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Câmara de privação dos sentidos

Sossego (Tim Maia)
Dimas Lins
Adaptação da crônica de mesmo nome publicada originalmente no Torcedor Coral
Há dias em que tudo dá errado e só causam aborrecimentos. Quando um dia assim nos atravessa o caminho, nada é mais acolhedor do que a nossa própria casa. Nenhum outro lugar é capaz de nos aquietar em meio à tamanha turbulência emocional. E se o sujeito já estiver na rua, melhor dar meia volta e ficar à deriva, esperando passar a tempestade. Nada que o raiar de um novo dia não resolva.
É bem verdade que, por vezes, essa maré de azar pode se perdurar por mais tempo. Neste estado de espírito, o melhor é isolar-se, não deixar ninguém chegar perto, porque a agressividade irradiada por algum evento negativo pode fazer com que o vivente cometa os atos mais impensáveis. E, se alguém, que não entende as conseqüências deste momento crucial, insistir em se aproximar e puxar assunto, é melhor respirar fundo, contar até três e citar Chico Buarque, antes que o pior aconteça.
Deixe em paz meu coração,
Que ele é um pote até aqui de mágoa.
E qualquer desatenção, faça não!
Pode ser a gota d’água.
Num dia catastrófico, você naturalmente só atrai coisas ruins. Sendo assim, por certo se envolverá em confusões que, em condições normais de temperatura e pressão, jamais aconteceriam. Por exemplo, provavelmente você se meterá numa briga em uma mesa de bar, por causa de um guardanapo ou esfaqueará o garçom 66 vezes, com uma serra de pão, porque a conta apresentou-se com uma cerveja a mais.
Em nosso santuário, podemos ser nós mesmos. Quem lhe conhece na intimidade sabe que a única coisa a fazer é deixá-lo no isolamento e você será o único a ter de suportar-se. Afinal, como ser cordial nestas circunstâncias? Nada contra a cordialidade, mas é praticamente impossível manter a linha quando você está de mal com o mundo e, pelo bem do equilíbrio social, ainda é obrigado a expressar-se com amabilidade. Definitivamente, não! Nada o animará num dia ruim. Então, melhor mesmo é esquecer o mundo. Tanto faz se um furacão devastou a costa americana, se a extrema direita tomou o poder na França ou se Tony Blair deixou de ser o todo-poderoso Primeiro-Ministro da Inglaterra, após 10 anos de mandato. Uma vez fechado hermeticamente em sua câmara de privação dos sentidos, não haverá ninguém capaz de penetrar em seu mundo indevassável. Ou quase ninguém.
Trim… trim… trim…
- Alô?
- É o Sr. Paulo?
- Depende…
- Eu sou do Unibanco, como vai o senhor?
- Eu não vou bem, obrigado.
- O motivo da minha ligação é que o banco está com um produto especial para um número limitado de clientes e o senhor, pelo seu bom relacionamento no mercado, está sendo convidado a abrir uma conta-corrente conosco sem pagar nenhuma taxa de manutenção pelo resto da sua vida.
- Ou a do banco…
- Como?
- Ou a vida do banco. Afinal, ele pode fechar as portas antes mesmo de eu morrer. De qualquer forma, eu não estou interessado e…
- Nosso banco não vai fechar as portas, senhor. Afinal, ele é uma das maiores instituições privadas deste país. Além do mais, o senhor não quer deixar de pagar taxa de manutenção pelo resto de sua vida?
- Minha jovem, o que eu quero mesmo é desligar o telefone. Se você me der licença, eu…
- O senhor ainda terá outras vantagens ao abrir uma conta em nosso banco. Por exemplo, poderá sacar no Banco 24 Horas tantas vezes por dia quanto desejar, sem cobrança de tarifa. Não é uma grande vantagem?
- Minha filha, eu mal tenho dinheiro para sacar uma vez por semana, quanto mais diversas vezes por dia. Além do mais, se isso acontecer, pode ter certeza que é seqüestro relâmpago.
- Senhor, olha, eu…
- Se a senhora já terminou, então passar bem!
…
Trim… trim… trim…
- Alô?!
- Sr. Paulo?
- Puta que pariu! O que é?!
- S… senhor, eu sou consultora do cartão American Express e nós estamos lhe oferecendo, em função do bom relacionamento que o senhor tem com o mercado, um cart…
- Lá vem esse negócio de mercado de novo! E consultora uma ova! Você é atendente ou vendedora, minha filha! Isso é o que você é! E vá vender suas enciclopédias em outra freguesia!
- Mas não é enciclopédia, senhor. É cartão de créd…
- Vá ver se eu estou na esquina!
Praft!
…
Trim… trim… trim…
- Alô?
