Arquivos da categoria'Divina comédia humana' Categoria
BTI
Pintura: O Casal, Fauto Brandão

Eclipse Oculto (Caetano Veloso)
Dimas Lins
- Anda! Tira tudo, que hoje eu estou muito afim!
- Hum…
- Aí, que eu adoro essas coxas grossas!
- Tá…
- E essa bundinha gostosa, então?! Dá até vontade de morder!
- Sei…
- Sem contar esses pei…
- Peraí, Fernando!
- O que é?!
- Pára, Fernando, pára!
- O que é que há, Noemi?!
- Pô, você não tem a menor sensibilidade! Pois saiba que nem estamos num matadouro, nem eu sou uma vaca indo pro abate!
- Qual é, Noemi! Que papo é esse agora?
- Você bem que podia ser mais romântico, mais sedutor, né?
- É que eu estou com uma vontade daquelas! Vem cá, vem…
- Pára, Fernando, que saco!
- Pô, Noemi! Eu aqui com o maior tesão e você cortando o barato?!
- É que esse seu papo na cama está me deixando com BTI.
- BTI?!
- Baixo Tesão Imediato!
- Olha o que você fez, Noemi! Agora fui eu que perdi o tesão!
- Melhor assim, pois eu não estou afim.
- Se você não está afim, o que diabos a gente veio fazer num motel?!
- Conversar.
- Conversar?
- É, conversar.
- Se era pra conversar, a gente sentava num banco de praça e eu economizava cem paus!
- Tá vendo só?! É por isso que eu perco a vontade! Você não tem tato nenhum!
- Como não? E eu não estava tateando você agora mesmo?
- Engraçadinho! Você é tão sensível quanto um Tiranossauro Rex, Fernando!
- O que você quer, afinal, Noemi?
- Já disse, conversar!
- Conversar sobre o quê?!
- Como sobre o quê?! Sobre nós dois, é claro!
- Era só o que me faltava discutir a relação num motel!
- Você vai conversar ou não?
- Já vi que eu não vou gostar nenhum pouco dessa conversa. Fala logo o que você quer!
- Que grosseria!
- Você vai falar ou não vai?
- Fernando, você é um chato!
- Desembucha logo, pois quem sabe assim a gente ainda recupera o tempo perdido.
- …
- Fala de uma vez, Noemi!
- Fernando, faz dois anos que nós estamos juntos.
- Sei.
- Você não pensa no futuro? Em nós?
- Lá vem…
- Não precisa ficar defensivo.
- Eu não estou defensivo!
- Olha, Fernando…
- Hum…
- Eu quero mais do que isso, entende?
- Sei.
- Eu quero casar, ter a minha casa, a minha família, sabe como é?
- Mmmm…
- E toda vez que eu falo nisso, você dá um jeito de mudar de assunto, percebe?
- Eu sabia que não ia gostar dessa conversa!
- Pô, Fernando! Você acha que a vida é só balada e motel?
- O que é que você quer, afinal, Noemi?
- Eu quero conforto, estabilidade e segurança, entende?
- Noemi, você não quer um homem. Você quer um carro!
- Fernando, eu tentando falar sério e você vem com sarcasmo?!
- Você quer o quê? Eu venho prum motel pra transar e você, pra discutir a relação? Ora, faça-me o favor!
- Você só quer saber de sexo, mais nada!
- E o que tem de errado nisso?!
- Nada, mas já que você gosta tanto, deveria ao menos fazer bem feito!
- O que você quer dizer com isso?
- Deixa pra lá.
- Como assim “deixa pra lá”?
- Deixa pra lá, já disse.
- Agora você vai ter que falar!
- …
- Não era você que queria conversar? Agora fala!
- Não é nada não, Fernando. Vamos ver um filme pornô pra ver se dá vontade, que é o melhor que a gente faz.
- Fala, Noemi!
- Tá bom. Fernando…
- Sim?
- Nesse tempo todo que a gente está junto, eu…
- Você o quê, Noemi?
- Eu nunca tive um orgasmo.
- Como é que é?!
- Já tive orgasmos antes, mas nunca com você.
- Noemi, você está querendo me botar complexo, é?
- Que maldade, Fernando! Estou dizendo isso só pra a gente se ajudar.
- Você joga uma coisa dessas na minha cara e ainda diz que é só pra ajudar?!
