Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

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Casa de avó

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Eis que reencontro Mariana Prado, amiga de tempos idos e agora vindos. Dela, tenho boas recordações. Da aluna exemplar, do carinho com todos e da simplicidade sempre presente.

Hoje, adulta, Mariana mantém intactas as mesmas características de outrora, dando a entender que o tempo passou para ela com serenidade.

Em meio à felicidade do reencontro, veio imediatamente à lembrança a menina-poetisa, que escrevia e escrevia e nos brindava com a beleza de seus versos.

Mariana ainda escreve, mesmo que casualmente. Por isso, tomei a liberdade de convidá-la a publicar alguns de seus versos aqui no Estradar. E começo com uma poesia feita ainda na sua adolescência que ressalta bem a simplicidade e beleza de suas palavras.

Mariana, seja bem-vinda!

Dimas Lins


Casa de avó

Mariana Prado

Casa de avó é como santuário:
Não se mexe.
A mesa de canto fica no canto,
Geladeira não se fala em trocar.

Quando a manhã chega
Traz com ela um vento frio
Que invade o quarto pela réstia de luz
Através da janela ainda fechada
E deixa no ar uma sensação
De que o dia vai ser bom, muito bom.

Casa de avó é assim:
Em nada deveria mudar.

Depois que escurece,
Antes o entardecer
Com um tom violeta,
Quanta estrela pra contar.
O zumbido das cigarras
E o silêncio que se faz
Não me traz pensamentos,
Nem bons nem ruins,
Só a plenitude de se sentir seguro.

A hora da novena é sagrada,
Mulheres e homens devotos
Num fervor de crença sem fim.
Eleva o espírito e o corpo descansa, em paz.

A porteira se abre trazendo meus pais
E a alegria transborda pelos olhos,
Que são mais que espelho da alma,
Absorvem e emanam luz.

Então ouço quando dizem - é hora de dormir.
E só consigo pensar
Que amanhã será bom, muito bom.

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Terapia chinesa

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 Artur Perrusi

Texto Publicado originalmente no Blog dos Perrusi

Pensando no Chifre Metafísico e na Cultura Ocidental, assumo logo: já levei um chifre pelas costas e descobri que sou um sujeito invertido. Calma, calma, pessoal, eu me explico, a estória eu conto como a estória foi:

Houve uma época que desisti da medicina convencional. Culpa dos afetos, pois, praticamente, todos os amigos caíram hipnotizados pela medicina alternativa. Quando o último dos médicos disse-me que o problema das minhas amídalas era de natureza emocional, decidi primeiro me matar, depois, pensando melhor, procurar uma terapia chinesa, achando que, se não era igual, dava no mesmo - talvez, um pouco mais lenta.

Fui crente pensando que iria encontrar um chinês. Que nada! Era uma piauiense com um nome belo feito o balido de uma ovelha: Erygeanny Fidelis Villar. Fizera o curso de turismo, à noite, na UFPB e tivera uma catarse, quando visitou, num sonho, a Grande Muralha da China. No sonho, encontrara Confúcio comendo um MacJúnior, sentado no pivô oeste da Muralha. Era um chamamento, compreendera. Acatou a missão. E estudou terapia chinesa. E virou o que virou.

Escutei com parcimônia a estória. De fato, queria me matar. Estava no caminho certo.

Erygeanny contou ainda que aprendera tudo com um guru chinês de 120 anos de idade. Senti a morte aproximando-se a galope.

- Todos os meus remédios são chineses! - disse galunfante.

- Ah, que bom…

- Sabe essa medicação aqui? Tem 4 mil anos!

- Mas… Já não está vencida, não? - disse, sem querer.

Não queria dizer aquilo. Não era politicamente correto. Devemos respeitar todas as crenças, como dizem minhas amigas antropólogas. Acho que ficou meio magoada, um tanto taciturna. Apontou-me uma maca preta com desenhos de dragão. Deitei-me. Sem aviso, espalhou um bocado de pedras sobre meu corpo. Estavam quentes. Muito quentes. Gemi um ai. Erygeanny relinchou qualquer coisa e, por incrível que pareça, a quentura desapareceu. Olhei as pedras. Eram diferentes: quartzo rosa, esmeralda vermelha, pirita azul, todas bonitas. Quase perguntei se não eram bolas de gude, mas fiquei quieto. Pensei nas minhas amigas antropólogas, e fiquei quieto. Olhou-me fundo nos olhos e disse que minhas pernas eram tortas.

