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Uma flor nasceu na rua
Se meu jardim der flor - Boca Livre e MPB4 (Zé Renato/Xico Chaves)
Dimas Lins
Estive sem sono e me pus em pé no breu da noite. Da minha janela, via o tempo atravessar a madrugada sem pressa, enquanto o vento sul levantava as cortinas e espalhava uma brisa benfazeja por todo o quarto. Ainda não havia sol. Embaraçada, a luz difusa do luar dividia com a iluminação pública a guarda da cidade, protegendo-nos da escuridão total.
Mesmo sob a penumbra, tornava-se visível aos meus olhos um mundo que até então eu desconhecia pela ausência de curiosidade. Era um minúsculo ecossistema com algum verde, além de insetos, roedores, batráquios e répteis. Havia insignificantes, mas viçosas fauna e flora ao redor de nossas casas, entranhadas no meio de nossa civilização.
Vi, absorto, o balé da copa das árvores e a dança das folhas de um lado para o outro, sob a regência da aragem. Também ouvia, com imenso entusiasmo, o cacarejar do galo, o canto dos pássaros e o estridular dos grilos. Minha insônia fez de mim um atento espectador de um singelo espetáculo de um mundo por trás do nosso mundo.
Durante a aurora, observei do meu mirante que a luz do dia avançava vagarosamente sobre a superfície e dava ainda mais vida à vida e mais forma e cores às coisas.
Um colibri cruzou veloz a minha janela e partiu em direção às flores para beber o néctar. De seus estames, recolheu o pólen derramando-o sobre uma araucária, que fecundou uma semente, que germinou o chão. Assim, uma flor nasceu na rua.
Não era provável, nem mesmo era possível, mas uma flor rompeu o pavimento, diante dos meus olhos descrentes. Embora não fosse crível, ela estava lá, desafiando o impossível, bem debaixo da minha janela.
Mas não havia dúvida! Sim, eu tinha certeza, uma flor nasceu na rua! Ela surgiu ligeira, enganando o tempo, abrindo espaço no asfalto!
Veio-me à cabeça um poema de Drummond* que, da minha janela, recitei para os ouvidos de ninguém:
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Certamente era uma flor. Inexplicável, misteriosa e fascinante, mas era uma flor. Nasceu de um solo infértil e rompeu o espaço urbano para brotar com delicadeza e simplicidade.
Pensei em gritar da minha janela na esperança que o vento espalhasse para a cidade hiberne o grande acontecimento. Uma flor rasgou o asfalto e me fez acreditar no impossível. Que todos acreditassem também! Mas me senti um tolo ao imaginar-me acordando a vizinhança por causa de uma flor.
Desci então do quarto e ganhei a rua, para oferecer os meus cuidados. De meu jardim, arranquei pedaços de madeira na intenção de fazer um novo cercado. Seguiu os meus passos um cheirinho de pão no forno. Minha barriga roncou desavergonhada e me imaginei comendo pão com manteiga e bebendo um gole de um café quentinho. O cheiro veio numa bandeja trazida por uma senhora de vistosos cabelos brancos, que acompanhava meu afazer. Comi de seu pão e bebi de seu café, depois sorri agradecido e seguimos juntos até a flor.
Quando retomei minha missão, tentei cavar uma fenda no chão, mas não consegui. Fui vencido pelo mesmo solo derrotado pela flor. Um jovem se aproximou e, enfim, arrebentou o pavimento. Um velho trouxe adubo e uma mulher regou a planta. Timidamente, as pessoas apareceram de todos os cantos e, na esquina, um guarda paralisou o trânsito.
A rua arborizada se encheu de graça. Um casal reconciliou-se na praça, um bêbado jurou largar o vício e uma criança traquina prometeu bom comportamento. Um profeta previu novos tempos e um sábio concordou. Um poeta declamou seus versos e a artista musicou. O prefeito decretou feriado e transformou a flor em monumento público.
