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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

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Diário da motocicleta

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Redescobrir - Elis Regina (Gonzaguinha)

Dimas Lins

Vasculho na memória e encontro vestígios da minha infância. São lembranças de um passado distante que guardam a marca dos dias difíceis e do dinheiro contado. Mas também são, principalmente, registros de tempos felizes.

Sempre que me lembro do Bairro de São José, sinto no peito uma nostalgia que me faz perder um pouco da dureza da alma. E se minha alma tornou-se rija, peço-lhes que compreendam que ela assim o fez movida pelos pequenos golpes diários sofridos durante a minha jornada e que terminaram por forjar o homem que sou hoje, com todos os defeitos e virtudes.

Mas volto aos meus tempos de criança. Lembro das minhas perambulações pelo velho bairro e dos amigos que fiz. Ah, que saudade da escola, dos colegas de turma e de todos os professores que tive! Por onde andarão a minha primeira namorada e os meus primeiros amigos de verdade? E se muitos deles ficaram pelo caminho, certamente jamais se perderam em meu coração.

Nas ruas de São José, brincava de coisas simples. Jogava garrafão, barra-bandeira e futebol. Na minúscula Praça do Pirulito, fazia torneios de bolas-de-gude e ferrinho. E quando o Forte das Cinco Pontas fechou, passei a brincar de polícia e ladrão por lá, quase que diariamente. Infelizmente, o tempo acabou deixando poucos refúgios para a criançada do bairro que, mais à frente, perderia o espaço para o intenso vai-e-vem de pessoas, cada vez mais atraídas pelo comércio varejista.

Em casa, eu tinha quase nenhum brinquedo. E os que tinha geralmente eram herança dos irmãos mais velhos. Por isso, quando estava sozinho, encontrava diversão na base do improviso. No meu universo infantil, caixas de fósforos se transformavam em jogadores de futebol e dominós, em bonecos.

Em algumas ocasiões, eu brincava na casa dos amigos. E confesso aqui que sentia uma ponta de inveja quando via aquela montanha de brinquedos espalhados pelo chão. Tentava aproveitar o máximo, pois sabia que na volta para casa não haveria tantos assim.

Recordo-me bem de um dia em particular. Foi quando caí em tentação. Como o coração sente o que os olhos vêem, aproveitei a distração de um amiguinho para colocar em meu bolso uma pequena motocicleta. Em seu quarto, havia tantos brinquedos que achei que não teria mal algum em levar um deles comigo. Certamente o dono não sentiria falta de um entre tantos.

Cheguei a minha casa ansioso. Rapidamente corri para o meu quarto e coloquei a motocicleta roubada entre a grade da cama e o colchão. Não poderia deixá-la a mostra, afinal, como explicar de onde viera o novo brinquedo?

Por isso, minha alegria não durou um único dia. Cada vez que ia ao quarto e olhava a motocicleta, meu coração disparava. Sabia que tinha feito algo errado. Mas só ali, escondido como um criminoso, entendi o que realmente havia feito. E com o passar das horas, o sentimento de culpa tornou-se insuportável.

Percebi-me um ladrão, um pequeno criminoso. Daquele momento em diante, estaria eu perdido para sempre num mundo sem honra. E desonraria também meu pai e minha mãe, envergonharia meus irmãos, perderia a confiança dos amigos e a fé em mim mesmo. E certamente, ao seguir por caminhos tão perigosos, tornar-me-ia um pária.

- Lá vai o ladrãozinho! - diria um.

- Olha lá o pequeno salafrário! - diria outro.

À noite, tive dificuldades para dormir. Reprovava o meu ato e atormentava o meu juízo. Encontrei-me enfim rodeado por mil assombrações, por causa de uma motocicleta de pouco mais de cinco centímetros.

Na manhã seguinte, achei por bem contar a verdade ao dono do brinquedo roubado. Porém, diante dele e de sua sincera amizade, não tive coragem. Era agora, além de ladrão, um covarde. Na hora da verdade, muitos correm. E eu também corri. Ainda assim, sabia que o brinquedo deveria retornar ao seu verdadeiro dono. Por isso, restou-me apenas esperar o momento oportuno. E um dia, esse momento chegou.

Numa tarde qualquer, recebi um novo convite para brincar em sua casa. Coloquei a motocicleta em meu bolso e fui ter com a verdade. Resgataria enfim a minha dignidade. E, tal qual ocorreu no dia do roubo, aproveitei um momento de distração do meu anfitrião e misturei a motocicleta a outros brinquedos. Ele nem chegou a perceber. Foi como se ela nunca tivesse saído de sua casa. Melhor assim. Aliviado, reencontrei a minha paz.

