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	<title>Estradar &#187; Republicação</title>
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	<description>Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira</description>
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		<title>Natal na favela</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Dec 2009 23:30:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[


Papai Noel de Camiseta (Celso Viásfora)
O tempo se movimentava no momento preciso em que o sol se interpõe entre a manhã e a tarde. Mesmo assim a festa de natal já havia começado. Por toda a favela, enfeites decoravam as vias públicas e as casas. Algumas crianças corriam de um lado para o outro, enquanto outras jogavam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/12/natal.gif" alt="natal.gif" /><br />

</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Papai Noel de Camiseta (Celso Viásfora)</span></p>
<p>O tempo se movimentava no momento preciso em que o sol se interpõe entre a manhã e a tarde. Mesmo assim a festa de natal já havia começado. Por toda a favela, enfeites decoravam as vias públicas e as casas. Algumas crianças corriam de um lado para o outro, enquanto outras jogavam futebol pelas ruas estreitas.</p>
<p>O mundo cabia na favela e as pessoas chegavam mansamente de todos os lados. Surgiam de lugar nenhum meninos de rua, sem-tetos, sem-amores, amantes e amados, solitários, além dos vizinhos e amigos. Alguém chegou com um violão, outro com um tamborim e mais outro com um pandeiro.</p>
<p>Famílias inteiras se sentavam em volta da mesa e se confraternizavam. No almoço, uma feijoada preparada por várias mãos era servida aos presentes junto com cervejas, cachaças e refrigerantes, que saltavam das geladeiras espalhadas pela vizinhança e se assentavam nos copos e nas gargantas.</p>
<p>Quando enfim chegou a noite e as luzes da favela se acenderam, o mundo parecia mais iluminado. Para satisfação geral, Papai Noel também estava lá e chegou de cara limpa. Não havia barba branca, gorro ou roupa vermelha, nem botas pretas. Apenas chinelo, bermuda e camiseta. De dentro de sua Kombi saltaram bolas, bonecas, lençóis, camisas, toalhas e até mesmo um berço novinho em folha. A festa varou a madrugada, pois não tinha hora para acabar.</p>
<p>Havia muita coisa a celebrar. Um nascimento, sorrisos sinceros, abraços fraternos, amigos verdadeiros e o prazer de querer bem. Para quem mantém o coração aquecido, a felicidade se faz com poucas coisas. Às vezes, basta um tambor bater.</p>
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		<title>O filho que eu quero ter</title>
		<link>http://www.estradar.com/2009/07/23/o-filho-que-eu-quero-ter-2/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 03:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[
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O filho que eu quero ter &#8211; Chico Buarque (Toquinho/Vinícius de Moraes)
O dia já vem e enquanto esta crônica é publicada eu já vou longe. Saio de férias. Espero, com essa parada, descansar e, ao mesmo tempo, aproveitar um pouco.  Também espero na volta, quem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-146" title="brincadeira-de-crianca" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/11/brincadeira-de-crianca.jpg" alt="brincadeira-de-crianca" width="310" height="350" /><br />
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</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">O filho que eu quero ter &#8211; Chico Buarque (Toquinho/Vinícius de Moraes)</span></p>
<blockquote><p>O dia já vem e enquanto esta crônica é publicada eu já vou longe. Saio de férias. Espero, com essa parada, descansar e, ao mesmo tempo, aproveitar um pouco.  Também espero na volta, quem sabe, recuperar o fôlego e a inspiração perdida.</p>
<p>Deixo, até lá, ainda entusiasmado com o primeiro ano de vida da minha filha, a primeira crônica que fiz para ela quando soube da gravidez da minha esposa.</p>
<p>Não demora, estou de volta.</p>
<p>Dimas</p></blockquote>
<p>É comum a gente sonhar, eu sei, mas esta semana sonhei acordado. Era um domingo à tarde e eu estava em frente ao computador, escrevendo alguma coisa para exercitar os dedos, a mente e o coração. Foi quando minha esposa chegou de mansinho e parou ao meu lado sem dizer nada. No rosto um sorriso bonito e nas mãos um teste de gravidez.</p>
<p>No instante em que vi o resultado, percebi uma leve desaceleração do mundo. Senti uma redução gradual dos movimentos de rotação da terra até chegar a um ponto de inércia, uma parada total. Não houve sobressaltados, apenas a perda da sensação da gravidade. Nossos corpos se elevaram no ar e flutuamos entre beijos e abraços, enquanto na cabeça distendia-se uma profusão de imagens, cores e sons de uma criança.</p>
<p>Suspensos no ar, nos deslocamos pelas ruas e, com o mundo parado, tivemos tempo para prestar atenção nas coisas. Vi um colorido diferente na cidade e uma leveza incomum nas pessoas. Senti um desejo incontrolável de abraçar quem vinha pela frente, de afagar um cão sem dono e de declarar o meu amor à humanidade. A cada passo no ar, uma dança, um carinho e um sorriso. Abraçava os desconhecidos como velhos amigos costumam fazer e chorava lágrimas de felicidade.</p>
<p>No rio Capibaribe, a vida estava desperta. Os peixes imitavam golfinhos e saltavam a nossa frente, enquanto caranguejos acenavam com as suas patas. No céu, esquadrilhas de andorinhas faziam acrobacias mágicas e araras vermelhas se misturavam à imensidão azul.</p>
<p>No passeio público, carreatas nos saudavam e sindicatos faziam manifestação de apoio à gestação de uma nova vida. Nas calçadas, as pessoas nos felicitavam e agitavam bandeirinhas estampadas com roupinhas de bebê. Milhares de crianças entoavam cantigas de ninar, enquanto poetas declamavam doces poesias.</p>
