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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Adeus, meu pai, adeus!

Cabeça de homem velho: Cândido Portinari

Romaria (Quarteto Romançal)
Dimas Lins
Trim! Trim! Trim!
Acordei bastante sonolento e tateei por sobre a mesinha de cabeceira até achar o despertador. Num só golpe, desliguei o alarme e o empurrei para dentro da gaveta do criado-mudo. E como se nada tivesse acontecido, voltei a dormir.
Naquele momento, ignorei solenemente a promessa que [...]

Maria das dores de amar

Pintura: Paula Rego

Das Dores de oratórios (João Bosco)
Dimas Lins
Seria um dia festivo. Era pra ser. Porém, o tempo e o modo do verbo indicam que não aconteceu assim. Pequenas rupturas urbanas por vezes carregam em si grandes tragédias pessoais. Sempre me comovo quando os filhos se vão antes dos pais; discípulos, antes dos mestres; jovens, [...]

Clave de sol

As andorinhas – Secos e Molhados (João Ricardo/Cassiano Ricardo)
Dimas Lins
Em meio a uma chuva intensa, uma andorinha atravessa os mares agitados em busca de um pouso seguro, um púlpito para seu canto, uma clave de sol.
O seu corpo franzino, de apenas quatorze centímetros, está cansado. Sua plumagem – de cor canela-avermelhada na garganta e pigmentação fuliginosa [...]

Notícias de lá

O trem das sete (Raul Seixas)
Dimas Lins
Trago notícias da Morte. Ontem à noite, ela visitou a mãe de um grande amigo e, ao sair, deixou seu corpo falto de vida. Em sua breve passagem ela não sorriu, nem chorou, nem tratou a falecida com desdém ou com excesso de zelo. Apenas devotou-se a cumprir o seu [...]

Pra dizer adeus

Arte sobre foto: Dimas Lins

Pra dizer adeus – Roberta Sá (Edu Lobo/Torquato Neto)
Dimas Lins
Por mais de uma hora manteve-se em silêncio. Faltava-lhe a coragem necessária para dizer a mulher sua última resolução. Enquanto esteve cabisbaixo, nem chegou a perceber os cortejos que passavam a sua volta. Não ouvia a marcha silenciosa dos que, naquele instante, [...]

Enterrado em meu próprio corpo

Para um amor no Recife (Paulinho da Viola)
Dimas Lins
Fui um tolo. Fui esse pateta, porque de uns tempos para cá envelheci sem que eu tivesse me tornado um homem velho. Quando me encontrava diante de um espelho, não via mais o que restava da minha juventude, nem sentia sua energia e vigor pulsando em mim. [...]