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Vocação

Motivo - Fágner (Cecília Meireles/Fágner)
Dimas Lins
Minha amizade com o poeta vem de pouco tempo e, a bem da verdade, fomos apresentados por seus versos. Sua poesia triste ao mesmo tempo em que arrebata, dilacera. Comparei-o certa vez a Drummond, não pela melancolia que emprega, mas pelo talento. O poeta sorriu embaraçado. Talvez achasse que eu caçoava dele, não sei. O fato é que, por conta de suas poesias, nos tornamos amigos.
Um dia, convidá-lo-ei a minha casa para jantar. Reunirei alguns convivas para jogar fora conversas pequenas e, por isso mesmo, de grande relevância.
Durante os aperitivos, perceberia que o poeta se sentiria pouco à vontade. Atribuiria o desconforto a uma timidez inesperada que por certo seria vencida no adiantar dos minutos.
Passaríamos à mesa de jantar e, entre vinhos e informalidades, perceberia o poeta mais desatado. Um médico sentado ao seu lado diria que certos poetas funcionam melhor depois da ingestão de alguns goles de um bom uísque. Haveria controvérsias, pois acredito que uma boa cachacinha desate mais o nó das cordas vocais e talvez até provocasse um recital.
- Não tenho vocação para a poesia - eu levantaria a questão e depois me poria em silêncio.
- Também não tenho veia literária - endossaria um dos convidados.
- Acho que escrever não tem nada a ver com vocação, mas sim com o exercício da escrita - provocaria o outro.
- Quanta bobagem! Escrever é como jogar futebol: você pode até aprender, se treinar, mas jamais será um craque, se não tiver potencial. Para ser craque tem que ter talento, camarada!
A conversa daria voltas à mesa, mas tanto eu quanto o poeta permaneceríamos em silêncio. Eu talvez esperasse a polêmica aumentar para ter um pouco mais de prazer na discussão; o poeta talvez se calasse pela timidez circunstancial.
- Mas o potencial sem proveito não é nada. O potencial, depois de certo tempo, se não utilizado, deixa de ser potencial e passa a ser frustração - diria o médico.
- Concordo com a questão, mas confesso que fiquei confuso. Enfim, qual é a diferença entre potencial e talento?
- O potencial é o estado latente, inativo; enquanto o talento já atingiu a plenitude de sua forma final. E o que é o talento, se não a vocação? - ensaiaria o doutor.
- E de onde vem a sua vocação? - Perguntaria alguém diretamente ao poeta.
O poeta tentaria se esquivar e desqualificar-se como poeta. Em sua modéstia, acharia que não é dotado dessa qualidade inata, seja em estado latente ou manifesto, portanto, não se consideraria capaz de responder. Retraído, o poeta deixaria a questão no ar e os convidados, em vão, esperando por suas palavras.
Mas talvez eu soubesse a resposta. Acredito que sua vocação venha da necessidade e sua vontade de escrever seja instintiva, portanto, anterior e ainda mais inata que o talento. Creio que sua vocação venha mesmo do apuro, do aperto, da inevitabilidade que ele tem em organizar as palavras em rimas e exprimir sentimentos. Como leitor, sou capaz de jurar que o poeta se mistura às próprias palavras, quando escreve. Digo mais. Desconfio que ele é suscetível, ainda que momentaneamente, a sentir o impacto de seus versos e, silencioso, é capaz de derramar lágrimas comovido de si mesmo. Não é à toa que me impressiona a sua capacidade de emprestar à dor tanta poesia*.
Certa vez, tive vontade de lhe perguntar se não era possível que a tristeza estivesse impregnada na alma de quem carrega nos versos as tintas da melancolia. Mas antes de cometer tal imprudência, encontrei a resposta no Motivo de Cecília Meireles.
Eu canto, porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste, sou poeta
Por tudo isso, eu resolveria intervir na conversa, embora não tivesse a intenção de responder pelo poeta. E ao ler uma de suas poesias, deixaria de lado a discussão sobre vocação para entrar no que ela provoca: admiração.
