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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivos da categoria'Tristeza não tem fim' Categoria

Mar adentro

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É doce morrer no mar (Dorival Caymmi)

Dimas Lins

Lançar-me-ei ao mar. Arremessarei meu corpo do penhasco mais alto que houver e, ao cortar o vento, descreverei um pequeno arco até colidir com o oceano.

Ao tocar em suas águas, não pedirei clemência nem lutarei por mim. Ao contrário, provocarei a sua impaciência movendo freneticamente braços e pernas deixando que ondas furiosas me empurrem para baixo.

Submerso, meu corpo franzino permitirá ao mar beber-me em pequenos goles. Não resistirei. Deixar-me-ei sorver lentamente e de suas águas beberei também. Gritarei com furor para que, por minha boca, passe todo o sal. Inundarei meus pulmões e asfixiarei a saudade de um amor tragado pelo oceano.

E se de mim o mar for piedoso e tentar me levar de volta à superfície, agarrar-me-ei aos corais até que o fim aconteça.

Só assim meu corpo flutuará sem vida e eu estarei em paz.

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Adeus, meu pai, adeus!

Cabeça de homem velho: Cândido Portinari
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Romaria (Quarteto Romançal)

Dimas Lins

Trim! Trim! Trim!

Acordei bastante sonolento e tateei por sobre a mesinha de cabeceira até achar o despertador. Num só golpe, desliguei o alarme e o empurrei para dentro da gaveta do criado-mudo. E como se nada tivesse acontecido, voltei a dormir.

Naquele momento, ignorei solenemente a promessa que fizera na noite anterior. Seria o meu primeiro dia de trabalho após as férias e tinha dito a mim mesmo que tornaria a ser pontual. A minha frouxidão com a disciplina do relógio era fruto de seguidas decepções profissionais. E a minha promessa era fruto de um desejo de voltar a ser o que já fui.

Toc! Toc! Toc!

Deitada e de costas para mim, minha esposa me tocou e disse que alguém batia à porta. No piloto automático, levantei da cama, peguei o relógio e olhei as horas. “Seis da manhã?!”, disse em voz alta, estranhando o horário em que alguém chegava a minha casa. Perguntei se ela esperava alguém, mas a resposta veio sonolenta e negativa. Sem alternativas, molhei o rosto, vesti um roupão e fui atender à porta, enquanto minha esposa voltava a dormir.

Toc! Toc! Toc!

Um pouco mais desperto, me dirigi à sala e, antes de espiar pelo olho mágico, me ajeitei no roupão. Aproximei-me da porta, fechei o olho direito e com o esquerdo tentei ver quem estava do outro lado. Não vi ninguém. Perguntei quem era, mas não obtive resposta. Mas antes que voltasse para o quarto, ouvi um choro baixo vindo do lado de fora. Por um instante, pensei que se tratava do vizinho. Abri então a porta intrigado e tomei um susto ao dar de cara com o meu pai no hall da entrada. Sentado no chão com os braços em torno do joelho e o rosto voltado para baixo, ele chorava um choro aflito.

Preocupado, abaixei-me em seu socorro e perguntei-lhe o que havia acontecido ao mesmo tempo em que observava se ele estava ferido. Meu pai não respondeu, nem parou de chorar. Parecia em choque. Com muito custo, levantei-o do chão e o levei para dentro do apartamento.

Desde a morte da minha mãe, há alguns anos, andávamos afastados um do outro. Foi um rompimento definitivo depois de uma vida inteira conturbada. Quando criança, fui criado por mãos severas, por vezes, até demais. Disciplinador ao seu modo, meu pai me surrava duramente sempre que eu transgredia alguma de suas regras. Às vezes, ele me dava palmadas nas mãos com um tamanco de madeira; noutras, me batia com um cinturão. E era preciso suportar a dor em silêncio, pois ele sempre dizia que homem que é homem não chora.

No início, minha mãe tentava impedi-lo, mas acabava apanhando também. Com o tempo, se trancava no quarto e chorava sozinha, enquanto eu era castigado. Ainda hoje, guardo no corpo e na alma as marcas daqueles dias.

Por toda a minha vida, nunca havia visto meu pai chorar. E agora estava ele, diante de mim, chorando feito uma criança.