- Mas minhas pernas sempre foram tortas! - disse.

- Não eram tortas quando você entrou…

- Mas…

E começou a bater as pedras nos meus joelhos, recitando o mantra de Adriano, o eritematoso: AUN! Fiquei petrificado de medo. Meus joelhos estavam doendo. Será que ela vai bater essas pedras na minha cabeça? - pensei. Minha cabeça não é torta… Não, aí não, aí me arreto e acabo com essa palhaçada.

Ela parou, enfim, de bater e disse:

- Não estão mais tortas!

- Como?! Estão tortas como sempre foram!

Ela ficou calada. A mesma cara amuada, de mágoa chinesa.

Ela me mandou sentar e começou a esfregar um chifre de boi nas minhas pernas. Causava uma cócega louca. Esfregou com mais força, muita força, a maior força do mundo. E me disse, quase sussurrando:

- O chifre, que não é de boi, faz o ácido lático subir e virar bolhas na pele…

- Qual é a relação entre ácido lático e minhas pernas tortas? Ai, tá queimando! - gritei.
- Olha aí as bolhas…

Claro, minha pele está queimada… pensei. Quero morrer, agora, concluí. Foi então que Erygeanny pegou umas agulhas e começou a furar as bolhas.

- Olha aí, seu medroso, o ácido lático saindo…

- Heh… mas isso não é ácido lático… É verde!

- Deixa de ser mole. Ácido lático mais tensão emocional fica verde!

- O quê?!

Não me escutou mais. Ficou furando as bolhas. Minhas pernas estavam completamente verdes. Comecei a enjoar. Foi aí que ela parou e disse:

- Teu pescoço está muito tenso!

Pegou um chifre menor, de bode, e começou a passá-lo no meu pescoço.

- Esse chifre, que não é de bode, vai tirar tua aura - tá tensa demais…

- Minha aura?

O que sou sem minha aura, pensei. Vou precisar ler muito Benjamim para recuperá-la. Sem aura, achei que encarnaria o demônio a qualquer momento. E encarnei mesmo, pois ela usou, logo em seguida, uma caneta que dava choques. No começo, nada ocorria. De repente, senti que o meu olho esquerdo mudava de lugar a cada aplicação e o meu braço pulava, que nem reflexo de martelinho no joelho. Foi com esse esfregado de chifre e choque no cangote que veio o demo. Comecei a ficar frio e mole. Tive que interromper e deitar na maca para não apagar. Melhorei, levantei, ela veio de novo com a canetinha e o demo voltava. Ficava frio, o lábio ficava branco e eu tinha que deitar.

- Eita aura tensa danada! - disse Erygeanny em chinês.

- O que está acontecendo? - gemi.

- Você está com os fluxos dos meridianos invertidos. O que deveria subir está descendo e o que tinha que descer está subindo. Com a saída da aura, pude notar isso.

Ela me deu uma tapa na cara, outra e mais outra, e o torpor se foi. Deu um largo sorriso e me deu um pó branco.

- Pó de pérolas - disse.

- Parece outra coisa…

- Tome durante uma semana para manter a reversão dos meridianos e reaver sua aura.

Era um tubinho de vidro, com um pozinho branco e uma colher quase microscópica, toda trabalhada. O desenho parecia um dragão. Pensei, imediatamente, na PM. Se me pega sem aura e com um pó branco, tô lascado. Até que explicasse que aquilo era um remédio chinês de mais de mil anos, já teria tomado umas boas lapadas no lombo. Pelo menos, confessaria quem era o fornecedor. Não agüento tortura. Delato, logo.

Pois é…

Chifrado e invertido, é a vida.

Tentei cheirar o pó branco, mas só deu dor de cabeça. Findei jogando tudo fora. Sou aditivo. Se não der barato, jogo no lixo. Depois de tanto tempo, acho que recuperei minha aura. Continua tensa, imagino, e minhas pernas, tortas, com certeza. Atualmente, sou um fanático da alopatia. Soube que ampicilina sódica com manga dá barato. Podem crer.

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Primeira morte

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 Artur Perrusi

(crônica publicada originalmente no Blog dos Perrusi)

Bateram forte na porta. Acordei sobressaltado. Eram três da matina. Horário cruel e premonitório; afinal, num hospital psiquiátrico, depois da meia-noite, tudo pode acontecer, toda desgraça é possível.

- O que seria? - Pensei.