<p>No teatro, uma peça infantil foi montada em nossa homenagem e na TV a programação era interrompida a cada instante para dar a boa nova. Cantores e músicos se reuniram na praça e executaram uma audição pública para celebrar o amor.</p>
<p>Por toda a cidade, os bandidos, um a um, abandonavam o crime e plantavam árvores junto com policiais. Nas escolas, professores e alunos discutiam entusiasmados sobre a origem da vida e, nos hospitais, médicos e pacientes comemoravam a descoberta da cura para todos os males.</p>
<p>Nas estradas, os carros agora eram berços e os motoristas, crianças. Nos aeroportos, cegonhas aterrissavam e decolavam levando e trazendo recém-nascidos.</p>
<p>Nas casas, os muros eram derrubados pelas famílias e os vizinhos antecipavam o natal. Nos estádios, as torcidas rivais em harmonia entoavam acalantos.</p>
<p>Já de volta ao lar, encontramos uma criança engatinhando pela casa e nos sentamos ao seu lado para brincar. Em seu sorriso havia o nosso sorriso e em sua paz, a nossa paz. Quando enfim nela bateu o cansaço, cantamos uma cantiga de ninar e a pusemos a dormir.</p>
<p>Ao me debruçar naquele berço imaginário, acalentei o filho que eu quero ter e, baixinho, cantei os versos da canção:</p>
<p><em>Dorme, meu pequeninho<br />
</em><em>Dorme que a noite já vem<br />
</em><em>Teu</em><em> pai está muito sozinho<br />
</em><em>De tanto amor que ele tem</em></p>
<blockquote><p>Para Lena, com amor.</p></blockquote>
]]></content:encoded>
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		<title>Nascente</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jul 2009 21:47:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[Imagem: Vladstudio

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Para Chegar mais perto de Deus (Zé Ramalho)

Esta semana minha filha completou um ano. Pai orgulhoso, republico a crônica que escrevi quando ela nasceu. Eu, que sempre fui feliz, não sabia que com a sua chegada o melhor ainda estava por vir.
Dimas

- Quem me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Imagem: <a href="http://www.vladstudio.com/home/" target="_blank">Vladstudio</a></span><br />
<img title="nascimento" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/07/nascimento.jpg" alt="" width="310" height="280" /><br />
<object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" width="320" height="80" class="embedflash"><param name="movie" value="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="flashvars" value="searchbar=false&amp;overstretch=true&amp;showeq=true&amp;showstop=true&amp;repeat=true&amp;volume=120&amp;file=http://www.estradar.com/audio/parachegarmaispertodedeus.mp3" /><small>(Please open the article to see the flash file or player.)</small></object>
</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Para Chegar mais perto de Deus (Zé Ramalho)</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify;">Esta semana minha filha completou um ano. Pai orgulhoso, republico a crônica que escrevi quando ela nasceu. Eu, que sempre fui feliz, não sabia que com a sua chegada o melhor ainda estava por vir.</p>
<p style="text-align: justify;">Dimas</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;">- Quem me chamou?</p>
<p>Ouvi uma voz ao longe. Era fraca, de pouca intensidade, por isso não sabia dizer de onde ela vinha. Intuí apenas que chamava por mim. Era um chamado carinhoso, acolhedor, mas não me senti inclinada a descobrir a sua direção. Alheada, manobrei minha cápsula espacial a caminho do infinito.</p>
<p>Naveguei solitária. Ouvia ao longe o som de batidas de bombo que me acompanharam e me acalmaram durante toda a jornada. Comecei meu percurso a nove unidades de tempo atrás e viajei a velocidade da luz. Tudo estava escuro, muito escuro, mas a escuridão não me dava arrepios na nuca. Ao contrário, ela me confortava, pois tudo era tão quieto e havia a minha volta uma sensação de aconchego.</p>
<p>Minha pequena nave translúcida assemelhava-se a uma bolha de plástico. Alta tecnologia. Biotecnologia. Um tubo acoplado ao meu traje espacial fornecia todas as substâncias vitais ao meu organismo. É verdade que, ao longo dessas nove unidades de tempo, meu corpo cresceu e a minha espaçonave pareceu-me cada vez menor. Já não tinha a mesma facilidade de antes para me movimentar. Em compensação, me sentia cada vez mais vigorosa e cheia de energia.</p>
<p>Vim não sei bem de onde. Talvez de um planeta distante atingido por um cometa de calda longa. Acho que fui concebida dessa explosão. Provavelmente da arrebentação súbita e ruidosa teve início a expansão do meu universo. Zigotos, gametas, vitelos, quasares, pulsares, supernovas e asteróides. Milhares de células cósmicas e objetos celestes se multiplicando e tornando a vida embrionária.</p>
<p>- Quem me chamou?</p>
<p>Mais uma vez ouvi a voz. Já não parecia tão distante, visto que pude identificar com algum grau de certeza de onde ela saiu. Vinha d&#8217;além do meu mundo, mas vinha de perto, muito perto.</p>
<p>De repente, um pontinho de luz piscou ao longe. Depois outro e mais outro. Aos poucos, centenas de milhões de luzes cintilaram ao meu redor. Uma nuvem em espiral colorida se formou a minha frente. Tudo era lindo, como só o universo podia ser! A nuvem ainda estava bem distante de mim, mas parecia ser uma nova galáxia ou um ninho de planetas. Em algum deles haveria vida?</p>
<p>- Quem me chamou?</p>