- Aqui é do Jornal do Commércio, eu gostaria de falar com o Sr. Paulo.
- Olha, o Sr. Paulo foi embora para Brasília e mandou avisar que não volta nunca mais! Que é pra vocês tirarem o nome dele do cadastro.
- Por gentileza, com quem eu estou falando?
- Eu não sou ninguém e estou aqui por acaso, mas também já estou de partida. Estou indo ali na esquina tentar o suicídio e…
6 comentáriosBola de Cristal
Pintura: Cigana, de Orlando Santos

Bijuterias (João Bosco)
Dimas Lins
Ano novo, antigas preocupações. Depois de trinta anos de casamento, Norminha andava desconfiada quanto à fidelidade de Borges. É verdade que nunca ouviu uma conversa intrigante ou alguma ação suspeita do esposo que desse motivação às suas dúvidas, mas, mesmo assim, vivia cismada. É que achava o marido perfeito e isso, obviamente, não era normal. Afinal, homem nenhum é assim, logo, não seria exatamente Borges uma exceção à regra. Desconfiava, pela lógica do universo masculino, que algum segredo certamente faria parte da vida de seu marido. E definitivamente este segredo ocultaria uma mulher, uma amante, um caso extraconjugal.
A princípio, decidiu ela própria seguir os vestígios e as pistas incriminatórias da infidelidade matrimonial, embora não houvesse nenhuma visível a olho nu. Vasculhou as gavetas, as roupas, os números de telefone armazenados na memória do celular e até mesmo o e-mail do marido, mas não encontrou nada. Depois contratou um detetive particular, mas desqualificou seu relatório final, uma vez que não surgiram quaisquer evidências de traição. Chegou mesmo a desconfiar que Borges, aquele “farsante”, havia descoberto a investigação e comprado o silêncio do detetive a peso de ouro.
Agora, andava pela casa olhando o marido atravessado, como se jogasse em sua cara que alguma ele andava escondendo. Borges, convém esclarecer, mesmo não tendo idéia do que se passava na cabeça de Norminha, nem achava isso tão estranho assim. É que depois de tanto tempo de casado, ele já havia se acostumado às esquisitices da mulher.
Porém, antes que sua paranóia tomasse proporções dramáticas - se já não era o caso - Norminha decidiu apelar para seu último recurso: uma vidente. Só alguém dotado da capacidade de ver o passado e profetizar o futuro teria a resposta às suas inquietações. Procuraria, então, uma cigana.
Para tanto, convenceu Marialva, sua melhor amiga, a acompanhá-la. Marialva, ao contrário de Norminha, não era muita dada a acreditar na arte da adivinhação. Achava tudo aquilo uma encenação, além da perda de tempo e de dinheiro. Entretanto, diante da insistência da melhor amiga, decidiu acompanhá-la.
Chegaram ao consultório de vidência - esse era o nome que constava na plaquinha pregada à porta - com sentimentos diferentes. Norminha confiante por estar no lugar certo para descobrir enfim as escapulidas do marido, enquanto Marialva mostrava-se notadamente inquieta e desconfortável por estar à porta de uma cigana fazendo algo em que não acreditava.
Tocaram a campainha e uma voz feminina perguntou quem era. Marialva, como quem cutucasse a amiga, ainda lhe disse em voz miúda que, se a mulher era incapaz de saber quem estava a sua porta, mesmo com a hora marcada, difícil seria imaginar que ela poderia realmente adivinhar o futuro.
Quando a cigana abriu a porta do consultório, Norminha, de impulso, puxou a amiga pelo braço e arrastou-a para dentro da sala, evitando a sua debandada. Marialva, a contragosto, deixou-se levar, enquanto olhava desconfiada a roupa extravagante e a maquiagem marcante de Madame Sabrina, a cigana. Já dentro do recinto, se depararam com uma tenda no meio da sala. Em seu interior, uma mesa e três bancos ao centro, além dos adornos característicos.
Marialva olhou a bola de cristal no centro da mesa e perguntou desconfiada, enquanto as três se aboletavam nas cadeiras, se a cigana era mesmo capaz de prever eventos passados, presentes e futuros. Madame Sabrina, em tom profético, respondeu que sim, pois captava imagens refletidas no cristal e, através delas, decifrava os eventos que ocorreram ou que estavam por vir. Na insistência de Marialva por entender o mecanismo de adivinhação, a cigana ainda respondeu que, na bola, não via imagens de pessoas ou coisas, mas jatos de luz e de cores que seriam justamente os sinais codificados desses eventos. Sua intuição faria o resto.
