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	<title>Estradar</title>
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	<description>Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira</description>
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		<title>Fim de tarde</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2010 14:42:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Efeito cartoon sobre foto: Dimas Lins

Ronaldo Correia de Brito, escritor
No fim de tarde desta última segunda-feira, tive o prazer de conhecer pessoalmente o escritor Ronaldo Correia de Brito. Nosso encontro foi ambientado num café em Casa Forte, bairro residencial de Recife, e intermediado por uma amiga em comum para que eu tivesse, humildemente, a oportunidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Efeito cartoon sobre foto: Dimas Lins<br />
</span><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/08/Ronaldo-Correia-de-Brito.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2108" title="Ronaldo-Correia-de-Brito" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/08/Ronaldo-Correia-de-Brito.jpg" alt="" width="280" height="420" /></a><span style="font-size: xx-small;"><br />
Ronaldo Correia de Brito, escritor</span></p>
<p>No fim de tarde desta última segunda-feira, tive o prazer de conhecer pessoalmente o escritor Ronaldo Correia de Brito. Nosso encontro foi ambientado num café em Casa Forte, bairro residencial de Recife, e intermediado por uma amiga em comum para que eu tivesse, humildemente, a oportunidade de colher do escritor suas impressões sobre minhas primeiras tentativas literárias na forma dos originais do <em>Estradar – Crônicas de uma gente brasileira</em>, que tenho o interesse em um dia publicar.</p>
<p>O encontro, para mim, foi um privilégio sem igual. Senti-me honrado em ouvir de um escritor com tanta bagagem dicas e conselhos tão caros para quem busca iniciar uma experiência literária.</p>
<p>Ronaldo tem um corpo franzino e é um pouco mais baixo do que eu. Ainda assim, me senti pequeno demais, minúsculo mesmo, perto dele. Também pudera, ele já tem quase quarenta anos de estrada e é autor dos elogiados Faca e o Livro dos Homens. Em 2007, foi convidado para ser escritor residente e professor visitante na Universidade de Berkeley, Califórnia. Dramaturgo, criou, juntamente com Assis Brasil e Antônio Madureira, o Baile do Menino Deus, encenado em todo país há mais de duas décadas. Em 2009, foi o vencedor do cobiçado Prêmio São Paulo de Literatura, um dos mais importantes do país. Em 2010, é um dos homenageados do <a href="http://www.aletraeavoz.com.br/" target="_blank"><em>A Letra e a Voz – Festival Recifense de Literatura</em></a>.</p>
<p>Generoso, Ronaldo se deu ao trabalho de um encontro com um escrevente iniciante do qual nunca ouviu falar e nem sabia ao menos se possui alguma qualidade literária. A bem da verdade, nem mesmo eu sei. Numa tarde agradável, com ligeira brisa e temperatura amena e ao sabor de um suco de caju, de um lado, e um <em>cappuccino, </em>de outro, o escritor me deu dicas preciosas sobre processo de criação e publicação. Sugeriu a mudança do nome de um dos capítulos do livro, por causa de uma cacofonia provocada pela união não harmônica de duas palavras, que eu aquiesci e sancionarei a modificação. Provoquei-o sobre o número de crônicas que me propunha a publicar, se não se tratava de um exagero. Ele considerou que um formato com um menor número de crônicas é mais interessante, o que me fez pensar em uma nova seleção dentre os textos já selecionados. Confessei o perigoso apego às coisas que escrevo e que, por isso, tenho enormes dificuldades em ceifar o excedente. Daí, a minha necessidade de uma visão exterior e mais crítica, já que, apesar da dificuldade em cortar, eu reconheço facilmente desníveis na qualidade de alguns escritos.</p>
<p>Sobre o mercado editorial, Ronaldo me disse sem rodeios que não é fácil a publicação de crônicas e contos, pois se dá preferência, geralmente, aos romances. E deu o seu próprio testemunho, já que só agora, depois de tanto tempo de carreira, irá lançar seu primeiro livro de contos, <em>Retratos Imorais</em> (28 de agosto, às 18h30minh, no auditório da Livraria Cultura, Editora Alfaguara). Mesmo assim, aconselhou-me a manter a persistência, já que ele mesmo só conseguiu sua primeira publicação literária depois de vinte anos como escritor. A demora, segundo ele, foi fruto de tímidas tentativas de mostrar o seu trabalho.</p>
<p>Médico, Ronaldo disse que a medicina e a literatura têm uma relação profunda. “A primeira pergunta que um médico faz ao seu paciente é ‘qual é a sua história?’”. Entendi que a partir dali se abria um mundo de possibilidades literárias. Fiquei com uma pontinha de inveja desse universo, já que o meu mundo é diferente, mais fechado, pois sou auditor e há uma tendência natural à retração do auditado diante do exame comprobatório relativo às atividades contábeis e financeiras de uma instituição.</p>
<p>Tinha muita coisa para lhe perguntar e, por isso, demonstrei alguma ansiedade. Disse-lhe que faço e refaço um texto muitas vezes durante o processo de criação. Ronaldo revelou que, somente um dos capítulos de Galileia, ele reescreveu cerca de cento e vinte vezes. Senti alívio. Disse-lhe então que estava em tempo de iniciar o meu primeiro romance e que intencionava sistematizar o livro, de acordo com as sugestões do escritor americano Robert J. Ray (<em>O escritor de fim de semana</em>, editora ática) para a criação dos personagens, a construção das cenas e enredo, mas temia desperdiçar muito tempo num processo longo e que eu não sabia, por inexperiência, se era, de fato, eficiente. Soube então que Ronaldo praticamente escreve livros paralelos aos seus livros, onde mantém as informações detalhadas sobre os personagens e tramas. Contou ainda como considera importante pensar na cena com todas as suas nuances, como a luminosidade, o cheiro e a ambientação.</p>
<p>Depois de uma longa e proveitosa conversa, caminhamos pelas ruas do bairro de Casa Forte em direção às nossas casas, já que moramos próximos um do outro. Ronaldo foi embora levando os originais de <em>Estradar</em> debaixo do braço e prometendo, em breve, me dizer as suas impressões. Desde então fiquei ansioso. Considerando a extensão do material que lhe entreguei e seus compromissos pessoais, sei bem que seu retorno levará algum tempo. A mesma ansiedade tive quando entreguei uma cópia dos originais a Flávia Suassuna, professora de literatura e escritora, cuja opinião também considero pra lá de relevante. No meio de tanta satisfação, apenas um frio na barriga, que vem do receio que meus textos não estejam à altura de tão ilustres leitores.</p>
<p>Saí do encontro satisfeito da vida e voltei para casa louco para seguir adiante. E cá estou.</p>
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		<title>Aniversário</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Aug 2010 03:00:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Série comemorativa]]></category>
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		<description><![CDATA[(Please open the article to see the flash file or player.)