Após a capital queda
(Josias de Paula Jr.)
Num poço, imerso ao pescoço estou, em bosta;
Longe de paraíso, cristão ou ateu.
Moço que se imolou em seu próprio breu.
Narciso às avessas, cuja imagem detesta.
A relva que me serve de leito é daninha,
A pasta que rumino qual pasto é infesta,
Catervas de bernes habitam-me e atesta,
Que o humano se resta, só me toca à crosta.
Réprobo, culpado de minha própria culpa,
Expio incrédulo pecados supostos.
Ázigo cercado por récua sem rosto
Carrego enfermo patíbulos eternos.
Pairo, sem rota, como poeira revolta.
Anaclítico levado pelos infernos,
Sou órfão que purga castigos paternos.
E a roupa que envergo me aquece e sepulta.
Sem um sítio de meu
Vago a encontrar botas,
Onde Judas as perdeu.
Até o fim da noite, alguém tornaria a perguntar ao poeta de onde vinha a sua vocação. O poeta enfim responderia que ela vem da sua certeza em saber que amanhã estará mudo. Mais nada.
Para Josias, cujos versos estão Inscritos em Pedra.
*Frase tomada por empréstimo da talentosa Ana Cláudia Nogueira, que costuma nos dar alguns prazeres literários no blog Ninho da’Ninha.
3 comentáriosHappy hour

Banguela (Zeca Baleiro)
Dimas Lins
Amigos de longas datas, toda sexta-feira se encontravam no mesmo bar para beber a goles pequenos um pouco de conversa fiada. Entre um chope e outro, geralmente falavam de mulheres, futebol, trabalho, família e alguns segredos miúdos. Era daqueles compromissos sagrados, cuja falta só se justificaria por um caso fortuito, como o fim do mundo, por exemplo.
Naquele dia, como em tantos outros, os dois se encontraram no mesmo bar para mais uma happy hour. Desta vez, porém, a hora não parecia tão feliz quanto de costume. Gravata frouxa, chope na mesa, foi Alberto que, estranhando a inquietude do amigo, iniciou a conversa antes mesmo do ritual do brinde.
- Que cara é essa, Tavinho?
Otávio manteve o silêncio e bebeu de uma tacada só metade do conteúdo amarelo-ouro da tulipa, dando sinais claros de que alguma coisa, de fato, estava fora de ordem.
- Que é que há, camarada? - Tentou Alberto novamente, dessa vez num tom mais companheiro.
- Há quanto tempo a gente é amigo, Beto?
- Há mais de trinta anos.
- Lembra quando a gente era criança e vivia aprontando pelas ruas do bairro e sempre se metia em enrascada?
- Claro que lembro! Tempos bons aqueles!
- Lembra que na maioria das vezes você fazia das suas e eu assumia a culpa, por que seu pai era sempre mais severo do que o meu?
- Você me livrou de cada surra, Tavinho!
- Lembra que fui eu quem te apresentou a tua primeira namorada?
- Ela foi a primeira paixão da minha vida. Mas eu também te apresentei a Fernandinha, que você era louco pra pegar.
- Pois é. E o futebol? Nunca perdemos um jogo, não é?
- Todo jogo estamos lá, firmes e fortes.
Otávio fez uma pausa, tomou mais um gole do chope e continuou.
- Nós sempre fomos amigos, não é?
- Sempre.
- Eu já estive em falta contigo alguma vez?
- Ô Tavinho, que conversa é essa?! É claro que não!
- Então por que você andou comendo a minha mulher?!
Alberto bebeu os últimos goles de cerveja que ainda restavam no fundo do copo e depois, com um ar mais sério, respirou fundo e respondeu, antes que as palavras se perdessem no percurso entre as cordas vocais e a ponta da língua.
- Porque você comeu a minha primeiro!
- Eu?!
- Você.
