Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

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O encontro

Pintura: Starry Night, de Van Gogh

 

Quando criei o Torcedor Coral, um blog sobre meu amado clube, o glorioso e destruído Santa Cruz, não tinha grandes pretensões. Desejava apenas publicar, vez por outra, notícias sobre meu time do coração.

Com o tempo, fui aperfeiçoando o estilo e passei criar artigos e textos opinativos. O Torcedor Coral cresceu e atraiu novos colaboradores. Mais livre, passei também a escrever crônicas. Com o tempo, senti vontade de falar sobre outras coisas, além de futebol, pois um blog esportivo limita bastante o raio de ação e criação de quem escreve.

Surgiu assim o Estradar, que teve sua primeira publicação em 19 de agosto de 2007. Aqui, pude experimentar estilos e rabiscar crônicas e contos.

Mas o Estradar trouxe um efeito colateral que me dá muito prazer. Passei a receber, e a procurar também, textos de outros autores para publicá-los neste espaço.

É por isso que hoje publico um texto de Anderson Aguilar. Anderson conheceu o Estradar, depois que publiquei o belíssimo conto de Kalina Paiva, sua amiga.

Aguilar se diz apaixonado pela leitura e por nosso idioma. Por isso, tentou escrever um romance, mas de seus escritos saíram poesias e contos. Anderson se interessa por filosofia e tem Kafka e Augusto dos Anjos entre seus escritores preferidos.

E é um conto filosófico de Anderson que deixo para leitura.

 Um grande abraço a todos,

 Dimas

 

Anderson Aguilar

- Adeus!

Foi com essa simples palavra que o homem de cabelos grisalhos se despediu dos poucos amigos, ajeitou a pequena mochila nos ombros, e partiu em direção a uma terra desconhecida.

O homem de semblante duro, olhar sereno, que revelava por trás de algumas rugas que riscavam a face contemplativa, a força de quem acreditava que havia algo mais na vida que a simples rotina do trabalho da maioria dos homens, começou a caminhar lentamente, com os pensamentos ainda um pouco confusos, em direção à colina que deveria marcar o ponto final da busca que empreendera desde muito cedo.

Estava, é verdade, um pouco ansioso. Lembrou-se do velho que encontrara numa taberna em uma distante vila. Na conversa regada a goles da bebida quente, ficou sabendo que a resposta que buscava, poderia ser encontrada no alto daquela distante colina.

Apesar da bebida consumida em goles no balcão de uma taberna, e da aparência de louco do velho, acreditou em suas palavras e partiu.

Após vários dias de caminhada, chegou ao lugar que reconheceu ser a colina de que o velho falara.

Do alto da colina olhou em volta e sentou em uma pedra para esperar aquele que acreditava ter sua resposta.  A colina tinha um aspecto mágico, pairava um ar místico.

Enquanto esperava, pensou em toda a jornada que havia feito, nos lugares em que passou, e nas pessoas que conheceu ao longo dos anos. Imagens flutuavam em sua mente como filme, quando sentiu um leve estremecimento no corpo. Virou lentamente o rosto e o viu.

Ele surgiu do nada, silencioso, como se fosse parte daquele ambiente misterioso.

Vestia um manto escuro que lhe cobria todo o corpo, e que terminava no capuz que escondia o rosto quase por completo. A face encoberta dava-lhe um aspecto sinistro que causava arrepios, os olhos de brilho indefinido, tinham uma expressão dura, apesar da estranha serenidade que transmitia.

Na mão esquerda trazia o instrumento que lhe dera fama ao longo dos séculos. Visão que aumentava a sensação de medo, no entanto, era essa a visão que, embora assustadora, confirmava o encontro.

Estava ali, diante dele, sem um movimento sequer. Parecia não respirar, apenas o fitava. Num misto de medo e coragem tentou iniciar a conversa.

- Que queres comigo? - Perguntou.

- Nada.