Um enfarte? Um edema agudo do pulmão? Um parto? Um internamento complicado? Morria de medo de parto. Sempre tive dificuldade em excluir, de forma conveniente, o feto, a placenta e as membranas fetais do aparelho reprodutor materno, principalmente fora de uma maternidade. O último parto fora quase na rua, no alpendre do hospital.

- Se for isso, tô lascado. Ruminei, preocupado.

Abri a porta, lentamente. A enfermeira estava apreensiva.

- É parto?
- Não é nascimento, doutor, acho que é morte.
- Morte?!
- É Maria das Dores, doutor.

Não conhecia essa paciente. Será uma parada cardíaca? Era bom na massagem; assim, podia salvá-la, pelo menos temporariamente. Faria como sempre fizera: massagem e ressuscitação; machucaria um pouco, é verdade, mas era inevitável; ressuscitá-la-ia e a levaria de ambulância; eu dirigindo, é claro, pois não há motorista, e médico faz tudo num asilo; deixá-la-ia na emergência e voltaria correndo, esperando que nada de assombroso, durante minha ausência, tivesse ocorrido no hospital. Era isso: simples e factível.

Corri ao pavilhão feminino, onde estava a moribunda. Várias pacientes cercavam o corpo de Maria das Dores. Estava sentada numa cadeira larga de palha. Era gordíssima, gigantescamente gorda. Na hora do enfarte, tomava banho, sentada na cadeira. Fazia isso, comumente, já que não agüentava mais o peso. Estava nua, com os braços pendentes, os olhos vidrados e a boca meio aberta - jeito de morta, mortinha da silva. Do chuveiro, caia um pingo d’água no seu olho esquerdo. Foi minha primeira preocupação: fechar completamente o chuveiro. Aquele pingo incomodava-me profundamente. Era o tempo tanatológico, um tiquetaque sinistro.

Passei algum tempo, juntamente com a enfermeira, tentando tirar a paciente da cadeira para deitá-la no chão. Não foi fácil. O piso era escorregadio, com muito lodo. Tivemos que derrubar a paciente da cadeira para, depois, empurrá-la até um lugar adequado. Pedi, em vão, que as pacientes se afastassem do lugar. Ficaram só um pouco mais longe. Pedi silêncio, com rispidez, e fui parcialmente atendido.

Meu Deus, como faria uma massagem cardíaca naquele corpanzil? Não fiz propriamente uma massagem: eu bati, esmurrei com toda a força o tórax da paciente. Não houve reação alguma. Ansioso, juntei as duas mãos, dobrando meu “punho”, e novamente tentei. Eram pancadas secas e ritmadas. Eu já transpirava muito. O calor era infernal. Os pingos de suor caiam por todos os lados, e notei um despencando milimetricamente no olho direito da paciente. Aquilo era assustador. Queria implorar por uma toalha.

Parei tudo, já que os atos e as manobras não adiantavam, mas não queria assumir meu fracasso. No fundo, sabia que estava morta, porém não me conformava. O medo de que faltasse um sopro derradeiro nalguma brasa restante impelia-me a continuar naquele trabalho de Sísifo.

De repente, aproxima-se uma paciente. Era Jacilene, minha paciente, há pouco internada e completamente doida. Evitei seu olhar, mas escutei sua voz:

- Ela tá viva, doutor!
- Viva?!
- O que era para haver, se houvesse, mas que não houve. Tire a morte, doutor.

Só me faltava essa: uma louca cheia de veredas. Olhei para a enfermeira, querendo alguma cumplicidade. Recebi um risinho fácil. Olhei a  imensidão no chão. Não agüentei a ansiedade e retomei a massagem. Esmurrei, esmurrei, até não agüentar mais. Parei.

- Não é possível…
- Tá viva, doutor! Ela tem ainda muito etcétera para viver.

Olhei para cima, e lá estava Jacilene, com seus olhos doidos de muita certeza. Seus olhos… Havia uma segurança absoluta ali no seu olhar. Ela me encarava de forma imperativa. Afrontei-a e me perdi, mergulhando numa dúvida atroz. Retomei novamente a massagem. Minutos depois, parei tudo. Estava completamente extenuado. Olhei desesperado para Jacilene. Dessa vez, não disse nada, fez apenas um leve movimento na cabeça e continuou com aquele olhar absoluto. Já retomava a massagem quando uma mão firme no meu ombro interrompeu meu movimento. Era a enfermeira.