Palavras não falam &#8211; Mariana Aydar (Kavita)
Atravesso o portão e sou saudado pelo porteiro, que ergue a mão, assim como fazem os índios americanos nos filmes de Hollywood. Já no hall de entrada, com o dedo indicador, empurro os óculos contra o rosto e sigo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/08/livro.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2047" title="livro" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/08/livro.jpg" alt="" width="310" height="208" /></a><object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" width="320" height="80" class="embedflash"><param name="movie" value="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="flashvars" value="searchbar=false&amp;overstretch=true&amp;showeq=true&amp;showstop=true&amp;repeat=true&amp;volume=120&amp;file=http://www.estradar.com/audio/palavrasnaofalam.mp3" /><small>(Please open the article to see the flash file or player.)</small></object></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Palavras não falam &#8211; Mariana Aydar (Kavita)</span></p>
<p>Atravesso o portão e sou saudado pelo porteiro, que ergue a mão, assim como fazem os índios americanos nos filmes de Hollywood. Já no <em>hall</em> de entrada, com o dedo indicador, empurro os óculos contra o rosto e sigo em direção ao elevador. Na sua chegada, a do elevador, aperto o botão do nono andar e subo. Olhar disperso, volto-me para o espelho e vejo meu reflexo. Embora a juventude ainda tenha visível prevalência sobre a velhice – minha velhice está incubada em forma de doença reumática – meus gestos e expressões faciais são desleixados, meus ombros estão arqueados e a minha postura deixa ligeira curvatura para frente na coluna, só perceptível ao olhar mais atento. Apesar de mais magro, a barriga ainda chama atenção por sua desarmonia com o resto da silhueta do meu corpo. Meus olhos demonstram fadiga e aborrecimento. O dia trouxe cansaço, que trouxe o desejo irrevogável de tomar um banho, me enfiar na cama e assistir a TV até pegar no sono. Em minhas mãos está um pacote de padaria com alguns pães, queijo e presunto, que serão devorados nesta mesma noite e na manhã seguinte. Abro a porta e, ainda no escuro, ponho o embrulho sobre a mesa para só depois acender a luz. Quando a lâmpada ilumina o ambiente, ouço gritos de “surpresa!” e sou tomado pelo susto, bastante natural, aliás, nessas ocasiões. Involuntariamente, faço um movimento brusco e deixo cair a chave ao chão, mas logo me refaço, apanhando-a. Ao tornar a ficar ereto, os olhos subitamente ficam cheios de emoção e lágrimas. À minha frente, os companheiros, verdadeiros amigos de estrada nesses últimos três anos.</p>
<p>Foi Alberto o primeiro a me cumprimentar. Depois veio o Tavinho e pude reparar, pela alegria dos dois, que os tempos de <a href="http://www.estradar.com/2008/02/25/happy-hour/"><em>happy hour</em></a> tinham voltados e que a amizade, afinal, havia superado os percalços da infidelidade cruzada entre as esposas. Mendoncinha veio em seguida e me confidenciou que agora só anda de metrô com medo de pegar uma <a href="http://www.estradar.com/2009/05/14/blitz/">blitz</a> no trânsito. Um menino, com jeito estranho, se aproximou, mas não disse uma palavra. Puxei-o mais para perto e perguntei-lhe ao pé do ouvido “<a href="http://www.estradar.com/2007/09/18/existirmos-a-que-sera-que-destina/">existirmos, a que será que se destina?</a>”, mas nem sob tortura ele me respondeu. Uma jovem me beijou no rosto com alegria, mas depois de cinco minutos de conversa revelou que não era fácil manter-se longe do vício do <a href="http://www.estradar.com/2007/09/28/historia-de-uma-viciada-em-laque/">laquê</a>. De brincadeira, sugeri que ela tentasse naftalina. Ela fez um olhar pensativo e tentei dizer que não falava sério, mas já era tarde. Como a Monalisa, um homem, com uma taça de um vinho de cor púrpura, muito escuro, quase roxo, com pouca transparência, abriu um sorriso enigmático. Perguntei o que ele estava pensando. “Em nada”, respondeu. Não quis ir adiante com aquela <a href="http://www.estradar.com/2007/09/04/conversa-oca/">conversa oca</a> e virei os olhos para uma mulher morena, alta e muito sensual que, com um sorriso malicioso, agradeceu num sussurro aqueles momentos <a href="http://www.estradar.com/2007/09/07/antes-da-enfermidade/">antes da enfermidade</a>. Embaraçado, bebi um gole d’água e me afastei. Minha mulher poderia estar perto e não queria que ela tivesse a falsa impressão que aqueles olhos febris eram para mim. Uma mãe com um menino no colo disse que ainda lhe conta histórias antes de dormir, embora ele sempre mude o final. Assim, terminou por acostumar-se e estava satisfeita, pois agradecia, porque o menino tinha boa índole e só sabia <a href="http://www.estradar.com/2007/10/04/querer-bem/">querer bem</a>. Embora Miguel também estivesse apenas de passagem, seu motivo era outro. Tinha um <a href="http://www.estradar.com/2007/11/12/encontro-marcado-2/">encontro marcado</a> com Sofia e não queria deixá-la esperar sentada no banco da praça. Abraçou-me apertado e saiu. O Soldadinho Romano Nº 8, um garoto travesso do bairro de São José, confirmou que já não era mais ator da <a href="http://www.estradar.com/2007/11/18/paixao-de-cristo/">Paixão de Cristo</a> na igreja da Penha, mas que ainda ria só de pensar nos relâmpagos e trovões. As freiras, posso apostar, não devem achar tanta graça. Um dentuço com ar de louco passou rápido à minha frente procurando o agente Smith e gritava “<a href="http://www.estradar.com/2008/03/16/quero-voltar-para-a-matrix/">quero voltar para a Matrix!</a>”. Ainda sonhava em ser <em>spalla</em> numa orquestra de música erudita.</p>
<p>O soldado Oliveira contou em confidência que pensara em morrer ao entrar, contra a sua vontade, num esquadrão de <a href="http://www.estradar.com/2008/11/17/exterminio/">extermínio</a>. Passado algum tempo, já não sente remorso. Francisco, poeta e comunista, falou da luta armada nos anos de chumbo e, com tristeza, disse que naquele tempo o Brasil era o <a href="http://www.estradar.com/2007/12/13/o-pais-do-adeus/">País do adeus</a>. Já Papai Noel, de bermuda e chinela, disse que naquela festa faltava apenas um tambor bater e que bom mesmo era o <a href="http://www.estradar.com/2007/12/24/natal-na-favela/">natal na favela</a>. Uma andorinha entrou pela janela em busca por uma <a href="http://www.estradar.com/2008/02/18/clave-de-sol/">clave de sol</a>, enquanto <a href="http://www.estradar.com/2008/03/29/maria-das-dores-de-amar/">Maria das Dores de Amar</a>, ainda vestida de noiva, sussurrava em meu ouvido “me leva”, me dando um frio na barriga. Fui salvo por Nero, que me arrastou pelos cabelos e me pediu um cigarro. Como <a href="http://www.estradar.com/2008/04/21/onde-ha-fumaca-ha-fogo/">onde há fumaça, há fogo</a>, neguei temendo que meu apartamento incendiasse. Noemi disse em voz alta que agora tem orgasmos múltiplos e que Fernando ainda está com <a href="http://www.estradar.com/2008/06/09/bti/">BTI</a>, por isso, faz terapia com Freud, um psiquiatra que tem um consultório Intermares, na Paraíba. A cada consulta, ela nota, o namorado sai com um olhar cada vez mais distante. Fiquei me perguntando se, nesse estágio, Fernando seria capaz de provocar um orgasmo, ainda mais múltiplo. Uma <a href="http://www.estradar.com/2008/07/31/nuvem-negra/">nuvem negra</a> sobrevoou a sala, quando um homem amargo entrou no apartamento. Maurinho sugeriu que era falta de mulher e Darlene respirou como se sentisse um cheiro de jasmim no ar. Guimarães, como um zagueiro, entrou de sola naquela <a href="http://www.estradar.com/2009/05/19/bola-dividida/">bola dividida</a>. Um motoboy provocou uma <a href="http://www.estradar.com/2009/07/29/invasao-a-domicilio/">invasão a domicílio</a>, me entregou a carta de um médico, que lamentava não poder comparecer, mas me parabenizava pelos três anos. Concluía dizendo que, finalmente, arrumara uma atividade para o seu motoqueiro. Dois <a href="http://www.estradar.com/2009/09/07/morcegos/">morcegos</a> dançaram no ar e pude ouvir com certa nitidez a fêmea dizer para o macho que iria morder o seu pescoço. Antes de saírem pela janela, ainda fui capaz de ouvir o macho perguntar com olhos de carneiro reprodutor: “na minha casa ou na sua?”. Um casal deixava as turbulências para trás e se trancava no meu banheiro, para voar em <a href="http://www.estradar.com/2009/10/18/ceu-de-brigadeiro/">céu de brigadeiro</a>. Tentei sugerir o meu quarto, mas eles não me deram ouvido. Num canto da sala, Julinha, Ana Lu, Cecília e Regina, mesmo à noite, tomavam um <a href="http://www.estradar.com/2009/11/12/cha-da-tarde/">chá da tarde</a>, enquanto articulavam a criação de uma sociedade secreta feminina, nos mesmos moldes daquela que homens usam para acobertar suas sacanagens. Osvaldo veio em minha direção e perguntei se ele ainda estava de dieta. Ele respondeu que agora passava os dias a <a href="http://www.estradar.com/2009/12/28/comer-bem/">comer bem</a>, mas Mariana se apressou em dizer que o marido só almoça em casa. Deitado no <a href="http://www.estradar.com/2010/01/04/diva/">divã</a>, um paciente dizia a sua psiquiatra, com a voz acelerada, que não tinha habilidade com as mulheres, enquanto ela olhava insistentemente para o relógio. Um escritor de fins de semana, um pouco alto pelo uísque, perguntou se eu também não achava que Madame Bovary era uma vagabunda. Disse que nunca tinha lido o romance e ele, com olhar de desprezo, afirmou que era preciso urgentemente preencher essa <a href="http://www.estradar.com/2010/06/06/lacuna/">lacuna</a>.</p>