- Viestes para dar a resposta que procuro?

- Pode ser.

O diálogo começara seco, distante. Ficou confuso.

Teria que estreitar a distancia e criar um canal de comunicação, um laço que possibilitasse a conversa.

- Por que viestes então?

Não houve resposta.

Mudou a pergunta. Teria que fazer o jogo. Não poderia ser superficial.

- Viestes para levar-me?

- Não. Vim para guiá-lo por um caminho que não conheces e não podes andar sozinho.

- Por quê esconde teu rosto?

- Não escondo. Apenas não consegue vê-lo.

- Usas um manto que vela tua face e me dizes que não consigo vê-lo? Não compreendo.

- Não me olhas com os olhos que deveria.

Ficou por um instante mudo e pensativo. Naquele jogo de palavras, percebeu que ganhava tempo.

Em verdade, seu interlocutor lhe dava esse tempo como se fosse proposital, antes de cumprir a sentença já escrita. Precisava continuar.

- Com que olhos devo olhar-te?

- Com os olhos do coração. Os olhos da vida.

- Embora não possa ver tua face, eu te conheço.

- Não. Não conheces. Tu sabes meu nome, mas não sabes o que significa nem o que sou.

- Tu és a Morte. Aquele que anda envolto pelas sombras do inferno e que ceifa a vida. Chegas sorrateiro, sem hora, sem minuto, sem aviso. Cavalgas invisível, acompanhado de tua ferramenta horrenda e fatal. Viajas pelo terrível vento do norte escolhendo tuas vítimas, aparentemente sem nenhum critério, a não ser tua insensibilidade para com a vida. Simplesmente chega e ceifa a vida, interrompendo-a.

- Não. Não a interrompo. Eu a transformo fazendo cumprir a Lei. Tu me conheces como Morte, mas Eu sou a Vida. Embora não compreendas, sou uma de suas faces.

- Tens razão. Não compreendo. Como explicas a vida interrompida de uma criança que parte no primeiro suspiro, antes mesmo de ter chegado? E a morte de um homem que passa toda a vida praticando o bem, enquanto outro, que passa toda a vida sustentado pela maldade permanece vivo e cheia de regalias, rodeado de subalternos e temido? Existe critério nisso?

- O que chamas de vida é interrompido para que o ciclo possa prosseguir.

- O que chamo de vida é Vida. O sorriso de uma criança, a expressão sublime da mulher que acabou de dar a luz. O orgulho do velho ao transmitir a sabedoria adquirida ao longo dos anos aos mais novos. O olhar de profunda expressão do rapaz ao ofertar a delicada flor para a moça.

O canto melodioso do pequeno pássaro pousado no galho da árvore. Isso é que entendo como Vida. E é essa a Vida que interrompes cruelmente.

- O que chamas apaixonado de vida, não poderia existir se eu não perpetuasse o Ciclo Sagrado.

- Entendo que Vida é movimento que objetiva ascender a um nível de espiritualidade mais puro, enquanto que a Morte é o Fim, o momento que interrompe esse movimento. Um castigo imposto.  É assim que entendo.

- Entendes a Vida com a visão de um mortal no plano de vida material. Quando fazes isso, cometes um erro. A Vida não se justifica no plano material.

- Como posso ver de outra maneira sendo matéria e vivendo pela matéria? O que respiro, o que como, minhas emoções e sentimentos, minhas ambições, minhas alegrias e tristezas, meus amores e desamores, enfim, tudo que me norteia é matéria. Vim do pó, e para o pó hei de retornar.

Como posso ver de outro modo?

- Teu corpo é matéria, mas não a Vida. Enganas quando pensas viver para a matéria. Teu corpo feito matéria serve apenas para abrigar teu Espírito. Tua função é permitir a evolução, o que deves entender como purificação, ou elevação. O sopro da Vida não veio do pó, apenas o corpo físico veio. O sopro da Vida veio da essência do Criador, e é para ele que tu vives. É ele o sentido da Vida.