- Fica assim não, meu amor!
- Se eu nunca mais me recuperar, a culpa é sua, Noemi!
- Sabia que você fica muito sexy com essa carinha de indefeso?
- Não vem, Noemi!
- Adoro homens frágeis!
- Não me toca, Noemi!
- Vem, Fernando, que eu estou doidinha pra te dizer umas sacanagens no ouvido!
- Pára, Noemi, pára!
- Qual é, Fernando?! Agora que eu estou com o maior tesão, você não quer mais?!
- BTI, Noemi. BTI!
4 comentáriosMuito além do livro
Acalanto para um punhal - Fagner (Robertinho de Recife, Herman Torres e Fausto Nilo)
Dimas Lins
“Sentado na penumbra, travava em seu consciente a batalha de sua vida. Na varanda e numa pequena parte da sala, o luar ainda insistia em levar para dentro de sua casa os últimos raios de esperança. No quarto, dormia em sua cama a razão de seu martírio e, ao lado dela, deitava-se o estigma da traição. De volta a sala, sobre a mesa do canto, também adormecia um punhal. Quando enfim o ódio venceu a razão, ele empunhou a arma, dirigiu-se até o quarto, aproximou-se da mulher e olhou-a em silêncio. Ela dormia como um anjo, mas certamente acordaria no inferno. Ele segurou a arma com as duas mãos, elevando-a a um ponto acima de sua cabeça, e, antes de baixá-la a toda velocidade, disse com a voz embargada o mantra que o acompanhava desde que partiu da sala em direção ao cumprimento de sua sentença: acorda, punhal!“
***
Mal terminei de escrever o último parágrafo do meu conto, ouvi um barulho atrás de mim. Era noite e, além do computador ligado, tinha apenas uma pequena luminária acesa no escritório. Propositadamente economizava energia. Afinal, se um escritor não tem vida fácil no Brasil, o que dizer de alguém que publica um ou outro texto na internet?
- Quem está aí? - perguntei, enquanto rodava minha cadeira giratória para que eu pudesse olhar de frente a porta do escritório.
Não me deixei enganar pelo silêncio. Gosto de escrever sobre a morte e coisas do gênero, mas tenho um medo danado de almas penadas. Além do mais, meu instinto deixava claro que havia alguma coisa em meio à escuridão do apartamento.
- Seja quem for, saiba que estou armado! - disse, enquanto empunhava a minha arma, um extrator de grampos.
Nem bem acabei de dizer aquilo, me arrependi. E se da escuridão viesse uma bala em minha direção? Meu extrator de grampos não era comparável a uma pistola. Pus assim o objeto de defesa sobre a mesa e gritei bem alto que não estava mais armado. “Frouxo, frouxo!”, pensei.
Estava nervoso, reconheço. É que não estou acostumado a ter minha casa invadida a altas horas da madrugada ou em qualquer outro momento do dia. Pensei em correr em direção à porta, mas se assim o fizesse, estaria indo ao encontro do perigo que desejava evitar.
Finalmente, do negrume do corredor surgiu um homem segurando um punhal. Meu medo transformou-se em pânico. Dizem que um homem que porta uma arma branca tem mais sangue frio do que alguém armado de revólver. E deve ser mesmo, pois a arma branca requer o contato físico do assassino com sua vítima. Imaginei, depois que recebesse algumas punhaladas, as minhas vísceras saltitando pela mesa do escritório e eu, na seqüência, tentando fazê-las saltarem de volta para o meu abdômen. “Passem já pra cá!”, ordenaria a intestinos e pâncreas.
Pensei em escrever a cena em meu bloco de anotações, como registro de uma nova idéia para um conto - se eu escapasse com vida, é claro! - mas fiquei com medo que o invasor interpretasse meu gesto como uma tentativa de reação, pois já vi num filme de lutas marciais alguém ferir mortalmente o outro com uma caneta Bic.
Fiquei no dilema “escrevo, não escrevo” por alguns segundos até que pedi licença, peguei uma caneta e um bloco de notas e escrevi algumas anotações sob o olhar desconfiado do invasor. Meu lado escritor falou mais alto, embora eu mesmo me achasse bastante estúpido ao arriscar minha vida por uma inspiração. Depois, pus cada coisa de volta em seu lugar e perguntei onde tínhamos parado.