Convidei-o a sentar e esperei que ele recuperasse o fôlego. Em seguida, ofereci-lhe um copo d’água, para tentar acalmá-lo, mas ele não quis. Meu pai não dizia coisa com coisa até me olhar nos olhos e me pedir perdão. Percebi então que a sua aflição também era por mim. Era como se, de súbito, ele despertasse e me enxergasse com de fato eu era: seu único filho. E eu era agora tudo o que restava de sua família. Não sei dizer o que o fez mudar. Talvez ele estivesse acertando as contas com o passado em busca de um pouco de paz no presente.

Vi estampado em seu rosto o arrependimento e entendi que as minhas palavras seriam a única coisa capaz de trazer-lhe algum conforto. Senti aquele momento e o abracei com emoção. Depois, enxuguei seu rosto, beijei a sua testa e disse que o amava. Choramos abraçados por alguns instantes até que se esgotassem todas as lágrimas.

Ficamos conversando durante um tempo e não paramos nem mesmo quando o telefone tocou. Preferi deixar que minha esposa atendesse a ligação do nosso quarto. Depois, chamei-o para um café, mas ele recusou. Disse que precisava ir. Acompanhei meu pai até a porta e nos despedimos com um forte abraço.

Quando voltei ao quarto para contar as novidades, encontrei minha esposa com lágrimas nos olhos. Fui em sua direção, segurei sua mão e perguntei o que havia acontecido. Ela acariciou o meu rosto e anunciou a morte do meu pai. Um amigo informou por telefone que ele sofrera uma parada cardíaca, que fora socorrido, mas falecera tão logo chegou ao hospital. Morreu às seis horas da manhã, o mesmo horário em que alguém batia à minha porta.

Contestei a notícia. Disse então que não podia ser e contei que estivera com ele ainda a pouco, em nosso próprio apartamento. Estava claro que se tratava de um engano. Por isso, interfonei para a portaria, mas não havia sinais ou registros de sua passagem pela entrada do prédio. Ainda sem acreditar, liguei para o hospital e uma enfermeira confirmou o óbito. Parti para fazer o reconhecimento do corpo e o fiz, mesmo confuso.

Demorei para aceitar sua morte, pois sabia que estivemos juntos naquela manhã inexplicável.

Hoje, em tempos tão distantes daquele dia, já não tenho mais certeza do que aconteceu. Talvez eu tivesse criado uma fantasia em torno de sua morte para aceitar que já não era mais possível a reconciliação com meu pai em vida. Talvez fosse duro demais vê-lo partir, deixando para trás tantas feridas abertas.

Mesmo assim, me conforta saber que, ainda que tudo tenha se passado na minha imaginação, em meu coração eu fiz as pazes com o meu pai. E torço para que ele, em algum momento de sua vida, ou mesmo de sua morte, também tenha feito as pazes comigo.

E já não guardo mágoas no peito e posso senti-lo com um amor infinito, igual ao amor que todo filho sente por seu pai. Pude enfim perdoá-lo e agora posso deixá-lo ir em paz. Adeus, meu pai, adeus!

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Maria das dores de amar

Pintura: Paula Rego
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Das Dores de oratórios (João Bosco)

Dimas Lins

Seria um dia festivo. Era pra ser. Porém, o tempo e o modo do verbo indicam que não aconteceu assim. Pequenas rupturas urbanas por vezes carregam em si grandes tragédias pessoais. Sempre me comovo quando os filhos se vão antes dos pais; discípulos, antes dos mestres; jovens, antes dos velhos; e amantes, antes de viverem o amor em toda a sua plenitude.

O amor que vai e não volta torna o peito insuportável. E não há como reconfortar um coração amputado, pois o que sobra é o vazio, o que se sente é a dor e o que se vive é a solidão.

Foi na porta da igreja, num fim de tarde, que Maria das Dores soube da morte de Antônio no dia de seu casamento. Suas mãos tremeram, seu corpo gelou, sua tez morena empalideceu e suas pernas não se sustentaram em pé.

Antônio havia parado num bar, próximo a sua casa, para brindar com alguns amigos, antes de também seguir para a igreja. De repente, na mesa ao lado, um desentendimento, uma confusão, um conflito. O motivo, uma dívida de jogo. Antônio tentou apartar a briga, mas foi baleado na altura do peito e não resistiu. Os amigos ainda tentaram socorrê-lo, mas já era tarde.