- Pare, doutor, não adianta mais.
- É?…
- É, sim, e faz tempo.

Entre o olhar louco, puro de certeza, e o cartesiano, cheio de saber-poder, qual deveria escolher? Era médico, por isso escolhi o segundo. Assim, mandei a enfermeira chamar alguns ajudantes para colocar a paciente na pedra. Já estava de saída da enfermaria quando não resisti e olhei Jacilene. Ela deu um sorriso triste e seu olhar jogou-me numa culpa cavalar. Seus olhos estavam incandescentes. Quase voltava e aplicava mais massagens. Fiz pior: passei a madrugada inteira indo na pedra para tirar a pressão de Maria das Dores - tudo zero, claro. Eu ia e voltava. Já amanhecendo, quando passava na frente das enfermeiras, brincavam com minha dúvida:

- Ela já tá roxa, dotô! - E todas caíam na risada.

Sim, na verdade, sempre esteve, e fazia tempo.

Passei alguns dias ruminando o acontecimento. Queria encontrar algum sentido naquilo tudo. Minha busca era prosaica; afinal, encontraria novamente Jacilene e não estava preparado para enfrentar seu olhar. Antes do encontro, tinha que me convencer de alguma coisa, podendo enfim encarar seus olhos.

O dia chegou, e eu estava ainda repleto de incertezas. Tinha medo de não ter feito o suficiente. Movia-me nesses futuros que já se foram - será que matei a possibilidade? O encontro foi tenso. Jacilene me agrediu. Com toda a força, meteu a mão na minha cara. Estava agitadíssima. Não consegui sequer fitar seus olhos. Gritava pela sua mãe. Não entendi nada. Não consegui contato algum. Simplesmente, ela não parava de gritar. Não teve consulta.

Tempos depois, volto ao pavilhão para uma nova consulta e descubro que Jacilene não se encontrava mais no hospital. Não sabia de nada e fiquei perplexo com a notícia. Segundo a enfermeira, Jacilene estava, agora, no Rio de Janeiro e internada numa clínica. Nunca mais a vi.

Mas não fora tal notícia que me abalara de jeito. Fora outra, muito esquisita: no mesmo instante da morte de Maria das Dores, morria a mãe de Jacilene, após uma longa enfermidade.

Compreendia agora a sua ira. Sei que ela jamais me perdoou. A partir da morte de sua mãe, única âncora na realidade, entrou em colapso e deu um adeus definitivo ao tempo. Simbolicamente, naquela ressuscitação, o que estava em jogo era outra vida - a sua vida. E, de fato, eu não dei conta do recado. Fui distraído em relação a algo que era de suma importância naquele momento. Talvez, algumas massagens a mais salvassem nossa relação, além de toda culpabilização e aquém de toda projeção. Como sempre, desisti rápido demais. Era possível recuar e transformar o delírio em necessidade. Eu poderia ter feito isso.

Depois desse evento, perdi a oportunidade de encontrar a sabedoria; por isso, jamais pude achar um acordo entre minhas escolhas e minha vontade. Naquela época, tive a nítida impressão de que a sabedoria era uma mistura de felicidade e tristeza. Ser feliz e triste ao mesmo tempo, eis a questão.

Foram minhas primeiras mortes.

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Bocejo

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 Artur Perrusi

Olhava meus alunos. Muitos bocejavam. O bocejo é o assassino da auto-estima do professor. Gera uma série de associações incontroláveis, ao ponto de atrapalhar o raciocínio. Uma aluna, bem gatinha, para minha infelicidade, bocejava de forma esplêndida, um monumento à oscitação. Era uma série ininterrupta, cheia, plena. Tive vontade de sair correndo e procurar um psicoterapeuta - diante dele, choraria um pouco, é claro, pois ninguém é de ferro, e tentaria melhorar meu amor-próprio.

E se o psicólogo começasse a bocejar? Esse pensamento monstruoso fez-me voltar à realidade. Era inconcebível. Nunca procurarei um terapeuta, decidi.

Tentando entender o fenômeno, fiz um pequeno experimento científico: parava de falar e notava que o bocejo cessava imediatamente. Recomeçava, e tome bocejo! A conclusão foi implacável: os bocejos acontecem toda vez que tento aprofundar alguma discussão ou quando estou, como de costume, viajando na maionese. Meu sucesso depende da superficialidade. Quando falo abobrinhas, sou o rei.  Ninguém boceja, todos escutam com atenção. Minhas pesquisas demonstraram que abobrinhas e bocejos são incompatíveis. Pena que não tenha, nos currículos universitários, uma disciplina sobre tolices, o que é um contra-senso, já que conheço muitos colegas que, dada a importância do tema, falam o tempo todo abobrinhas.