- Falaste-me de sentimentos e emoções, da criança, do velho sábio, e da moça. - continuou. Dizei-me:- qual o sentido de tais sentimentos, sendo eles passageiros?

- O amor que juras pela mulher termina, de uma forma ou outra, quando essa mulher não corresponde ao teu sentimento, ou quando conheces outra mais atraente. A alegria da mulher no parto termina quando o filho deixa de ser criança, e até mesmo a pureza dessa criança acaba quando se torna adulto.

- Deixas-me confuso.

- À matéria pertence o que é matéria, e ao Espírito o que é Espírito. Está escrito no livro que foi deixado que o joio não se mistura ao trigo. Entenda que a Vida pertence ao Espírito e não à matéria. Esta tem uma existência limitada, enquanto o Espírito segue seu ciclo até o Criador.

Ouvindo o que lhe era dito, começou a perceber que a resposta que tanto procurava nascera antes do primeiro suspiro. Nascera junto com ele, ainda no ventre.

Percebeu que ao longo da existência material, esse conhecimento é encoberto por aspirações desenvolvidas pelas emoções e por anseios materiais.

Não respondeu. Não era preciso.

- É chegado o momento. É preciso fazer com que o Ciclo prossiga.

Esta frase ecoou em seu cérebro de um modo estranho, como se estivesse em outro plano. Viu cenas desfilarem diante de seus olhos numa rapidez que não podia conceber.

Um manto de névoa com um colorido turvo, porém suave, cobriu sua visão, e não teve certeza de onde estava. As lembranças dos últimos momentos começaram a dissipar em sua mente.

Suspirou profundamente e não reconheceu onde estava. Também não viu mais seu interlocutor.

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Terceira infância

Conheço Cláudia há tempos. Quinze anos, pelo menos. Sou amigo e compadre de seu irmão. Aliás, já escrevi sobre ele em uma de minhas primeiras crônicas no Estradar. A crônica chama-se Canção da despedida e o amigo e compadre, Arnaldo.

Mas falo de Cláudia. Posso dizer, sem nenhum exagero, que eu a redescobri há pouco mais de um ano. Foi quando tomei conhecimento de seu antigo blog Diário de uma Adoradora, que ela, aliás, abandonou no dia 01 de maio de 2007.

Felizmente, Cláudia sempre foi irrequieta e rapidamente criou o Ninho dA’Ninha, onde ela trata de coisas tão diversas quanto poesia, política, cotidiano e doideira. Muita doideira.

Eu, é claro, vou lá diariamente beber um pouco da sua perspicácia. De seus textos, inclusive, já saíram alguns motes para meus contos e crônicas.

À Cláudia, um beijo carinhoso e um agradecimento pela canja.

Dimas


Ana Cláudia

“Doutor, olha essas bolhinhas que apareceram no meu braço, de ontem para hoje”. Ele olhou, olhou… Mandou que eu sentasse, examinou com olhar de curiosidade. Parecia não estar acreditando em alguma coisa que eu nem suspeitava que fosse. Mandou abrir a boca. “Ahhhhhh”. Como quem teme ser acusado de tarado, irritantemente hesitante, pediu para que eu levantasse “um pouco” a blusa para ele avaliar as bolhas que já começavam a invadir costas e barriga. Tirei logo a blusa toda.

- Um minuto, eu já volto.

Coloquei a blusa de novo e fiquei esperando. Quando o médico voltou, vinha carregando um colega. “Esse é meu colega. Ele é pediatra, você se importa que ele lhe examine?”. “Hein? Ser examinada por um pediatra? Claro que não me importo! Isso vai fazer bem ao meu currículo”, respondi. Aos 37 ser examinada por um pediatra? Hahaha… Eu sempre disse ter alma de criança.