Marialva não se deu por convencida que jatos de luz e de cores associados à intuição da cigana poderiam determinar a infidelidade de Borges. Mesmo assim, optou pelo silêncio. Enquanto isso, Norminha, apesar da ansiedade, esperava a iniciativa de Madame Sabrina. De fato, ela esperava que a cigana lhe dissesse na bucha, sem meias palavras, que o seu marido era infiel.
Durante a conversa, Norminha ouviu obviedades da cigana sobre sua vida e seu futuro. Madame Sabrina assegurou que, apesar de alguns obstáculos, o ano vindouro seria promissor. Falou por dez minutos, mas, para a frustração da consulente, não mencionou uma palavra sequer sobre Borges.
- E quanto ao meu marido, o que você me diz?
- Vejo jatos de luzes vermelhas que indicam que ele passa por um momento de harmonia e felicidade.
- Eu sabia! Aquele safado tem uma amante! É daí que vem aquele risinho estúpido!
- Na verdade, não vejo nenhuma mulher, além da senhora, no caminho do seu marido. Quanto a isso, pode ficar tranqüila!
- Então veja de novo, minha filha! A madame está vendo tudo errado!
- Mas, senhora, a bola de cristal não mente!
- Então é a senhora que não está entendendo o que ela está dizendo! Madame está vendo tudo errado! Tudo errado!
A cigana se recompôs e, sob o olhar desconfiado de Marialva, tornou a consultar a bola de cristal. Em seguida, inclinou-se para frente e passou a mão sobre o oráculo.
- A senhora tem razão. Vejo uma mulher…
- Eu não disse?!
Enquanto Marialva abria um riso discreto, mas cínico, Norminha praguejava contra o marido e todos os seus ascendentes, até a sétima geração. Mesmo assim ficou satisfeita. Pagou cem reais à cigana e sugeriu à amiga que também consultasse o oráculo, pois ele sabia mesmo das coisas. Marialva esquivou-se dizendo que não tinha um centavo na bolsa.
- Essa aí não precisa, minha filha, pois tem o corpo fechado! - despistou a cigana.
- Pensei que esse negócio de corpo fechado fosse coisa de mãe ou pai de santo - provocou Marialva.
Para a cigana, tudo fazia parte das forças da natureza.
Já em casa, Norminha sentia-se aliviada em saber de toda a verdade. Na sala, deu com o marido assistindo TV, mas, para sua própria surpresa, beijou-o na testa e foi se recolher. Afinal, não estragaria um casamento de trinta anos por um caso fortuito. Estava agora disposta a recomeçar.
4 comentáriosConversando na mesa de bar
Pintura: Vicent Van Gogh

Conversando no bar - Elis Regina (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Dimas Lins
Crônica inverossímil de uma conversa em mesa de bar
Estávamos às voltas com uma celebração, mas àquela altura havia apenas resquícios de uma lembrança remotamente depositada entre os neurônios do hipocampo (segundo Houaiss, aquela estrutura curva existente na parte medial do soalho do corno inferior do ventrículo lateral cerebral acusada sem provas de ser a responsável pelo armazenamento da memória).
E não importava. O caráter essencial e determinante do encontro orbitava em torno de si próprio. Nenhum motivo especial, nenhuma razão particular. Bastavam apenas duas condições para justificar a convergência de interesses: boa conversa e cerveja no copo. Existem certamente estudos científicos baseados em pesquisas realizadas com alcoólatras inveterados que apontam que apenas a segunda condição é necessária. Há controvérsias quanto à questão. Assim, defender uma tese apontando para qualquer das direções só fará mesmo sentido numa mesa de bar onde, é claro, tudo tem cabimento.
Mas voltando ao bar, já havia se passado algumas horas desde o início das nossas atividades etílicas e, exatamente por isso, a conversa entrava em sua fase mais enroscada e de difícil compreensão. Ela passava a pertencer a um universo nebuloso onde cada palavra só encontra sentido graças à alteração química na corrente sanguínea. Nessas ocasiões, o ar torna-se rarefeito, os lábios ressecam, a bexiga pede penico, o fígado, outrora resistente, implora por socorro, a língua perde a coordenação motora e atropela as palavras, os olhos sofrem um ataque de estrabismo, o estômago é acometido por uma súbita inflamação na mucosa e o nível mental regride a pelo menos um ponto abaixo do tolerável.
Em minha teoria, baseada em dado científico nenhum, as maiores discussões filosóficas devem ter ocorrido em uma mesa de bar. Como contraponto, as maiores bobagens provavelmente também foram ditas por lá.
- Você anda escrevendo umas coisas legais, embora sejam bem tristes.
- É que um psiquiatra amigo meu disse que tenho a alma melancólica.
- Qual psiquiatra?
- Artur.