Pensava nisso, enquanto olhava um aluno gigantesco de gordo dando bocejos impossíveis. Para testar mais uma vez minha hipótese, falei sobre a teoria da alienação em Marx… Ele dormiu instantaneamente. Serei sincero: acho que sou um mutante. Tenho um poder, embora, aparentemente, um tanto inútil; do contrário, os x-men já teriam me procurado. Já sabia sobre essa minha capacidade, sempre soube. Já notara que Enaide, flor da mais fina pureza, nos seus momentos insones, pede sempre que eu fale de teoria - nanossegundos de Escola de Frankfurt, e “pumba!”, ela dorme profundamente.

Eu sou um remédio vivo e ambulante contra a insônia!

Ficaria rico, se fizesse desse poder um empreendimento capitalista. Imagino-me no Arruda com 50 mil insones, todos com um pequeno travesseiro, dados pela produção do evento. Começaria a falar sobre Derrida e o pós-estruturalismo… Instantaneamente, escutaria roncos e roncos, o estádio inteiro roncando. Outra idéia seria vender moléculas de meu sangue a uma indústria farmacêutica para fazer um coquetel contra a insônia. Ou, ainda, CD’s com minha voz gravada discorrendo sobre a teoria dos campos em Bourdieu. Rico, rico, dinheiro pra dedéu.

Como tenho vocação à miséria, fico aqui dando aulas bocejantes na UFPB. Mas o fato de saber que poderia ser milionário reconfortou minha alma, melhorando meu amor-próprio. É uma coisa que anima: olhar no espelho e saber que poderia ser um milionário. Posso ser um professor universitário, mas não importa: se quisesse seria riquíssimo. Isso não é auto-engano; é poder. O poder de ser miserável, sabendo que tenho o poder de ser rico. Calma, antes que me chamem de abestalhado, digo logo que São Francisco pensava (mais ou menos) dessa forma… É uma questão ética, por assim dizer.

E foi bom pensar sobre minha onipotência, melhorando minha auto-estima, porque meu próximo assunto, na aula, era a teoria weberiana sobre a origem do modo de vida burguês. E tome bocejo!

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Espera

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Encerro a semana “Maria Luiza” com uma carinhosa homenagem feita por Ana Cláudia. A habilidosa jornalista e poetisa publicou em seu blog, o Ninho da’Ninha, um poema que me comoveu e, por isso, compartilho aqui com vocês.

À Cláudia, meu obrigado pelo carinho. A todos os leitores, informo que segunda-feira publicarei uma novo conto.

Até lá e um abraço,

Dimas


Ana Cláudia Nogueira

(Para os meus amigos Dimas e Lenira)

Mal vejo a hora de ouvir teu primeiro sinal nesse mundo
A tua resposta à agonia da incompreensão
Dos toques estranhos, do tato,
Da liberdade súbita do corpo
Do arrancar violento do ninho que te protegeu por nove meses
Resposta à luz, aos sons, à vida.
Conto os dias que faltam para que te possa ninar
Te levar no colo, te acalmar as dores,
Admirar teu primeiro sorriso
Reconhecer os sinais de tua fome
Reconhecer o eu que há em ti
E o quanto da pessoa amada tu herdastes.
Vou te olhar até cansar, e nunca cansarei.
Pelo teu rosto, teu porte,
Irei imaginar mil e um futuros
E em todos serás saudável, feliz, apaixonante
Pois é isto que desejo para ti,
Em gratidão por seres filho meu.
Te amarei sempre, sempre,
Com tal intensidade e dedicação
Que jamais terás razão em duvidar deste amor.
Mal vejo a hora de olhar teu corpinho miúdo
Te pegar no colo e anunciar ao mundo:
“Eis a razão de minha vida: meu filho”.

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Para Malu

Arte: Carolina Michaellis
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Maison de Figueiredo

Confirmada a gravidez

Não interessava no momento

Se o tão sonhado rebento

Seria Maria Luiza ou Juarez

O fato é que dessa vez

A semente plantada brotou

E fruto de um grande amor

Aquele feto indefinido

Agora já é conhecido

Pois Maria Luiza virou

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