Foi engraçado ver a cara do pediatra examinando as bolhas ante o olhar incrédulo do clínico. O pediatra parecia estar enxergando, em cada uma delas, o Santo Graal. Maravilhado (médico é esquisito!), ele abre um sorriso largo ao clínico e diz que as suspeitas dele estavam certas: a paciente (euzinha) está com catapora.

- Tá coçando?

- Um pouco.

- Começou quando?

- Ontem à tarde comecei a coçar o braço, mas as bolhas só apareceram agora de manhã.

- Catapora. Isso é catapora. Teve febre?

- Não.

- Bota o termômetro nela.

Lá vem o cheio-de-dedos quase tendo um troço porque teria que colocar o termômetro (obviamente) por baixo de minha blusa.

Enquanto passava o tempo do termômetro, expliquei ao pediatra já ter tido catapora na infância, e pelo que eu sabia, catapora só dá uma vez.

- Você está certa, catapora só dá uma vez. Então você está tendo pela primeira vez agora.

- Não senhor, eu já tive na infância. Peraí, minha mãe (que estava na sala de espera) pode confirmar para o senhor.

Ao meu chamado, entrou a família quase inteira no consultório. Todos confirmaram minha catapora na, digamos assim, primeira infância. E mais: meu irmão mais velho já teve catapora três vezes. Fomos ridicularizados pelos médicos. Para eles, das outras vezes foram feitos diagnósticos errados. E aí, como é que eu posso provar que eu tive o que eles dizem que eu não tive, tanto tempo passado? Sou um objeto de estudo da medicina, e os dois plantonistas dispensando esse material. Paciência.

O pediatra se foi, a família foi dispensada, voltei a ficar a sós com o clínico. Ele pediu então para examinar novamente minhas costas, e eu nem esperei ele pedir para levantar um pouco a blusa. Tirei. Olhou, olhou, cutucou e disse que eu poderia colocar a blusa. “E a perna, tem bolhas nas pernas?”. “Hum… pouquinho. Acho que tá começando a estourar agora, quando eu saí de casa não tinha nenhuma”. “Eu poderia…”, “Sim, sim, claro”. E desci a calça até o chão. Hahaha… O médico não sabia se chegava perto ou corria - bom, nem sou tão gostosa assim nem tão horrível assim. Acho que a timidez dele é que causou aquela suadeira.

Pois é, o fato é que estou com catapora. Dessa vez, exigi o exame que comprove a suspeita, para esfregar na cara do próximo pediatra em caso de reincidência. Será que vou chegar aos 50 sendo examinada por pediatra?

PS: acho um desperdício ficar doente quando você não precisa cumprir horário. A única vantagem de ficar doente na “terceira infância” é o atestado médico para justificar a falta ao trabalho. Infantilidade? Oras, estou com catapora, você queria o quê?

Ana Cláudia Nogueira é jornalista e escreve periodicamente no Ninho dA’Ninha, seu blog pessoal.

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Trapézio

Josias, meu dileto amigo Geó, já esteve antes no Estradar. Entretanto, nas ocasiões anteriores ele apareceu como inspiração para as crônicas Conversando na mesa do bar e Vocação.

Agora ele volta. Mas volta como de fato é: um poeta de grande sensibilidade e valor. E, talvez por isso, eu economize as minhas palavras, para rapidamente dar vez às suas.

A Geó, o abraço de sempre.

 Dimas

 

Josias de Paula Jr.


Solto no incerto,

salta.

Mãos no vazio,

nada por chão.

Antes do encontro esperado

e redentor,

um salto mortal.

Seria ilusão de vista

o ato do trapezista?

Voa,

ausente de tato.

Perfaz um arco descendente,

cai -

descuidado qual estrela cadente?

Seguem segundos,

surdos.

Frêmitos mudos.

A vida jogada ao acaso,

sustida pelo hábito.

Tocam-se mão e madeira: aplausos.

Segue o show, muda-se o palco.