<p>A morte também veio me ver e trouxe <a href="http://www.estradar.com/2008/01/22/noticias-de-la/">notícias de lá</a>. Contou que a boa senhora estava bem e me mandava lembranças. Chorei com uma ponta de saudade, ainda mais, quando, diante de todos, um filho, banhado em lágrimas e transbordando de amor no coração, abraçou seu velho e finalmente lhe disse “<a href="http://www.estradar.com/2008/04/14/adeus-meu-pai-adeus/">adeus, meu pai, adeus!</a>”. Sem o <a href="http://www.estradar.com/2008/05/19/cisco-no-olho/">cisco no olho</a>, outro pai beijava a filha, enquanto Dona Maria Quitéria, de joelhos, pedia o indulto a Benedita pela <a href="http://www.estradar.com/2008/10/27/panela-de-pressao/">panela de pressão</a>. Numa cama, um paciente <a href="http://www.estradar.com/2008/11/24/terminal/">terminal</a> lutava contra células anárquicas e incessantes que se espalhavam rapidamente por todo o seu corpo. No silêncio da voz, seus olhos fundos teimavam em dizer que ele ainda estava vivo. Dona Eunice, saiu do seu <a href="http://www.estradar.com/2008/12/22/exilio/">exílio</a>, para dizer que, apesar de tudo, perdoava o filho e que desejava a sua felicidade. Um homem, coberto por lençol branco, que já não o protegia do frio, me perguntava se estava morto ou se tudo aquilo não passava de um <a href="http://www.estradar.com/2009/02/12/sonho/">sonho</a>. Uma mulher com ar tristonho me abraçou com força e chorou com o nosso reencontro. Perguntei com ia a filha e ela cantou então uma <a href="http://www.estradar.com/2007/09/01/uma-cancao-desnaturada/">canção desnaturada</a>. Prometi, comovido, que sua história teria um final feliz. Ela foi embora dizendo que ficaria bem. Escondida <a href="http://www.estradar.com/2007/10/01/atras-da-porta/">atrás da porta</a>, outra mulher me observava. Chorava e eu, sinceramente, pensei em consolá-la. Prevendo a intenção do meu gesto, ela deixou o apartamento antes que eu me aproximasse. Alheio aos convidados, um homem velho olhava a cena de longe. Ele deixou uma rosa sobre a mesa e disse que veio apenas <a href="http://www.estradar.com/2007/10/24/pra-dizer-adeus/">pra dizer adeus</a>. <a href="http://www.estradar.com/2010/05/04/o-pai-da-noiva/">O pai da noiva</a> trouxe aos olhos opacos o mesmo lenço que usara ao perceber que morrera em vida para a filha. Um velho magro e de pele cabocla vendia frutas e verduras na sala de jantar. Ao avistá-lo, pedi <a href="http://www.estradar.com/2007/09/11/ao-meu-avo-uma-bencao/">ao meu avô, uma benção</a>. Minha mãe o abraçava e derramava sobre nós <a href="http://www.estradar.com/2010/05/09/o-maior-amor-do-mundo/">o maior amor do mundo</a>.</p>
<p>Um jovem viajante falava com saudade de sua casa no sertão. Com a voz embargada, garantiu que “<a href="http://www.estradar.com/2008/06/30/no-dia-em-que-vim-embora-em-verso/">no dia em que eu vim embora</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/06/25/uma-flor-nasceu-na-rua/">uma flor nasceu na rua</a>”. Dona Rosinha, ao ouvi-lo, chorou e foi consolada por seu marido, que se emocionou como se estivesse <a href="http://www.estradar.com/2009/10/04/entre-a-poesia-e-a-prosa/">entre a poesia e a prosa</a>. <a href="http://www.estradar.com/2007/08/21/cordao-da-saideira/">No cordão da saideira</a>, o poeta Josias, mostrando toda a sua <a href="http://www.estradar.com/2008/03/09/vocacao/">vocação</a>, recitou um poema, quando Antônio, de mãos dadas com Helena, me disse não sentir rancor, pois a nossa amizade ia <a href="http://www.estradar.com/2009/10/29/muito-alem-do-livro-3-final/">muito além do livro</a>.</p>
<p>Por fim, uma mulher barriguda repousou minha mão em seu ventre e apontou para uma criança. Perguntei <a href="http://www.estradar.com/2008/02/12/quem-vem-la/">quem vem lá</a>, mas ela não respondeu. A menininha, vinda de uma <a href="http://www.estradar.com/2008/07/21/nascente/">nascente</a>, atravessou a sala em seu traje espacial à procura da nave-mãe e meu deu <a href="http://www.estradar.com/2008/09/17/o-primeiro-sorriso/">o primeiro sorriso</a>. Depois, perguntou se haveria guerra ainda. Tomara que não. Chegava ao fim, <a href="http://www.estradar.com/2010/04/03/um-dia-perfeito/">um dia perfeito</a>.</p>
<blockquote><p>Aos leitores do <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, obrigado por esses três anos juntos.</p>
<p>Dimas Lins</p></blockquote>
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		<title>Assim se passaram três anos</title>
		<link>http://www.estradar.com/2010/08/16/assim-se-passaram-tres-anos/</link>
		<comments>http://www.estradar.com/2010/08/16/assim-se-passaram-tres-anos/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 16 Aug 2010 04:04:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Nave minha]]></category>

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		<description><![CDATA[
No próximo dia 19 de agosto, o Estradar completará três anos de vida. Nem parece, mas já faz um tempão que me instalei neste canto da internet. Aqui, me encontrei na ficção dos meus personagens, que muito bem poderiam ter vividos suas histórias na vida real.
O Estradar surgiu de outro blog meu, o Torcedor Coral. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/08/Presente.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2035" title="Presente" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/08/Presente.jpg" alt="" width="320" height="256" /></a></p>
<p>No próximo dia 19 de agosto, o <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a> completará três anos de vida. Nem parece, mas já faz um tempão que me instalei neste canto da internet. Aqui, me encontrei na ficção dos meus personagens, que muito bem poderiam ter vividos suas histórias na vida real.</p>
<p>O <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a> surgiu de outro blog meu, o <a href="http://www.torcedorcoral.com/" target="_blank">Torcedor Coral</a>. Nele, escrevia crônicas sobre o Santa Cruz, meu time do coração e fonte de infinitas tristezas. Com o tempo, senti a necessidade de expandir meu universo, de ampliar o horizonte e explorar o mundo literário. Inicialmente, pensava em escrever sobre alegrias contidas e tristezas profundas, mas percebi, antes mesmo de começar a escrever, que minha intenção era experimentar formas, estilos e possibilidades. Assim, melhor deixar que liberdade me levasse a escrever um drama num dia e, no outro, uma comédia.</p>
<p>A proposta inicial do <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a> era simples e permanece praticamente intacta até hoje, qual seja, a publicação de textos associados a uma canção da música popular brasileira, à exceção de textos de outros autores. Às vezes, eu partia da música e chegava à crônica; noutras, fazia o caminho inverso e encontrava uma canção que se encaixava perfeitamente no texto.</p>
<p>De lá para cá, foram 170 contos e crônicas de uma gente brasileira e 746 comentários dos nossos leitores que me orgulharam bastante. Entre as mais queridas – também tenho as minhas preferidas – estão as crônicas melancólicas, como <a href="http://www.estradar.com/2007/10/24/pra-dizer-adeus/">Pra dizer adeus</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/01/22/noticias-de-la/">Notícias de lá</a>, <a href="http://www.estradar.com/2007/09/01/uma-cancao-desnaturada/">Uma canção desnaturada</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/04/14/adeus-meu-pai-adeus/">Adeus, meu pai, adeus!</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/11/24/terminal/">Terminal</a> e <a href="http://www.estradar.com/2008/12/22/exilio/">Exílio</a>, e aquelas que buscam a leveza do espírito, como <a href="http://www.estradar.com/2007/09/04/conversa-oca/">Conversa oca</a>, <a href="http://www.estradar.com/2007/11/18/paixao-de-cristo/">Paixão de Cristo</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/04/21/onde-ha-fumaca-ha-fogo/">Onde há fumaça, há fogo!</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/07/21/nascente/">Nascente</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/06/09/bti/">BTI</a>, <a href="http://www.estradar.com/2009/05/19/bola-dividida/">Bola dividida</a>, <a href="http://www.estradar.com/2008/02/25/happy-hour/">Happy Hour</a>, <a href="http://www.estradar.com/2009/09/07/morcegos/">Morcegos</a>, <a href="http://www.estradar.com/2010/04/03/um-dia-perfeito/">Um dia perfeito</a> e a trilogia <a href="http://www.estradar.com/2009/10/29/muito-alem-do-livro-3-final/">Muito além do livro</a>. Esta trilogia, aliás, vem servindo de base para meu primeiro romance, cujos personagens já comecei a construção.</p>
