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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Arquivos da categoria'Tristeza não tem fim' Categoria

Enterrado em meu próprio corpo

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Para um amor no Recife (Paulinho da Viola)

Dimas Lins

Fui um tolo. Fui esse pateta, porque de uns tempos para cá envelheci sem que eu tivesse me tornado um homem velho. Quando me encontrava diante de um espelho, não via mais o que restava da minha juventude, nem sentia sua energia e vigor pulsando em mim. Fui assim, porque diante de um naufrágio, sequer tentaria agarrar-me a uma tábua de salvação. Deixar-me-ia tão somente ser guiado pela correnteza. E, embora acidentalmente eu pudesse sobreviver, sei que, de fato, estaria morto. Estaria como estive até agora, enterrado em meu próprio corpo.

Sepultado nele, e não na terra, tornei-me apenas um espectador de mim mesmo. Minhas atitudes e meus passos mecânicos não me levaram a lugar nenhum. E sendo assim, assistia ao que fazia, sem verdadeiramente fazê-lo. Estive sem graça e, mergulhado na autocomiseração, não guiei meus atos. Segui com a maré. Se eu dobrava à esquerda, era ela quem manobrava; se virava à direita, também. Estava à deriva. E, neste estado letárgico, vivi sem vida.

O fardo que carregava tinha um nome: covardia. A vida são escolhas e eu não fiz as que me cabiam. Inerte, deixei que a vida se encarregasse de fazê-las. Transferi para o acaso as minhas próprias resoluções e abri mão do que eu queria, por temer a luta.

Já não estou morto, mas ainda há palidez em mim, pois lento é o despertar de um corpo paralisado. E se, por agora, não reajo a contento é porque continuo cicatrizando por dentro.

Lentamente me refaço. Hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje. Peço ao amor apenas a caridade da espera. Daqui por adiante, serei breve.

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Atrás da porta

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Atrás da Porta - Elis Regina (Francis Hime/Chico Buarque)

Dimas Lins

São inúteis as coisas que giram em torno do amor, essa tolice. A sua busca incessante é sempre em vão, pois um dia, com ou sem avisos, ele irá embora. E, durante sua permanência, ainda que fugaz, surgirão dúvidas incontáveis. Seremos amados com a mesma intensidade com que amamos? Será eterno ou algo se perderá pelo caminho? Seremos capazes de amar a mesma pessoa pelo resto da vida? E ela, nos amará também de volta? Do quê se sustentam os amores? De quê se alimentam, de quê vivem e por que sobrevivem? Por que morrem?

Afinal, de quê são feitos os sonhos? Que aventura é essa, que é o amor? Que bobagem é essa em que tentamos desesperadamente acreditar? Por que o amor é tão franzino? Por que não encontra em si, e somente em si, a razão para manter-se vivo?

Haverá registros, através das fotografias, dos momentos que, muitos anos depois, nenhum dos dois saberá explicar o riso, a alegria e a felicidade. Isso, sorriam! Guardem os risos na lembrança e nos álbuns, porque só lá eles sobreviverão. A verdade é que, atrás da porta, o amor é covarde.

***

Pela porta entreaberta na área social do 18º andar, avista-se a sala de estar. A arrumação bem cuidada dos móveis dá a falsa impressão de harmonia. O equilíbrio das cores, tons, nuanças e proporções agradáveis de forma e volume dos objetos contrastam com a atmosfera do ambiente. Os sorrisos no porta-retrato já não são sinceros. Na estante, os discos que antes embalavam os animados jantares com os amigos, agora silenciam. Vinícius, Chico e Tom foram esquecidos no compartimento de CD.

Na cozinha, a louça intocada indica que o jantar ainda não foi servido e, provavelmente, não será. No corredor, nenhum movimento, nenhuma sombra, nenhum vulto. Crianças não correm pela casa, nem espalham vida onde a vida é necessária.

No escritório, o computador está desligado e os livros continuam na estante. Cem Anos de Solidão. A mesa está impecavelmente arrumada. Sobre ela, um bloco de notas rabiscado com uma frase adaptada de Fernando Sabino: “o espírito já nasce maduro e faz com que a gente às vezes se sinta um velho”.

No primeiro quarto, não há brinquedos espalhados, nem roupas infantis no armário. Não há sonhos, não há nada. Os lençóis e travesseiros estão postos e alinhados, como se nenhum corpo ainda tivesse se deitado sobre eles.

No banheiro, o branco do revestimento se espalha por todos os cantos. Um frescor invade as narinas, mas não há narinas para cheirar. Um conjunto de toalhas de banho e de rosto espera as visitas que não virão. Um pequeno floral enfeita o balcão da pia, enquanto o sabonete aguarda inutilmente ser tocado por mãos carinhosas.