 

Na platéia, eu, com a alma contida,

Percebi no espetáculo minha vida.

Josias de Paula Jr. é sociólogo e escreve para o Inscritos em Pedra, seu blog pessoal.

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Depois das duas horas

icarus.jpg

 A internet talvez seja a melhor coisa da globalização. Num segundo, distâncias deixam de existir e permitem encontros antes impossíveis de acontecer.

E foi a internet e a afinidade com a literatura que trouxe Kalina ao Estradar.

Kalina Paiva é natural do Rio Grande do Norte e professora por opção. Ministra aulas de Língua Portuguesa e Literatura, que ela chama de “dar aula de palavras”. Especialista em Educação e mestranda em Literatura Comparada, Kalina também é pesquisadora do GEICA, um núcleo de pesquisa da UFRN. Ela ainda vai além. Colabora com alguns jornais locais, vez por outra, e é autora fixa de Verborrágicos! - um blog literário interessantíssimo que ela assina junto com outros quatro amigos.

Kalina tem 30 anos bem vividos, segunda ela mesma, é casada e tem dois filhos. E nos conta que, no dia em que parar de escrever, é porque os céus de misturaram à terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a faces das águas.

À Kalina, obrigado pela colaboração; e à internet, por permitir este intercâmbio.


Kalina Paiva

Tenho uma dúvida grande até hoje sem respostas: será que eu existi em algum momento? Essa questão é profunda demais. Não estou nem um pouco a fim de pensar, de formular hipóteses, só queria curtir uma dor/prazer diferente de tudo que já vivi e que a vida, pela primeira vez, não pode me oferecer.

Há dois meses, estou sem o toque dele. Naquela noite que completava os tais dois meses, acordei ofegante, depois das duas da manhã, após ouvir um barulho lá fora. Fora de mim… sai. Também, pudera, o dia me massacrou terrivelmente. A vida me massacra terrivelmente poro a poro, palmilhando minhas olheiras quase crateras de uns dias mal dormidos. Desconfio que a pessoa que eu era já não está mais aqui nem voltará.

Perdi a paciência de olhar para o espelho e ouvir dele que o tempo está passando. Não gosto de advertências e esse espelho falante me soa como ameaça. Não tenho outras escolhas: ou sepultarei o espelho ou a mim mesma. Há quem possa contra o relógio? Pior mesmo é agüentar o cúmplice do tempo: esse espelho grotesco.

Peguei um punhado de livros de auto-ajuda e eles têm sempre o mesmo discurso de que é necessário lutar, blá, blá, blá… mas onde estavam as minhas forças, senão escondidas num baú velho e empoeirado? Tentei colocar todas as minhas angústias em escritos que ninguém vai ler porque arremessarei para bem longe essa escrita comum e patética das coisas tão cotidianas, das coisas que eram e são uma cutilada em meu ego feminino. A morte, paulatinamente, parece mais doce e infinitamente agradável.

Dias antes, estava com o corpo em brasas, quando ouvi uma canção antiga que me fazia lembrar um perfume adocicado de forma tão intensa que, ao passar uma leve brisa pela minha nuca, senti calafrios. Era algo pós-mundo. Não dá para explicar ao certo. Mexia com as minhas vísceras ao mesmo tempo em que misturava saudades e diálogos premeditados, ensaiados, que não iam acontecer… Não estava completamente sozinha, pois havia um vinho chileno em minha geladeira tão normal, tão caseira, tão fim de mês… o vinho e uns queijos. E só. O que me falta então? O vinho chileno exala um aroma doce e isso já era o bastante para me fazer rememorar coisas que não escolhi lembrar.

Ah, como lembrei… mas a minha memória tinha que estragar tudo e então senti que os fatos do dia fremiam em meu cérebro: contas, filhos, contas, solidão, corre-corre, contas, cobrança do relógio, sussurro do desejo, trabalho, mais contas e a interdição de todas as coisas que queria fazer. Era muita coisa e nada ao mesmo tempo. Como pode? Não estudei para administrar paradoxos, no entanto acabou sendo o meu ofício.

