ladrões cercaram meu carro e me apontaram uma pistola. Naquele dia, fiquei surpreso com a minha reação, pois ao invés de abrir a porta, engatei a primeira marcha, acelerei o carro e saí pela contramão. Quando percebi a bobagem que tinha feito, pensei em dar marchar ré e pedir desculpas aos ladrões. No dia seguinte, uma professora tentou fazer o mesmo, num sinal em Boa Viagem, e acabou assassinada.

No final do caminho de volta para casa, a consciência aperta e a gente discute se dava para fazer mais do que fizemos. Às vezes, bate essa sensação ruim de, após abandonar o próximo numa situação difícil, imaginar se não era possível fazer mais, além de ligar para a polícia. A conclusão de que nada poderíamos fazer contra um revólver não nos conforta e voltamos para casa nos sentindo abandonados pelo Estado. A Colômbia agora é aqui, pois lá o mundo está um pouco melhor.

À noite, saio de casa e vou à padaria comprar algumas coisas para comer mais tarde. No rádio, ouço a notícia de que, enquanto deputados se desentendiam no plano físico com seguranças do congresso, o senado, assim minúsculo mesmo, absolvia seu presidente da acusação de ter suas despesas pessoais pagas por um lobista. Do legislativo brasileiro, não espero outra coisa, mas, infelizmente, isso também não me serve de consolo.

Na saída da padaria, eu sou obrigado a dar um trocado ao flanelinha, para que, possivelmente, ele possa proteger meu carro dele mesmo. E, assim, de maneira forçada, acabo contribuindo para uma melhor distribuição de renda no país.

Num mundo onde as crianças brincam com a violência, os pais não impõem limites aos filhos e as pessoas só querem levar vantagem em tudo, só é possível ver miséria em qualquer canto. Infelizmente, é a violência, não a poesia, que toma conta das ruas.

Amanhã será um novo dia e, certamente, pequenas novas tragédias do cotidiano acontecerão. E eu, já sufocado por essas coisas do mundo, me pergunto que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver. Pelo visto, meu ânimo não deve melhorar tão cedo.

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Uma canção desnaturada

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Uma Canção Desnaturada - Suely Costa (Chico Buarque)

Dimas Lins

Havia terminado meus afazeres mais cedo do que imaginava e fiquei naquela incerteza de ir para casa ou seguir para a consulta médica. Percebi que teria de ir direto para o consultório, se quisesse manter o horário do meu compromisso. Chegaria mais cedo e aguardaria pacientemente a minha vez.

Não iria cuidar de nenhuma rinite alérgica ou apenas de uma gripe mal-curada. Cuidaria da força moral do espírito, da alma. Enfim, trocando em miúdos, faria uma visita ao psiquiatra.

Foi quando o relógio deu seis horas que eu toquei a campainha. A consulta estava marcada para as 19h30min e, portanto, aguardaria uma hora e meia. Isso se o médico não atrasasse a agenda. Gosto do horário noturno para ir a um consultório, pois geralmente é mais silencioso e há menos pacientes impacientes com os atrasos habituais.

Tão logo cheguei, a secretária abriu a porta, me recebeu e se despediu. É que o seu horário de trabalho termina antes do horário do psiquiatra. Fechei a porta e sentei. Nessas ocasiões, procuro ler alguma coisa, uma revista ou um livro. No caso do livro, invariavelmente, trago-o de casa e, por coincidência, já andava com ele no carro, preparado para os esperes e pares do mundo. A bola da vez é Clamor - A Vitória de Uma Conspiração Brasileira, do jornalista Samarone Lima, também escritor de Estuário, um livro-blog. Esse aí ao lado, em forma de link.

Não deram cinco minutos de leitura e a campainha tocou. Na ausência da secretária, abro eu mesmo a porta. Dou boa noite, passo a chave e volto ao meu lugar. Do lado de fora, um carro se afasta e o motorista acena para a recém-chegada. No recinto agora, uma jovem na casa dos trinta anos, demonstrando um pouco de ansiedade, senta no outro sofá. E é na hora que eu retomo a leitura que ela puxa conversa.