<p>Ouvi novamente a voz, mas, dessa vez, o som foi mais vigoroso. Nesse exato instante, fui atraída para a nuvem em espiral. A princípio, pensei que fosse a Via Láctea, cujos planetas são feitos de leite. Mas não. Pela atração gravitacional que ela exercia sobre a minha nave, enxerguei com bastante nitidez que se tratava, na realidade, de um buraco negro. A velocidade de escape de seu campo excedia a velocidade da luz da minha cápsula. Tamanha era a força de atração da gravidade naquele momento que tive a nítida sensação de que um gigante me puxava com as mãos.</p>
<p>Tive medo! Tentei dar a volta com minha espaçonave, porém, sabia que não era mais possível retornar. Quando enfim entrei na espiral, avistei uma fenda no espaço-tempo. Minha cápsula se desintegrou e fiquei à deriva usando apenas o meu traje espacial. Havia tanta luminosidade no espaço circundante que pensei que estava sendo tragada por uma imensa estrela brilhante.</p>
<p>Senti um puxão em minha cabeça e achei que seria o fim. Chorei, gritei e esperneei. Não podia enxergar direito, mas notei que havia sido arrancada do meu universo para um mundo ainda maior. Como era possível? Senti então romper-se o tubo orgânico que se prendia ao meu traje na altura do umbigo.</p>
<p>Depois fui suavemente repousada sobre um corpo imenso, que identifiquei, pelas batidas de bombo, como a nave-mãe. De lá, tenho a certeza, vinha a voz que tentou me conduzi enquanto estive em meu universo particular. Senti, pela doçura do toque, que eu estava a salvo.</p>
<p>A partir de agora, começarei uma nova jornada neste universo expandido. Mas sei que, desta vez, não estarei mais sozinha.</p>
<div><em> </em></div>
<div>
<hr /></div>
<p><em>Para Maria Luíza, que ao nascer encheu meu coração de mais amor do que ele pode suportar.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>No dia em que eu vim embora</title>
		<link>http://www.estradar.com/2009/06/25/no-dia-em-que-eu-vim-embora/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 03:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[Pintura: Janet Karam

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No dia em que eu vim-me embora &#8211; Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)
Não sou poeta. Não tenho as qualidades do amigo Josias. Mas um dia, depois de ouvir um disco antigo de Caetano Veloso, resolvi arriscar uns versos. Tinham a cara nordestina e a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Pintura: <a href="http://janetsartstudio.blogspot.com/" target="_blank">Janet Karam</a></span><br />
<a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/locomotiva-janet-karam.jpg"><img title="locomotiva-janet-karam" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/locomotiva-janet-karam.jpg" alt="" width="310" height="330" /></a><br />
<object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" width="320" height="80" class="embedflash"><param name="movie" value="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="flashvars" value="searchbar=false&amp;overstretch=true&amp;showeq=true&amp;showstop=true&amp;repeat=true&amp;volume=120&amp;file=http://www.estradar.com/audio/nodiaemqueeuvim-meembora.mp3" /><small>(Please open the article to see the flash file or player.)</small></object>
</p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">No dia em que eu vim-me embora &#8211; Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)</span></p>
<blockquote><p>Não sou poeta. Não tenho as qualidades do amigo Josias. Mas um dia, depois de ouvir um disco antigo de Caetano Veloso, resolvi arriscar uns versos. Tinham a cara nordestina e a métrica da minha terra.</p>
<p>Eles foram publicados, aqui mesmo no <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, no dia 30 de junho de 2008. Como faz quase um ano, achei por bem trazê-los de volta. Pensei que seria uma boa maneira de passar o tempo, enquanto uma nova crônica não vem.</p>
<p>E ela virá &#8211; breve, breve &#8211; mesmo que Belchior teime em dizer &#8220;e não acredite nisso muito não&#8221;, com toda razão.</p>
<p>Dimas</p></blockquote>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Não encontrei alegria em nada,<br />
Senti saudade de casa,<br />
Morri de medo aqui fora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Minha mãe me abraçou,<br />
Meu pai me consolou,<br />
E disse &#8220;meu filho, é hora&#8221;.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Deixei tanta coisa pra trás,<br />
Parti aflito, sem paz,<br />
Tremi ao me ver mundo afora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Carregava apenas a esperança,<br />
Saí sem dinheiro ou herança,<br />
Levei só a dor de quem chora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Ir já não parecia tão certo,<br />
Quase desisti, cheguei perto,<br />
Que eu perguntei a Deus: &#8220;e agora?&#8221;</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Deixei discos, cadernos e livros,<br />
Ficaram também os amigos,<br />
Criança, rapaz e senhora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Muita gente na estação,<br />
Tanto adeus, tantas mãos,<br />
Tanta tristeza que aflora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Meu pai disse pra eu ser forte,<br />
Minha mãe desejou boa sorte,<br />
E pediu pr&#8217;eu escrever sem demora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Não prestei atenção na paisagem,<br />
Encolhi e chorei na viagem,<br />
Que nem vi beleza na aurora.</p>
<p>No dia em que eu vim embora,<br />
Deixei um pedaço de mim,<br />
Dizer adeus foi como um fim,<br />
Pois às vezes a saudade apavora.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Notícias de lá</title>
		<link>http://www.estradar.com/2009/01/15/noticias-de-la-2/</link>
		<comments>http://www.estradar.com/2009/01/15/noticias-de-la-2/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 15 Jan 2009 22:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[
O trem das sete (Raul Seixas)
Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.