Talvez, eu esteja passando por um processo de arrefecimento que alguns arriscariam chamar de maturidade. Na verdade, decidi deixar de lado as sentimentalidades como quem abandona um cão no meio do caminho, sem olhar para trás, sem deixar rastros de uma convivência cúmplice, acostumada, cachorra.

É por essas e outras coisas que tenho que escrever: para não enlouquecer. Sobressaltada, escrevi e arremessei, escrevi mais e arremessei mais longe ainda. Pensei nos jornais, nas revistas, nos livros, em todas as formas de comunicação escrita que não me valem de nada, absolutamente nada. As palavras fogem de mim como o diabo da cruz. Nem valeria a pena, pois a dor é inevitável e inclassificável o tamanho do estrago que as palavras provocam, pois tudo se resume a um vazio sem precedente aqui dentro de mim. Para isso não há palavras nem sistema de medidas. Será querer demais fazer algo diferente? Meu Deus, não me condene, nasci católica antes mesmo de ser um indivíduo do sexo feminino, mas sei o que fazer com o livre-arbítrio que me foi ofertado em toda a sua plenitude. Agora, quero dele gozar.

Sinceramente? Pensar sobre a própria existência se assemelha a uma experiência vodu! O que eu poderia fazer além de rir? Ri de tudo, de todos, de mim e da estupidez das palavras. Rio porque não posso rir sempre. Meu riso é vigiado. Se eu permitir que estranhos conheçam meu riso, assinarei minha sentença de interdição perpétua até mesmo do próprio riso, única coisa que nasceu comigo e que sei que me pertencerá nesta vida ou na próxima, se existir próxima vida.

Depois de tanto pensar, deixei tudo para trás, peguei o carro e dirigi nas retas mais curvas da minha vida. Sai disposta a experimentar a velocidade como quem descobre o prazer sexual pela primeira vez. Ávida pelo prazer, assim explorei todos os sentidos do carro. Livre de pudores e sentimentalidades, de perfumes adocicados, do ser que me deixou por escolha e sem motivos, dos ofícios, experimentei voar de braços abertos. Livre de tudo, de todos e do cinto, caindo, caindo, caindo, embalei o mundo às avessas, à minha maneira, naquele penhasco sem fim. Fiquei com muita raiva porque a última coisa que pensei foi naquele odor vinícola que sempre me atraiu, embora eu odeie fragrâncias adocicadas. Enquanto isso, o carro voava, desprovido de órgãos de vôos. Só então senti uma pontada traspassando as minhas costelas, atravessando meus músculos, rasgando a minha pele. A dor foi tão intensa que pensei que estava sendo partida ao meio. E isso só alimentou a minha fúria, conduzindo-me pelos caminhos mais estranhos do prazer, por isso, lasciva e automaticamente, acelerei o carro. O carro não aumentaria a velocidade da queda, é claro, mas é que quando sentimos dor, desejamos tê-la completa e intensa, de uma só vez. Agora, sim, posso dizer o que é viver.

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Casa de avó

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Eis que reencontro Mariana Prado, amiga de tempos idos e agora vindos. Dela, tenho boas recordações. Da aluna exemplar, do carinho com todos e da simplicidade sempre presente.

Hoje, adulta, Mariana mantém intactas as mesmas características de outrora, dando a entender que o tempo passou para ela com serenidade.

Em meio à felicidade do reencontro, veio imediatamente à lembrança a menina-poetisa, que escrevia e escrevia e nos brindava com a beleza de seus versos.

Mariana ainda escreve, mesmo que casualmente. Por isso, tomei a liberdade de convidá-la a publicar alguns de seus versos aqui no Estradar. E começo com uma poesia feita ainda na sua adolescência que ressalta bem a simplicidade e beleza de suas palavras.