E hoje, quando olho para trás, percebo a lição valiosa que aprendi naqueles dias. Melhor contentar-se com o que possui a cobiçar o que não lhe pertence. Muito melhor.

E ficou em mim, nos dias de minha infância, a lição marcante de que é mesmo verdade que o crime não compensa.

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Paixão de Cristo

Pintura: Vicent Van Gogh
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Calix Bento - Milton Nascimento (Folclore mineiro adaptado por Tavinho Moura)

Dimas Lins

Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais velho, é que independente das religiões era estranho tornar-se partidário de algo sem ao menos ter uma idéia precisa daquilo em que estava tomando parte. Ia além. Considerava sem sentido tomar partido de qualquer coisa, enquanto fosse incapaz de articular idéias, como era o caso de qualquer recém-nascido. Dizia isso, embora compreendesse perfeitamente o desejo dos pais de querer repassar aos filhos seus usos, costumes e crenças.

Dessa forma, viveu a primeira fase da infância num ambiente católico. Morava próximo à Basílica da Penha no tradicional bairro de São José em Recife e ia lá, vez por outra, em alguma ocasião especial. Como a maioria das famílias católicas, a sua não seguia com rigor os dogmas da igreja. Havia certa frouxidão na relação entre sua família e o Vaticano e, para ele, isso estava de bom tamanho, pois significava um pouco mais de liberdade, ainda que comedida.

Na verdade, gostava mesmo de ir à igreja na semana santa, por causa da encenação da Paixão de Cristo, onde crianças indomáveis eram protagonistas da famosa peça sacra. A bem da verdade, o melhor papel que conseguiu em todos aqueles anos foi o de soldado romano Nº 8, um mero figurante sem direito a proferir uma palavra sequer, por mais monossilábica que fosse. E mesmo assim, nunca atuou na peça em qualquer apresentação pública. Ensaiava, ensaiava e ensaiava, mas ficava apenas no ensaio. Não era tão-somente um péssimo ator, era também irrequieto demais. Numa peça, há que se ter paciência para respeitar as marcações e este não era exatamente o seu caso. E esta inquietação não era apenas sua, mas também de seu melhor amigo, outro ator-mirim, cujo talento não foi reconhecido pelas freiras que produziam o espetáculo.

Acostumaram-se muito mais a tumultuar a montagem a portas fechadas do que propriamente a atuar. Na busca por Jesus no monte das Oliveiras, por exemplo, os dois costumavam procurá-Lo embaixo das cadeiras, atrás das cortinas ou até mesmo dentro dos sapatos dos atores que ensaiavam descalços. Tudo isso, obviamente, desagradava tremendamente às freiras. Ficaram conhecidos e marcados por isso e, um dia, a fama cobrou seu preço.

Certa vez, os dois amigos foram desqualificados como atores e rebaixados a assistentes de palco. De representar o soldado romano Nº 8, ele passou a cuidar dos efeitos especiais. Na verdade, as únicas participações dos dois na peça se restringiriam à cena da morte de Jesus onde, munidos de interruptores e lâminas de metal, simulariam os relâmpagos e trovões.

Do começo ao fim, em todas as sessões preparatórias à estréia para o público, agiram de acordo com a marcação do texto. Era só Jesus pronunciar a citação “Pai, perdoai! Eles não sabem o que fazem!” e as luzes acendiam e apagavam freneticamente, enquanto as lâminas de metal eram agitadas. Tudo ocorria perfeitamente, de acordo com o previsto.

Depois de tantos ensaios, o cansaço e a monotonia de esperar o tempo certo da marcação dos efeitos especiais finalmente chegaram. E vieram exatamente na estréia da Paixão de Cristo. O local improvisado para a reprodução dos relâmpagos e trovões assemelhava-se a um sótão acima e ao redor do palco e seu acesso se dava por uma escada de madeira. No dia do espetáculo, os dois recolheram a escada e, antes que alguém desse conta, já estavam isolados e inacessíveis.

Todos a postos, Jesus entrou triunfante em Jerusalém, montado numa bicicleta adornada com cabeça e rabo de jumento, para mostrar publicamente que, com seu reinado, chegava o tempo da simplicidade. Nesse momento, viu-se um discreto relâmpago. Um erro de marcação, talvez.

Um pouco mais adiante, Jesus pregava na cidade, enquanto no céu surgiam relâmpagos, agora um pouco mais desinibidos, desta vez acompanhados de um tímido trovão. A platéia não se deu conta, mas os atores-mirins já estranhavam os efeitos fora do tempo.