A morte trágica e inesperada mudou o rumo natural das coisas. A expectativa da felicidade deu lugar ao sofrimento certo. No velório de Antônio, Das Dores chorou. Ainda vestida de noiva, varou a noite debruçada sobre seu corpo entre lágrimas e desespero. Por vezes, gritava tanto que podia ser ouvida em qualquer parte da cidade. Noutras, sussurrava no ouvido de Antônio: “Me leva!”.

Durante o sepultamento, o silêncio era quebrado pelas rajadas dos gritos loucos da mulher abandonada. Maria das dores, do amor bruscamente interrompido, da mágoa no coração, da profunda tristeza e também da solidão, sussurrava sempre para Antônio: “Me leva!”.

O tempo passou, mas a tristeza não deu lugar à resignação. Diariamente, ela era vista debruçada sobre o jazigo de Antônio até o entardecer.

Só depois de um ano as visitas ao cemitério cessaram. Das Dores nunca mais foi vista desde então. Tornou-se reclusa e sumiu do alcance dos olhos do povo do lugar.

Hoje, sua casa está abandonada e pouco se sabe do rumo que sua vida tomou. Há quem conte que ela nunca tirou o vestido branco que um dia se casaria. Alguns vizinhos dizem que ela mudou de cidade, para tentar recomeçar a vida em outras paragens. Outros falam que ela enlouqueceu e sumiu no mundo. Mas há rumores em toda parte que tratam de sua morte. A verdade é que não sabe o que aconteceu.

Quando passo em frente ao cemitério, difícil é não lembrar dos eventos daquele dia fatal. Ainda posso vê-la metida em seu vestido de noiva e ouvir o som penetrante da sua voz sussurrando ao vento: “Me leva!”. E vou para casa sem esquecer o sol daquela tarde.

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Clave de sol

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As andorinhas - Secos e Molhados (João Ricardo/Cassiano Ricardo)

Dimas Lins

Em meio a uma chuva intensa, uma andorinha atravessa os mares agitados em busca de um pouso seguro, um púlpito para seu canto, uma clave de sol.

O seu corpo franzino, de apenas quatorze centímetros, está cansado. Sua plumagem - de cor canela-avermelhada na garganta e pigmentação fuliginosa no dorso e no peito - perdeu o aspecto vistoso. De seu bico curto, largo e chato grinfa em sustenido o desespero. A anatomia das asas pontiagudas e dos pés pequenos encontra agora dificuldade em vencer a tempestade. A jovem ave se perdeu da revoada em seu primeiro percurso de longo alcance e agora está só.

A noite é densa e o vôo, cego. De nuvens plúmbeas despejam-se descargas elétricas entremeadas por um clarão intenso de curta duração, ritmadas por ribombos de canhão. Nesta difícil jornada, o céu e o mar se fundem numa tormenta que atormenta. Embora não haja harmonia neste encontro de águas da chuva e do oceano, a combinação do ritmo da trovoada com a melodia do grinfar do pássaro encerra em si um sentido musical. Tudo soa como uma orquestra que se prepara para tocar os últimos acordes para um balé fatal no firmamento, onde a encenação da morte do cisne certamente se confundiria com uma real fatalidade, a morte da ave migratória.

no céu, a andorinha luta por si, mas a tempestade não tem . Na noite em que olhos argutos não conseguem enxergar, nem sentidos aguçados podem apontar a direção, a vida começa a escapar.

Vencido pelo temporal, o pássaro cambaleia na abóbada celeste e perde altitude, como se tropeçasse nos fios tensos de uma pauta imaginária, organizando involuntariamente a sua queda como notas musicais em escala decrescente.

Em si, recai o silêncio,
Em , sons de um lamento,
Em Sol, a solidão.
Em , fatalidade.
Em Mi, míngua a vontade,
Em , a rendição.
Em , a dor, o impacto, o mar: o fim é a escuridão.

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Notícias de lá

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O trem das sete (Raul Seixas)

Dimas Lins

Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu fado.