Topei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/01/choro.jpg" alt="choro.jpg" /><br />
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small">O trem das sete (Raul Seixas)</span></p>
<p>Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.</p>
<p>Topei com ela ainda no corredor do meu prédio, por volta das duas da manhã, enquanto levava embora a velha senhora. À primeira vista, não entendi bem o que ali ocorria, mas, fosse o que fosse, não me parecia natural. A boa senhora mostrava-se ditosa, mesmo assim desconfiei.</p>
<p>Como aquela visão, para mim, carregava em si a sensação de que um evento de caráter extraordinário acontecia, decidi fazer uma incursão cuidadosa. Era necessário, ao menos, compreender o que se passava.</p>
<p>Por alguns segundos, apenas observei. Depois falei alguma coisa educadamente, mas não me deram atenção. Quando percebi que estava sendo ignorado, chamei-as com mais vigor. Como ainda insistiram em não me dar ouvidos, gritei. Por fim, ordenei que parassem. A Morte &#8211; embora eu ainda não soubesse que se tratava dela &#8211; parou e virou-se em minha direção. Confesso que senti um arrepio na nuca ao vê-la mudar seu curso por minha causa, pois apesar da forma humana, guardei a impressão de que aquele ser não parecia deste mundo. De alguma forma, eu sabia que não estava seguro. Talvez fosse o medo natural de quem lida com o que não compreende, sei lá. Embora o corredor do edifício não estivesse claro o suficiente, notei que a Morte me olhava de cima, como se perguntasse quem eu pensava que era para ordenar alguma coisa. Mesmo assim, não deu uma palavra.</p>
<p>Eu não era ninguém. Ninguém, não! Era um amigo. Um amigo de uma mulher idosa e adorável que sentia por ela uma grande afeição. E já que estava ali, em plena madrugada, diante do incompreensível, não achava nada de mais pedir explicações.</p>
<p>Quando me aproximei um pouco mais, pude ver com nitidez o seu rosto e gelei. Ela me lembrava alguém. Não sabia dizer quem, mas tinha algo familiar. Mesmo assim, senti medo.</p>
<p>Sim, havia algo familiar naquele rosto. Nos instantes em que ficamos parados, frente à frente, pude observar atentamente. Eu estava certo, ela me lembrava alguém. Só que não era apenas um rosto, mas muitos. Através dela, vi o meu avô, a minha avó, meus tios e tias, amigos e conhecidos. Todos mortos. Fiquei petrificado. Só nesse ponto entendi enfim que estava diante da Morte. Ela era diferente de tudo o que eu imaginava e nem de longe se assemelhava àquela representação iconográfica de um esqueleto humano armado de foice.</p>
<p>Assustado, dei um passo para trás. Sim, recuei diante da Morte. Quem não recuaria? Tenho medo de morrer, como qualquer outro. Até pensei em correr, mas não foi preciso, pois com o meu recuo, a Morte tornou a virar e a seguir seu caminho.</p>
<p>Elas já estavam no fim do corredor quando eu percebi que não poderia deixar a velha senhora partir. Andei em direção às duas com passos contérritos, mas andei. Como elas não pararam, eu gritei. Desta vez não ordenei nada. Apenas gritei. Soltei um som penetrante, dolorido, cortante. Pobre senhora, ainda tinha muito que viver, pensava eu. Não tinha que morrer agora. Não tinha que partir.</p>
<p>Elas pararam novamente. A mulher idosa sorriu, a Morte não. Pedi por favor, implorei. Supliquei à Morte que deixasse a boa senhora viver e caí no choro. Como não consegui segurar-me em pé, deixei meu corpo precipitar-se sobre o chão e agarrei-me às pernas do sobrenatural. E embora derramasse lágrimas sinceras, a Morte não se comoveu. De fato, ela nem se moveu. E enquanto ela me olhava, eu sentia uma dor forte, aguda, áspera, espessa, profunda.</p>
<p>A boa senhora passou a mão em meus cabelos e tentou me consolar. Ela estava tranqüila e até me pareceu remoçada. Ainda tentei convencê-la a resistir e ficar. Afinal, como ficariam seus filhos e netos? Como eu ficaria?!</p>
<p>Ficariam todos bem, disse ela. E acrescentou que ainda que fosse o seu desejo por aqui permanecer, esta era uma decisão que não lhe cabia, embora isso não tivesse importância. Ela se abaixou e com uma das mãos buscou enxugar minhas lágrimas. Ainda tentei lhe falar, mas ela não deixou. Apenas sorriu um sorriso franco e me disse que não tinha medo de morrer, pois quem tem esse temor também tem medo de viver. &#8220;Vá e viva!&#8221;, foram suas últimas palavras.</p>
<p>Fiquei sentado no chão desconsolado, vendo as duas porem-se a caminho dos seus destinos. Nada mais havia que eu pudesse fazer. O cansaço tomou conta de mim e acabei caindo no sono. Quando despertei, estava em minha cama. Mas eu sabia que não era apenas um sonho ruim e acordei chorando.</p>
<hr /><em>* Dedicado a Yuri.</em></p>
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		<title>Muito além do livro</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Dec 2008 23:27:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[
Acalanto para um punhal &#8211; Fagner (Robertinho de Recife, Herman Torres e Fausto Nilo)
&#8220;Sentado na penumbra, travava em seu consciente a batalha de sua vida. Na varanda e numa pequena parte da sala, o luar ainda insistia em levar para dentro de sua casa os últimos raios de esperança. No quarto, dormia em sua cama [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/livro-sabios.jpg"><img class="size-full wp-image-290 alignnone" title="livro-sabios" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/livro-sabios.jpg" alt="" width="310" height="250" /></a><br />