- Artur?!
-É.
- Mas, Dimas… Ele disse isso pra mim também!
- Verdade, Artur?!
- Pode ser.
- Já vi que você diz isso pra todos.
- Coitados dos pacientes. Seja qual for a patologia, receberão o mesmo diagnóstico.
- Bobagem, Josias. Vocês não são meus pacientes. Afinal, não saio com eles para beber…
(Pausa para um gole de cerveja).
- …Exceto se pagarem a conta ou levarem a bebida para o consultório.
- É justo.
- De acordo.
- Então vamos organizar assim, eu tenho a alma melancólica e você, o coração sentimental. Que tal, Dimas?
- Melhor ouvir o psiquiatra. E aí, Artur?
- Pode ser.
- Pode ser ou é?!
- Pode ser que seja.
- Mudando de assunto, eu acho que de nós três você é quem escreve melhor.
- Deixa disso.
- Falo sério! Cada um tem o seu próprio estilo, mas você tem algo mais. É ou não é, Josias?
- É. Às vezes, você dá umas rajadas no texto que são fantásticas.
- Meus caros, suas críticas literárias não me servem. Dimas, por exemplo, quando ama alguém não enxerga os defeitos, só as virtudes.
- Mas eu não amo você.
- Que seja. Além do mais, aprendi com o meu pai a não dar importância aos elogios, pois eles levam à vaidade e “a vaidade é o prato dos parvos”, já dizia Jonathan Swift.
- Mas ele também dizia que os sábios também condescendem em comer desse prato muitas vezes.
- Apoiado, Josias! Aproveito a deixa e, além de retirar o elogio, ainda vou radicalizar. Você é uma usina de cinismo!
- Usina de cinismo é o cacete!
- Ué, pelo que eu entendi, você havia aprendido com seu pai a lhe dar melhor com essas coisas.
- É, mas aprendi com minha mãe a não levar desaforo pra casa.
- Agora, eu tenho mesmo é inveja de Josias. O cara escreve cada poema pra se lascar! Eu mesmo não sei fazer poema. Aliás, tenho a maior dificuldade em diferenciar poema de poesia, quanto mais escrever. Falar nisso, quanto tempo você leva para fazer um?
- Rapaz, depende. Às vezes faço em cinco minutos, mas já fiz um poema em três anos.
- Três anos?!
- É.
- É por isso que não dá para viver de literatura neste país.
- Você pode não fazer poema, mas suas crônicas sobre o cotidiano são muito boas, Dimas.
- Mas, Josias, eu não escrevo sobre o cotidiano.
- Como não?! Você só escreve sobre o cotidiano.
- Eu escrevo ficção.
- Ficção? Você já escreveu alguma vez sobre invasão alienígena? Quem sabe sobre uns vermes assassinos ou alguma viagem ao centro da terra?
- Mas tem uma crônica que eu falo em disco voador.
- Muito pouco. Além do mais, o disco voador é só a imaginação coletiva de alguns personagens. Você escreve mesmo é sobre o cotidiano.
- Meu Deus, não me reconheço mais! Sempre pensei que escrevia sobre ficção!
- Para ser escritor de ficção você precisa ousar mais, não é Artur?
- “Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente; não ousar é perder-se”, já dizia Kierkegaard.
- Então eu estou num momento bastante ousado, pois já não tenho equilíbrio nenhum.
- Eu acho a obra de Kierkegaard de difícil interpretação.
- Eu acho mesmo é o nome de difícil pronúncia. Nem ouso dizê-lo, ainda mais nestas condições.
- Agora numa coisa vocês concordam. Ana é a musa dos blogues literários.
- Que Ana?
- Do Ninho dA’Ninha.
- Ah, Cláudia!
- Que intimidade é essa com a minha musa?
- Sou íntimo, meu chapa! Morra de inveja!
- Faltou ela no bar.
- Faltou.
- Tá faltando também cerveja.
- Garçon, mais uma!
Artur Perrusi é psiquiatra e editor do Blog dos Perrusi, enquanto Josias de Paula Jr. é sociólogo e editor do blog Inscritos em Pedra. Além dos blogues pessoais, os três personagens desta crônica também escrevem para o Torcedor Coral. Esta é uma obra de ficção, mas pode não ser, já que descobri que só escrevo sobre o cotidiano.
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Paixão de Cristo
Pintura: Vicent Van Gogh

Calix Bento - Milton Nascimento (Folclore mineiro adaptado por Tavinho Moura)
Dimas Lins
Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais velho, é que independente das religiões era estranho tornar-se partidário de algo sem ao menos ter uma idéia precisa daquilo em que estava tomando parte. Ia além. Considerava sem sentido tomar partido de qualquer coisa, enquanto fosse incapaz de articular idéias, como era o caso de qualquer recém-nascido. Dizia isso, embora compreendesse perfeitamente o desejo dos pais de querer repassar aos filhos seus usos, costumes e crenças.