<p>Nesses três anos, também houve reveses. A freqüência de publicação das crônicas, por exemplo, diminuiu. A queda no ritmo foi motivada principalmente por minhas atividades profissionais, além de um <em>hobby</em> recém-adquirido, o desenvolvimento de blogues e sites. Aliás, esse hobby, assim espero, fará surgir uma rede de blogues amigos que, além do <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, contará com a participação do Blog dos Perrusi, Inscritos em Pedra e Sementeiras, além de outros que irão se incorporar ao nosso projeto.</p>
<p>Para comemorar seus três anos, o Estradar estará de cara nova. A idéia é que a mudança ocorra no próprio dia 19, embora, pela proximidade, é possível que a mudança leve mais alguns dias.</p>
<p>Também pretendo incrementar o formato com resenhas pessoais das minhas leituras favoritas, vídeos interessantes ou mesmo fotografias que, de alguma forma, conseguiram captura, como um pintura, a alma humana. Serão experimentos que tentarão me deixar um pouco mais livres para escrever o meu primeiro romance. Pretendo também continuar divulgando outros autores, através de pesquisas na internet ou do recebimento de textos por e-mail ou através do blog.</p>
<p>Enfim, estamos de volta. Ontem, agora e sempre.</p>
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		<title>Gratidão filial</title>
		<link>http://www.estradar.com/2010/06/28/gratidao-filial/</link>
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		<pubDate>Mon, 28 Jun 2010 16:05:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Outros Autores</dc:creator>
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		<description><![CDATA[

Foi Vovô Libar (meu literato sogro, pai de minha esposa e avô de minha filha) quem me apresentou às crônicas de Emerson Monteiro, seu amigo e conterrâneo cearense. Apaixonado por literatura, Vovô Libar vez por outra me falava de sua habilidade com as palavras e de sua capacidade em emprestar simplicidade à escrita. Combinação que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/06/Velhice.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2027" title="Velhice" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/06/Velhice.jpg" alt="" width="310" height="346" /></a></p>
<blockquote style="text-align: center;">
<p style="text-align: justify;">Foi Vovô Libar (meu literato sogro, pai de minha esposa e avô de minha filha) quem me apresentou às crônicas de Emerson Monteiro, seu amigo e conterrâneo cearense. Apaixonado por literatura, Vovô Libar vez por outra me falava de sua habilidade com as palavras e de sua capacidade em emprestar simplicidade à escrita. Combinação que considero perfeita e que muito bem pode ser lida, por exemplo, na crônica <em>Acerto de Contas</em>, que narra a história de um caboclo que matou a criação de um vizinho, para não chegar em casa de mãos abanando (<em>Cinema de Janela – Crônicas e Narrativas</em> (2001)).</p>
<p style="text-align: justify;">Emerson Monteiro nasceu em 1949, no sítio Tatu em Lavras da Mangabeira, Ceará, mas deu de cara com a vida no Crato em 1954. O tempo passou e Monteiro formou-se em Direito e trabalhou no Banco do Brasil até se aposentar. Nesse ínterim, tornou-se escritor, deixando obras como <em>Noites de Lua Cheia</em> (crônicas), <em>Sombra e Luz</em> (ensaio sobre a espiritualidade) e <em>É domingo – Narrativas de Proveito</em> (2006), este último nascido de sua coluna no Jornal do Cariri.</p>
<p style="text-align: justify;">E se no Crato Emerson Monteiro fez-se escritor, em Lavras de Mangabeira, sua terra natal, foi reconhecido, pois na instalação da Academia Lavrense de Letras, em 2008, passou a ocupar a cadeira de número 17.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Gratidão Filial</em> acrescenta delicadeza à sinceridade de Emerson Monteiro ao firmar, num gesto, a fidelidade dos filhos para com seus pais.</p>
<hr style="width: 550px;" />
<p style="text-align: right;">Dimas Lins</p>
</blockquote>
<p style="text-align: justify;"><strong>Emerson Monteiro</strong></p>
<p>Exercito, hoje, o direito de observar os meus pais e o silêncio onde eles passam os seus dias, apenas quietos em um dos quartos da casa onde vivemos bons momentos de nossa história, agora vazia nos outros cômodos. Ali, acompanhados por pessoas abnegadas, ao vê-los algo mexe dentro de mim. Algo assim parecido com presença invisível de bicho desconhecido a sacolejar o espaço já movimentado do meu peito; um ente abstrato, espécie de animal apreensivo com o futuro. Logo comigo, que tantas ilusões de segurança alimentei e alimento, nas frioleiras das artificialidades e falsas expectativas.</p>
<p>Olho neles e, interrogativo, me pego a analisar o que lhes reservam as esquinas implacáveis do tempo. Eles, que tanto esforço aplicaram na realização dos filhos, cinco, no total. Que tanto se alegraram com nossas alegrias passageiras, nossos sonhos de vitórias em pequeninas coisas. Vislumbram a concretização de nossos projetos, e que raro nos detivemos para receber melhor seus conselhos, classificando-os, por vezes, de preocupações fora de moda. Que comemoraram com vibração inusitada o nascimento de cada neto como sendo novos filhos.</p>
<p>Quantas estradas percorreram para dizer o que disseram e que tão pouco escutamos. Eles, dotados de tamanho equilíbrio no trato dos filhos, sofreram as nossas ausências em noites sombrias de solidão, catadores que somos das baladas de risco, audazes aventureiros de perdidas empresas.</p>
<p>Eles, de faces luminosas nas horas animadas&#8230; Lacrimosos nas despedidas&#8230; Braços abertos na chegada, um não se conter de satisfação nos instantes animados das reuniões familiares rápidas e transitórias. Reunir todos os filhos em datas especiais e vê-los, depois, dobrar as mesmas curvas estreitas da saudade, nos vazios instransponíveis dos momentos distantes&#8230;</p>
<p>Quanta sacralidade tem a beleza da família, mas quanta incompreensão dos filhos, lições vividas na própria pele na matemática que se segue nos nossos próprios filhos.</p>
<p>Desse modo, vejo os meus velhos e sinto amolecer o coração. Quero assim trazer cá de dentro dos meus compromissos esta mínima gratidão a pessoas tão preciosas, plenitude da mais honesta dignidade do trabalho, dedicação fiel nas pautas da natureza e na harmonia do lar.</p>
<p>Espécie de gelo revira o meu interior. Palavras afloram no pensamento e lembram o amor que a existência impõe na amizade, no companheirismo&#8230;</p>
<p>Enquanto alguns enrijecem a musculatura do pescoço com o temor travoso das emoções impacientes, outros aceitam enxergar a nobreza dos laços verdadeiros que jamais se desfarão. Daí quis firmar, num gesto, a fidelidade pelos que me deram a mim; e concedo aos meus filhos o testemunho do que isto representa em termos de agradecimento aos responsáveis pela nossa existência neste mundo.</p>
<blockquote><p><span style="text-decoration: underline;"><strong>Comunicado:</strong></span></p>
<p>Desde  segunda-feira, dia 28/06, o  Dreamhost, servidor onde está hospedado o <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, sofreu um  grave  problema técnico e todos os sites sairam do ar. Desde então, o  suporte  do Dreamhost vem tentando recuperar os dados danificados para  dar início  a migração do <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a> e de outros sites para  um  novo <em>storage</em> (espécie de HD onde fica armazenado nosso banco  de  dados). Ao que parece, voltamos ao normal.</p>
<p>Lamento os transtornos e   comunico que acompanhei junto ao Dreamhost as providências   adotadas. Também não desconsidero a possibilidade de migrar para um novo   servidor, caso os problemas não tenham sidos   resolvidos satisfatoriamente.</p>
<p>Abraços,</p>
<p>Dimas Lins</p></blockquote>
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		<title>O que você fez dos seus sonhos?</title>
		<link>http://www.estradar.com/2010/06/14/o-que-voce-fez-dos-seus-sonhos/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 03:00:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Outros Autores</dc:creator>
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		<description><![CDATA[