Foi então a vez de Otávio buscar os últimos goles de sua cerveja e também respirar fundo. Estava desconcertado demais para encarar o amigo, afinal, cantara de galo, embora também tivesse agido como um galinha. Diante das circunstâncias, restou-lhe apenas botar o rabo entre as pernas e, como recurso defensivo, pedir mais dois chopes.
A partir daí, percorreram a noite de ponta a ponta entre cautelas e sobressaltos. Mas aos poucos a tensão dava sinais de esmorecimento na mesma medida que o álcool se misturava à corrente sangüínea. Quando enfim selaram a paz, já não havia um único traço de sobriedade. Antes de pedir a conta, ainda terminaram a beberagem com um brinde que exaltava dois amigos que sabiam compartilhar tudo, inclusive suas mulheres.
Já do lado de fora do bar, entre passos cambaleantes e abraços, renovaram o compromisso de se encontrar na semana seguinte para mais um happy hour, ainda que no fundo soubessem que não se veriam mais. É que naquela noite acabara de ocorrer um daqueles casos fortuitos capazes de justificar a ausência nos encontros semanais: o último gole de uma amizade de trinta anos. Saúde!
5 comentáriosNotícias de lá

O trem das sete (Raul Seixas)
Dimas Lins
Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.
Topei com ela ainda no corredor do meu prédio, por volta das duas da manhã, enquanto levava embora a velha senhora. À primeira vista, não entendi bem o que ali ocorria, mas, fosse o que fosse, não me parecia natural. A boa senhora mostrava-se ditosa, mesmo assim desconfiei.
Como aquela visão, para mim, carregava em si a sensação de que um evento de caráter extraordinário acontecia, decidi fazer uma incursão cuidadosa. Era necessário, ao menos, compreender o que se passava.
Por alguns segundos, apenas observei. Depois falei alguma coisa educadamente, mas não me deram atenção. Quando percebi que estava sendo ignorado, chamei-as com mais vigor. Como ainda insistiram em não me dar ouvidos, gritei. Por fim, ordenei que parassem. A Morte - embora eu ainda não soubesse que se tratava dela - parou e virou-se em minha direção. Confesso que senti um arrepio na nuca ao vê-la mudar seu curso por minha causa, pois apesar da forma humana, guardei a impressão de que aquele ser não parecia deste mundo. De alguma forma, eu sabia que não estava seguro. Talvez fosse o medo natural de quem lida com o que não compreende, sei lá. Embora o corredor do edifício não estivesse claro o suficiente, notei que a Morte me olhava de cima, como se perguntasse quem eu pensava que era para ordenar alguma coisa. Mesmo assim, não deu uma palavra.
Eu não era ninguém. Ninguém, não! Era um amigo. Um amigo de uma mulher idosa e adorável que sentia por ela uma grande afeição. E já que estava ali, em plena madrugada, diante do incompreensível, não achava nada de mais pedir explicações.
Quando me aproximei um pouco mais, pude ver com nitidez o seu rosto e gelei. Ela me lembrava alguém. Não sabia dizer quem, mas tinha algo familiar. Mesmo assim, senti medo.
Sim, havia algo familiar naquele rosto. Nos instantes em que ficamos parados, frente à frente, pude observar atentamente. Eu estava certo, ela me lembrava alguém. Só que não era apenas um rosto, mas muitos. Através dela, vi o meu avô, a minha avó, meus tios e tias, amigos e conhecidos. Todos mortos. Fiquei petrificado. Só nesse ponto entendi enfim que estava diante da Morte. Ela era diferente de tudo o que eu imaginava e nem de longe se assemelhava àquela representação iconográfica de um esqueleto humano armado de foice.
Assustado, dei um passo para trás. Sim, recuei diante da Morte. Quem não recuaria? Tenho medo de morrer, como qualquer outro. Até pensei em correr, mas não foi preciso, pois com o meu recuo, a Morte tornou a virar e a seguir seu caminho.
Elas já estavam no fim do corredor quando eu percebi que não poderia deixar a velha senhora partir. Andei em direção às duas com passos contérritos, mas andei. Como elas não pararam, eu gritei. Desta vez não ordenei nada. Apenas gritei. Soltei um som penetrante, dolorido, cortante. Pobre senhora, ainda tinha muito que viver, pensava eu. Não tinha que morrer agora. Não tinha que partir.