Ao fim do dia, entre cânticos e louvores, percebi que havia acontecido uma pequena epifania. Voltei para casa com o coração repleto de alegria e percebi que a esperança se alimenta das mínimas coisas e que elas vêm ao mundo todos os dias, como a flor que nasceu na rua.
* A flor e a náusea, Carlos Drummond de Andrade 1 comentário
Cisco no olho

Olhozinho - Rita Ribeiro (Zeca Baleiro)
Dimas Lins
Digam o que disserem, o mal do século é a solidão.
Renato Russo
Não gosto da solidão. Tenho medo da solidão. Tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado. Tenho medo de não ter quem chore por mim, quando eu der o meu derradeiro suspiro.
Não bastasse a infinita tristeza em meu peito, passei boa parte do fim de semana com um cisco no olho esquerdo. No começo, achei que fosse uma bobagem, um grânulo qualquer. Por isso, não dei a atenção merecida. Mais tarde, a dor intensa e pulsante me obrigaria a mudar a atitude.
Já era madrugada do domingo, quando reconheci que não dava mais para ignorar a sensação de arranhão na córnea. Enfim, levantei da cama e segui para o banheiro disposto a retirar o cisco e acabar com o sofrimento.
Como primeiro recurso, abri um vão entre a pálpebra e o globo ocular, para deixar escapar o corpúsculo infiltrado em meu olho. Não adiantou. Em seguida, gotejei soro fisiológico sobre a superfície irritada, mas isso também não funcionou. Já cansado, resolvi mergulhar o olho em um recipiente com água. Meu olho esquerdo quase morreu afogado, mas o cisco persistiu.
O sol já visitava a minha varanda, quando joguei todas as fichas numa última tentativa. Ocorreu-me que, se eu chorasse, o fragmento invasor talvez pudesse ser expelido pelas lágrimas. Bastava me concentrar em algo muito triste que a secreção límpida, incolor e salgada faria o resto. Pensaria em minha solidão, que sequer me permitia ter alguém por perto para soprar o meu olho num momento assim.
O choro veio fácil. Difícil mesmo foi conter as lágrimas depois. Contudo, o cisco permaneceu onde estava. Pior. A dor aumentou e a sensação incômoda passou também para o olho direito. Não sabia que um cisco poderia se espalhar de um olho para o outro, como uma doença contagiosa. Talvez esse tenha sido o primeiro caso na história da medicina.
Não quis mais arriscar. Dei-me, enfim, por vencido e resolvi seguir para alguma emergência oftalmológica.
Quando cheguei ao hospital, não havia mais ninguém, além dos funcionários. “Uma vez sozinho, sempre sozinho”, pensei. Ainda assim, não sei por qual motivo, tive que aguardar.
Já no consultório, a doutora mal me olhou nos olhos, o que achei um contra-senso, dada a sua especialidade médica. Ela parecia com sono e devia estar aborrecida por ter sido acordada no fim do seu plantão. Egoísta, pensei que minha dor vinha em primeiro lugar. Recusei, em seguida, julgar a mim mesmo como alguém que só pensa em si. “Já tenho sentimentos de culpa demais!”, sentenciei. Pois é. Não bastasse a solidão, ainda sofro com sentimentos de culpa. Por isso, nem bem se passaram alguns segundos e eu já havia reprovado meu pensamento, contraindo assim uma nova culpa, um novo tormento. Sou assim mesmo, sinto culpa até onde não há culpa para sentir.
Afetivamente carente e carregando um novo peso na minha mente conturbada, procurei diminuir a habitual distância entre médico e paciente. Busquei seu nome no crachá e tentei ser simpático, apesar dos olhos inchados.
- Leila! Bonito nome.
Ela sorriu apenas por educação e voltou às suas anotações. Por certo, estava mais preocupada em executar os procedimentos médicos de rotina, voltar para a cama e aguardar o fim de seu plantão. Talvez, em casa, tivesse um filho e um marido a sua espera. Por que haveria de perder seu tempo comigo? Eu, ao contrário, tinha apenas a solidão como companheira e me socializava não apenas por educação, mas por necessidade do espírito. Senti pena de mim mesmo por mendigar afeição numa emergência hospitalar.