Entretanto, os efeitos especiais deixaram a timidez de lado mesmo quando Jesus indignou-se com a presença dos vendedores no templo. Relâmpagos surgidos no céu e trovões ensurdecedores davam dramaticidade à cena. Enquanto Jesus tropeçava nos ambulantes e os apóstolos colocavam as mãos nos ouvidos, embaixo do sótão percebia-se o movimento das freiras numa tentativa silenciosa de mantê-los sob controle. Era inútil.

A partir dali, cada uma das unidades de ação da peça era acompanhada de efeitos especiais. À medida que Jesus curava os enfermos, por exemplo, viam-se e ouviam-se relâmpagos e trovões seguidos de gritos de “viva!”, “aleluia!” ou “glória a Deus!” vindos do sótão. Também foi em meio a uma tempestade que aconteceu a última ceia. Conta-se que o Messias, já impaciente com o barulho, mandou os apóstolos calarem a boca antes de repartir o pão. E na cena do beijo em que Judas traiu Jesus, houve certo constrangimento no ar quando os dois gritaram lá de cima “safado!” e “morte ao traidor!”.

A platéia dividida reagia com indignação e gargalhadas, enquanto relâmpagos e trovões acompanhavam o suicídio de Judas e toda a via crucis do Mestre. Por coincidência, a única cena sem tempestade foi justamente a da morte de Jesus.

Quando finalmente terminou a peça, Jesus e seus apóstolos, além dos soldados romanos, os aguardavam furiosos embaixo do sótão. Sob os olhares de reprovação das freiras, eles, com ar de inocência, elogiaram a atuação de todo o elenco e ainda tiveram a cara de pau de perguntar o horário da próxima sessão.

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Direita, volver!

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Vote em mim - Rita Lee (Roberto de Carvalho/Rita Lee/Ezequiel Neves)

Dimas Lins

Politicamente, sempre esteve mais à esquerda. Ainda hoje mantém as suas convicções, apesar de se sentir um pouco órfão. Sumiram o respeito e a esperança que sentia por alguns políticos e pela forma de fazer política, mas seu pensamento filosófico pouco se alterou. E embora não seja mais assim, já enxergou a política de uma forma romântica.

Na sua visão apaixonada, de um lado estavam aqueles que defendiam os interesses gerais, do mais humilde, do mais pobre e dos que não tinham vez, nem voz. Do outro, os que utilizavam a máquina do Estado como um meio para atingir os fins pessoais mais recônditos e que exerciam o poder em nome do povo, mas por si e para si. De um lado, os que combateram a ditadura, lutaram pela liberdade e pelo direito à democracia. Do outro, os que usaram os governos para se locupletar e melhorar a sua vida e a vida dos seus. Em síntese, de um lado os mocinhos, do outro, os bandidos. Visão mais romântica, impossível.

Infelizmente, o tempo passou e, para ele, o romantismo político ficou no passado, na lembrança. Os mocinhos deixaram de ser mocinhos e os bandidos continuaram fazendo o que sempre fizeram. Foi-se o tempo em que ele olhava, por exemplo, o governo cubano com simpatia ou acreditava que, aqui pelas bandas do hemisfério sul, um novo mundo iria vingar. Cuba, por seus olhos, não passa de uma ditadura de esquerda e o hemisfério sul parece mesmo não ter jeito.

Embora nunca tenha sido filiado ao PT, ele nutria simpatia pelo partido e, em todas as eleições, votava em seus representantes. Nos comícios, saía de casa enrolado numa bandeira vermelha, acreditando mesmo que o Brasil poderia ser um país mais justo. Chegaram a botar preço no seu pendão, mas não vendeu por dinheiro nenhum. Deixou de ganhar um trocado na época. Uma pena.

Eram bons tempos aqueles. Tempos em que a esperança vencia o medo, apesar de o medo, de fato, meter medo. Embora ele agisse naqueles idos com muito fervor e romantismo político, teve um momento em que fraquejou. Traiu suas convicções políticas por dinheiro. Logo ele, um jovem orgulhoso que combatia humildemente o sistema, fora seduzido.

Aconteceu nas eleições gerais de 1986, quando Miguel Arraes, do PMDB, disputava com José Múcio, um pefelista, o governo do Estado de Pernambuco. Na ocasião, ele estava cursando a faculdade de Matemática e tinha orgulho das suas posições políticas. Nunca foi líder estudantil, mas em qualquer movimento ou passeata ele sempre estava lá. Sentia-se orgulhoso em sair às ruas para defender questões tão intangíveis quanto à democracia e à cidadania. Foi assim, desde o segundo grau.