Mariana, seja bem-vinda!

Dimas Lins


Casa de avó

Mariana Prado

Casa de avó é como santuário:
Não se mexe.
A mesa de canto fica no canto,
Geladeira não se fala em trocar.

Quando a manhã chega
Traz com ela um vento frio
Que invade o quarto pela réstia de luz
Através da janela ainda fechada
E deixa no ar uma sensação
De que o dia vai ser bom, muito bom.

Casa de avó é assim:
Em nada deveria mudar.

Depois que escurece,
Antes o entardecer
Com um tom violeta,
Quanta estrela pra contar.
O zumbido das cigarras
E o silêncio que se faz
Não me traz pensamentos,
Nem bons nem ruins,
Só a plenitude de se sentir seguro.

A hora da novena é sagrada,
Mulheres e homens devotos
Num fervor de crença sem fim.
Eleva o espírito e o corpo descansa, em paz.

A porteira se abre trazendo meus pais
E a alegria transborda pelos olhos,
Que são mais que espelho da alma,
Absorvem e emanam luz.

Então ouço quando dizem - é hora de dormir.
E só consigo pensar
Que amanhã será bom, muito bom.

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Terapia chinesa

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 Artur Perrusi

Texto Publicado originalmente no Blog dos Perrusi

Pensando no Chifre Metafísico e na Cultura Ocidental, assumo logo: já levei um chifre pelas costas e descobri que sou um sujeito invertido. Calma, calma, pessoal, eu me explico, a estória eu conto como a estória foi:

Houve uma época que desisti da medicina convencional. Culpa dos afetos, pois, praticamente, todos os amigos caíram hipnotizados pela medicina alternativa. Quando o último dos médicos disse-me que o problema das minhas amídalas era de natureza emocional, decidi primeiro me matar, depois, pensando melhor, procurar uma terapia chinesa, achando que, se não era igual, dava no mesmo - talvez, um pouco mais lenta.

Fui crente pensando que iria encontrar um chinês. Que nada! Era uma piauiense com um nome belo feito o balido de uma ovelha: Erygeanny Fidelis Villar. Fizera o curso de turismo, à noite, na UFPB e tivera uma catarse, quando visitou, num sonho, a Grande Muralha da China. No sonho, encontrara Confúcio comendo um MacJúnior, sentado no pivô oeste da Muralha. Era um chamamento, compreendera. Acatou a missão. E estudou terapia chinesa. E virou o que virou.

Escutei com parcimônia a estória. De fato, queria me matar. Estava no caminho certo.

Erygeanny contou ainda que aprendera tudo com um guru chinês de 120 anos de idade. Senti a morte aproximando-se a galope.

- Todos os meus remédios são chineses! - disse galunfante.

- Ah, que bom…

- Sabe essa medicação aqui? Tem 4 mil anos!

- Mas… Já não está vencida, não? - disse, sem querer.

Não queria dizer aquilo. Não era politicamente correto. Devemos respeitar todas as crenças, como dizem minhas amigas antropólogas. Acho que ficou meio magoada, um tanto taciturna. Apontou-me uma maca preta com desenhos de dragão. Deitei-me. Sem aviso, espalhou um bocado de pedras sobre meu corpo. Estavam quentes. Muito quentes. Gemi um ai. Erygeanny relinchou qualquer coisa e, por incrível que pareça, a quentura desapareceu. Olhei as pedras. Eram diferentes: quartzo rosa, esmeralda vermelha, pirita azul, todas bonitas. Quase perguntei se não eram bolas de gude, mas fiquei quieto. Pensei nas minhas amigas antropólogas, e fiquei quieto. Olhou-me fundo nos olhos e disse que minhas pernas eram tortas.

- Mas minhas pernas sempre foram tortas! - disse.