Ela me conduziu à cadeira oftalmológica e pediu que eu encostasse o queixo no aparelho posicionado à minha frente. A doutora observou meus olhos e pareceu surpresa com o que viu. Perguntei se havia muitos grânulos e ela balançou a cabeça negativamente. Certamente havia algo em meus olhos, ela só pareceu espantada demais para dizer o que era.
Tive medo das possibilidades. A convivência com a solidão me deixou com pânico de doença, pois, como disse antes, tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado.
Olhos mais abertos pela superação do sono, a doutora tornou a observar meus globos oculares. Alguns minutos depois, ela levantou e me abraçou emocionada. Não disse uma palavra. Apenas me abraçou.
Chorei. Choramos. Perderia a vista, certamente. Quem sabe um câncer comeria meus olhos e depois se espalharia por todo o meu corpo. Apesar do medo, me senti reconfortado pela humanidade pouco usual de uma médica de plantão.
Enchi o peito de coragem e perguntei finalmente se ficaria cego. Ela disse que não. Morreria, talvez? Tive outra resposta negativa. Fiquei sem compreender.
De fato, tudo começou a ficar claro, quando ela começou a retirar os grânulos dos meus olhos. Em verdade, não eram ciscos, mas fragmentos da minha própria vida que estavam presos em minhas retinas. Cada pedaço retirado fazia surgir imagens da minha infância, adolescência e vida adulta.
Ri com algumas coisas e me entristeci com tantas outras. Reconheci a mim mesmo no menino inseguro, no rapazinho sem jeito com as mulheres e no homem solitário e infeliz. Vi meu casamento e minha separação se espalharem pelo consultório. Vi mais. Vi a última conversa que tive com a minha filha. A nossa briga, as palavras duras que dissemos um para o outro e a sua saída de casa. Dez anos de silêncio e solidão se passaram desde então.
A doutora passou as mãos pelos meus cabelos, como uma velha amiga, e me aconselhou a ligar para a minha filha. Enxuguei as lágrimas e peguei o telefone. Para mim, chegava o tempo do perdão.
4 comentáriosPonto final

Palavras do coração - Bruna Caram (Otávio Toledo/J.C. Costa Neto)
Dimas Lins
- Prefiro riscar a minha vida de uma vez, num fogo só - disse Diana.
E continuou.
- Escolho ser o brilho instantâneo de um fósforo queimando veloz, mas com a intensidade de um vulcão, do que o fogo baixo de um candeeiro, que demora uma eternidade para se apagar, mas não espalha uma luz vigorosa.
Ainda que soassem assim, em suas palavras não havia retórica. Elas continham a decisão de que era preciso viver a vida de outra maneira. Diana rejeitava agora insistir na construção de um casamento convencional, pois considerava que a rotina era como um veneno que se toma a conta-gotas.
Concordei. E não senti em suas palavras nenhum indício do fim de nós dois. Ao contrário, percebi que ela propunha a oportunidade de um recomeço, pois compreendia que não era eu que estava sendo rejeitado, mas a rotina. Diana apenas me oferecia a chance de afrouxar as rédeas da vida ao invés de mantê-las sob mãos firmes.
Ela apenas não queria ser escrava do trabalho nem do dinheiro e tampouco queria compromisso com os ponteiros do relógio. Desejava botar os pés na estrada e viver loucamente a aventura de sua vida.
Ela fez uma pausa e fixou os olhos nalgum ponto acima e à direita, como se buscasse algo.
- Quero viver uma vida bem-aventurada. Quero ser um viajante sem nacionalidade atravessando países sem fronteiras e, mesmo assim, me sentir no quintal da minha própria casa.
Diana gostava da idéia de levar a vida de um fôlego só, como se lesse os períodos longos de um texto de José Saramago. A questão era simples e estava posta: se a vida é curta, que seja intensa então.