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Acalanto para um punhal &#8211; Fagner (Robertinho de Recife, Herman Torres e Fausto Nilo)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><em><span style="font-size: large;">&#8220;</span>Sentado na penumbra, travava em seu consciente a batalha de sua vida. Na varanda e numa pequena parte da sala, o luar ainda insistia em levar para dentro de sua casa os últimos raios de esperança. No quarto, dormia em sua cama a razão de seu martírio e, ao lado dela, deitava-se o estigma da traição. De volta a sala, sobre a mesa do canto, também adormecia um punhal. Quando enfim o ódio venceu a razão, ele empunhou a arma, dirigiu-se até o quarto, aproximou-se da mulher e olhou-a em silêncio. Ela dormia como um anjo, mas certamente acordaria no inferno. Ele segurou a arma com as duas mãos, elevando-a a um ponto acima de sua cabeça, e, antes de baixá-la a toda velocidade, disse com a voz embargada o mantra que o acompanhava desde que partiu da sala em direção ao cumprimento de sua sentença: acorda, punhal!</em><span style="font-size: large;">&#8220;</span></p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p style="text-align: justify;">Mal terminei de escrever o último parágrafo do meu conto, ouvi um barulho atrás de mim. Era noite e, além do computador ligado, tinha apenas uma pequena luminária acesa no escritório. Propositadamente economizava energia. Afinal, se um escritor não tem vida fácil no Brasil, o que dizer de alguém que publica um ou outro texto na internet?</p>
<p style="text-align: justify;">- Quem está aí? &#8211; perguntei, enquanto rodava minha cadeira giratória para que eu pudesse olhar de frente a porta do escritório.</p>
<p style="text-align: justify;">Não me deixei enganar pelo silêncio. Gosto de escrever sobre a morte e coisas do gênero, mas tenho um medo danado de almas penadas. Além do mais, meu instinto deixava claro que havia alguma coisa em meio à escuridão do apartamento.</p>
<p style="text-align: justify;">- Seja quem for, saiba que estou armado! &#8211; disse, enquanto empunhava a minha arma, um extrator de grampos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem bem acabei de dizer aquilo, me arrependi. E se da escuridão viesse uma bala em minha direção? Meu extrator de grampos não era comparável a uma pistola. Pus assim o objeto de defesa sobre a mesa e gritei bem alto que não estava mais armado. &#8220;Frouxo, frouxo!&#8221;, pensei.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava nervoso, reconheço. É que não estou acostumado a ter minha casa invadida a altas horas da madrugada ou em qualquer outro momento do dia. Pensei em correr em direção à porta, mas se assim o fizesse, estaria indo ao encontro do perigo que desejava evitar.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, do negrume do corredor surgiu um homem segurando um punhal. Meu medo transformou-se em pânico. Dizem que um homem que porta uma arma branca tem mais sangue frio do que alguém armado de revólver. E deve ser mesmo, pois a arma branca requer o contato físico do assassino com sua vítima. Imaginei, depois que recebesse algumas punhaladas, as minhas vísceras saltitando pela mesa do escritório e eu, na seqüência, tentando fazê-las saltarem de volta para o meu abdômen. &#8220;Passem já pra cá!&#8221;, ordenaria a intestinos e pâncreas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensei em escrever a cena em meu bloco de anotações, como registro de uma nova idéia para um conto &#8211; se eu escapasse com vida, é claro! &#8211; mas fiquei com medo que o invasor interpretasse meu gesto como uma tentativa de reação, pois já vi num filme de lutas marciais alguém ferir mortalmente o outro com uma caneta Bic.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei no dilema &#8220;escrevo, não escrevo&#8221; por alguns segundos até que pedi licença, peguei uma caneta e um bloco de notas e escrevi algumas anotações sob o olhar desconfiado do invasor. Meu lado escritor falou mais alto, embora eu mesmo me achasse bastante estúpido ao arriscar minha vida por uma inspiração. Depois, pus cada coisa de volta em seu lugar e perguntei onde tínhamos parado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, sim! Paramos assim: eu em pânico e ele com um punhal. Pedi calma ao invasor e disse para ele levar o que quisesse &#8211; dinheiro, objetos pessoais e contas de luz &#8211; desde que poupasse a minha vida. Se possível, deixasse também o computador, pois sem ele não poderia escrever sobre a invasão ao meu apartamento.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não está me reconhecendo, está? &#8211; disse o estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">Deveria? Provavelmente sim, mas não o reconhecia. Tinha medo de dizer que sim e, sob interrogatório, cair em contradição. Tinha medo de dizer que não e ofendê-lo por eu não ter dado a ele a mesma importância que ele me dera. Como sei que não é bom contrariar alguém armado, não disse nem sim, nem não.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não digo nem sim, nem não.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele caminhou em minha direção até entrar completamente no raio de ação da luz. Eu quis dar um passo atrás, mas fiquei encurralado pela mesinha do escritório. Tentei discretamente afastar a mesa, mas o peso do computador não deixou que ela se movesse. &#8220;Se sair dessa, juro que compro um notebook!&#8221;, prometi.</p>