- Não eram tortas quando você entrou…

- Mas…

E começou a bater as pedras nos meus joelhos, recitando o mantra de Adriano, o eritematoso: AUN! Fiquei petrificado de medo. Meus joelhos estavam doendo. Será que ela vai bater essas pedras na minha cabeça? - pensei. Minha cabeça não é torta… Não, aí não, aí me arreto e acabo com essa palhaçada.

Ela parou, enfim, de bater e disse:

- Não estão mais tortas!

- Como?! Estão tortas como sempre foram!

Ela ficou calada. A mesma cara amuada, de mágoa chinesa.

Ela me mandou sentar e começou a esfregar um chifre de boi nas minhas pernas. Causava uma cócega louca. Esfregou com mais força, muita força, a maior força do mundo. E me disse, quase sussurrando:

- O chifre, que não é de boi, faz o ácido lático subir e virar bolhas na pele…

- Qual é a relação entre ácido lático e minhas pernas tortas? Ai, tá queimando! - gritei.
- Olha aí as bolhas…

Claro, minha pele está queimada… pensei. Quero morrer, agora, concluí. Foi então que Erygeanny pegou umas agulhas e começou a furar as bolhas.

- Olha aí, seu medroso, o ácido lático saindo…

- Heh… mas isso não é ácido lático… É verde!

- Deixa de ser mole. Ácido lático mais tensão emocional fica verde!

- O quê?!

Não me escutou mais. Ficou furando as bolhas. Minhas pernas estavam completamente verdes. Comecei a enjoar. Foi aí que ela parou e disse:

- Teu pescoço está muito tenso!

Pegou um chifre menor, de bode, e começou a passá-lo no meu pescoço.

- Esse chifre, que não é de bode, vai tirar tua aura - tá tensa demais…

- Minha aura?

O que sou sem minha aura, pensei. Vou precisar ler muito Benjamim para recuperá-la. Sem aura, achei que encarnaria o demônio a qualquer momento. E encarnei mesmo, pois ela usou, logo em seguida, uma caneta que dava choques. No começo, nada ocorria. De repente, senti que o meu olho esquerdo mudava de lugar a cada aplicação e o meu braço pulava, que nem reflexo de martelinho no joelho. Foi com esse esfregado de chifre e choque no cangote que veio o demo. Comecei a ficar frio e mole. Tive que interromper e deitar na maca para não apagar. Melhorei, levantei, ela veio de novo com a canetinha e o demo voltava. Ficava frio, o lábio ficava branco e eu tinha que deitar.

- Eita aura tensa danada! - disse Erygeanny em chinês.

- O que está acontecendo? - gemi.

- Você está com os fluxos dos meridianos invertidos. O que deveria subir está descendo e o que tinha que descer está subindo. Com a saída da aura, pude notar isso.

Ela me deu uma tapa na cara, outra e mais outra, e o torpor se foi. Deu um largo sorriso e me deu um pó branco.

- Pó de pérolas - disse.

- Parece outra coisa…

- Tome durante uma semana para manter a reversão dos meridianos e reaver sua aura.

Era um tubinho de vidro, com um pozinho branco e uma colher quase microscópica, toda trabalhada. O desenho parecia um dragão. Pensei, imediatamente, na PM. Se me pega sem aura e com um pó branco, tô lascado. Até que explicasse que aquilo era um remédio chinês de mais de mil anos, já teria tomado umas boas lapadas no lombo. Pelo menos, confessaria quem era o fornecedor. Não agüento tortura. Delato, logo.

Pois é…

Chifrado e invertido, é a vida.

Tentei cheirar o pó branco, mas só deu dor de cabeça. Findei jogando tudo fora. Sou aditivo. Se não der barato, jogo no lixo. Depois de tanto tempo, acho que recuperei minha aura. Continua tensa, imagino, e minhas pernas, tortas, com certeza. Atualmente, sou um fanático da alopatia. Soube que ampicilina sódica com manga dá barato. Podem crer.

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