1986 também foi um ano difícil do ponto de vista financeiro, pois seus bolsos serviam apenas para carregar a identidade, a carteira de estudante, alguns passes de ônibus e uns míseros trocados. Já era um rapaz e, naquela altura da vida, o dinheiro passava a ser mais necessário. Entre os jovens machos, os recursos financeiros, por mais curtos que fossem, eram um atrativo a mais para conquistar a fêmea. Liso, suas chances de transitar com alguma desenvoltura no universo feminino caiam consideravelmente. Não julgava mal as mulheres, que fique claro, mas com a grana que tinha, ou melhor, que não tinha, não dava nem mesmo para convidar uma garota para ir ao cinema. Coração de estudante, bolso de estudante.

Sem dinheiro, exercitava a inteligência para não ser um pária, um mancebo banido das castas estabelecidas. Sabia usar a cabeça e, como ninguém, beneficiar-se das próprias qualidades. Forçou-se também a deixar a timidez um pouco de lado e, com a ajuda da sua pouca erudição, tornou-se mais desinibido. Pragmático, transformou a si mesmo numa pessoa um pouco mais simpática, mais benquista e com mais amigos.

Mas ainda faltava a grana, aquelas notinhas que se desvalorizavam com a inflação numa velocidade alucinante lhe faziam uma falta tremenda. Era um socialista passando dificuldades num mundo capitalista.

E foi numa dessas circunstâncias, de absoluta falta de dinheiro, que recebeu o convite de um vizinho do bairro para trabalhar num dos comitês de campanha de José Múcio. O vizinho desconhecia seu convencimento a respeito da esquerda, por isso, o convite. Os rapazes da sua turma, ao menos os mais duros, toparam prontamente o trabalho ajustado. Do grupo de jovens pés-rapados, ele foi o único a rejeitar a oferta. O dinheiro não mudaria as suas convicções. Longe disso! Não aceitaria e ponto final. Ao menos ele pensava que era um ponto, mas o tempo mostrou-lhe que, no máximo, seria uma vírgula. Tentou ainda procurar o comitê de Arraes na vizinhança, mas não havia nenhum. E mesmo se houvesse, certamente não haveria pessoal contratado, apenas voluntários. Na época, a esquerda não tinha dinheiro para esses luxos.

Infelizmente, ideologia não enche barriga e os primeiros salários da rapaziada acabaram com sua auto-estima. Pária na faculdade, pária no bairro em que morava. Por isso, na segunda vez que recebeu o convite, rabo entre as pernas, não recusou. Estava feito! Transformou-se, aos seus próprios olhos, naquilo que mais repelia: um traidor! O que Miguel Arraes pensaria dele?! Certamente nada, já que Arraes não fazia a menor idéia de quem ele era, mas seus irmãos e amigos mais chegados ficariam desapontados. Ele próprio indubitavelmente ficaria.

Contrariado, entrou para o comitê. Ele mesmo era responsável por sua própria contrariedade. E, envergonhado, não havia o que fazer senão esconder da direita que era de esquerda e da esquerda que ele estava trabalhando para a direita. Restava persistir em manter-se incógnito pelos locais onde o comitê iria atuar.

A cada comício, carreata ou passeata seu constrangimento aumentava. Tentava se disfarçar o quanto podia, para não ser reconhecido. Algumas situações chegaram a ser patéticas. Numa passeata, certa vez, passou em desfile por um local e encontrou um amigo da faculdade. Desesperado, acabou completamente enrolado na bandeira do candidato do PFL arrancada providencialmente de um militante ao seu lado. Não foi notado, mas suou frio. Sentiu-se desconfortável. Para ele, fazer campanha para um candidato de direita significava a mesma coisa que trocar de time de futebol.

Foi em meio a este dilema que resolveu, por conta própria, fazer uma contra-ofensiva. Ao invés de abandonar o comitê, dado que continuaria sem grana, passou a fazer campanha para Arraes utilizando a estrutura eleitoral do candidato da direita. Saiu então de um dilema político para entrar num dilema ético. Mesmo assim seguiu em frente, convicto que estava, diante das circunstâncias, tomando a melhor resolução.

No começo, tentava agir discretamente. Distribuía os panfletos do candidato do PFL e dizia aos eleitores que o outro era melhor. Que um defendia as causas populares e sociais, enquanto o outro vinha de um partido que deu suporte à ditadura militar e continuaria agindo em benefício das mesmas elites.

Um dia, foi pego em flagrante delito por um dos militantes. Era seu amigo de bairro. Foi salvo pelo prazer da rebeldia típica dos jovens. Sua missão, para o outro, não passava de uma travessura e, por isso mesmo, excitante para um jovem de no máximo vinte anos. A idéia tomou corpo e logo ele tinha sob o seu comando um grupo de quase dez pessoas fazendo campanha para Arraes, dentro do comitê de Múcio. Uns por ideologia, outros por gozação.