Ah, sim! Paramos assim: eu em pânico e ele com um punhal. Pedi calma ao invasor e disse para ele levar o que quisesse - dinheiro, objetos pessoais e contas de luz - desde que poupasse a minha vida. Se possível, deixasse também o computador, pois sem ele não poderia escrever sobre a invasão ao meu apartamento.
- Não está me reconhecendo, está? - disse o estranho.
Deveria? Provavelmente sim, mas não o reconhecia. Tinha medo de dizer que sim e, sob interrogatório, cair em contradição. Tinha medo de dizer que não e ofendê-lo por eu não ter dado a ele a mesma importância que ele me dera. Como sei que não é bom contrariar alguém armado, não disse nem sim, nem não.
- Não digo nem sim, nem não.
Ele caminhou em minha direção até entrar completamente no raio de ação da luz. Eu quis dar um passo atrás, mas fiquei encurralado pela mesinha do escritório. Tentei discretamente afastar a mesa, mas o peso do computador não deixou que ela se movesse. “Se sair dessa, juro que compro um notebook!”, prometi.
Precavido, tentei evitar olhar para o rosto do invasor. Não queria reconhecê-lo, para não dar motivos à minha morte, mas ele ordenou que eu olhasse em seus olhos. Quem tem uma arma, manda mais.
- Ainda não me reconhece?
Não reconheci. Fiquei alguns segundo tentando buscar sua imagem nos arquivos da minha memória, mas não soube dizer quem era. Poderia ser um colega de trabalho chateado com meu último memorando, ou talvez um flanelinha insatisfeito por ter recebido uns trocados abaixo do preço de tabela, ou ainda um atendente de telemarketing que cansou de conversar apenas com a minha secretária eletrônica.
Percebendo que eu não o reconheceria, se apresentou como o personagem que matara a esposa em seu sono angelical no conto que eu acabara de escrever.
- Não!
- sim.
- Não!
Sim. Procurei semelhanças e finalmente reconheci o punhal. Engraçado, não reconheci o personagem, mas sim o punhal.
- Você é o…
- Nem ao menos você sabe meu nome. Sabe por quê?
- Não.
- Você nunca me deu um nome. É sempre “ele pra cá, ele pra lá”. Nome que é bom, nada!
- É verdade, mas é que…
- Aliás, raramente você dá nomes a seus personagens, já notou?! Estamos cansados de você!
- Como assim “estamos”?!
- Por suas mãos nos tornamos assassinos, suicidas ou depressivos! Que tipo de mente doentia é a sua?!
Não sabia que personagens tinham sentimentos. Quero dizer… Sabia, mas achava que os sentimentos, assim como os personagens, ficavam restritos à estória.
Ele disse mais. Confessou que amava a mulher, mas teve que matá-la, porque eu assim o quis. Depois, olhou-me com um olhar de revolta e gritou que ela não tinha que morrer. Por fim, contou que sua esposa também o amava e a traição foi conseqüência do meu desejo.
Fiquei perturbado. Não sabia de nada disso. Não queria matar ninguém de verdade, nem mesmo ser responsabilizado por qualquer traição. Fazia isso, porque gostava de personagens profundamente melancólicos.
Estava arrependido. Mas arrepender-se não bastava, pois ainda tinha diante de mim um homem, um punhal e uma sentença de morte em meu nome.
Procurei ser gentil e até reconfortei meu personagem. Tratei-o como um pai trata um filho ou um criador, a sua criatura.
Depois de acalmá-lo, ofereci um café e prometi refazer a estória. Reverteria a morte de sua mulher e livraria os dois das cicatrizes da traição. Disse a ele que, diferentemente da vida real, na literatura tudo era possível. Eles agora seriam felizes, como são os casais num comercial de margarina. A trama ficaria sem graça, é verdade, mas o que é uma trama sem sal diante da preservação da vida?
Ele concordou, mas antes de me entregar o punhal, pediu-me que eu lhe desse um nome. Não apenas a ele, mas a sua mulher também. “Está bem, está bem!”, cedi. Ele apertou minha mão e, assim como veio, sumiu na escuridão.
Passei o resto da noite reescrevendo a estória. Não ficou a mesma coisa, mas eu até que gostei do final. Ainda guardei cuidadosamente o punhal numa gaveta, antes de seguir para a cama. Fui dormir pensando nos meus personagens e que, mesmo na ficção, os punhais não foram feitos para acordar.