Elas pararam novamente. A mulher idosa sorriu, a Morte não. Pedi por favor, implorei. Supliquei à Morte que deixasse a boa senhora viver e caí no choro. Como não consegui segurar-me em pé, deixei meu corpo precipitar-se sobre o chão e agarrei-me às pernas do sobrenatural. E embora derramasse lágrimas sinceras, a Morte não se comoveu. De fato, ela nem se moveu. E enquanto ela me olhava, eu sentia uma dor forte, aguda, áspera, espessa, profunda.
A boa senhora passou a mão em meus cabelos e tentou me consolar. Ela estava tranqüila e até me pareceu remoçada. Ainda tentei convencê-la a resistir e ficar. Afinal, como ficariam seus filhos e netos? Como eu ficaria?!
Ficariam todos bem, disse ela. E acrescentou que ainda que fosse o seu desejo por aqui permanecer, esta era uma decisão que não lhe cabia, embora isso não tivesse importância. Ela se abaixou e com uma das mãos buscou enxugar minhas lágrimas. Ainda tentei lhe falar, mas ela não deixou. Apenas sorriu um sorriso franco e me disse que não tinha medo de morrer, pois quem tem esse temor também tem medo de viver. “Vá e viva!”, foram suas últimas palavras.
Fiquei sentado no chão desconsolado, vendo as duas porem-se a caminho dos seus destinos. Nada mais havia que eu pudesse fazer. O cansaço tomou conta de mim e acabei caindo no sono. Quando despertei, estava em minha cama. Mas eu sabia que não era apenas um sonho ruim e acordei chorando.
* Dedicado a Yuri. 6 comentários
Natal na favela

Papai Noel de camiseta (Celso Viáfora)
Dimas Lins
O tempo se movimentava no momento preciso em que o sol se interpõe entre a manhã e a tarde. Era meio-dia. Mesmo assim a festa de natal já havia começado. Por toda a favela, enfeites decoravam as vias públicas e as casas. Algumas crianças corriam de um lado para o outro, enquanto outras jogavam futebol pelas ruas estreitas.
O mundo cabia na favela e as pessoas chegavam mansamente de todos os lados. Surgiam de lugar nenhum meninos de rua, sem-tetos, sem-amores, amantes e amados, solitários, além dos vizinhos e amigos. Alguém chegou com um violão, outro com um tamborim e mais outro com um pandeiro.
Famílias inteiras se sentavam em volta da mesa e se confraternizavam. No almoço, uma feijoada preparada por várias mãos era servida aos presentes junto com cervejas, cachaças e refrigerantes, que saltavam das geladeiras espalhadas pela vizinhança e se assentavam nos copos e nas gargantas.
Quando enfim chegou a noite e as luzes da favela se acenderam, o mundo parecia mais iluminado. Para satisfação geral, Papai Noel também estava lá e chegou de cara limpa. Não havia barba branca, gorro ou roupa vermelha, nem botas pretas. Apenas chinelo, bermuda e camiseta. De dentro de sua Kombi saltaram bolas, bonecas, lençóis, camisas, toalhas e até mesmo um berço novinho em folha. A festa varou a madrugada, pois não tinha hora para acabar.
Havia muita coisa a celebrar. Um nascimento, sorrisos sinceros, abraços fraternos, amigos verdadeiros e o prazer de querer bem. Para quem mantém o coração aquecido, a felicidade se faz com poucas coisas. Às vezes, basta um tambor bater.
2 comentáriosO país do adeus

Pra não dizer que eu não falei das flores (Geraldo Vandré)
Dimas Lins
Baseado nos manuscritos inacabados do meu romance O País do Adeus.
- Unidade Um para Hospital. Responda…
- Hospital na escuta.
- Dois pacientes a caminho.
- Qual o tempo de chegada, Unidade Um?