Atrás da porta do quarto do casal, o amor se despede. A janela entreaberta deixa o vento balançar as cortinas dando a falsa sensação de leveza ao ambiente. No cômodo, a mala aberta e as roupas espalhadas pela cama denunciam que não se trata apenas de mais uma briga de casal, mas do rompimento definitivo de uma relação que já foi amorosa. Juntando o que resta de suas forças, ela tenta inutilmente devolver ao guarda-roupa o que já não lhe pertence. Não há mais o que fazer. Chegou o dia em que o amor tornou-se inexeqüível.

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Todos os homens são iguais

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Foi Assim - Maria Bethânia (Lupicinio Rodrigues)

Dimas Lins

Emília vivia o fim do seu primeiro casamento. À época, já era mãe de dois filhos quando sua vida conjugal perdeu o vigor. O homem intenso e apaixonado com quem convivera durante quase dez anos deu lugar a um desconhecido que ultimamente apenas dormia e roncava em sua cama. Os mesmos corpos que em outros tempos copulavam com tanto viço, agora faziam uso do móvel de dormir apenas para o repouso.

A mudança aconteceu - como sempre acontece - aos poucos. Começou sutil e terminou avassaladora. Foram-se escasseando as carícias e as frases sacanas embaixo dos lençóis. Os apelidos carinhosos já não soavam bem, nem mesmo entre quatro paredes. No sentido inverso, cresceram as brigas, os insultos e as trocas de acusações. Quando o amor abre a guarda, a indiferença ocupa o espaço vazio.

Da parte dele, começaram as escapadas. Com o tempo, elas deixaram de ser uma aqui e outra acolá e passaram a acontecer com constância. Elevaram-se ao ponto de não existir mais a preocupação em apagar os rastros incriminadores e as provas irrefutáveis da infidelidade conjugal. Foi assim, na desarmonia das horas que a fizera retornar mais cedo para casa, que Emília viu, com seus próprios olhos, o que no íntimo ela já sabia há tempos. A lubricidade dele, estava claro, não acabara, apenas o interesse se transferira para outros corpos. Ele não manifestou nenhum sinal de arrependimento, nem enunciou qualquer pedido de clemência. De sua boca não saiu nenhuma palavra. Apenas um olhar direto que parecia dizer “finalmente!”. Nada mais.

Foram-se os sonhos, ficaram as dores. Mas foi nesta época de separação, desesperança e solidão que seu segundo marido apareceu em sua vida. A relutância natural de um novo envolvimento afetivo fora paulatinamente cedendo espaço à sorte de um amor tranqüilo. Em vez da paixão arrebatadora, quase animal, que lhe tirava o discernimento, a serenidade da afeição e da ternura dos amantes.

Emília, enfim, começava um novo ciclo. Um ciclo do romance à moda antiga, das poesias e das flores, da dama e do cavalheiro, do charme e do fino trato, da admiração, do companheirismo e do respeito mútuo. Um ciclo de um amor retilínio, sem sobressaltos. Adeus às angústias e às madrugadas intermináveis na solidão do quarto de dormir. Em casa, um novo marido, um novo amor, um novo pai para seus filhos, um novo lar.

Mas todos os homens são iguais. E o tempo - ah, o tempo! - sempre se volta contra o amor e os amantes. Não há corações perfeitos, nem amores sempre amáveis. O amor não tolera distração, nem perdoa a traição.

A infidelidade do segundo marido não era igual a do primeiro. A um faltava a retidão, ao outro, não. Um era infiel por opção, o outro, por distração, por desatenção, por descuido. Cometera o deslize de deixar-se levar. Deixou-se seduzir pelo desconhecido, pelo novo. Não tomou a iniciativa. Foi tomado por ela. Para o traído, tanto faz se o parceiro é ativo ou passivo na ação. O que vale é o significado do verbo, é demonstrar infidelidade a. Foi uma vez, uma única vez, uma mísera vez. Mas foi fatal. Ela notara, percebera, testemunhara. Ele exalou sinais de arrependimento, implorou clemência, enunciou mil palavras de pesar. Todas em vão. O remorso não desfaz a traição, no máximo, atenua. Dois pesos, a mesma medida. Quando o coração é tomado pela mágoa e pelo rancor, mais que depressa a mão cega executa, pois que senão o coração perdoa.

Agora Emília está só. Não há ninguém em sua vida. Em seu coração, o desengano feriu de morte a esperança. “Todos os homens são iguais!”. Não há mais espaço para uma nova paixão, um novo alumbramento, um novo amor. A estrada sempre a leva ao mesmo lugar. Quem aparece em seu caminho tem os defeitos iguais.

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