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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Noite adentro

José Bento Vargas Neto
Já é tarde e acordo com as cotoveladas de minha mulher murmurando baixinho.
- Nilton, Nilton, ô Nilton!
- O que foi – disse eu em voz baixa também, não sei nem porque – O que foi, sô?
- Tem gente aqui dentro de casa.
Neste momento ouvi um barulho vindo da sala e o reflexo [...]

Agar

Pintura: Perfil de mulher (Eduardo Cambuiú Junior)

Kalina Paiva
Ao servir por 10 anos
Vivendo vida d´atriz
Recebi meu galardão:
face da terra, dia feliz!
Minha felicidade
sempre foi clandestina
temporã e amarga
basta olhar minhas retinas
Aprendi um só canto:
Sem liberdade eu existia?
Embalava acalantos
Com tecido d´agonia
O meu rouco canto acre
meu céu, meu inferno
transita nesses dois mundos
marcado pelo ferro
Conquistei liberdade
com lamentação e castigo
agora só tem [...]

A incrível linguagem das moscas

Kalina Paiva
Embora seja australiana, moro no Brasil, na Baía de Guanabara, após meu navio ter aportado aqui acidentalmente. Fui ficando, ficando… Não vem ao caso explicar agora. Por hora, só posso dizer que meus filhos morreram tragicamente e preferi ficar por aqui mesmo, longe dos ares australianos.
A fim de repelir o imenso breu dessa noite [...]

Sherazade

Kalina Paiva
E de tanto te querer,
evito.
Corro de ti minha vida inteira
para passar a eternidade contigo.
E de tanto prazer,
insisto.
Morro de vontade de sorver
em goles nossas desventuras.
E de tanto te sentir,
delito.
Planejo atos de loucura,
pois necessito que pareçam naturais.
E de tanto te amar,
sigo assim.
Por ti e para ti vivo
as mil e uma noites… em claro.

Acordar

Pintura: Mordecai Ardon

Kalina Paiva
Acordei porque tinha que acordar. Já é dia. O sol está mais forte, mais quente e pronto para sua costumeira jornada pelo céu. Envolta nos lençóis, lembrei de quando estávamos juntos.
Meus olhos só vêem a ti. Minha boca anseia pelo teu corpo. Meu nariz sente o teu cheiro de homem. Meu pensamento [...]

Capitu: o diário violado

Mulher com algumas flores: Clara Pechansky

Kalina Paiva
Rio de Janeiro, 18 de abril de 1889.
Estou lutando contra algo maior do que eu. Escrevo e apago. É assim desde os tempos mais remotos. Ultimamente, tenho sido muito boa com o silêncio porque com as palavras…
No momento, cai uma chuva fininha, fresca. Dormi com a janela aberta e [...]