A rebeldia virou anarquia. Passaram a agir com tanta naturalidade que despejavam toneladas de santinhos, de uma só vez, dentro dos carros, aos gritos de “vote em Múcio para ver a merda que vai dar, filho da puta!”.

Com tudo tão escancarado, acabaram descobertos. Contudo, pela ingenuidade dos seus poucos anos de vida, considerou que já havia feito um estrago na campanha do candidato do PFL e sua missão estava cumprida. Assim, chegou ao fim a sua incursão pela direita na política brasileira. Voltou à velha situação financeira, mas se considerou um herói da resistência. Quando Arraes ganhou a eleição naquele ano, orgulhoso, achou-se também responsável pela vitória eleitoral.

Hoje, já mais velho, anda afastado da política. Abandonou a bandeira vermelha, não participa mais de campanhas eleitorais, nem é mais simpatizante de nenhum partido. Considera todos farinha do mesmo saco. Costuma, às vezes, lê as notícias nos jornais, imaginando como tudo poderia ser diferente. Quanta coisa foi desperdiçada e quanto sonho foi jogado fora. Perdeu as esperanças e acredita que o hemisfério sul continua o mesmo mais do que nunca.

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Ao meu avô, uma benção!

Arte sobre pintura: Dimas Lins
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Avohai (Zé Ramalho)

Dimas Lins

Era um homem do povo. Não sei o ano de seu nascimento, mas sei que foi lá em Maraial, uma pequena cidade na mata sul de Pernambuco. Não tenho guardado na lembrança imagens suas na juventude, é claro. Das minhas próprias recordações, trago à memória apenas o homem velho de pele cabocla, mãos grossas da lida com a enxada, sorriso amável e fala mansa, bem baixinha, quase inaudível. Além do incansável trabalhador e seu boxe de frutas e verduras no mercado de Rio Doce, em Olinda.

Aos sete anos, já era apaixonado por minha avó. Aos quinze, foi levado para longe pelo pai e antes dos vinte, tão logo retornou, casou-se com ela. Foi nesta época que se mudaram para um sítio, na zona rural da cidade.

Desde sempre, deu muito duro. Com a ajuda dos filhos, cuidava da roça e, nas pequenas covas, plantava de tudo o que aquela terra podia dar. Fazia empreitada, contratando trabalhadores, para a colheita nas grandes fazendas da região. Com o tempo, comprou uma carroça puxada a cavalos e começou a transportar frutas e verduras da estação de trem para os armazéns da cidade. A nova atividade forçou quase toda a família a mudar-se para a zona urbana. Ficaram no sítio apenas ele e minha mãe. Permaneceram por lá até a solidão da noite e o medo do escuro forçarem a mudança. Foi quando, no fim de um dia, ele retornou para casa, cansado da lida, e minha mãe, ainda uma criança, recusou-se a deixá-lo entrar. Pensava que era um estranho. Só abriu quando ele colocou as mãos por baixo da porta e ela o reconheceu pelo toque. Foi por isso que decidiu vender o sítio, pouco tempo depois, e voltou para os seus.

Nesta época, uma doença misteriosa afetou minha avó. Internada num hospital em Catende, passou por duas cirurgias, mas não ficou curada. Um dia, recebeu a visita de um grupo evangélico e uma das irmãs lhe disse que ela ficaria boa em breve. Prometeu então que, assim sendo, se converteria. Ficou boa e, embora não haja provas da intervenção divina, cumpriu a promessa.

Foi aí que começaram os desentendimentos entre meus avós. Católico praticante, ele não aprovava sua conversão e, por isso, deram início a uma guerra santa particular. Mesmo diante da influência coativa do marido, minha avó não cedeu e trocou os dogmas católicos pela preconização evangélica. Depois disso, passaram um tempo falando, entre si, apenas o necessário. Ele seguiu até o fim da vida sem conformar-se. Engraçado é que, algumas vezes, conversavam como se nada houvesse ocorrido; noutras, o silêncio exercia o seu supremo poder. As religiões que reúnem pessoas são as mesmas que separam. É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito, já dizia Einstein.

Mas a vida seguiu e, com o tempo, ele passou a trazer carregamentos de bananas para Recife. Foi então que resolveu colocar um pequeno negócio no bairro de Cajueiro e mudou-se de vez para a capital. Passou dez anos por lá, até que comprou uma casinha no então longínquo bairro de Rio Doce, uma verdadeira “cidade” de conjuntos habitacionais. De um boxe de frutas e verduras, tirava o seu sustento, enquanto parte dos filhos ganhavam o mundo, em busca dos seus próprios sonhos.

