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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivos da categoria'Nau minha' Categoria

Quem vem lá

Ilustração: Suppa
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Mulher barriguda - Secos e Molhados (João Ricardo/Solano Trindade)

Dimas Lins

Dias antes do carnaval, minhas atenções se voltaram para um nome de mulher: Maria Luiza. Não sei a cor de seus cabelos, não conheço seu rosto, nem reconheço sua voz. Dela eu sei quase nada, mas o pouco que sei é suficiente para amá-la incondicionalmente.

Essa mulher, essa menina, esse feto que germina rapidamente no ventre da minha esposa me toma o corpo e a alma e me faz querer ser alguém melhor. Quem sabe assim não poderei ajudá-la a encontrar seus caminhos, a fazer suas escolhas e a expandir seus horizontes.

E quando toco a barriga da minha mulher é como se acariciasse seu rostinho e fizesse cócegas em seus pequenos pés até provocar o seu riso imaginário. Nessas horas, ela sorri através do meu sorriso e eu do seu.

E me sento ao lado da mulher barriguda, tão frágil e tão forte, tão menina e já tão mãe, para conversar sobre quem vem lá.

Será ela cristã ou comunista?
Ordeira ou anarquista?
Advogada ou circense?

Será carnívora ou vegetariana?
Terá uma amiga Sebastiana?
Ou um namorado parisiense?

Será pudica ou imodesta?
Será caseira ou gostará de festa?
Terá malícia ou será inocente?

Gostará do dia ou da noite?
Lutará contra a guerra e o açoite?
Olhará pra trás ou seguirá em frente?

E quando enfim bate o cansaço, mas antes que o sono venha, ansioso pela vinda da pequenina pergunto a mulher barriguda se haverá guerra ainda. Tomara que não. Mulher barriguda, tomara que não.

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Olinda, minha mulher

Foto: Evane Manço
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Olinda (sonho de valsa) - (Alceu Valença)

Dimas Lins

Foi com o angustiante sentimento de perceber que o carnaval estava no fim, que senti a frustração de não ser o mesmo folião de outrora. O festivo pernambucano que se enfiava em Olinda nos quatro dias de folia atrás dos blocos e troças agora era apenas um observador da beleza do frevo, do maracatu, do cabloclinho, do cavalo-marinho e de tantas outras manifestações culturais do mais tradicional e contagiante carnaval do planeta. Ainda amo o frevo com a mesma febre de outros tempos, apenas ando contido na forma de demonstrar esse amor.

Fácil nessas horas é lembrar com saudade do tempo em que o carnaval desfilava na minha porta me convidando para entrar na brincadeira. Tempos saudosos do bairro de São José, o lugar que me ensinou a amar as coisas do Recife e a deixar o coração bater com mais vagar, apenas para entrar no compasso dos tambores silenciosos na segunda-feira de carnaval.

O amor por Olinda surgiu um pouco depois, quando me mudei para lá. São José já não era mais o mesmo e minha família, como tantas outras, deixava o velho bairro no cordão da saideira para ver a vida se enfeitar em outras paragens.

Em Olinda também me senti no meu lugar, recebido de braços abertos que fui pela Marim dos Caetés. Foi nesta época, ainda na adolescência, que conheci e fiz amizade com Chico antes dele se tornar Science, o líder do movimento Manguebeat e de uma das cenas mais importantes da música brasileira. Não raro, virávamos a madrugada ao redor de um violão e de muita farra. Chico naquela época já compunha, mas sua linha musical era mais voltada para o rock. Que boa mudança, meu camarada!

Mas minha saudade maior vem mesmo do carnaval e dos tempos em que eu subia e descia as ladeiras de Olinda atrás da folia. Sinto falta dos bonecos gigantes e da criatividade dos foliões na originalidade das fantasias, escrachadas como elas só. Das brincadeiras de milhões de anônimos, do riso solto nas ruas, dos beijos loucos sob a luz da lua, da animação coletiva e da certeza de não se entregar ao cansaço até que a última troça desfilasse pelas ladeiras da cidade.

Na quarta-feira de cinzas, aqui e agora, sentado em frente ao computador, me pareceu sem sentido não ter subido e descido as ladeiras de Olinda neste carnaval. Quase bati no meu rosto querendo acordar aquele folião de anos atrás que sacudia braços e pernas achando pouco quatro dias de folia. Assim, de pronto, se fosse permitido, eu retrocederia até a sexta-feira para reencontrar Vassourinhas, Pitombeira, Elefante, Siri na Lata, Ceroulas e tantas outras troças para dizer a Olinda que eu também quero cantar a ti esta canção e exaltar os teus coqueirais, o teu sol e o teu mar.

Olinda é minha mãe, minha mulher e minha filha e amor assim não se abandona deliberadamente. Ano que vem, quem sabe, estarei em tuas ladeiras, correndo atrás das troças, como nos velhos tempos. E se assim for, no final de cada dia de carnaval, sentarei no Alto da Sé, comerei uma tapioca, olharei teu mar e cantarei uma canção de amor, para vibrar meu coração. E prometo que todo ano volto pra te ver.

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Frevança Nº 6

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É de fazer chorar - Banda de Pau e Cordas (Luiz Bandeira)

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Frevança Nº 5

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Hino dos Batutas de São José - Banda de Pau e Cordas (João Santiago dos Reis)

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Frevança Nº 4

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Aurora de amor - Ligia Miranda (Romero Amorim/Maurício Cavalcanti)

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Frevança Nº 3

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De chapéu de sol aberto - Vanessa da Mata (Capiba)

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