Topei com ela ainda no corredor do meu prédio, por volta das duas da manhã, enquanto levava embora a velha senhora. À primeira vista, não entendi bem o que ali ocorria, mas, fosse o que fosse, não me parecia natural. A boa senhora mostrava-se ditosa, mesmo assim desconfiei.

Como aquela visão, para mim, carregava em si a sensação de que um evento de caráter extraordinário acontecia, decidi fazer uma incursão cuidadosa. Era necessário, ao menos, compreender o que se passava.

Por alguns segundos, apenas observei. Depois falei alguma coisa educadamente, mas não me deram atenção. Quando percebi que estava sendo ignorado, chamei-as com mais vigor. Como ainda insistiram em não me dar ouvidos, gritei. Por fim, ordenei que parassem. A Morte - embora eu ainda não soubesse que se tratava dela - parou e virou-se em minha direção. Confesso que senti um arrepio na nuca ao vê-la mudar seu curso por minha causa, pois apesar da forma humana, guardei a impressão de que aquele ser não parecia deste mundo. De alguma forma, eu sabia que não estava seguro. Talvez fosse o medo natural de quem lida com o que não compreende, sei lá. Embora o corredor do edifício não estivesse claro o suficiente, notei que a Morte me olhava de cima, como se perguntasse quem eu pensava que era para ordenar alguma coisa. Mesmo assim, não deu uma palavra.

Eu não era ninguém. Ninguém, não! Era um amigo. Um amigo de uma mulher idosa e adorável que sentia por ela uma grande afeição. E já que estava ali, em plena madrugada, diante do incompreensível, não achava nada de mais pedir explicações.

Quando me aproximei um pouco mais, pude ver com nitidez o seu rosto e gelei. Ela me lembrava alguém. Não sabia dizer quem, mas tinha algo familiar. Mesmo assim, senti medo.

Sim, havia algo familiar naquele rosto. Nos instantes em que ficamos parados, frente à frente, pude observar atentamente. Eu estava certo, ela me lembrava alguém. Só que não era apenas um rosto, mas muitos. Através dela, vi o meu avô, a minha avó, meus tios e tias, amigos e conhecidos. Todos mortos. Fiquei petrificado. Só nesse ponto entendi enfim que estava diante da Morte. Ela era diferente de tudo o que eu imaginava e nem de longe se assemelhava àquela representação iconográfica de um esqueleto humano armado de foice.

Assustado, dei um passo para trás. Sim, recuei diante da Morte. Quem não recuaria? Tenho medo de morrer, como qualquer outro. Até pensei em correr, mas não foi preciso, pois com o meu recuo, a Morte tornou a virar e a seguir seu caminho.

Elas já estavam no fim do corredor quando eu percebi que não poderia deixar a velha senhora partir. Andei em direção às duas com passos contérritos, mas andei. Como elas não pararam, eu gritei. Desta vez não ordenei nada. Apenas gritei. Soltei um som penetrante, dolorido, cortante. Pobre senhora, ainda tinha muito que viver, pensava eu. Não tinha que morrer agora. Não tinha que partir.

Elas pararam novamente. A mulher idosa sorriu, a Morte não. Pedi por favor, implorei. Supliquei à Morte que deixasse a boa senhora viver e caí no choro. Como não consegui segurar-me em pé, deixei meu corpo precipitar-se sobre o chão e agarrei-me às pernas do sobrenatural. E embora derramasse lágrimas sinceras, a Morte não se comoveu. De fato, ela nem se moveu. E enquanto ela me olhava, eu sentia uma dor forte, aguda, áspera, espessa, profunda.

A boa senhora passou a mão em meus cabelos e tentou me consolar. Ela estava tranqüila e até me pareceu remoçada. Ainda tentei convencê-la a resistir e ficar. Afinal, como ficariam seus filhos e netos? Como eu ficaria?!

Ficariam todos bem, disse ela. E acrescentou que ainda que fosse o seu desejo por aqui permanecer, esta era uma decisão que não lhe cabia, embora isso não tivesse importância. Ela se abaixou e com uma das mãos buscou enxugar minhas lágrimas. Ainda tentei lhe falar, mas ela não deixou. Apenas sorriu um sorriso franco e me disse que não tinha medo de morrer, pois quem tem esse temor também tem medo de viver. “Vá e viva!”, foram suas últimas palavras.