2 comentáriosOnde há fumaça, há fogo!

Pegando fogo - Gal Costa (José Maria de Abreu/Francisco Mattoso)
Dimas Lins
Encontrei Nero perambulando pelo Mercado da Boa Vista, em Recife. Na realidade, foi ele quem me achou. Talvez tivesse sido atraído pelo cheiro, já que eu degustava um delicioso sarapatel - iguaria sem igual e verdadeiro manjar dos deuses.
O fato é que eu tomava um gole da minha cerveja, quando ele surgiu de repente e perguntou se eu tinha fogo. Sabedor de seus hábitos incendiários, imaginei o perigo que havia por trás de suas palavras. No susto, quase cuspi todo o conteúdo amarelo-ouro em sua cara, mas consegui manter o líquido em baixa fermentação na boca, evitando assim um constrangimento histórico.
Chamei-o pelo nome, para deixar claro que o conhecia, e perguntei se não lhe bastava a bobagem de ter posto fogo em Roma. Ele se fez de louco - como bem fazem os loucos - e agiu com dissimulação.
- Falai claro, pagão! - Disse Nero, enquanto puxava uma cadeira e tomava o copo de cerveja da minha mão.
Cedi minha bebida contrariado.
Honestamente, não sei ao certo o que ele quis dizer ao me chamar de pagão, afinal, eu era o único cristão sentado à nossa mesa. Porém, faço alguma idéia. Meu sexto sentido dizia que Nero planejava me deixar na mão na hora de pagar a conta do bar, pois tive a impressão que, para um imperador romano, ele parecia andar na pindaíba. Mas como quem já foi rei nunca perde a majestade, ele manteve a pose e, sem nenhum pudor, avançou sobre o meu sarapatel ao mesmo tempo em que pedia outra cerveja.
Mas ele dizia para eu falar claro e, de maneira cristalina, contei que sabia de sua paranóia incendiária. E tentei cozinhá-lo em fogo brando, a fim de evitar que as chamas de seus devaneios se espalhassem pelo Recife. Insisti que a cidade já tinha problemas demais e não precisava de outros.
Ele concordou comigo. E foi além. Mostrou conhecimento profundo sobre os problemas da cidade e reclamou, principalmente, da falta de segurança. Contou que, outro dia mesmo, tentaram roubar a sua toga de seda vermelha, enquanto ele estava parado com sua biga em um sinal de trânsito. Não fosse a brava atitude de seus cavalos, que reagiram a patadas, os ladrões seriam exitosos em seus intentos. E não ficou só nisso. Nero também apontou soluções práticas para conter a violência urbana, como a crucificação de todos os bandidos. “É ou não é uma boa maneira de reduzir a criminalidade?!”, perguntou com satisfação.
De questões sociais e políticas, passamos a conversar amenidades. Nero mostrou-se um bom garfo e pediu, às minhas expensas, umas tripinhas fritas e um arrumadinho de carne de sol, o qual qualificou de “obra-prima da culinária contemporânea”. Em seguida, comeu sozinho uma buchada de bode e entornou algumas lapadas de cana. Foi nesse ponto que ele tentou subir à mesa para dançar ula-ula - o imperador romano ainda não conhecia o frevo - e me deu bastante trabalho para conter o seu entusiasmo.
Mas a bebida não trouxe apenas contratempos. Os goles de cachaça serviram também para deixar o imperador mais à vontade, o que me permitiu compreender, ainda que minimamente, a sua mente atormentada.
Percebi que Nero havia sido criado com muito mimo por Agripina, sua mãe. Tanto assim que ele perseguiu implacavelmente os cristãos, porque eles implicavam com a sua peruca e lançavam boatos maldosos sobre a masculinidade imperial. E foi justamente por ter a virilidade contestada, por causa de uma cabeleira postiça, que Nero pôs fogo em dois terços de Roma. Não por acaso, sobraram apenas o seu palácio e uma loja de próteses capilares, cujo principal cliente era o próprio imperador.
Depois disso, com medo de ser assassinado, Nero fugiu para Porto de Galinhas, onde abriu uma pousada. Mas, ironicamente, quis o destino que um incêndio destruísse todo o seu patrimônio, deixando a salvo apenas a peruca. A polícia até hoje suspeita que o fogo tenha sido provocado.