Conheci Ducaldo, tempos atrás, através da internet. Nossos caminhos se  cruzaram por uma convergência no futebol: ambos somos tricolores. Não  tricolores quaisquer, somos torcedores apaixonados pelo Santa Cruz  Futebol Clube, esteja ele metido no buraco em que estiver. Por causa  desta grata coincidência, Ducaldo, cujo apelido escancara a sua predileção pelos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/06/sonhos.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1986" title="sonhos" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/06/sonhos.jpg" alt="" width="350" height="263" /></a></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>Conheci Ducaldo, tempos atrás, através da internet. Nossos caminhos se  cruzaram por uma convergência no futebol: ambos somos tricolores. Não  tricolores quaisquer, somos torcedores apaixonados pelo Santa Cruz  Futebol Clube, esteja ele metido no buraco em que estiver. Por causa  desta grata coincidência, Ducaldo, cujo apelido escancara a sua predileção pelos populares caldinhos dos bares de Recife, passou a freqüentar – e a comentar –  com grande regularidade o meu blog esportivo <a href="http://www.torcedorcoral.com/" target="_blank">Torcedor Coral</a>, que traduz  os sonhos e frustrações da torcida mais apaixonada do Brasil. Daí vem  nossa amizade.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>De uns anos para cá – os amigos em comum são testemunhas – insisto para que Ducaldo se torne cronista oficial do <a href="http://www.torcedorcoral.com/" target="_blank">TC</a>, por enxergar em seus comentários um grande potencial para a escrita. Apesar da enorme insistência – ou talvez por conta dela – Ducaldo sempre se esquivou. Mesmo assim, nunca me dei por vencido e guardo comigo a convicção que um dia, enfim, ele cederá aos meus apelos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Por isso, qual não foi a minha surpresa ao receber dele, espontaneamente, uma crônica para publicação. A surpresa transformou-se em espanto, quando o alvo da publicação foi o <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, que Ducaldo também tornou-se leitor assíduo, ao invés do <a href="http://www.torcedorcoral.com/" target="_blank">TC</a>. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Homem de grande paixão literária e musical, Ducaldo,</em><em> através desta crônica,</em><em> nos pergunta o que fizemos dos nossos sonhos, para depois revelar que nem tudo que se perde ao longo da vida tem, necessariamente, um gosto amargo.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Tomara que Ducaldo tome gosto pela crônica e volte por aqui mais vezes. E que aceite, de uma vez por todas, o convite que lhe faço há três anos.<br />
</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<hr style="width: 540px;" /><em> </em></p>
<p style="text-align: right;">Dimas Lins</p>
</blockquote>
<p><strong>Ducaldo</strong></p>
<p>Acordar, forrar a cama, tomar banho, um comprimidozinho de Nexium, café da manhã, despedidas e taxi para o trabalho. Desenhava-se mais um dia branco, burocrático e igual a tantos outros.</p>
<p>Mas a pergunta grafitada no muro meio sujo e cheio de garatujas, pareceu saltar à minha frente ou soar como se pronunciada pela voz de Deus nos épicos cafonas de Cecil B. De Mille.</p>
<p>Perturbou-me o dia todo, como um grilo noturno daqueles que se esconde no quarto, na fresta mais improvável e impossível de localizar, para irradiar sonoras ondas de aporrinhação e insônia.</p>
<p>Processo número tal, partes, órgão julgador, acórdão, vistos e&#8230; O que você fez dos seus sonhos? Intrometia-se de novo a pergunta.  Fingi que não era comigo. Conectei o fone de ouvido, digitei o mais rápido que pude, tentei inutilmente me desvencilhar, mas não consegui. Estava na minha cabeça, na tela do monitor, em todos os lugares, me deixando meio aparvalhado.</p>
<p>Capitulei e me engalfinhei com a interrogação impertinente. Revirei a caixa de papelão das memórias – que baú é coisa para memorialista de estirpe – e não me veio nem um mísero sonho, daqueles “quando crescer quero&#8230;”, “um dia serei&#8230;”. Nada. Pelo menos na infância, onde as brincadeiras na rua e em casa, a escola e as brigas homéricas com os irmãos mais novos não deixaram espaço para sonhar futuros improváveis.  A não ser que se leve em consideração Zorro, National Kid, Fantasma, Tarzan, Ramon e Pelé.</p>
<p>Revirando a caixa mais um pouco, dei de cara com as espinhas e os óculos fundo de garrafa de adolescente tímido que, finalmente, viajava como se sob o efeito de um galão de chá de trombeta. Solos de guitarra e sexo, violão e sexo, livros e sexo, filmes e sexo, política e&#8230; sexo. Claro, pombas! Em que mais pode pensar um adolescente espinhudo?</p>
<p>E o espinhudo quatro-olhos entrou no labirinto da fantasia – sonho, projeto, é outra história – e se perdeu entre guitarras flamejantes, vocais esganiçados, melodiosos violões, belos filmes, romances e política revolucionária. Tudo muito bem fantasiado e nada feito.</p>
<p>Soterrado embaixo de milhares de folhas digitadas e mal redigidas, no vetusto e nada bonito linguajar forense, abri mão de mergulhar, arriscar e buscar meus, digamos, sonhos.</p>
<p>Ainda bem. Com minha inacreditável falta de talento teria me esborrachado no chão, feito trapezista sem rede segurança. Admito a minha mediocridade sem o menor pudor, especialmente quando, por baixo das tais folhas digitadas, me passam um bom contracheque, que me permite apreciar tudo que nunca tive dom para fazer, em boa companhia e atracado com uma garrafa de vinho – vodca e cachaça também servem.</p>
<p>O meu caro leitor – supondo que tenha alguém aí – esperava o quê? Choro sobre os sonhos derramados? Uma diatribe sobre a massacrada vida do homem comum? Facas que procuram pulsos ou cordas enroladas em pescoços na calada da noite? Lamento. Procure literatura russa, Machado, Proust e quetais, pois estas mal tecladas quase não dão nem para uma carta, quanto mais para as profundidades filosóficas que exigem tais assuntos.</p>
<p>Ganhei um box de Coltrane, comprei Hendrix remasterizado e duas garrafas de Cousiño Macul- Antiquas Reserva. A companhia? Prometi não revelar.</p>
<p>Saúde!</p>
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		<title>Lacuna</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Jun 2010 16:26:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Divina comédia humana]]></category>
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		<description><![CDATA[(Please open the article to see the flash file or player.)
Alfômega (Caetano Veloso)
Tenho um vão em meu passado. Embora a leitura exerça um papel fundamental em minha vida, nunca li um clássico da literatura mundial. Para quem tem pretensões de um dia tornar-se um escritor nacionalmente desconhecido – ser um autor conhecido é coisa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/06/estante-de-livros.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1951" title="estante-de-livros" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/06/estante-de-livros.jpg" alt="" width="310" height="233" /></a><object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" width="320" height="80" class="embedflash"><param name="movie" value="http://www.estradar.com/wp-content/plugins/pb-embedflash/swf/mediaplayer.swf?width=320&amp;height=80" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="flashvars" value="searchbar=false&amp;overstretch=true&amp;showeq=true&amp;showstop=true&amp;repeat=true&amp;volume=120&amp;file=http://www.estradar.com/audio/alfomega.mp3" /><small>(Please open the article to see the flash file or player.)</small></object></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Alfômega (Caetano Veloso)</span></p>
<p>Tenho um vão em meu passado. Embora a leitura exerça um papel fundamental em minha vida, nunca li um clássico da literatura mundial. Para quem tem pretensões de um dia tornar-se um escritor nacionalmente desconhecido – ser um autor conhecido é coisa para poucos, cuja destreza com as palavras vai além da minha capacidade intelectual, por isso, me contento humildemente com o anonimato que me cabe e me aguarda – isto é uma lacuna imperdoável. Equivale, na vida de um cidadão comum, desses que se vê na rua, a um desvio de caráter, uma falha moral. Está certo que não fico muito atrás nos clássicos brasileiros e que li, e leio, grandes autores nacionais e até internacionais da atualidade com alguma freqüência, como João Ubaldo ou Gabriel García Márquez, mas nos clássicos internacionais, confesso, um tanto envergonhado, que sou uma negação. Com essa confissão, aliás, reduzo a praticamente zero as minhas já remotíssimas chances de um dia pertencer à Academia Brasileira de Letras. Esse é o preço, me consolo, da honestidade.</p>