Fiquei sentado no chão desconsolado, vendo as duas porem-se a caminho dos seus destinos. Nada mais havia que eu pudesse fazer. O cansaço tomou conta de mim e acabei caindo no sono. Quando despertei, estava em minha cama. Mas eu sabia que não era apenas um sonho ruim e acordei chorando.


* Dedicado a Yuri.

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Pra dizer adeus

Arte sobre foto: Dimas Lins

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Pra dizer adeus - Roberta Sá (Edu Lobo/Torquato Neto)

Dimas Lins

Por mais de uma hora manteve-se em silêncio. Faltava-lhe a coragem necessária para dizer a mulher sua última resolução. Enquanto esteve cabisbaixo, nem chegou a perceber os cortejos que passavam a sua volta. Não ouvia a marcha silenciosa dos que, naquele instante, diziam adeus. Durante esse breve tempo, apenas permaneceu sentado e com a cabeça voltada para o chão, pois sabia que a esposa, seguramente, reprovaria a sua decisão.

E foi desse jeito, cabeça baixa, sem olhar em sua direção, que aos poucos ele foi rompendo a privação voluntária da fala. Ainda assim, preferiu não ir direto ao ponto, para não melindrá-la. Falaria com jeito e usaria do cuidado, na intenção de evitar o desapontamento.

Lembrou-lhe quando a conheceu no primeiro dia de aula na faculdade e que mudara a perspectiva de sua vida, pela viva afeição que sentiu naquele instante. Que soube então que ela, e mais ninguém, cruzara o seu caminho de modo determinante e que sentir seu cheiro era tão necessário quanto encher de ar os pulmões.

Lembrou-lhe o casamento um ano depois e as dificuldades que passaram no início da vida conjugal pela falta de dinheiro. O ajuste natural da vida, enquanto os dois, gradativamente, cresciam na profissão e davam-se mutuamente um conforto melhor. O nascimento do primeiro filho, depois a chegada do segundo e o encantamento que sentiram em ser responsáveis por vidas tão pequenas e tão maravilhosas.

Lembrou-lhe a felicidade pela formatura do mais velho e a tristeza profunda pela morte do mais novo, num assalto em plena luz do dia, diante de um sinal de trânsito fechado. A despedida do primeiro filho que se estabeleceu profissionalmente em outro país e por lá se casou, dando-lhes o primeiro e único neto.

Lembrou-lhe que, apesar de todos os embaraços que a vida trouxe, tiveram juntos uma caminhada venturosa e plena de amor. Que jamais tiveram ranhuras em seu casamento e que, ao contrário, o amor sempre encontrou terreno fértil em seus corações para crescer e se solidificar.

Por fim, lembrou de sua morte, três meses atrás, do tempo em que ela passara na UTI, do medo que ele teve da solidão e da certeza de não saber viver sem sua companheira de todas as horas.

Ao calar a voz, estava comovido. De seus olhos vertia um córrego de lágrimas que se espalhava pelo chão em forma de pequenas gotas e misturava-se aos grânulos de areia por entre seus pés. Ao derramar seu pranto, contou finalmente que não vivera tudo aquilo em sua companhia, para terminar seus dias na solidão. Estava velho e cansado e agora fazia as contas para, quem sabe, encontrá-la novamente em outras paragens. Ele estava ali, diante de seu jazigo, para dizer adeus.

Esperou alguns minutos, finalmente levantou a cabeça e olhou em sua direção. Ela sorria um sorriso meigo, através da fotografia fixada na laje do sepulcro. Ele sorriu de volta agradecido pela compreensão. Em seguida, inclinou-se para frente, beijou-lhe o rosto de senhora, depositou uma rosa em seu túmulo e disse adeus.

Ao levantar-se, enxugou as lágrimas, ajeitou os cabelos brancos e suspirou antes de partir. Depois, caminhou lentamente pela rua central do cemitério, desaparecendo no horizonte até sua silhueta perder a forma.

Quando enfim deram por sua falta, encontraram-no sentado em sua cadeira de balanço, próximo à janela, metido num corpo inanimado. Não havia sinais de interrupção propositada da vida. A permissão da esposa foi o bastante para interrompê-la. O amor foi tanto que morreu por ele.

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