Dessa forma, viveu a primeira fase da infância num ambiente católico. Morava próximo à Basílica da Penha no tradicional bairro de São José em Recife e ia lá, vez por outra, em alguma ocasião especial. Como a maioria das famílias católicas, a sua não seguia com rigor os dogmas da igreja. Havia certa frouxidão na relação entre sua família e o Vaticano e, para ele, isso estava de bom tamanho, pois significava um pouco mais de liberdade, ainda que comedida.
Na verdade, gostava mesmo de ir à igreja na semana santa, por causa da encenação da Paixão de Cristo, onde crianças indomáveis eram protagonistas da famosa peça sacra. A bem da verdade, o melhor papel que conseguiu em todos aqueles anos foi o de soldado romano Nº 8, um mero figurante sem direito a proferir uma palavra sequer, por mais monossilábica que fosse. E mesmo assim, nunca atuou na peça em qualquer apresentação pública. Ensaiava, ensaiava e ensaiava, mas ficava apenas no ensaio. Não era tão-somente um péssimo ator, era também irrequieto demais. Numa peça, há que se ter paciência para respeitar as marcações e este não era exatamente o seu caso. E esta inquietação não era apenas sua, mas também de seu melhor amigo, outro ator-mirim, cujo talento não foi reconhecido pelas freiras que produziam o espetáculo.
Acostumaram-se muito mais a tumultuar a montagem a portas fechadas do que propriamente a atuar. Na busca por Jesus no monte das Oliveiras, por exemplo, os dois costumavam procurá-Lo embaixo das cadeiras, atrás das cortinas ou até mesmo dentro dos sapatos dos atores que ensaiavam descalços. Tudo isso, obviamente, desagradava tremendamente às freiras. Ficaram conhecidos e marcados por isso e, um dia, a fama cobrou seu preço.
Certa vez, os dois amigos foram desqualificados como atores e rebaixados a assistentes de palco. De representar o soldado romano Nº 8, ele passou a cuidar dos efeitos especiais. Na verdade, as únicas participações dos dois na peça se restringiriam à cena da morte de Jesus onde, munidos de interruptores e lâminas de metal, simulariam os relâmpagos e trovões.
Do começo ao fim, em todas as sessões preparatórias à estréia para o público, agiram de acordo com a marcação do texto. Era só Jesus pronunciar a citação “Pai, perdoai! Eles não sabem o que fazem!” e as luzes acendiam e apagavam freneticamente, enquanto as lâminas de metal eram agitadas. Tudo ocorria perfeitamente, de acordo com o previsto.
Depois de tantos ensaios, o cansaço e a monotonia de esperar o tempo certo da marcação dos efeitos especiais finalmente chegaram. E vieram exatamente na estréia da Paixão de Cristo. O local improvisado para a reprodução dos relâmpagos e trovões assemelhava-se a um sótão acima e ao redor do palco e seu acesso se dava por uma escada de madeira. No dia do espetáculo, os dois recolheram a escada e, antes que alguém desse conta, já estavam isolados e inacessíveis.
Todos a postos, Jesus entrou triunfante em Jerusalém, montado numa bicicleta adornada com cabeça e rabo de jumento, para mostrar publicamente que, com seu reinado, chegava o tempo da simplicidade. Nesse momento, viu-se um discreto relâmpago. Um erro de marcação, talvez.
Um pouco mais adiante, Jesus pregava na cidade, enquanto no céu surgiam relâmpagos, agora um pouco mais desinibidos, desta vez acompanhados de um tímido trovão. A platéia não se deu conta, mas os atores-mirins já estranhavam os efeitos fora do tempo.
Entretanto, os efeitos especiais deixaram a timidez de lado mesmo quando Jesus indignou-se com a presença dos vendedores no templo. Relâmpagos surgidos no céu e trovões ensurdecedores davam dramaticidade à cena. Enquanto Jesus tropeçava nos ambulantes e os apóstolos colocavam as mãos nos ouvidos, embaixo do sótão percebia-se o movimento das freiras numa tentativa silenciosa de mantê-los sob controle. Era inútil.
A partir dali, cada uma das unidades de ação da peça era acompanhada de efeitos especiais. À medida que Jesus curava os enfermos, por exemplo, viam-se e ouviam-se relâmpagos e trovões seguidos de gritos de “viva!”, “aleluia!” ou “glória a Deus!” vindos do sótão. Também foi em meio a uma tempestade que aconteceu a última ceia. Conta-se que o Messias, já impaciente com o barulho, mandou os apóstolos calarem a boca antes de repartir o pão. E na cena do beijo em que Judas traiu Jesus, houve certo constrangimento no ar quando os dois gritaram lá de cima “safado!” e “morte ao traidor!”.