<p style="text-align: justify;">Precavido, tentei evitar olhar para o rosto do invasor. Não queria reconhecê-lo, para não dar motivos à minha morte, mas ele ordenou que eu olhasse em seus olhos. Quem tem uma arma, manda mais.</p>
<p style="text-align: justify;">- Ainda não me reconhece?</p>
<p style="text-align: justify;">Não reconheci. Fiquei alguns segundo tentando buscar sua imagem nos arquivos da minha memória, mas não soube dizer quem era. Poderia ser um colega de trabalho chateado com meu último memorando, ou talvez um flanelinha insatisfeito por ter recebido uns trocados abaixo do preço de tabela, ou ainda um atendente de telemarketing que cansou de conversar apenas com a minha secretária eletrônica.</p>
<p style="text-align: justify;">Percebendo que eu não o reconheceria, se apresentou como o personagem que matara a esposa em seu sono angelical no conto que eu acabara de escrever.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não!</p>
<p style="text-align: justify;">- sim.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não!</p>
<p style="text-align: justify;">Sim. Procurei semelhanças e finalmente reconheci o punhal. Engraçado, não reconheci o personagem, mas sim o punhal.</p>
<p style="text-align: justify;">- Você é o&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Nem ao menos você sabe meu nome. Sabe por quê?</p>
<p style="text-align: justify;">- Não.</p>
<p style="text-align: justify;">- Você nunca me deu um nome. É sempre &#8220;ele pra cá, ele pra lá&#8221;. Nome que é bom, nada!</p>
<p style="text-align: justify;">- É verdade, mas é que&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">- Aliás, raramente você dá nomes a seus personagens, já notou?! Estamos cansados de você!</p>
<p style="text-align: justify;">- Como assim &#8220;estamos&#8221;?!</p>
<p style="text-align: justify;">- Por suas mãos nos tornamos assassinos, suicidas ou depressivos! Que tipo de mente doentia é a sua?!</p>
<p style="text-align: justify;">Não sabia que personagens tinham sentimentos. Quero dizer&#8230; Sabia, mas achava que os sentimentos, assim como os personagens, ficavam restritos à estória.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele disse mais. Confessou que amava a mulher, mas teve que matá-la, porque eu assim o quis. Depois, olhou-me com um olhar de revolta e gritou que ela não tinha que morrer. Por fim, contou que sua esposa também o amava e a traição foi conseqüência do meu desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Fiquei perturbado. Não sabia de nada disso. Não queria matar ninguém de verdade, nem mesmo ser responsabilizado por qualquer traição. Fazia isso, porque gostava de personagens profundamente melancólicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava arrependido. Mas arrepender-se não bastava, pois ainda tinha diante de mim um homem, um punhal e uma sentença de morte em meu nome.</p>
<p style="text-align: justify;">Procurei ser gentil e até reconfortei meu personagem. Tratei-o como um pai trata um filho ou um criador, a sua criatura.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de acalmá-lo, ofereci um café e prometi refazer a estória. Reverteria a morte de sua mulher e livraria os dois das cicatrizes da traição. Disse a ele que, diferentemente da vida real, na literatura tudo era possível. Eles agora seriam felizes, como são os casais num comercial de margarina. A trama ficaria sem graça, é verdade, mas o que é uma trama sem sal diante da preservação da vida?</p>
<p style="text-align: justify;">Ele concordou, mas antes de me entregar o punhal, pediu-me que eu lhe desse um nome. Não apenas a ele, mas a sua mulher também. &#8220;Está bem, está bem!&#8221;, cedi. Ele apertou minha mão e, assim como veio, sumiu na escuridão.</p>
<p style="text-align: justify;">Passei o resto da noite reescrevendo a estória. Não ficou a mesma coisa, mas eu até que gostei do final. Ainda guardei cuidadosamente o punhal numa gaveta, antes de seguir para a cama. Fui dormir pensando nos meus personagens e que, mesmo na ficção, os punhais não foram feitos para acordar.</p>
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		<title>Cordão da saideira</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Nov 2008 03:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[
Foi a necessidade que me levou de volta ao velho bairro onde morei. Em tempos de inverno, procurava uma capa de chuva nas lojas populares. As mesmas lojas que antigamente me empurraram para fora de lá, agora me traziam de volta, por uma razão tão banal. Já havia retornado ao bairro em muitas outras oportunidades, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="width: 400px; height: 241px;" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/08/bairro-de-sao-jose.jpg" alt="bairro-de-sao-jose.jpg" width="400" height="241" /></p>