<p>Por isso, a minha preocupação quando o Célio Potência – seu verdadeiro nome, Célio de Freitas e Freitas, vem de um descuido de um funcionário do cartório ao registrar a sua certidão de nascimento, que elevou ao quadrado o sobrenome do pai, ao invés de também dar o devido crédito ao sobrenome da mãe, daí o apelido – me convidou para um encontro informal em sua casa com alguns escritores e poetas pernambucanos. Não me sinto habilitado para um encontro desse porte. Sempre tive medo de me sentir inferior e não conseguir manter uma conversa de alto nível com os intelectuais. Provavelmente, não acompanharia a engenharia empregada por eles nos temas complexos que costumam debater. Guardo comigo o assombroso receio de perder o fio da meada do raciocínio de um desses grandes pensadores e ser desmascarado em praça pública, como um farsante do conhecimento humano.</p>
<p>― E você, também não acha que o Mito da Caverna de Platão trata da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade?</p>
<p>― Hein?!</p>
<p>Ainda assim, fico a imaginar o proveito que se pode tirar da troca de palavras entre gente tão gabaritada, cujo resultado vem, certamente, de profundas reflexões. Sei o quanto isso acrescentaria à minha experiência de vida. Mas ao invés de participar ativamente de uma dessas conversas que, sem dúvidas, causaria danos irreversíveis em minha auto-estima, teria muito mais valia pessoal, se fosse possível manter-me, reservadamente, sentado ali num cantinho qualquer, munido apenas de papel e caneta, para depois checar algumas palavras no dicionário, que desconheço o significado.</p>
<p>Como não podia recusar um convite amável de Célio Potência, amigo dos tempos de colégio, fiz o que me coube e foi possível fazer em tão pouco tempo de preparo: li um resumo – bastante resumido, aliás – de alguns clássicos da literatura, para não ficar tão por fora.</p>
<p>No dia do encontro promovido por Célio Potência, meu primeiro momento de aflição foi ainda em casa. Em verdade, não tinha idéia do que vestir e, ao menos uma vez na vida, me senti como uma mulher que experimenta dezenas de roupas, antes de sair de casa. No final, optei por um terno azul marinho e gravata vermelha, para manter a falsa esperança de passar despercebido entre gente de espécie mais refinada.</p>
<p>À porta do apartamento, Célio Potência me chamou de pândego e puxou-me para dentro com um sorriso cínico. Na sala de estar, descobri a razão. Fui apresentado a alguns convivas como sócio legítimo da festa, por ser, é claro, o único vestido de paletó e gravata, enquanto os demais presentes se vestiam de calças jeans a camisas de manga. Houve, inclusive, quem calçasse um par de sandálias de couro igual ao que costumo usar quando dou um pulinho nos bares de Recife para molhar a garganta com os amigos. Diante do primeiro revés, procurei observar atentamente o que todos bebiam, para não destoar novamente. Desta vez, minha impressão sobre os intelectuais estava correta, pois nove entre dez bebiam generosas doses de uísque. Emborquei a garrafa num copo com muito gelo, apesar da minha reconhecida preferência pela cerveja.</p>
<p>Circulei algumas vezes pela sala e qual não foi a minha decepção ao notar que as conversas giravam em torno de temas mais prosaicos e desprovidos de charme e distinção, como futebol e novela das oito. Por isso, tomei a iniciativa de elevar o nível do debate.</p>
<p>― E o Rasponikov, hein?</p>
<p>― Quem?</p>
<p>― O Rasponikov, do <em>Fiofór</em> Dostoiévsky.</p>
<p>― Ah, o Raskólnikov, de Crime e Castigo. Que é que tem ele?</p>
<p>― Vocês não acham que ele encara o niilismo de uma época de colapso dos valores tradicionais?</p>
<p>Ninguém soube ou quis responder ao certo, nem se deu grande importância à questão. Apesar disso, todos concordaram que se tratava de uma obra de primeira grandeza.</p>
<p>― Primeiríssima, meus caros, primeiríssima! – arrisquei, com o entusiasmado de quem acredita agora estar no mesmo nível dos demais debatedores.</p>
<p>A certa altura, minha confiança já estava plenamente restaurada e transformou-se em pura exibição, resultado da minha decepção com os intelectuais e também por umas doses a mais de um extraordinário uísque de 12 anos.</p>
<p>― A Emma é uma vagabunda! – tomei nova iniciativa.</p>
<p>― Não fale assim da maior ave brasileira – desdenhou um.</p>
<p>― Que ave o quê? Falo mesmo é de madame Bovary, que botou uns chifres bons no marido. Ele, corno; ela, decadente!</p>
<p>― Madame Bovary foi a obra que despertou em mim o desejo de ser escritor – disse um dos convidados, autor de uma dúzia de romances.</p>
<p>― Um dos melhores livros que li – emendou outro escritor.</p>
<p>― É, mas a depender do tradutor, a qualidade do livro cai assustadoramente. Certa vez, para economizar alguns trocados, comprei o livro de uma coleção baratinha e me arrependi. O tradutor não fez jus à qualidade de Flaubert. Uma pena. Quem é o tradutor do livro que você tem em sua estante?</p>
<p>Senti que atravessava um momento perigoso. Para quem fora tão longe na ousadia, corria agora o risco de ver materializados os meus temores de antes do encontro na casa de Célio Potência. Acuado, parti para o ataque.</p>
<p>― Não tem tradutor. Meu exemplar é em francês mesmo. Prefiro assim, para não correr o risco de ser traído na tradução – exagerei, já que não falo um naco sequer de francês. Um amigo meu, por exemplo, leu Os Lusíadas traduzidos por um carioca de Realengo. O resultado, segundo ele, é que Camões usava a expressão “Tipo assim” em todo o livro.</p>
<p>Alguém ainda me perguntou se eu não havia trocado de livro, já que Os Lusíadas não carecia de tradução, por ser obra de um famoso escritor português. Foi Célio Potência quem me salvou a pele, com o mesmo sorriso cínico que me recebera em sua porta.</p>
<p>― Ele é ou não é um pândego?</p>
<p>Todos riram e concordaram. Por garantia, decidi maneirar no uísque para tentar baixar um pouco a minha autoconfiança.</p>
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		<title>Capela Dourada</title>
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		<pubDate>Mon, 31 May 2010 03:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meus caros amigos]]></category>

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		<description><![CDATA[
Roque Braz

Quando nada mais resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E, quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha),
Quando, pelo desuso da navalha,
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar,
Deixando-te sozinho na batalha
A arquitetar na sombra a despedida
Do mundo que te foi contraditório,
Lembra que, afinal, te [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/05/Capela-dourada-no-Recife.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1940" title="Capela-dourada-no-Recife" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/05/Capela-dourada-no-Recife.jpg" alt="" width="350" height="236" /></a></p>
<p><strong>Roque Braz</strong></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><em>Quando nada mais resistir que valha<br />
A pena de viver e a dor de amar<br />
E, quando nada mais interessar</em><em><br />
(Nem o torpor do sono que se espalha),<br />
Quando, pelo desuso da navalha,<br />
A barba livremente caminhar<br />
E até Deus em silêncio se afastar,<br />
Deixando-te sozinho na batalha<br />
A arquitetar na sombra a despedida<br />
Do mundo que te foi contraditório,<br />
Lembra que, afinal, te resta a vida<br />
– Com tudo o que é insolvente e provisório –<br />
E que ainda tens uma saída:<br />
Entrar no acaso e amar o transitório.</em></p>
<hr style="width: 550px;" />
<p style="text-align: right;"><em>A Solidão e sua porta</em>, de Carlos Penna Filho</p>
</blockquote>
<p>Estava entre ligar o som do carro ou apenas ouvir o barulho da rua, o ruído dos motores. Indo pro trabalho, “às tantas da manhã”, o vidro aberto por aproveitar o benefício do sol àquela hora, os olhos imprecisos resguardados pelos óculos escuros. Uma sombra de árvore, um muro pintado de hera, o sinal verde fechando, os carros se enfileirando lentamente.</p>
<p>Não era dia de jogo; nenhuma bandeira do Santa Cruz, do Náutico ou do Sport pendia do teto de algum automóvel na manhã quase sem brisa. Nada prenunciava uma alegria para o momento nem para logo mais. Sinal fechado, carros parados, carros parando, longa fila se formava. Era de crer na existência de algo além do sinal fechado a impedir o trânsito. Cedinho, chovera bastante. Agora fazia pouco sol.</p>
<p>O olhar impreciso flutuava sobre todas as coisas, até que atracou num perfil familiar no veículo ao lado. Ancorou ali e ficou a perscrutar. De repente, do fundo do mar de esquecimento, veio à tona da luz do lampejo da memória toda a história que o delineamento daquele perfil fazia contar outra vez. Ante a visão inesperada, o susto; ante o susto, o retraimento, como a tentar esconder a própria imagem, embora não soubesse exatamente o porquê daquela reação. Talvez o receio de ser flagrado ali, olhando para ela sem lhe dirigir a palavra depois de tanto tempo&#8230; Era ela, sim. Aquele perfil inconfundível, tão conhecido e amado outrora.</p>