É a partir daí que as lembranças da minha mãe se misturam com as minhas próprias. E a mais marcante que tenho é, com certeza, de sua generosidade. É que um homem acostumado à vida custosa do interior nordestino sabe bem o que é não ter.

Sem pai desde os nove, muitos irmãos e pouco dinheiro, cumpríamos semanalmente uma rotina de buscar, na casa de meu avô, uma feira de frutas, verduras e carnes. Foi assim por muito tempo, até quando deixou de ser necessário. Por meu lado, confesso que achava ruim, em pleno sábado, ter que fazer o mesmo itinerário, mecanicamente. É que, naquela época, não enxergava bem o mundo e estava mais preocupado em ocupar meu tempo brincando com os amigos. Coisas de criança, é certo. Nunca dei o devido valor ao gesto de meu avô e, mesmo assim, ele me recebia sempre com a mesma alegria.

Um dia, aconteceu uma dessas pequenas tragédias urbanas. Aos 82 anos, ele foi atropelado, enquanto atravessava uma avenida próxima a sua casa, para ir à igreja. O carro jogou seu corpo longe e abandonou o local, sem socorrê-lo. Acredito que o acidente só não foi fatal, porque a vida dura da juventude condicionara muito bem seus músculos e vigor físico.

O atropelamento não o matou de pronto, é verdade, mas o levou aos poucos. O homem raçudo do interior começava a perder as forças. Depois que saiu do hospital, passou a respirar com dificuldade e ficava a maior parte do tempo deitado. Vitimado pela esclerose no sistema nervoso central, imaginava que a filha mais velha queria envenená-lo. Em algumas ocasiões, só comia pelas mãos da minha mãe.

Nos momentos de lucidez, sentia falta do trabalho. Ao visitá-lo, certa vez, perguntei-lhe como estava e, com uma sinceridade desconcertante, disse-me que preferia morrer a viver assim. Nos meses que antecederam a sua morte, estava tão debilitado que era possível ver o seu coração pulsando sob a pele.

Hoje, vez por outra, lembro-me dele e sinto saudades. Lembro de pedir-lhe a benção, sempre que o encontrava. Lembro também do seu andar decidido, da sua ingenuidade e simplicidade, de seu indefectível chapéu e da sua altivez. E mesmo sua guerra santa não conseguiu apagar o homem que ele foi.

Já faz muito tempo que ele se foi. Imagino, às vezes, como seria bom poder conversar com o meu avô novamente, ouvir suas histórias e aprender com a sua experiência. Mas, infelizmente, isso não é mais possível. E, assim sendo, resta-me apenas pedir a sua benção e dizer-lhe que aqui estamos todos bem.

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Canção da despedida

 

Canção da América

Dimas Lins

Conheci Arnaldo em 1992, quando passei no concurso para o cargo de Técnico do Tesouro Nacional. Esta transição foi um marco na minha vida, pois deixei a iniciativa privada, onde tentava crescer na carreira de auditor, e passei a exercer atividades no serviço público. Troquei o capitalismo selvagem, com suas horas extras intermináveis e não remuneradas, por um salário mais justo a curto prazo. Quem está na parte de baixo da pirâmide social tem necessidades imediatas e esse era o meu caso. Deixei as portas abertas, mas atravessei-as para nunca mais voltar.

Mas falava de Arnaldo. Foi no curso de formação, etapa ainda eliminatória do concurso, que o conheci. Ele morava em Olinda e fugia aos padrões do olindense típico. Odiava multidão e, por conseqüência, carnaval. Nada de Elefante, Pitombeiras, Ceroulas ou Vassourinhas. Do seu ponto de vista, mais de cinco pessoas já era multidão. Também não gostava de futebol. Para um pernambucano, isso é tão improvável quanto um passista não gostar de frevo. E embora não gostasse de cerveja à época, apreciava uma boa cachaça. O homem, que fique claro, não era caneiro profissional, apenas apreciador moderado.

Sua voz rouca e seu temperamento forte passam sempre a impressão de um sujeito bruto, embora no fundo seja sentimental. As aparências sempre enganam. Arnaldo é inteligente, mas irrequieto. Capaz de fazer cálculos centesimais de cabeça, iniciou cinco cursos universitários e, até onde eu saiba, nunca terminou nenhum. Paciência não é o seu forte. Hábil jogador de sinuca, herança do pai, às vezes jogava contra mim usando apenas uma das mãos. E como destro, usava a esquerda, só para humilhar. Ainda assim, nunca ganhei uma partida sequer. Arnaldo nunca deixou. Não pensem que ele era um competidor compulsivo. Nada disso. Apenas não sabia fingir. Sinceridade até jogando sinuca.