<p>Foi a necessidade que me levou de volta ao velho bairro onde morei. Em tempos de inverno, procurava uma capa de chuva nas lojas populares. As mesmas lojas que antigamente me empurraram para fora de lá, agora me traziam de volta, por uma razão tão banal. Já havia retornado ao bairro em muitas outras oportunidades, mas em nenhuma delas me demorei além do necessário. Seria a primeira vez.</p>
<p>(Na minha infância, o bairro de São José era um dos últimos redutos residenciais encravados no centro de Recife. Com o tempo, o comércio varejista foi ocupando as casas e pequenos prédios do local, deixando o dia agitado e as noites desertas. O bairro foi se transformando até tornar-se inseguro, pois junto com o comércio vieram os assassinos, bandidos e ladrões. Foi desse jeito que se anunciou a hora de partir.)</p>
<p>Deixei o carro nas proximidades da antiga Estação Rodoviária de Santa Rita e caminhei em direção à Rua das Calçadas. À minha esquerda, o Forte das Cinco Pontas, última construção holandesa em Recife, ainda me deslumbrava. A fortaleza, monumento representativo da arquitetura colonial, foi construída em 1630 para proteger dos ataques de navios inimigos as cacimbas de água potável, ponto vital para o abastecimento da cidade naquela época. O local, durante a minha infância, foi desativado pelo exército e serviu de palco para as nossas brincadeiras de criança. O mesmo Forte que servira à repressão da ditadura militar, para onde foi levado o líder comunista Gregório Bezerra, depois de ser arrastado pelas ruas de Recife, em 02 de abril de 1964, também fora responsável por grande parte dos momentos felizes que vivi no bairro. As tragédias e as alegrias às vezes pegam o mesmo atalho.</p>
<p>Apesar de vasto, considerava o bairro, na minha meninice, apenas o perímetro que ia do Mercado de São José à Praça Sérgio Loreto. Para mim, a Casa da Cultura e a Estação Central estariam, por assim dizer, entrincheiradas em território estrangeiro. É que os meus pés pequenos não ousavam se distanciar tanto assim da Rua Padre Floriano, onde residi a maior parte do tempo.</p>
<p>Entrei no bairro pelas ruas das Calçadas e reconheci a pavimentação de pedra, assim como percebi que ainda estavam lá os trilhos onde circulavam os antigos bondinhos em tempos mais remotos. Despejei-me numa loja aqui e acolá, mas não encontrei o que procurava. À altura da Igreja da Penha, dobrei à direita no Beco do Veado e notei que ainda compunha a paisagem a pequena escultura do cervídeo pendurada em uma de suas esquinas, como há trinta anos atrás. Mas foi no reencontro com a Padre Floriano que fiz a passagem no tempo.</p>
<p>Lembrei-me de Seu Cláudio, um homem gordo que, em tom de galhofa, ameaçava engolir a bola de futebol, toda vez que ela batia com força contra a sua porta. Recordei da família grega que morava ao lado de nossa casa e da caçula em quem dei o primeiro beijo. Lembrei de Rutênio e Fernando, dois irmãos, duas crianças, que brigaram por uma bobagem qualquer e, trinta anos depois, ainda não se falam. De Luiz Morto que ganhara este apelido por ter escrito uma carta ao seu tio, assinando-a como o &#8220;finado Luiz&#8221;, adjetivo bonito, mas de desconhecido significado. Das encenações da Paixão de Cristo na Basílica da Penha que, contrariando as irmãs, sempre terminavam em traquinagem. De agir sorrateiramente como penetra de casamentos pelas igrejas do bairro, para poder comer os doces e salgados. Do cine Ideal, na Vital de Negreiros, onde assisti a Tarzan, meu primeiro filme no cinema. Da Noite dos Tambores Silenciosos e de Vassourinhas, Batutas de São José, Pão Duro, Pás Douradas e tantos outros clubes e troças que desfilavam pelas ruas estreitas do bairro, nos gloriosos carnavais, em meio a uma gente alegre e festeira. Do Galo da Madrugada fundado a duas casas da minha. Das brincadeiras de bola de gude no Pirulito, uma praça de dimensões diminutas com um pequeno obelisco ao centro e cercada por palmeiras-barrigudas.</p>
<p>Hoje não tem dança, nem frevo, na praça ninguém pra cantar. Foi-se o tempo do picolé na casa de Josias, das brincadeiras de polícia e ladrão nas quatro pontas do Forte das Cinco Pontas, da guerra entre ruas travada pela molecada, do futebol no asfalto, da sisudez do Sargento Bombinha, das mentiras de Jorge Mentirinha e tantas outras coisas que marcaram a minha infância.</p>
<p>Ao recordar cada casa e cada amigo, senti saudade. Sentado à Praça do Pirulito, enfim, percebi que a decadência do bairro trazida pelo comércio varejista, embora tenha mudado a paisagem, não apagou nossas pegadas.</p>
<p>No cordão da saideira, deixei o bairro sem a capa de chuva, mas levei comigo as lembranças de uma gente que deixou suas marcas nos anos mais incríveis da minha vida.</p>
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		<title>Paixão de Cristo</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Mar 2008 12:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Republicação]]></category>

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		<description><![CDATA[Pintura: Vicent Van Gogh

Dimas Lins (Publicado originalmente em 18/11/2007)
Em decorrência da Semana Santa e também pela falta de tempo nos últimos dias, optei por republicar um texto para não deixar passar a Páscoa em branco.
No início da próxima semana, retornaremos com textos inéditos.