A platéia dividida reagia com indignação e gargalhadas, enquanto relâmpagos e trovões acompanhavam o suicídio de Judas e toda a via crucis do Mestre. Por coincidência, a única cena sem tempestade foi justamente a da morte de Jesus.
Quando finalmente terminou a peça, Jesus e seus apóstolos, além dos soldados romanos, os aguardavam furiosos embaixo do sótão. Sob os olhares de reprovação das freiras, eles, com ar de inocência, elogiaram a atuação de todo o elenco e ainda tiveram a cara de pau de perguntar o horário da próxima sessão.
7 comentáriosA morte não lhe cai bem

Sujeito de sorte (Belchior)
Dimas Lins
Nem sempre é necessário um tempestade para causar uma inundação. Às vezes, uma pequena gota fará transbordar o que já está cheio. E o desespero bate do mesmo jeito afogando a esperança ou ocultando caminhos ainda possíveis de se percorrer.
De uma tacada só, perdeu a mulher, o apartamento, o melhor amigo e o emprego. É que sua mulher andava tendo um caso com o amigo que, por azar, era também seu patrão. O flagrante foi em sua própria cama e ela ainda teve a coragem de pedir-lhe para sair de casa durante a contenda. Foi assim que também perdeu o apartamento. Para não sair tão por baixo, resolveu, de última hora e só pelo orgulho ferido, levar consigo a samambaia.
Alguns meses depois, num pequeno quitinete alugado num bairro afastado de tudo, sentia o impacto de ter tido sua vida devastada tão abruptamente. Não se dobrou completamente, mas bastava um nada para que se dobrasse. Estava ilhado, sem dinheiro e sem perspectivas.
A morte de sua samambaia foi a gota derradeira que o impulsionou a um desejo incontrolável de buscar a interrupção definitiva de sua vida humana. Perdera lentamente sua última companheira, seu último laço afetivo com o mundo e o último ser vivo que o ouvia sem reclamar. Ela morrera de sede, por sua única e exclusiva culpa. A planta lhe dera toda a atenção de que precisava, mas ele foi incapaz de compreender sua necessidades mais básicas. Água, apenas água, e nada mais. Por ironia, a gota d’água que faltara à samambaia sobrava em seu pote cheio de mágoa, selando a sentença de dar cabo à sua vida. Se dera causa a sua morte, ele anteciparia deliberadamente o seu prazo de validade e, quem sabe assim, pagasse a dívida contraída com a planta.
Decidido, passou a tramar o seu próprio fim e, em seus planos mirabolantes, percebeu que não seria fácil. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi pular do alto de um edifício. Deixaria seu corpo cair em queda livre sentindo a brisa da manhã de maneira acelerada. Respirou fundo, foi até o telhado do seu prédio e, estranhamente, ficou paralisado. Os músculos não responderam aos comandos de seu cérebro. Estava imóvel, porque acabara de descobrir que tinha acrofobia. De fato, nunca estivera em algum lugar tão alto e sem proteção, para que pudesse confirmar suas suspeitas. Agora estava provado. Tinha medo de altura e, embora isso explicasse muitas coisas em sua vida, achou que não era o momento oportuno para a descoberta. Melhor então seria tentar de um lugar mais baixo.
Dizem que o desespero pode levar algumas pessoas a tomarem atitudes impensadas, mas nunca se soube em toda a história da medicina que alguém, em tais circunstâncias, pudesse ser levado à estupidez. Foi entre o caos no pensamento e a burrice escancarada que decidiu então pular do térreo. Deslocou-se para uma ladeira próxima a sua casa, marcou carreira, desceu-a velozmente e, de certo ponto, jogou-se para frente. Rolou ladeira abaixo desgovernado até se chocar contra uma mureta. Levantou-se com dificuldade e, apesar de ter o corpo ralado dos pés à cabeça, percebeu que não havia quebrado um osso sequer. Morrer, então, estava fora de cogitação. Ainda teve que ouvir uns gritos de “louco” e “retardado” de algumas testemunhas no passeio público.
Apesar do desastre, não desistiria facilmente, embora decidisse concretizar seus planos longe dos olhares dos curiosos, para evitar o constrangimento, em caso de novo fracasso. Primeiro, tentou se afogar numa bacia d’água e depois meteu-se a cortar os pulsos com um barbeador elétrico. Em seguida, tentou se enforcar amarrando uma corda no cano da pia do banheiro. Por fim, desceu intempestivamente e tentou se jogar na frente de um carro. Mas, para seu azar, o sinal estava fechado e, mesmo tendo corrido em direção ao veículo parado, não conseguiu nada além de um pequena mossa no capô.