Tentei manter a visão aberta e o coração atento, mas senti vertigens. Tive vontade de abrir um livro de Saramago e lê-lo sob outra perspectiva, trazendo-o para o mundo proposto por Diana. Como as circunstâncias não permitiam, percorri imaginariamente os períodos longos de um de seus romances. A intensidade das palavras me deu a impressão de que a vida vivida assim parecia ter apenas começo e meio. Além do mais, a espera ansiosa pelo ponto final me dava a sensação de que talvez o fim me espreitasse, soturno, numa esquina qualquer.
Embora a idéia, a princípio, passasse uma incomensurável sensação de liberdade, não me fascinava. Sou pragmático e imaginei a dureza de batalhar o pão de cada dia, a cada novo dia. Sou homem e, por ancestralidade, provedor. Tenho medo de viver sem provisões e de não prover. E mais. Achei que riscar a vida de uma vez se assemelharia também a tomar um frasco de veneno, mas de um gole só.
Não, decididamente não! Contaria com a necessidade quase visceral de colocar uma vírgula aqui e outra acolá, para dar um tempo de prestar atenção nas coisas. Preciso da vírgula, do ponto e vírgula e de todas as pausas.
Percebi então que não tinha medo do fim irremediável, da vida que cessa. Tinha medo das coisas irrecuperáveis e de não vê-las passar por mim. Tinha medo da ansiedade invevitável em esperar o ponto final.
Ela compreendeu a minha oração, mas achou que não se subordinava à sua e pôs um fim em nós dois.
Nota do autor1:
O Estradar passou por uma atualização forçada na versão do Wordpress, gerenciador de conteúdo do blog. Houve uma modificação substancial na forma de gerenciamento, embora isso não seja perceptível para o leitor.
Infelizmente, uma dessas modificações prejudicou a estética do blog, desalinhando o player do áudio. Neste texto específico, contornei a situação de forma tosca e provisória, mas o problema persiste. Dentro das minhas limitações, tentarei encontrar uma solução definitiva, para que o blog volte a ter uma estética a contento.
Por tudo, agradeço a compreensão de vocês.
3 comentáriosNota do autor2:
Com a intervenção valiosa do amigo e webdesigner Anizio Silva, conseguimos reestabelecer a estética musical do Estradar.
A Anizio, nosso muito obrigado.
Vocação

Motivo - Fágner (Cecília Meireles/Fágner)
Dimas Lins
Minha amizade com o poeta vem de pouco tempo e, a bem da verdade, fomos apresentados por seus versos. Sua poesia triste ao mesmo tempo em que arrebata, dilacera. Comparei-o certa vez a Drummond, não pela melancolia que emprega, mas pelo talento. O poeta sorriu embaraçado. Talvez achasse que eu caçoava dele, não sei. O fato é que, por conta de suas poesias, nos tornamos amigos.
Um dia, convidá-lo-ei a minha casa para jantar. Reunirei alguns convivas para jogar fora conversas pequenas e, por isso mesmo, de grande relevância.
Durante os aperitivos, perceberia que o poeta se sentiria pouco à vontade. Atribuiria o desconforto a uma timidez inesperada que por certo seria vencida no adiantar dos minutos.
Passaríamos à mesa de jantar e, entre vinhos e informalidades, perceberia o poeta mais desatado. Um médico sentado ao seu lado diria que certos poetas funcionam melhor depois da ingestão de alguns goles de um bom uísque. Haveria controvérsias, pois acredito que uma boa cachacinha desate mais o nó das cordas vocais e talvez até provocasse um recital.
- Não tenho vocação para a poesia - eu levantaria a questão e depois me poria em silêncio.
- Também não tenho veia literária - endossaria um dos convidados.
- Acho que escrever não tem nada a ver com vocação, mas sim com o exercício da escrita - provocaria o outro.
- Quanta bobagem! Escrever é como jogar futebol: você pode até aprender, se treinar, mas jamais será um craque, se não tiver potencial. Para ser craque tem que ter talento, camarada!