<p>O perfil foi tomando feição nova e, daquelas linhas, outra imagem surgiu e tentou suplantar aquela visível, real, tão viva ali ao meu lado. Uma sensação alucinante percorria meus nervos e as imagens se mesclavam e separavam e confundiam. O embate foi curto e venceu o rosto novo que não estava em perfil no carro ao lado do meu, mas, tão somente na minha cabeça.</p>
<p>Ficou diante dos meus olhos, sorrindo com toda a graça. Era ela (e não a do carro ao lado) que fazia passeios pelo Cabo de Santo Agostinho. Contou que muitas vezes tomava um ônibus e ia para Suape ou outra praia distante. Ficava tardes inteiras contemplando a beleza do lugar, olhando o mar até o sol sumir&#8230; Ou ficava rodando pelas várias pontes da cidade&#8230; Telúrica; eu, nefelibata. Ficou de me levar num desses passeios. Um comprometimento e um sonho tão grandes que nunca aconteceu. Falava essas coisas com o sorriso mais natural do mundo. A doçura da voz com sotaque de carioca que era e jovialidade de moça que mostra os dentes perfeitos do magnífico sorriso e convida para um passeio que, antes de ser sensual, é para fazer turismo numa igreja do centro da cidade. Capela dourada do convento de São Francisco. No centro do Recife, na Rua do Imperador.</p>
<p>Normalmente nos encontrávamos à noite, no campus universitário&#8230;</p>
<p>– Parabéns pelo nascimento do seu filho! Alguém disse e me abraçou com grande entusiasmo.</p>
<p>– Seu filho nasceu hoje?!</p>
<p>– Você viu os parabéns; é o primeiro.</p>
<p>– Ah, que lindo! Disse e me beijou a boca com sofreguidão de parabéns, carinho e sensualidade.</p>
<p>Fiquei desconcertado. Não esperava o beijo; principalmente como afago pelo nascimento do meu filho. Mas gostei muito. Meu sangue recifense empederniu-se e derreteu no mesmo instante e lá se foi desvairado em busca de misturar-se ao daquela criatura tão bela, com aqueles longos cabelos louros escorrendo até a cintura. Cintura que, no arrebatamento daquele instante, tornei a abraçar e puxar ao meu encontro para novo beijo. Descobrimos ali que esse era o nosso desejo desde o dia em que nos conhecemos.</p>
<p>Manuel, um tipo exótico metido a teatrólogo e cineasta (no melhor sentido possível), que, apesar de muito jovem, usava uma espécie de barbicha e bigodes que teimava em dar voltinhas nas pontas, foi quem nos apresentou. Eram três: ele, ela e uma outra amiga, também loura. Todos muito sorridentes. Percebemos muitas afinidades entre nós. Faziam teatro, além de estudar.</p>
<p>– E você; faz o quê?</p>
<p>– Sexo. Muito sexo, respondi.</p>
<p>– Estou falando de coisa produtiva, disse com uma entonação linda e sem perder a pose.</p>
<p>– Mais produtivo do que sexo, impossível! Tome como exemplo os animais em extinção!</p>
<p>– No mundo das artes, então, alguma coisa? Manuel disse que você é poeta, entre outras qualidades.</p>
<p>– Outros defeitos, você quer dizer, minha querida, outros defeitos&#8230;</p>
<p>– Você, que é poeta, acha que ser poeta é defeito?</p>
<p>– Quando dizem que sou poeta, fico com medo da maldição.</p>
<p>– Maldição?!</p>
<p>– Vou contar uma história que ouvi de uma antiga namorada: o poeta chega para a namorada e diz “Você já disse aos seus pais que sou poeta?”, “Não; disse só que você é alcoólatra e desempregado; temos que ir devagar com meus pais”.</p>
<p>Ela me abraçou em crise histérica de riso. Era linda. Sorria como se fizesse carinho e olhava como quem beija. Angélico seria insuficiente para qualificar seu rosto.</p>
<p>Passamos a nos ver várias vezes por semana. Vinha com Manuel e a amiga ou apenas com Manuel e me arrancava da sala de aula com a simples aparição. A noite virava, então, um barzinho e muita conversa com cerveja e ditos espirituosos. “A frase que tem o mesmo sentido lendo do começo para o fim e do fim pro começo é um anagrama?”. Respondi: “Não, Manuel, isso que você falou se chama palíndromo. Uma na grama é quando a gente não tem uma cama por perto, aí a gente dá uma na grama mesmo”. Ela se derramava em riso até as lágrimas, caindo sobre meu ombro.</p>
<p>Certa vez me ligou cedinho e combinamos um encontro à tarde, no campus. Quando nos encontramos, pedi para passarmos num churrasco na mesma Cidade Universitária, numa casa em que se encontrava uma amiga. Lá, a amiga me recebeu com um demorado beijo na boca. Ela não gostou; via-se no seu rosto. Sorriu secamente quando a amiga, falando comigo e olhando para ela, elogiou sua beleza. Estava deslumbrante. Vestia saia longa até o meio da perna, tecido fino que caía muito bem sobre o corpo e realçava os contornos da cintura e dos quadris. Uma blusa curta, justa, expondo o umbigo perfeito e os suaves músculos divisórios da barriga aveludada pela penugem dourada. Percebi seu desagrado e, abraçando-a, beijei-a com extremo carinho. Saímos. Não fez qualquer comentário.</p>
<p>Alguns dias depois, por telefone, disse que queria me ver; que tinha algo a me dizer. Combinamos de nos encontrar à tardinha, no campus. Fui ao local combinado, ela não estava. Deixou recado com um nosso colega sobre onde encontrá-la. Quando nos encontramos, fomos, a seu pedido, ao Centro de Artes. A noite caía e não falou o que tinha a dizer.</p>
<p>Voltávamos do Centro de Artes na direção da Casa do Estudante quando principiou uma chuva fina, muito fina, e nós, de braços dados, caminhávamos lentamente como se a chuva fosse composta de minúsculos raios de sol. A cor da noite se derramara em todos os cantos da paisagem. Olhei ao redor; ninguém à vista. Prendi ainda mais seu braço contra meu corpo e me dirigi, pisando na grama, a uma das árvores que margeiam a calçada e a pista.</p>
<p>Recostada na árvore, entregou-se com avidez e carinho ao meu apelo sensual. Tentei puxá-la para o chão, mas me afastou suavemente e, olhando nos meus olhos, deitou-se devagar na grama, estendendo completamente a perna direita e deixando a esquerda arqueada, numa pose linda naquele ambiente um tanto escuro. Seus cabelos ainda não estavam completamente molhados e se entreabriram, fazendo emergir a testa redonda, pequena, compondo o arremate para aquele rosto perfeito.</p>
<p>Em sintonia com sua suavidade, levantando seu corpo aqui e ali, consegui estender a camisa sob o seu dorso. Puxou, então, o vestido até a altura dos seios e me sorriu o mesmo sorriso de sempre: aquela imagem que mais parecia um indulto à felicidade. Desnudei-lhe por completo a parte de baixo e contemplei, naquela pouca claridade, sua forma belíssima de corpo feminino. Entrei, por fim, com todo o desvelo, na concretude daquele sonho.</p>
<p>Seu corpo estremecia de quando em quando e eu podia sentir sua pele arrepiar-se, enquanto seus pequenos vagidos de gata no cio me arrebatavam toda a lucidez. Não dá para saber quanto tempo estivemos ligados naquele movimento que torna macho e fêmea inerentes. Ela era, ali, bem mais do que eu imaginara em todas as vezes que a lembrança me trazia sua imagem e me fazia mergulhar na fantástica ilusão de possuí-la.</p>
<p>Mordeu com mais força meu lábio inferior, enquanto se agitava nos estertores máximos do prazer. Do canto esquerdo do seu olho esquerdo, uma lágrima rolou e se perdeu no cabelo úmido. Olhando sempre nos meus olhos, prendeu minha língua nos seus dentes e pôs as mãos nas minhas nádegas de forma a controlar os quadris. Começou, então, a comandar meus movimentos. Sua língua brincava com a minha, que permanecia presa entre os seus dentes. Suas mãos me faziam recuar e avançar de acordo com sua vontade. Suas unhas machucavam de forma agradável minhas nádegas.</p>
<p>Fez um vaivém cada vez mais acelerado e me abraçou fortemente quando sentiu que meu corpo finalmente tombava sobre o seu, com a vitalidade derretida na seiva que ela recebia com semblante de extremo prazer e carinho. Estivemos quietos durante algum tempo, recuperando a respiração. Ela me sustinha abraçado ao seu corpo.</p>
<p>Foi muito divertida a recomposição das roupas. O vestido era marrom, portanto não apresentava senão uma mancha na altura do tórax. A Casa do Estudante parecia indiferente, com suas janelas abertas e iluminadas. Afora o ruído dos carros ao longe sobre o viaduto, tudo era silêncio.</p>
<p>Estávamos úmidos da chuvinha que não cessava. Ela parecia encarar com naturalidade o fato de estar molhada e até um pouco amarrotada e suja. Caminhamos abraçados até a parada de ônibus. Tomou um ônibus e fiquei aguardando o meu. Não me lembrei de perguntar o que tinha para me dizer, também nada falou.</p>
<p>Desde que se fora no ônibus, não mais nos vimos. Não tinha seu telefone, não sabia onde morava, era sempre ela quem ligava ou ia ao meu curso. Dias depois encontrei Manuel e perguntei por ela.</p>
<p>– Ela não falou, não?</p>
<p>– Não, o quê?</p>
<p>– Ela foi pro Rio de Janeiro.</p>
<p>– Como “pro Rio”? Foi embora?</p>
<p>– Não sei. A gente andava muito junto por conta da faculdade e do teatro&#8230; Vida privada é outra história.</p>