Reconheceu finalmente que fracassara como suicida e, diante de sua ineficiência em terminar sua própria existência e sua teimosia em manter-se vivo, decidiu viver o que restava de sua vida. Foi assim que, no ano seguinte, tentando superar o medo de altura, entrou num curso de pára-quedismo e conheceu Dinorah, com quem pretende se casar em breve.
Embora sua vida tenha mudado e se considere um sujeito de sorte por não ter morrido nas suas desventuras em busca da morte, vez por outra, ainda lhe bate um impulso suicida, não por sentir-se um miserável ou pela saudade da samambaia, mas pela frustração de não ter tido sucesso em sua empreitada mórbida. Mas, lá no fundo, ele está feliz por saber que a morte não lhe cai bem.
2 comentáriosUma crônica por acaso

Canção por acaso (Adriana Calcanhoto)
Dimas Lins
Alguns amigos têm me procurado para saber se estou bem. Alegre e satisfeito com a atenção e a demonstração de amizade, tenho sempre respondido que sim, que estou muito bem. Aproveito obviamente essas ocasiões para também perguntar se os amigos vão bem. Geralmente vão, mas, apesar da serenidade na troca de palavras, ainda permanecem desconfiados sobre o meu estado.
No começo, devo confessar, estranhei a preocupação, pois como me olhava no espelho diariamente e não via sinais de abatimento, ficava tentando imaginar por qual motivo algumas pessoas contavam com a possibilidade de eu estar com o espírito um tanto perturbado. A primeira coisa que pensei é que minha aparência deveria estar horrível. Como não gosto muito de me barbear, isso parecia fazer algum sentido.
Por isso, como primeira medida, tomei a resolução de fazer a barba mais vezes por semana. Não custava nada arriscar e talvez isso melhorasse um pouco o meu aspecto. E embora minha esposa agradecesse minha nova resolução envolvendo lâmina e espuma, as impressões sobre o meu abatimento não se modificaram. Só soube de que se tratavam as preocupações zelosas, quando recebi um e-mail de um amigo dizendo claramente sua motivação. Tentei tranqüilizado, também por e-mail, e acabei recebendo de volta uma mensagem de alívio.
É que alguns dos meus amigos têm acompanhado o Estradar e, obviamente, percebido alguns contos e crônicas um tanto mais densos e, à toa, acabam se preocupando. Perguntam se estou bem, se meu casamento também vai bem e seguem levantando todo tipo de suspeita sobre o que anda me afetando o pensamento.
Mesmo bem, achei que não deveria desprezar impressões de amigos tão leais. Depois de conversar com a minha esposa, decidi procurar alguém que entendesse do assunto e, como nestes casos não há nada melhor do que procurar um especialista, decidi me aconselhar com um psiquiatra. Porém, não poderia ser um profissional qualquer. Teria necessariamente que ser alguém gabaritado, pois, do contrário, um médico inexperiente poderia tomar-me por louco ou depressivo e eu teria muita dificuldade em provar o contrário, pois já havia suspeitas nesta direção. Procuraria, assim, o melhor entre os melhores.
Resolvi me informar por andava Sigmund Freud. Afinal, ninguém melhor que ele para desembaraçar o caso. Embora alguns atestassem que o pai da psicanálise já havia morrido, decidi confirmar a veracidade da informação. Depois de muitas pesquisas, não só descobri que ele está muito bem vivo, mas também morava próximo a minha cidade. Descobri mais. Descobri, por exemplo, que ele não é austríaco coisíssima nenhuma! Longe disso. Que apenas havia morado na França, onde fez doutorado. Na verdade, Sigmund é pernambucano e hoje clinica em João Pessoa sob a alcunha de Dr. Rutra, para manter-se incógnito. Como não tinha dúvidas das minhas fontes, peguei o carro e fui bater em Intermares, local de seu consultório, na filial paraibana.
Confesso que fiquei surpreso, quando o vi. Aquela imagem de homem de barba e cabelos brancos não era verdadeira. Tudo fazia parte do folclore em torno dele. Ele, na verdade, era mais baixo do que eu e tinha os cabelos castanhos, um pouco encaracolados. Perguntei, ainda tomado de grande espanto, por que ele aparentava ser tão jovem e também a razão de nunca revelar publicamente sua condição de brasileiro. Com um ar abusado, como se houvesse respondido tantas vezes a mesma questão, me disse que tem fez feito seguidas plásticas e aconselha o mesmo a qualquer um que entre em seu consultório. Além do mais, mantivera em segredo a sua brasilidade, para ganhar notoriedade por seu trabalho. Achava que ninguém daria bola para aquela história sobre Édipo e sua mãe. No máximo, apontar-lhe-iam o dedo e acusariam os brasileiros de serem todos pervertidos. Não queria isso.