Juntos, atravessamos nossa primeira greve e também nosso primeiro dilema. Ainda estávamos no estágio probatório na Receita Federal e havia o risco real da exoneração de ofício. Em linguagem menos tecnocrata, poderíamos ser postos no olho da rua, a qualquer momento, pois a lei não estava do nosso lado. Éramos jovens demais e agíamos de maneira irrefletida. A bem da verdade, ele relutou em entrar em greve, pois tinha medo de perder o emprego. Eu acabei dando uma forcinha.

Convenci Arnaldo a, não apenas aderir, mas a fazer parte do comando de greve. O cabra frouxo, com o tempo, tornara-se sindicalista, comunista e presidente do primeiro diretório do PC do B em Limoeiro. Foi só um empurrãozinho e lá foi ele ladeira abaixo. “Criei um monstro!”. Infelizmente, o deslocamento do PT da esquerda para o centro jogou fora a sua crença no governo do povo, para o povo e pelo povo. Ele não só largou tudo, como fez questão de não acompanhar mais nada sobre política. Pois é, Arnaldo é assim. Se não há paixão naquilo que se faz, não há razão para fazê-lo.

O tempo passou e nossa amizade se fortaleceu. Foi nesta época que ele conheceu sua prima Suzana e começaram a namorar. E aí vem uma história curiosa.

Tempos atrás, Arnaldo havia feito alguns exames que revelaram sua dificuldade em ter filhos. Não era estéril, é certo, mas a fertilidade só chegaria com um tratamento clínico. Ocorre que, neste meio tempo, Suzana engravidou e, com a gravidez, veio o medo da desconfiança do namorado. Como dizer a um homem clinicamente “estéril” que ele seria pai do seu filho? O tempo passava, a barriga crescia e Suzana não reunia a coragem necessária para ter com o namorado. Até que, aos cinco meses de gravidez, Arnaldo, com o seu senso aguçado de observação e a sensibilidade de um tiranossauro rex, sugeriu discretamente à namorada moderação no apetite. Foi assim, dessa forma arnaldiana, que revelou-se enfim a gravidez.

Hoje, eles estão casados e têm dois filhos, Caio, o primogênito de quem sou padrinho, e Tales. Ah! Arnaldo nunca fez o tratamento de fertilidade. E antes que interpretem mal nossa querida Suzana, basta olhar para os filhos e perceber que são a cara do pai. Há que um dia se entender melhor a medicina e o corpo humano.

Com a nova família, veio o desejo de morar no interior. Queria dar aos filhos a oportunidade de crescer no campo. Pediu transferência para Limoeiro e lá comprou um pequeno sítio. Na ocasião, eu já não trabalhava mais na Receita Federal. Mesmo assim, a amizade se intensificou. De amigos, passamos a compadres e irmãos, embora distantes. A vida tem essas coisas de trazer grandes pessoas para perto da gente e depois levá-las embora.

Passei, junto com a minha esposa, a visitá-los ocasionalmente, embora nos falássemos com alguma freqüência ao telefone. No ano passado, Arnaldo me comunicou solenemente que havia recebido uma proposta para chefiar uma agência da Receita no interior de Minas. Trocaria o calor nordestino pelo frio do sudeste. A surpresa da notícia me fez perceber que há sempre muitas maneiras de ir-se embora mais de uma vez.

Arnaldo levou-se para Minas no final do ano passado e, na oportunidade, produzi este vídeo para registrar a despedida. Confesso que foi difícil fazê-lo, pois, por entre as imagens, é possível perceber uma saudade antecipada e indisfarçável. É que, para mim, este é mais que um vídeo. É o registro de uma amizade sincera, cunhada ao longo do tempo.

Hoje, os contatos têm-se rareado, mesmo nos dias atuais, de internet e dos skypes da vida. Mas a amizade prossegue assim mesmo, silenciosa.

De Recife, te mando um abraço! Fica em paz, meu velho! Segue tua vida daí, que eu sigo a minha daqui. E se bater saudade, ouve a canção e lembra que qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar.

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Cordão da saideira

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No Cordão da Saideira (Edu Lobo) 

Dimas Lins


“República soberana de São José, íntima do Capibaribe e do mar-oceano, verticalizada nas torres de suas igrejas que refletem o céu dos tempos.”

 Amílcar Dória Matos


Foi a necessidade que me levou de volta ao velho bairro onde morei. Em tempos de inverno, procurava uma capa de chuva nas lojas populares. As mesmas lojas que antigamente me empurraram para fora de lá, agora me traziam de volta, por uma razão tão banal. Já havia retornado ao bairro em muitas outras oportunidades, mas em nenhuma delas me demorei além do necessário. Seria a primeira vez.