- Aproximadamente vinte minutos. Necessito do centro cirúrgico para intervenção imediata.
- Entendido.
- Câmbio, desligo.
Estava naquele estágio entre o sono e a consciência, onde o sonho se mistura à realidade. Por isso, não era capaz de distinguir uma coisa de outra. No conjunto de imagens e sons que lhe vinham à mente, viu-se arrancado de casa por homens fortemente armados e reconheceu-se deitado no chão enquanto sofria golpes de pontapés. Agora ouvia vozes que simulavam a comunicação entre uma ambulância e um hospital. Em meio ao estado sonolento, tudo parecia de tal maneira verdadeiro que no sonho chegou a impressionar-se com sensações tão reais.
À medida que a consciência prevalecia ao sono imperfeito, suas percepções aumentavam. Sentia uma sensação incômoda de imobilidade e uma dor imensa, como se tivesse as costelas quebradas. Seu despertar atingiu o ponto máximo ao ter seu corpo sacolejado de um lado para outro e foi neste instante que se percebeu dentro de um veículo.
Lá dentro estava escuro. Apenas uma ou outra fresta de sol batia em seu rosto e cegava um dos olhos, pois já não era possível abrir os dois. Pelas costas, argolas metálicas prendiam suas mãos na altura do pulso. Mantinha-se forçosamente encolhido por dispor de pouco espaço e esbarrava em alguma coisa que se assemelhava a um corpo humano sempre que tentava estender as pernas.
Enfim, tornou a ser dono de seus pensamentos outra vez. Lembrou-se então do aparelho estourado pela repressão no exato momento em que estava reunido com os companheiros. Da invasão da polícia a tiros, de ver alguns corpos caídos na sala de estar e de ser arrancado de casa com uma violência brutal. Lembrou-se finalmente de ser algemado e jogado para dentro de uma veraneio.
Tudo estava claro. Havia sido capturado pela repressão do regime militar. As vozes que ouvira durante o estado intermediário entre o sono e a vigília nada tinham a ver com ambulâncias e hospitais. Certamente não estaria seguindo para centro médico algum. Seu destino indubitável seria um dos porões da ditadura, onde o aparato que o aguardava serviria tão-somente de instrumentos de tortura.
Seu estado consciente fez disparar o coração. Sabia o que viria pela frente e sentiu pavor. Teve dificuldades em respirar e pensou que morreria sem ar ali mesmo. Com os pés, tentou reanimar o companheiro, mas seu esforço foi em vão.
Quando a veraneio parou em definitivo, preparou-se para o pior. A porta da mala se abriu e ele foi arrancado com toda a força pelo corpo e pelos cabelos. Do pouco que viu, não reconheceu onde estava. Entre uma brutalidade e outra pode enfim identificar o outro carona. O corpo do amigo parecia sem vida, posto que ele não esboçava qualquer reação ao ser retirado do veículo.
Rapidamente foi levado para dentro do prédio. Já no centro cirúrgico, teve suas roupas arrancadas e sua cabeça imersa em um tonel de água, sem que nada lhe houvesse sido perguntado. Debatia-se enquanto era forçado a permanecer submerso. Sempre que parecia não agüentar mais, sua cabeça era puxada para fora da água e, segundos depois, era obrigada a mergulhar novamente.
Depois de algumas seqüências de mergulho involuntário, finalmente foi submetido a um interrogatório. Mostravam-lhes fotografias e pediam nomes e endereços. A cada hesitação ou negativa era mergulhado de volta.
À noite foi levado a uma cela e mantido sob o medo constante de novas sessões de tortura.
Por alguns anos, essa foi a sua rotina no cárcere. Durante o tempo em que permaneceu vivo, foi alvo de métodos cruéis. Apanhou no rosto, foi socado no estômago e pela boca expeliu sangue. Recebeu choques no canal do reto e sujou-se com os seus próprios excrementos, em decorrência da contração involuntária do esfíncter.