A conversa daria voltas à mesa, mas tanto eu quanto o poeta permaneceríamos em silêncio. Eu talvez esperasse a polêmica aumentar para ter um pouco mais de prazer na discussão; o poeta talvez se calasse pela timidez circunstancial.
- Mas o potencial sem proveito não é nada. O potencial, depois de certo tempo, se não utilizado, deixa de ser potencial e passa a ser frustração - diria o médico.
- Concordo com a questão, mas confesso que fiquei confuso. Enfim, qual é a diferença entre potencial e talento?
- O potencial é o estado latente, inativo; enquanto o talento já atingiu a plenitude de sua forma final. E o que é o talento, se não a vocação? - ensaiaria o doutor.
- E de onde vem a sua vocação? - Perguntaria alguém diretamente ao poeta.
O poeta tentaria se esquivar e desqualificar-se como poeta. Em sua modéstia, acharia que não é dotado dessa qualidade inata, seja em estado latente ou manifesto, portanto, não se consideraria capaz de responder. Retraído, o poeta deixaria a questão no ar e os convidados, em vão, esperando por suas palavras.
Mas talvez eu soubesse a resposta. Acredito que sua vocação venha da necessidade e sua vontade de escrever seja instintiva, portanto, anterior e ainda mais inata que o talento. Creio que sua vocação venha mesmo do apuro, do aperto, da inevitabilidade que ele tem em organizar as palavras em rimas e exprimir sentimentos. Como leitor, sou capaz de jurar que o poeta se mistura às próprias palavras, quando escreve. Digo mais. Desconfio que ele é suscetível, ainda que momentaneamente, a sentir o impacto de seus versos e, silencioso, é capaz de derramar lágrimas comovido de si mesmo. Não é à toa que me impressiona a sua capacidade de emprestar à dor tanta poesia*.
Certa vez, tive vontade de lhe perguntar se não era possível que a tristeza estivesse impregnada na alma de quem carrega nos versos as tintas da melancolia. Mas antes de cometer tal imprudência, encontrei a resposta no Motivo de Cecília Meireles.
Eu canto, porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste, sou poeta
Por tudo isso, eu resolveria intervir na conversa, embora não tivesse a intenção de responder pelo poeta. E ao ler uma de suas poesias, deixaria de lado a discussão sobre vocação para entrar no que ela provoca: admiração.
Após a capital queda
(Josias de Paula Jr.)
Num poço, imerso ao pescoço estou, em bosta;
Longe de paraíso, cristão ou ateu.
Moço que se imolou em seu próprio breu.
Narciso às avessas, cuja imagem detesta.
A relva que me serve de leito é daninha,
A pasta que rumino qual pasto é infesta,
Catervas de bernes habitam-me e atesta,
Que o humano se resta, só me toca à crosta.
Réprobo, culpado de minha própria culpa,
Expio incrédulo pecados supostos.
Ázigo cercado por récua sem rosto
Carrego enfermo patíbulos eternos.
Pairo, sem rota, como poeira revolta.
Anaclítico levado pelos infernos,
Sou órfão que purga castigos paternos.
E a roupa que envergo me aquece e sepulta.
Sem um sítio de meu
Vago a encontrar botas,
Onde Judas as perdeu.
Até o fim da noite, alguém tornaria a perguntar ao poeta de onde vinha a sua vocação. O poeta enfim responderia que ela vem da sua certeza em saber que amanhã estará mudo. Mais nada.
Para Josias, cujos versos estão Inscritos em Pedra.
*Frase tomada por empréstimo da talentosa Ana Cláudia Nogueira, que costuma nos dar alguns prazeres literários no blog Ninho da’Ninha.
3 comentáriosHappy hour

Banguela (Zeca Baleiro)
Dimas Lins
Amigos de longas datas, toda sexta-feira se encontravam no mesmo bar para beber a goles pequenos um pouco de conversa fiada. Entre um chope e outro, geralmente falavam de mulheres, futebol, trabalho, família e alguns segredos miúdos. Era daqueles compromissos sagrados, cuja falta só se justificaria por um caso fortuito, como o fim do mundo, por exemplo.