- Você é paciente ou está esperando alguém?
- Sou paciente.
- É o próximo?
- Não. Eu cheguei mais cedo e ficarei de castigo por algum tempo.
- Ah! Pensei que tinha errado o horário.

Sorri amavelmente e tentei retomar a leitura.

- Depressão?

Já estive naquele mesmo consultório antes e posso assegurar que não é comum este tipo de conversa na ante-sala. Afinal, cada paciente está lá por algum assunto psíquico não satisfatoriamente resolvido. E, nessas ocasiões, melhor o silêncio. Mesmo assim, respondi. Afinal, aquele que não for louco que atire a primeira pedra.

- Não. Um pouco de estresse e um pouco de loucura.

Ela sorriu e emendou, sem perder o ritmo.

- É do trabalho?
- Perdão?
- O estresse… É por causa do trabalho?
- É. É, sim.
- E o senhor trabalha em quê?
- Sou servidor público.
- Servidor público com estresse?!
- Pra você ver como os tempos são outros.

Ela sorriu, provavelmente não acreditando. Fez-se uma pequena pausa e, em seguida, ela retomou a conversa.

- Meu caso é depressão.
- Depressão?
- Isso. Depressão.
- E como você está?
- Deprimida.

Silêncio.

- Tenho depressão pós-parto.
- Eu sinto muito.
- Eu também.

Novo silêncio.

- É uma menina, sabe? - continuou ela.
- Quantos meses?
- Um ano e meio.
- Um ano e meio?!
- É. Depressão pós-parto mal-curada.

Não sabia que tinha isso de depressão pós-parto mal-curada. Talvez não tenha mesmo. Talvez aquele diagnóstico não fosse do médico, mas dela, quem sabe? Meu reino por um diploma em psiquiatria.

- É terrível, sabe? Sinto-me sufocada perto dela.
- Imagino o quanto deve ser difícil.
- Você não tem idéia.

Não tinha mesmo.

- Isso vai passar, você vai ver - disse, já sentindo um nó no coração.
- Eu já tentei me matar, por causa do bebê - disse ela, fazendo da ante-sala o consultório e de mim, o médico.

(Li depois em algum lugar que a depressão pós-parto causa uma tristeza muito grande e de caráter prolongado, com perda da auto-estima, da motivação para a vida, podendo levar ao suicídio. Algumas mulheres apresentam tendência ao abandono do recém-nascido, ou mesmo ao seu extermínio.)

Tive compaixão por ela. Uma jovem mãe tão ansiosa que não conseguia aguardar a consulta para dizer algo tão profundo, tão caro e tão íntimo. E eu, ali na frente dela, incapaz de saber o que dizer. Senti-me impotente. Apelei então à misericórdia divina, meu último recurso.

- Tenha fé em Deus que tudo vai acabar bem.
- Que Deus me perdoe, mas acho que Ele me abandonou.

Não deve haver dor maior para uma mãe do que o sentimento de rejeição pela própria cria. Odiei a mente humana e sua fragilidade. Por causa de uma química que eu não compreendo, estava diante de alguém que lutava desesperadamente para aceitar a sua maternidade. Era como se a natureza traísse a si mesma e mudasse o curso da correnteza, seguindo rio acima.

De repente, a porta do consultório se abriu e o médico convidou-a para entrar. Desejei boa sorte e ela se esforçou para sorrir. Depois disso, não consegui mais me concentrar na leitura. Apenas pensava nessas coisas da vida que estão além da nossa vontade e compreensão. Achei tudo aquilo injusto.

Cinqüenta minutos depois, a porta abriu e ela saiu. Olhou-me com um sorriso sem graça e, mesmo de longe, me disse baixinho que ficaria bem. Tomara que sim.

Depois no consultório, percebi que a minha consulta já não tinha importância. Meu corpo conversava com o médico, enquanto minha alma pensava na maternidade mal-resolvida. No final, fui embora para casa achando a vida uma merda.

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