Esteve à beira da morte por algumas vezes e, em momentos extremos, chegou a ser ressuscitado por um médico-militar. Enquanto esteve vivo, deu nomes e endereços de antigos companheiros. Também confirmou informações sobre gente que sequer conheceu, apenas para livrar-se da dor.
Esteve à mercê do regime, mas guardou para si a decisão de sua morte e foi encontrado em sua cela com os pulsos cortados. Ainda hoje, embaixo de alguma camada de tinta de uma antiga cadeia da repressão militar, se escondem os traços de suas palavras. Junto com elas, está esquecido um pedaço da história do Brasil. Uma história manchada com o sangue do povo brasileiro.
A punho,
Sob a vista de ninguém,
Sanciono e outorgo minha liberdade.
Faz sombra em grande parte da cidade,
O sol que não ilumina a todos,
Adentra em minha janela com alvará de soltura.
Eu, rebelada criatura,
Em paz submeto-me a Deus.
A poesia que empresta voz ao personagem desta crônica chama-se Maioridade e foi escrita pelo amigo Francisco Antônio de Paula Machado, poeta que há tempos não encontro, mas que o coração não esquece.
Poeta morto

Você só pensa em grana (Zeca Baleiro)
Dimas Lins
Como poeta, vestia-se de rimas e despia-se das amarras do preconceito. Escrevia pelo desejo incessante de escrever e versejava pela necessidade do espírito. E embora apenas a alegria contida e a melancolia desenfreada criassem uma aura de arrebatamento em suas palavras, amava a tristeza tão-somente como matéria-prima de seus versos. No fundo, não tinha a alma melancólica, mas apenas um coração comovido.
Como homem, vestia-se de pequenos sonhos e despia-se de vaidades. Seus desejos e ardores não iam além da simplicidade da vida e do aprimoramento contínuo da sua relação com o mundo. Amaria sem julgamentos e aceitaria a todos sem restrições. Sentia amor pelas pessoas, não pelas coisas. O poeta ensinou ao homem que sua casa é apenas uma moradia, que seu carro é apenas um meio de transporte e suas roupas são apenas vestimentas.
Porém, a paixão que alimenta versos às vezes corrói a alma, pois nem sempre para toda ação de amor há uma reação contrária de mesma leveza e intensidade. O amor é cego, mesmo para um poeta.
Levou um tempo para perceber que não era o amor que satisfazia a quem amava. Enquanto de si fluíam a comunhão íntima e a coesão com o universo, recebia de volta projetos de vida, planos de investimentos e uma busca descomedida por projeção social. Mais valia um carro a um verso e uma roupa a uma rima. Mais valia a aparência a um poema inteiro. Mais valia ter a ser. O amor carcomido pela mesquinharia e pela ambição sem limites não é amor, é carcoma.
Depois de tanto tempo veio a perceber o quanto se deixou mudar. Já não reconhecia a si mesmo. Roupas finas, cabelos simétricos, barba feita e perfumes franceses. Nunca andou como um mendigo, mas se fosse o caso, seria melhor do que assemelhar-se a um monarca sem trono.
Não reconhecia mais os seus versos, nem a sua verve. As palavras tornaram-se opacas e o coração comovido tornou-se vazio. O homem esquecera os ensinamentos do poeta e tornou-se apenas um homem. Não há mais rimas, nem versos, nem palavras que sirvam. Apenas as contas agora contam. São números, senhas, moedas, reais e ilusões. Trocou o prazer de recolher-se num momento calmo do dia para perceber o mundo por patuscadas e encontros sociais superficiais.
As palavras e os versos agora são apenas letras ordenadas, não dizem mais nada. Não há mais alma nos poemas, cores nas poesias e calor nas rimas. A fonte secou. A tristeza não é mais matéria-prima dos seus versos. Ela agora reveste a essência de sua existência.
Um coração que não sente
É uma caneta que não capta
Uma voz que não diz
É uma palavra abandonada
Um olho que não vê
É um verso não escrito
Uma mão trêmula
É um poema proscrito
Um homem torto
É um poeta morto.