Sensibilizado com sua história, encaminhei o imperador a Freud, um amigo psiquiatra e gozador que possui um consultório em Intermares e atende aos mais loucos pacientes, apenas por diversão.
Depois de pagar a conta e antes de ir embora, ofereci a Nero uma garrafa da melhor cachaça e desejei-lhe boa sorte. Ele agradeceu e permaneceu sentado, se lambuzando com uma generosa mão de vaca.
Somente no dia seguinte, soube do incêndio no Mercado da Boa Vista. Algumas testemunhas afirmam ter visto, poucos minutos antes das chamas se propagarem, um homem fantasiado de romano carregando um coquetel Molotov feito com uma garrafa de cachaça. Temi ser envolvido no crime. Por precaução, nunca mais pus os pés no mercado.
Finalmente, na semana passada, eu recebi uma notificação judicial de um processo movido por Freud contra mim. Ainda não sei ao certo, mas há rumores que seu consultório em Intermares também foi destruído por um incêndio. Dizem que o principal suspeito trajava uma toga de seda vermelha sobre uma túnica branca. Parece que o paciente reagiu de maneira inflamada quando o psiquiatra classificou a peruca como um símbolo de desconstrução da virilidade masculina. Há controvérsias.
Quanto a mim, acredito que, onde há fumaça, há fogo!
3 comentáriosA peleja com o diabo - Final

A peleja do diabo com o dono do céu (Zé Ramalho)
Dimas Lins
II
- Se você é a morte, então cadê a foice?
- O que é isso, companheiro?! - Indignou-se ela ao ser confundida com um membro do partido comunista.
Diante das evidências desfavoráveis, ainda argumentei, tentando negar o óbvio. Sem muita convicção, buscava encontrar detalhes que, de alguma forma, negassem o fim da minha existência humana. Perguntei-lhe, por exemplo, como eu poderia estar morto, se ainda sentia dores no corpo.
Ela me explicou que demorava um tempinho para o espírito se desligar totalmente da matéria. E, à medida que eu ia aceitando os fatos, ela ia me dando mais detalhes. Contou-me que apenas trabalhava para a MORTE, uma empresa terceirizada e especializada na travessia de pessoas do mundo material para o mundo etéreo. Coisa fina, negócio profissional e lucrativo, já que morre gente o tempo todo. Disse que acabara de conseguir o emprego, através de um concurso público celestial, onde concorreu com mais de 20 mil candidatos por vaga. Acrescentou ainda que não tinha motivos para reclamar, já que recebia um bom salário, além de um excelente plano de saúde. Achei legal a MORTE se preocupar com a saúde de seus funcionários.
Já mais calmo, perguntei então para onde seria levado. Ela contou que eu iria para o umbral, uma zona obscura situada na crosta terrestre, onde as almas sofredoras eram atormentadas por espíritos obsessores.
Ainda tentei protestar. Questionei a presunção da infalibilidade divina e pus em dúvida um julgamento, cujo depoimento do réu sequer foi tomado. Sem ampla defesa, argumentei que a sentença era passível de nulidade. Descobri então que não havia como interpor recursos contra os desígnios de Deus. Como não havia meios de questionar a justiça divina, restava apenas me resignar.
Mas já que estava morto, queria saber as respostas para as grandes questões da humanidade. Afinal, durante toda a história do homem, buscamos a explicação para as grandes questões filosóficas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? E, principalmente, se há alguma esperança para o Santa Cruz. Fiz então a primeira pergunta, aquela que daria sentido a minha vida.
- O meu projeto vai fazer sucesso?
- Pensei que você, como todo mundo, perguntaria primeiro sobre Deus.
- Isso também, mas e o projeto?
Ela hesitou. Tem coisas que os olhos transmitem com mais precisão do que mil palavras. Percebi então que eu havia desperdiçado dez anos da minha vida, pois, com a minha morte, ninguém tomou conhecimento das minhas pesquisas. Não era justo! Aceitei passivamente o fim da minha existência, mas jamais aceitaria o meu fracasso! Sou antes de tudo um capitalista! Além do mais, o meu projeto era tudo o que me restava. Era o que ainda me fazia sentir humano. Definitivamente, não viveria - ou morreria, como queiram - em paz ao perceber que passei pela vida sem ter contribuído, de alguma forma, por menor que ela fosse, para o progresso da humanidade. Nasci e vivi como um joão ninguém, mas não estava preparado para morrer como tal. Não fui à vida a passeio, por isso, queria o meu lugar na história. Queria deixar o meu legado às futuras gerações, para que eu fosse eternizado na memória das novas civilizações. Assinaria o meu nome na história da humanidade ou, ao menos, num livro de registro de patentes. Faria isso, nem que eu tivesse que vender minha alma ao diabo.