Naquele dia, como em tantos outros, os dois se encontraram no mesmo bar para mais uma happy hour. Desta vez, porém, a hora não parecia tão feliz quanto de costume. Gravata frouxa, chope na mesa, foi Alberto que, estranhando a inquietude do amigo, iniciou a conversa antes mesmo do ritual do brinde.
- Que cara é essa, Tavinho?
Otávio manteve o silêncio e bebeu de uma tacada só metade do conteúdo amarelo-ouro da tulipa, dando sinais claros de que alguma coisa, de fato, estava fora de ordem.
- Que é que há, camarada? - Tentou Alberto novamente, dessa vez num tom mais companheiro.
- Há quanto tempo a gente é amigo, Beto?
- Há mais de trinta anos.
- Lembra quando a gente era criança e vivia aprontando pelas ruas do bairro e sempre se metia em enrascada?
- Claro que lembro! Tempos bons aqueles!
- Lembra que na maioria das vezes você fazia das suas e eu assumia a culpa, por que seu pai era sempre mais severo do que o meu?
- Você me livrou de cada surra, Tavinho!
- Lembra que fui eu quem te apresentou a tua primeira namorada?
- Ela foi a primeira paixão da minha vida. Mas eu também te apresentei a Fernandinha, que você era louco pra pegar.
- Pois é. E o futebol? Nunca perdemos um jogo, não é?
- Todo jogo estamos lá, firmes e fortes.
Otávio fez uma pausa, tomou mais um gole do chope e continuou.
- Nós sempre fomos amigos, não é?
- Sempre.
- Eu já estive em falta contigo alguma vez?
- Ô Tavinho, que conversa é essa?! É claro que não!
- Então por que você andou comendo a minha mulher?!
Alberto bebeu os últimos goles de cerveja que ainda restavam no fundo do copo e depois, com um ar mais sério, respirou fundo e respondeu, antes que as palavras se perdessem no percurso entre as cordas vocais e a ponta da língua.
- Porque você comeu a minha primeiro!
- Eu?!
- Você.
Foi então a vez de Otávio buscar os últimos goles de sua cerveja e também respirar fundo. Estava desconcertado demais para encarar o amigo, afinal, cantara de galo, embora também tivesse agido como um galinha. Diante das circunstâncias, restou-lhe apenas botar o rabo entre as pernas e, como recurso defensivo, pedir mais dois chopes.
A partir daí, percorreram a noite de ponta a ponta entre cautelas e sobressaltos. Mas aos poucos a tensão dava sinais de esmorecimento na mesma medida que o álcool se misturava à corrente sangüínea. Quando enfim selaram a paz, já não havia um único traço de sobriedade. Antes de pedir a conta, ainda terminaram a beberagem com um brinde que exaltava dois amigos que sabiam compartilhar tudo, inclusive suas mulheres.
Já do lado de fora do bar, entre passos cambaleantes e abraços, renovaram o compromisso de se encontrar na semana seguinte para mais um happy hour, ainda que no fundo soubessem que não se veriam mais. É que naquela noite acabara de ocorrer um daqueles casos fortuitos capazes de justificar a ausência nos encontros semanais: o último gole de uma amizade de trinta anos. Saúde!
5 comentáriosNotícias de lá

O trem das sete (Raul Seixas)
Dimas Lins
Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.
Topei com ela ainda no corredor do meu prédio, por volta das duas da manhã, enquanto levava embora a velha senhora. À primeira vista, não entendi bem o que ali ocorria, mas, fosse o que fosse, não me parecia natural. A boa senhora mostrava-se ditosa, mesmo assim desconfiei.
Como aquela visão, para mim, carregava em si a sensação de que um evento de caráter extraordinário acontecia, decidi fazer uma incursão cuidadosa. Era necessário, ao menos, compreender o que se passava.