Passada a fase preambular em que lentamente eu me acostumava com o seu forte sotaque pernambucano misturado a uma indisfarçável e artificial pronúncia alemã, Sigmund perguntou-me o que me angustiava. Disse-lhe que tudo estava bem comigo e que a questão era os amigos. Afirmou que se o problema não era meu, os amigos que viessem se tratar. Não dava. Eles eram muitos e a conta da consulta certamente sairia além da conta e da minha própria conta. Mas em poucas linhas, expliquei-lhe a razão de suas preocupações. Falei do blog e dos textos tristes que gosto de escrever. Ele se virou em direção ao seu computador e pediu-me o endereço na internet. Em poucos segundos, estava ele, o pai da psicanálise, lendo minhas crônicas. Primeiro deu uma leve risada e disse que tinha gostado de alguns contos psiquiátricos. “Muito loucos!”, foram suas palavras. Depois, mais sério, pôs-se a ler as crônicas carregadas de tristezas e amarguras. Leu dois ou três textos e, ainda com um ar grave, perguntou-me se eu amava a minha mãe. Respondi um óbvio “claro que sim!”, mas ele não mudou a fisionomia. Ao contrário, continuo a me fazer perguntas.
– De que forma?
– Como de que forma? Como mãe, é claro! - respondi meio aborrecido, imaginando aonde ele queria chegar.
Ele deu um suspiro contrariado e seguiu dizendo que a relação entre pais e filhos já não era mais tão interessante para a psicanálise. Em seguida, deu seu parecer. Disse que todo escritor, por natureza, tem a alma perturbada. Embora eu não seja escritor, posso dizer com convicção que, ao menos pelo espírito perturbado, estou no caminho certo. Assumo que, mesmo sem muita habilidade, misturo o triste e o engraçado, a loucura e a sanidade, pois assim são os corações humanos. Rabisco pelo acaso e pelo prazer da escrita.
Sigmund acrescentou que embora eu tivesse a alma melancólica, posto que enxergava beleza na tristeza, também tinha o coração travesso. Por fim, sentenciou que a única coisa que ainda aperreava o meu juízo era o velho e glorioso Santa Cruz Futebol Clube, mas isso não era culpa minha e que ele próprio também andava aperreado pela mesma razão.
Já em casa, concluí que certamente meus escritos podem confundir os amigos. Afinal, eles não conheciam esse meu lado rabiscador e de repente passaram a me enxergar como alguém “enterrado em meu próprio corpo”. Sem contar que uso a separação como tema recorrente em meus contos. Mas para tudo há uma razão.
O Estradar tem sido um companheiro inestimável que me permite experimentações literárias. E como não encontrei um único estilo que abrigue as minhas medidas, me aproveito de todos os que encontro pelo caminho para experimentar. Nem sempre o que escrevo está contextualizado no mundo real, a não ser, certamente, o fato de usá-lo como fonte de inspiração.
O coração humano, em toda a sua beleza e inquietude, é a minha musa inspiradora. A minha medida, enquanto rabiscador, é não ter medida. Procuro tentar todas as formas até encontrar o meu próprio caminho ou perceber que meu estilo é não ter estilo nenhum. O que me importa mesmo é o prazer incontrolável que sinto em escrever, ainda que o faça com certa fragilidade literária.
O Estradar tem sido um grande desafio, porque não é fácil associar uma música a um texto. De fato, em muitas situações, primeiro escolho a música, depois rabisco a crônica. Nesse aspecto, é o tema da música que determina o que o texto dirá. Por isso, o processo de criação, às vezes, tem sido lento e dolorido.
E não tendo um único estilo, se eu pudesse me definir como rabiscador, usaria as palavras de Adriana Calcanhoto, que, por acaso, me empresta sua música como âncora neste texto. Escrevo sem ordem, sem harmonia, sem belo, sem passado. Sem arte, sem artéria, sem matéria, sem artista, sem voz, sem formato. Sem escalas, sem achados, sem sol, sem tom, sem melodia. Sem tempo, sem contratempo, sem mito, sem rito, sem ritmo, sem teoria. Escrevo uma crônica por acaso e, quem sabe um dia, um texto sem palavras.
Ah, antes que eu me esqueça, aproveito para esclarecer aos amigos que meu casamento vai muito bem, obrigado, e que sou um homem feliz.
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