Embora eu tivesse dito aquilo da boca pra fora, foi com grande surpresa que o vi surgir na minha frente: chifre na cabeça, tridente na mão e cheiro de enxofre.
- Menino, as notícias voam, hein? - disse, surpreso.
Se Deus sabia e via tudo, o diabo pelo menos tinha um serviço de inteligência de dar inveja aos americanos. Além de tudo, era um bicho bastante prestativo. Precisou, ele estava lá, pronto para oferecer seus serviços.
Mas algo me pareceu incoerente. Afinal, o umbral era um dogma espírita, enquanto o diabo era um dogma católico. Essa inconsistência me encheu de dúvidas. Consultei a emissária da MORTE e ela me explicou que cada religião vê as coisas do seu jeito. No fundo, cada uma delas sabia apenas um pedaço da verdade.
Mesmo assim, pedi identidade ao chifrudo. Era necessário me certificar que estava fazendo negócio com a pessoa certa. Não arriscaria minha alma por um engodo qualquer. Se na terra havia tantos ardis, o que dizer então do inferno? O medonho me olhou irritado e, na falta de um documento probante, fez um truquezinho barato pra provar quem era. Como sou brasileiro e sei que todo dia saem de casa um esperto e um otário que poderão se encontrar em qualquer esquina, não aceitei que uma magia ordinária se transformasse numa prova irrefutável.
O cão danado bufou de raiva. Mesmo assim, se submeteu às minhas exigências. O diabo me fez ver o que não tinha conseguido enxergar na queda do elevador. Vi diante dos meus olhos, toda a minha vida se passar, numa inacreditável fração de segundo. Considerei enfim que o diabo apresentara uma prova definitiva.
- Por que me invocaste? - perguntou o mafarrico.
A bem da verdade, eu não o havia invocado. Estava apenas fazendo conjecturas, quando o diabo apareceu. Por isso, astutamente, fingi desinteresse, para obter melhores condições no negócio.
Quando enfim comecei a contar a minha história, o diabo mostrou classe e educação e me ouviu atentamente, sem fazer interrupções. Pedi a minha vida de volta para fazer do meu projeto um sucesso. Ele assentiu. Em troca, entregaria a minha alma, quando tornasse a morrer. Como eu não era versado nas coisas do além, assinei o contrato sem questionar.
Depois do acordo sacramentado por um tabelião celestial juramentado, senti uma tontura e desmaiei. Quando acordei estava na minha cama, na mesma manhã do dia da minha morte. Ainda estava atrasado, por isso, me troquei apressadamente e saí novamente sem tomar o café da manhã. Na saída de casa, evitei o elevador e desci os quinzes andares pela escada. Mais tarde, quando terminei a apresentação do meu projeto à diretoria, fui aplaudido de pé.
Já se passaram quase vinte anos desde então. E, se vocês querem saber, o meu projeto foi um sucesso de proporções mundiais. Mas devo confessar que não pude aproveitar as glórias que eu tanto sonhei. É que, naquele mesmo dia, sofri um acidente no elevador da empresa, quando retornava para casa. No meu caminho tinha um elevador; tinha um elevador no meu caminho. Com a minha morte, o presidente da companhia patenteou o meu invento em seu nome e até hoje é reconhecido no mundo corporativo como um gênio dos negócios.
Sem glórias e morto pela segunda vez, só me restou cumprir a minha parte no acordo. Afinal, quem mandou fazer um pacto com o diabo? Hoje, minha vida é um inferno no inferno, mas não tenho do que me queixar. O lugar até que não é tão ruim quanto parece, embora o calor seja insuportável e a cerveja, quente. Difícil mesmo é agüentar toda aquela inhaca de enxofre.
A boa notícia é que em novembro sairei em condicional, por bom comportamento. Serei transferido para o umbral. Talvez um dia eu recupere a minha alma e possa finalmente entrar no céu. Até lá, vou ficando por aqui e vivendo como o diabo gosta.