Por alguns segundos, apenas observei. Depois falei alguma coisa educadamente, mas não me deram atenção. Quando percebi que estava sendo ignorado, chamei-as com mais vigor. Como ainda insistiram em não me dar ouvidos, gritei. Por fim, ordenei que parassem. A Morte - embora eu ainda não soubesse que se tratava dela - parou e virou-se em minha direção. Confesso que senti um arrepio na nuca ao vê-la mudar seu curso por minha causa, pois apesar da forma humana, guardei a impressão de que aquele ser não parecia deste mundo. De alguma forma, eu sabia que não estava seguro. Talvez fosse o medo natural de quem lida com o que não compreende, sei lá. Embora o corredor do edifício não estivesse claro o suficiente, notei que a Morte me olhava de cima, como se perguntasse quem eu pensava que era para ordenar alguma coisa. Mesmo assim, não deu uma palavra.
Eu não era ninguém. Ninguém, não! Era um amigo. Um amigo de uma mulher idosa e adorável que sentia por ela uma grande afeição. E já que estava ali, em plena madrugada, diante do incompreensível, não achava nada de mais pedir explicações.
Quando me aproximei um pouco mais, pude ver com nitidez o seu rosto e gelei. Ela me lembrava alguém. Não sabia dizer quem, mas tinha algo familiar. Mesmo assim, senti medo.
Sim, havia algo familiar naquele rosto. Nos instantes em que ficamos parados, frente à frente, pude observar atentamente. Eu estava certo, ela me lembrava alguém. Só que não era apenas um rosto, mas muitos. Através dela, vi o meu avô, a minha avó, meus tios e tias, amigos e conhecidos. Todos mortos. Fiquei petrificado. Só nesse ponto entendi enfim que estava diante da Morte. Ela era diferente de tudo o que eu imaginava e nem de longe se assemelhava àquela representação iconográfica de um esqueleto humano armado de foice.
Assustado, dei um passo para trás. Sim, recuei diante da Morte. Quem não recuaria? Tenho medo de morrer, como qualquer outro. Até pensei em correr, mas não foi preciso, pois com o meu recuo, a Morte tornou a virar e a seguir seu caminho.
Elas já estavam no fim do corredor quando eu percebi que não poderia deixar a velha senhora partir. Andei em direção às duas com passos contérritos, mas andei. Como elas não pararam, eu gritei. Desta vez não ordenei nada. Apenas gritei. Soltei um som penetrante, dolorido, cortante. Pobre senhora, ainda tinha muito que viver, pensava eu. Não tinha que morrer agora. Não tinha que partir.
Elas pararam novamente. A mulher idosa sorriu, a Morte não. Pedi por favor, implorei. Supliquei à Morte que deixasse a boa senhora viver e caí no choro. Como não consegui segurar-me em pé, deixei meu corpo precipitar-se sobre o chão e agarrei-me às pernas do sobrenatural. E embora derramasse lágrimas sinceras, a Morte não se comoveu. De fato, ela nem se moveu. E enquanto ela me olhava, eu sentia uma dor forte, aguda, áspera, espessa, profunda.
A boa senhora passou a mão em meus cabelos e tentou me consolar. Ela estava tranqüila e até me pareceu remoçada. Ainda tentei convencê-la a resistir e ficar. Afinal, como ficariam seus filhos e netos? Como eu ficaria?!
Ficariam todos bem, disse ela. E acrescentou que ainda que fosse o seu desejo por aqui permanecer, esta era uma decisão que não lhe cabia, embora isso não tivesse importância. Ela se abaixou e com uma das mãos buscou enxugar minhas lágrimas. Ainda tentei lhe falar, mas ela não deixou. Apenas sorriu um sorriso franco e me disse que não tinha medo de morrer, pois quem tem esse temor também tem medo de viver. “Vá e viva!”, foram suas últimas palavras.
Fiquei sentado no chão desconsolado, vendo as duas porem-se a caminho dos seus destinos. Nada mais havia que eu pudesse fazer. O cansaço tomou conta de mim e acabei caindo no sono. Quando despertei, estava em minha cama. Mas eu sabia que não era apenas um sonho ruim e acordei chorando.
* Dedicado a Yuri. 6 comentários