Um abraço,
Dimas
Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;" align="center"><span style="font-size: xx-small;">Pintura: Vicent Van Gogh</span><br />
<img class="aligncenter" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2007/11/paixao-de-cristo.jpg" alt="paixao-de-cristo.jpg" width="275" height="321" /></p>
<p><strong>Dimas Lins </strong>(<em>Publicado originalmente em 18/11/2007</em>)</p>
<p>Em decorrência da Semana Santa e também pela falta de tempo nos últimos dias, optei por republicar um texto para não deixar passar a Páscoa em branco.</p>
<p>No início da próxima semana, retornaremos com textos inéditos.</p>
<p>Um abraço,</p>
<p>Dimas</p>
<hr />Nasceu católico por decisão dos pais. A primeira coisa que achou, já um pouco mais velho, é que independente das religiões era estranho tornar-se partidário de algo sem ao menos ter uma idéia precisa daquilo em que estava tomando parte. Ia além. Considerava sem sentido tomar partido de qualquer coisa, enquanto fosse incapaz de articular idéias, como era o caso de qualquer recém-nascido. Dizia isso, embora compreendesse perfeitamente o desejo dos pais de querer repassar aos filhos seus usos, costumes e crenças.</p>
<p>Dessa forma, viveu a primeira fase da infância num ambiente católico. Morava próximo à Basílica da Penha no tradicional bairro de São José em Recife e ia lá, vez por outra, em alguma ocasião especial. Como a maioria das famílias católicas, a sua não seguia com rigor os dogmas da igreja. Havia certa frouxidão na relação entre sua família e o Vaticano e, para ele, isso estava de bom tamanho, pois significava um pouco mais de liberdade, ainda que comedida.</p>
<p>Na verdade, gostava mesmo de ir à igreja na semana santa, por causa da encenação da Paixão de Cristo, onde crianças indomáveis eram protagonistas da famosa peça sacra. A bem da verdade, o melhor papel que conseguiu em todos aqueles anos foi o de soldado romano Nº 8, um mero figurante sem direito a proferir uma palavra sequer, por mais monossilábica que fosse. E mesmo assim, nunca atuou na peça em qualquer apresentação pública. Ensaiava, ensaiava e ensaiava, mas ficava apenas no ensaio. Não era tão-somente um péssimo ator, era também irrequieto demais. Numa peça, há que se ter paciência para respeitar as marcações e este não era exatamente o seu caso. E esta inquietação não era apenas sua, mas também de seu melhor amigo, outro ator-mirim, cujo talento não foi reconhecido pelas freiras que produziam o espetáculo.</p>
<p>Acostumaram-se muito mais a tumultuar a montagem a portas fechadas do que propriamente a atuar. Na busca por Jesus no monte das Oliveiras, por exemplo, os dois costumavam procurá-Lo embaixo das cadeiras, atrás das cortinas ou até mesmo dentro dos sapatos dos atores que ensaiavam descalços. Tudo isso, obviamente, desagradava tremendamente às freiras. Ficaram conhecidos e marcados por isso e, um dia, a fama cobrou seu preço.</p>
<p>Certa vez, os dois amigos foram desqualificados como atores e rebaixados a assistentes de palco. De representar o soldado romano Nº 8, ele passou a cuidar dos efeitos especiais. Na verdade, as únicas participações dos dois na peça se restringiriam à cena da morte de Jesus onde, munidos de interruptores e lâminas de metal, simulariam os relâmpagos e trovões.</p>
<p>Do começo ao fim, em todas as sessões preparatórias à estréia para o público, agiram de acordo com a marcação do texto. Era só Jesus pronunciar a citação &#8220;Pai, perdoai! Eles não sabem o que fazem!&#8221; e as luzes acendiam e apagavam freneticamente, enquanto as lâminas de metal eram agitadas. Tudo ocorria perfeitamente, de acordo com o previsto.</p>
<p>Depois de tantos ensaios, o cansaço e a monotonia de esperar o tempo certo da marcação dos efeitos especiais finalmente chegaram. E vieram exatamente na estréia da Paixão de Cristo. O local improvisado para a reprodução dos relâmpagos e trovões assemelhava-se a um sótão acima e ao redor do palco e seu acesso se dava por uma escada de madeira. No dia do espetáculo, os dois recolheram a escada e, antes que alguém desse conta, já estavam isolados e inacessíveis.</p>
<p>Todos a postos, Jesus entrou triunfante em Jerusalém, montado numa bicicleta adornada com cabeça e rabo de jumento, para mostrar publicamente que, com seu reinado, chegava o tempo da simplicidade. Nesse momento, viu-se um discreto relâmpago. Um erro de marcação, talvez.</p>
<p>Um pouco mais adiante, Jesus pregava na cidade, enquanto no céu surgiam relâmpagos, agora um pouco mais desinibidos, desta vez acompanhados de um tímido trovão. A platéia não se deu conta, mas os atores-mirins já estranhavam os efeitos fora do tempo.</p>
<p>Entretanto, os efeitos especiais deixaram a timidez de lado mesmo quando Jesus indignou-se com a presença dos vendedores no templo. Relâmpagos surgidos no céu e trovões ensurdecedores davam dramaticidade à cena. Enquanto Jesus tropeçava nos ambulantes e os apóstolos colocavam as mãos nos ouvidos, embaixo do sótão percebia-se o movimento das freiras numa tentativa silenciosa de mantê-los sob controle. Era inútil.</p>
<p>A partir dali, cada uma das unidades de ação da peça era acompanhada de efeitos especiais. À medida que Jesus curava os enfermos, por exemplo, viam-se e ouviam-se relâmpagos e trovões seguidos de gritos de &#8220;viva!&#8221;, &#8220;aleluia!&#8221; ou &#8220;glória a Deus!&#8221; vindos do sótão. Também foi em meio a uma tempestade que aconteceu a última ceia. Conta-se que o Messias, já impaciente com o barulho, mandou os apóstolos calarem a boca antes de repartir o pão. E na cena do beijo em que Judas traiu Jesus, houve certo constrangimento no ar quando os dois gritaram lá de cima &#8220;safado!&#8221; e &#8220;morte ao traidor!&#8221;.</p>
<p>A platéia dividida reagia com indignação e gargalhadas, enquanto relâmpagos e trovões acompanhavam o suicídio de Judas e toda a <em>via</em><em> crucis</em> do Mestre. Por coincidência, a única cena sem tempestade foi justamente a da morte de Jesus.</p>
<p>Quando finalmente terminou a peça, Jesus e seus apóstolos, além dos soldados romanos, os aguardavam furiosos embaixo do sótão. Sob os olhares de reprovação das freiras, eles, com ar de inocência, elogiaram a atuação de todo o elenco e ainda tiveram a cara de pau de perguntar o horário da próxima sessão.</p>
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