Parte I
4 comentáriosA peleja com o diabo - Parte I

Canção agalopada (Zé Ramalho)
Dimas Lins
I
Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Eu, por exemplo, já me senti assim. Aconteceu no verão de 2005, quando eu… morri. Isso mesmo, o dia da minha morte. Não tenha pressa, se acomode na cadeira que eu vou contar a história. Foi mais ou menos assim.
Naquela manhã, ao contrário do que eu pretendia, levantei tarde da cama. Estava atrasado para a reunião mais importante da minha vida profissional. Do resultado dela, dependeria o meu futuro. É que depois de quase dez anos de trabalho duro, finalmente eu iria apresentar para a diretoria de uma grande multinacional o projeto de uma vida. Tratava-se de um aparelho de barbear sem lâminas. O sistema revolucionário possuía um mecanismo a laser que mapeava o rosto do usuário e aparava perfeitamente todos os pêlos do queixo e da face. Se o meu projeto causasse o impacto desejado, certamente eu mudaria a história da indústria de barbear, além, é claro, de alavancar de forma irreversível a minha carreira. Eu estava pronto para sair do chão e alcançar rapidamente o topo da pirâmide profissional e social. Nele, eu encontraria dinheiro, poder e fama.
No adiantar das horas, troquei-me apressadamente e saí sem o habitual café da manhã. Abri a porta do apartamento e chamei o elevador, enquanto conferia se todo o material necessário estava em minhas mãos. Sem olhar para frente, puxei a porta da cabine, avancei dois passos e senti o chão vacilante. Na verdade, não havia vacilo algum. Aliás, não havia nem mesmo o chão. O elevador descumprira a sua parte no acordo de atender ao chamado dos usuários. Levei alguns segundos para cair do 15º andar até o chão. E, antes que alguém me pergunte, nessas ocasiões é impossível ver toda a sua vida passar diante de si, pois ela sempre é bem mais longa do que os míseros segundos que o levam até o chão. Por isso, o máximo que consegui foi pensar na plaqueta obrigatória na entrada de todos os elevadores da capital recifense. Mesmo assim, sequer cheguei ao fim da frase.
Aviso aos usuários, antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste and…
Não sei dizer quanto tempo fiquei desacordado. Mas quando recobrei a consciência, percebi que me encontrava deitado e estava coberto até a cabeça por um lençol branco.
Abrir os olhos vagarosamente, por causa da claridade. Nunca havia visto a luz natural tão intensa como naquele instante. Olhos abertos, vi uma moça parada na minha frente. Sua aparência era de uns vinte e poucos anos. Seus cabelos eram curtos, bem pretos e espetados, e sua maquiagem era escura, principalmente, na altura dos olhos. Ela trajava camiseta, jaqueta, bermuda e sapato baixo. Também usava uma gargantilha que mais se assemelhava a uma coleira de cachorro. E tinha piercings, muitos piercings.
Quando eu tentei me mexer, senti o corpo todo dolorido. Além do mais, havia um odor acre saindo debaixo do lençol. Foi então que me lembrei da queda. Sim, a queda! Respirei aliviado, percebendo que havia dado sorte e escapado com vida. Dali a pouco, descobriria o quanto fui precipitado em meu julgamento.
A moça deu uma gargalhada, talvez zombando da minha desorientação. Perguntei irritado o motivo de sua risada e ela respondeu um “nada não”, embora não conseguisse disfarçar a zombaria. Alguns instantes depois, já recomposta e com um ar um pouco mais solene, me informou que estava na hora de ir. Perguntei para onde e recebi um “para o outro lado” como resposta.
- Que outro lado? - perguntei, ainda desorientado.
Ela riu novamente, o que fez aumentar ainda mais a minha irritação. Impaciente, procurei aquele dispositivo que aciona o chamado para a enfermaria, mas não havia nenhum. Tentei então levantar da cama para buscar ajuda.
Foi aí que aconteceu uma coisa muito estranha. Com o impulso que dei para pôr-me em pé, meu corpo flutuou descontroladamente pelo quarto. Assustado, olhei em volta e percebi outros corpos cobertos da mesma maneira que o meu. Foi só neste ponto que compreendi que eu estava no necrotério de algum hospital.