(Na minha infância, o bairro de São José era um dos últimos redutos residenciais encravados no centro de Recife. Com o tempo, o comércio varejista foi ocupando as casas e pequenos prédios do local, deixando o dia agitado e as noites desertas. O bairro foi se transformando até tornar-se inseguro, pois junto com o comércio vieram os assassinos, bandidos e ladrões. Foi desse jeito que se anunciou a hora de partir.)

Deixei o carro nas proximidades da antiga Estação Rodoviária de Santa Rita e caminhei em direção à Rua das Calçadas. À minha esquerda, o Forte das Cinco Pontas, última construção holandesa em Recife, ainda me deslumbrava. A fortaleza, monumento representativo da arquitetura colonial, foi construída em 1630 para proteger dos ataques de navios inimigos as cacimbas de água potável, ponto vital para o abastecimento da cidade naquela época. O local, durante a minha infância, foi desativado pelo exército e serviu de palco para as nossas brincadeiras de criança. O mesmo Forte que servira à repressão da ditadura militar, para onde foi levado o líder comunista Gregório Bezerra, depois de ser arrastado pelas ruas de Recife, em 02 de abril de 1964, também fora responsável por grande parte dos momentos felizes que vivi no bairro. As tragédias e as alegrias às vezes pegam o mesmo atalho.

Apesar de vasto, considerava o bairro, na minha meninice, apenas o perímetro que ia do Mercado de São José à Praça Sérgio Loreto. Para mim, a Casa da Cultura e a Estação Central estariam, por assim dizer, entrincheiradas em território estrangeiro. É que os meus pés pequenos não ousavam se distanciar tanto assim da Rua Padre Floriano, onde residi a maior parte do tempo.

Entrei no bairro pelas ruas das Calçadas e reconheci a pavimentação de pedra, assim como percebi que ainda estavam lá os trilhos onde circulavam os antigos bondinhos em tempos mais remotos. Despejei-me numa loja aqui e acolá, mas não encontrei o que procurava. À altura da Igreja da Penha, dobrei à direita no Beco do Veado e notei que ainda compunha a paisagem a pequena escultura do cervídeo pendurada em uma de suas esquinas, como há trinta anos atrás. Mas foi no reencontro com a Padre Floriano que fiz a passagem no tempo.

Lembrei-me de Seu Cláudio, um homem gordo que, em tom de galhofa, ameaçava engolir a bola de futebol, toda vez que ela batia com força contra a sua porta. Recordei da família grega que morava ao lado de nossa casa e da caçula em quem dei o primeiro beijo. Lembrei de Rutênio e Fernando, dois irmãos, duas crianças, que brigaram por uma bobagem qualquer e, trinta anos depois, ainda não se falam. De Luiz Morto que ganhara este apelido por ter escrito uma carta ao seu tio, assinando-a como o “finado Luiz”, adjetivo bonito, mas de desconhecido significado. Das encenações da Paixão de Cristo na Basílica da Penha que, contrariando as irmãs, sempre terminavam em traquinagem. De agir sorrateiramente como penetra de casamentos pelas igrejas do bairro, para poder comer os doces e salgados. Do cine Ideal, na Vital de Negreiros, onde assisti a Tarzan, meu primeiro filme no cinema. Da Noite dos Tambores Silenciosos e de Vassourinhas, Batutas de São José, Pão Duro, Pás Douradas e tantos outros clubes e troças que desfilavam pelas ruas estreitas do bairro, nos gloriosos carnavais, em meio a uma gente alegre e festeira. Do Galo da Madrugada fundado a duas casas da minha. Das brincadeiras de bola de gude no Pirulito, uma praça de dimensões diminutas com um pequeno obelisco ao centro e cercada por palmeiras-barrigudas.

Hoje não tem dança, nem frevo, na praça ninguém pra cantar. Foi-se o tempo do picolé na casa de Josias, das brincadeiras de polícia e ladrão nas quatro pontas do Forte das Cinco Pontas, da guerra entre ruas travada pela molecada, do futebol no asfalto, da sisudez do Sargento Bombinha, das mentiras de Jorge Mentirinha e tantas outras coisas que marcaram a minha infância.

Ao recordar cada casa e cada amigo, senti saudade. Sentado à Praça do Pirulito, enfim, percebi que a decadência do bairro trazida pelo comércio varejista, embora tenha mudado a paisagem, não apagou nossas pegadas.

No cordão da saideira, deixei o bairro sem a capa de chuva, mas levei comigo as lembranças de uma gente que deixou suas marcas nos anos mais incríveis da minha vida.

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