A ficha finalmente caiu! Tomei um choque! Senti o coração acelerar e, ato contínuo, levei as mãos ao peito, mas não havia nada batendo lá! Nenhum tum-tum-tum! Tomei meu pulso e ele não pulsava. Comecei a me apavorar. Tentei correr, mas, no ar, não tinha controle sobre os meus movimentos. Meu único recurso foi tentar, atabalhoadamente, nadar cachorrinho, para me afastar da garota que, a esta altura, já me dava medo.
Concluí que estava eu agora diante da morte. Senhora e senhores, eu vi a morte de perto e ela estava viva!
Continua
2 comentáriosQuero voltar para a Matrix!

Nostradamus (Eduardo Dusek)
Dimas Lins
Adaptado do texto original de mesmo nome publicado no Torcedor Coral
Imagine o cenário. O nível de violência na cidade é extramente baixo e a população, mesmo a menos abastada, leva uma vida digna. Você tem um bom emprego e uma confortável situação financeira. Tem também o melhor carro que o seu dinheiro pode comprar e sua namorada é a gatinha mais sexy do pedaço.
Você também não é de se jogar fora. Ao contrário, seu corpo é perfeito e você nem precisa fazer esforço para mantê-lo assim. Você despreza os exercícios físicos, mas sempre continua em forma. E mesmo que tome um barril de chope por dia sua barriga permanecerá inalterada. Você também não lembra da última vez que ficou doente. Aliás, se puxar bem pela memória, você descobrirá que nunca adoeceu.
Você também é um violinista talentoso. Atualmente, pensa em aceitar o convite para se dedicar apenas à música, sua grande paixão. Tornar-se-á spalla de uma renomada orquestra sinfônica e viajará o mundo inteiro se apresentando nos melhores palcos.
Mas, em meio a uma vida maravilhosa, você percebe que tem alguém seguindo seus passos. Passam-se dias até que finalmente um desconhecido chegue a você. Ele lhe diz que o mundo real é muito diferente daquele que você conhece. Diz que você vive numa ilusão. Que a sua felicidade é produzida artificialmente.
O estranho então lhe dá a possibilidade de escolher entre continuar vivendo na ilusão ou descobrir realmente em que mundo você vive. Você pensa, mas aparentemente não é o bastante, pois acaba caindo na besteira de tomar a pílula vermelha, aquela que lhe fará acordar e perceber o verdadeiro mundo a sua volta.
Você acorda e descobre que está numa espécie de incubadora e seu sangue serve de alimento para uma escrotice chamada Matrix. Você está entrevado, sua cabeça está raspada e você acaba sendo jogado fora como um produto de baixa qualidade, um refugo. Depois você é finalmente resgatado por aquele sujeito que lhe ofereceu a possibilidade de lhe mostrar a verdade. E você a vê.
Ao contrário do mundo virtual, você está desempregado, não tem carro, é barrigudo e sua namorada só não é mais feia do que você. Aliás, você é dentuço. Tão dentuço que se jogasse futebol estaria sempre em impedimento. Você também nunca foi músico e é incapaz de levar um sambinha numa caixa de fósforos, quem dirá tocar violino com elegância. Para completar, a violência na cidade nunca esteve num nível tão alto e maioria da população é tão miserável quanto você.
Você não gosta do que vê e então pergunta ao infeliz que lhe deu a pílula vermelha, afinal, o que diabos aconteceu com o mundo real.
Ele explica que a vida se deteriorou por toda parte. No Brasil, a corrupção política se associou ao narcotráfico e o país degringolou de vez. A economia americana entrou em colapso e criou um caos financeiro em todo o mundo. Na Oceania, uma onda gigante devastou toda a região. E quando, enfim, do confronto entre árabes e judeus estava para ser dar início à terceira guerra mundial, máquinas inteligentes assumiram o controle do planeta e escravizaram a raça humana.
Você então olha o sujeito da pílula atravessado. Afinal, da noite para o dia você perdeu tudo e está na miséria. Você toma o potinho cheio de pílulas das mãos dele e, à força, faz o sujeito engolir uma a uma até ele ter caganeira. Porém, isso não é o suficiente para aplacar sua raiva. Irritado, você chama o sujeito de filho da puta até cansar, mas você não cansa.
Desesperado, você sai pelas ruas da cidade procurando alguém que possa lhe ajudar e quando o encontra, grita em sua direção:
- Agente Smith, quero voltar para a Matrix!
5 comentários