<p>Fiquei desolado. O que ela quis me dizer? Que ia pro Rio?</p>
<p>– Ela não lhe disse nada mesmo, Manuel?</p>
<p>– Nada. Calma, meu filho, ela é assim mesmo, de lua. Daqui a pouco aparece de novo&#8230; Agora, me diga uma coisa: você está apaixonado?</p>
<p>– Vá pra lá com seu teatro, Manuel!</p>
<p>– É fácil se apaixonar por uma criatura linda e doce daquelas, né-não? Disse isto sorrindo por trás dos óculos de moldura preta e lentes grossas, fazendo uma cômica espiral no canto direito do bigode.</p>
<p>Durante algum tempo assediei Manuel em busca de notícias. Nada. Depois de alguns meses já quase não o via. Uns dois anos depois, ele me abordou e me deu o telefone dela. Liguei naquela mesma tarde e uma voz que se identificou como “tia” disse que ela não estava. Pediu para ligar à noite. À noite foi ela quem atendeu. A mesma voz doce, subtraído o antigo entusiasmo. Supus que era o fato de não poder falar claramente comigo. Combinamos encontro para dali a dois dias.</p>
<p>Cheguei mais cedo ao local combinado. Estava um pouco ansioso. Ela apareceu logo depois e não me beijou na boca como se tornara praxe depois do nosso primeiro beijo. Recebi um beijo carinhoso na testa.</p>
<p>Sentada, pediu um suco. Falamos pouco e parecia que evitávamos falar do nosso último encontro. Após o suco, chamou para sair, dizendo que de onde estávamos até a Rua do Imperador era perto; dava para ir a pé.</p>
<p>– Vamos à Rua do Imperador? Que vamos fazer lá?</p>
<p>– Você já visitou a Capela Dourada? Abriu o lindo sorriso ao perguntar.</p>
<p>– Capela Dourada? Nunca ouvi nem falar.</p>
<p>– É um lugar lindo! Lembra que você apelidou meus passeios de “passeios de fadário”? Vamos fazer um passeio de fadário&#8230;</p>
<p>– Não quero bancar o erudito, mas a palavra fadário é dúbia e até mesmo capciosa. E foi exatamente por isto que a empreguei acerca dos seus passeios&#8230;</p>
<p>– É claro que percebi; achei, inclusive, que você tinha acertado em cheio no nome escolhido. E é “exatamente por isto” que vamos à Capela Dourada.</p>
<p>Caminhamos sorridentes entre gracejos e pequenos encontrões dos ombros. Tentei o mais que pude arrancar-lhe aquele sorriso de entrega, de convite, que a tornava deslumbrante. Continuava muito bonita e o seu sorriso mantinha o traço original que me fez enlouquecer desde o primeiro dia.</p>
<p>Chegamos. A Capela Dourada da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, que também recebe o nome de Capela dos Noviços, fica na Rua Imperador Pedro II, no Bairro de Santo Antônio. Foi construída em 1697; é “uma das mais expressivas representantes da arte barroca nas igrejas brasileiras” e o ouro é predominante em sua pintura. Muitos quilos de ouro se derramam por todas as paredes. Fiquei extasiado. Antes olhamos todas as peças do Museu Franciscano de Arte Sacra.</p>
<p>O convento era de um silêncio ensurdecedor. Tudo aquilo incrustado ali, na Rua do Imperador, junto ao Palácio da Justiça, com vários mendigos pela calçada, defronte à OAB, junto dos cartórios, mas um oásis de paz, de serenidade, onde parece impossível computar o tempo.</p>
<p>Apesar dos braços dados, não nos tocávamos. E lá ia ela a me explicar aos cochichos o que sabia e suas impressões acerca daquele paraíso perdido. Tudo na voz mais graciosa do mundo.</p>
<p>Com a mesma graça com que me arrastou até ali me conduziu para fora e se despediu. Vendo seu sorriso de despedida, tive certeza de que não mais a veria, a não ser por mero acaso. Na vã tentativa de retê-la mais uns instantes, perguntei o que tinha para me dizer naquele dia do Centro de Artes. Respondeu que agora era um segredo e que segredo só é segredo quando é do conhecimento de apenas uma pessoa; mais de uma é boato.</p>
<p>– Viu que eu também sei fazer humor? Não tão bom quanto o seu, mas, eficaz. Aliás, você sabe fazer tudo bem, inclusive amor.</p>
<p>– O que você quis me dizer me trazendo aqui, à Capela Dourada? Desconversei.</p>
<p>– Você é perspicaz. Você decifrará. Qualquer dia a gente se vê por aí, tá?</p>
<p>Reagi com a fragilidade grosseira dos homens, que acreditam poder resolver coisas com mulher com beijo ou uma trepada: pedi um beijo. Ela sorriu, veio ao meu encontro, beijou meu rosto, cheirou longamente o meu pescoço e se afastou acenando. Dobrou a esquina do Palácio da Justiça. Não fui atrás.</p>
<p>Enlouqueci. Passei dias tentando decifrar a mensagem da Capela Dourada. Pedia aos amigos para visitá-la na tentativa de traduzir o que vi, mas não entendi. Depois, pedia aos amigos para não tentar descobrir, pois tinha medo do que me fosse revelado. Também o que ela ia me dizer no dia do Centro de Artes me aturdia.</p>
<p>Alguns anos depois, olhando as coisas que lhe escrevi, parecia que ela nunca existiu; que imaginei tudo aquilo; que se desvaneceu na fumaça de todos os cigarros que lhe dediquei&#8230; “Fumée, rien que fumée<a href="#_ftn1">[1]</a>”.</p>
<p>O sinal abriu e aquela que estava ali, no carro ao lado do meu, cujo perfil me trouxe tanta surpresa, acelerou. Tentei acompanhar, mas, quando chegou à esquina em que ficava o sinal, dobrou à esquerda. Fui em frente e nos meus olhos começaram a se projetar novamente todas as lembranças do que também vivemos juntos. Todavia a nova história foi cortada por um pensamento que me ocorreu naquele instante: o homem conta o tempo para não ver a si mesmo; para não ver a própria condição de transitoriedade e assim poder lamentar o tempo que passou. Mas o tempo, ah, o tempo, este fica sempre no mesmo lugar (feito um pescador à beira do rio), espreitando, na celeridade das nossas vidas, a inocência de acreditarmos que ele não pára, apesar de aparentemente inalterado (feito um rio), enquanto nós é que verdadeiramente, inevitavelmente, vamos passando.</p>
<hr size="1" /><a href="#_ftnref1">[1]</a> <em><span style="font-size: xx-small;">Fumaça, não mais que fumaça.</span></em></p>
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		<title></title>
		<link>http://www.estradar.com/2010/05/24/memorias-de-minhas-putas-tristes/</link>
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		<pubDate>Mon, 24 May 2010 04:21:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Minhas leituras]]></category>

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		<description><![CDATA[Clique na imagem para ler a sinopse

Memória de minhas putas tristes
Gabriel García Márquez
Editora Record
127 páginas
2004
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Clique na imagem para ler a sinopse</span><br />
<a href="http://www.skoob.com.br/livro/sobre/14/memoria+de+minhas+putas+tristes/MEMORIA_DE_MINHAS_PUTAS_TRISTES" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-1918" title="Memória-de-minhas-putas-tristes" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2010/05/Memória-de-minhas-putas-tristes.jpg" alt="" width="180" height="260" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;"><strong>Memória de minhas putas tristes</strong><br />
</span><strong><span style="font-size: xx-small;">Gabriel García Márquez</span></strong><br />
<span style="font-size: xx-small;">Editora Record<br />
127 páginas<br />
2004</span></p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Contos e crônicas de uma gente brasileira</title>
		<link>http://www.estradar.com/2010/05/24/contos-e-cronicas-de-uma-gente-brasileira/</link>
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		<pubDate>Mon, 24 May 2010 04:04:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Nave minha]]></category>

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		<description><![CDATA[
Depois de um longo tempo, estou espanando a poeira de um antigo projeto pessoal: escrever um livro de contos e crônicas, a partir dos textos do Estradar. Para dar início a ele, contei com a colaboração de Ducaldo, amigo e leitor do blog, que fez a primeira seleção de crônicas.
A partir daí, fiz eu mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/08/escritor.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-397" title="escritor" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/08/escritor.jpg" alt="" width="310" height="315" /></a></p>
<p>Depois de um longo tempo, estou espanando a poeira de um antigo projeto pessoal: escrever um livro de contos e crônicas, a partir dos textos do <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>. Para dar início a ele, contei com a colaboração de Ducaldo, amigo e leitor do blog, que fez a primeira seleção de crônicas.</p>
<p>A partir daí, fiz eu mesmo uma nova triagem e incluí umas coisas daqui e excluí outras coisa de lá. A bem da verdade, percebi que, como autor, sou terrível para selecionar meus próprios textos, pois termino por acrescentar mais do que retiro. Creio que o autor acaba se apegando demais ao que escreve e, talvez por isso, perca a objetividade na hora de fazer a justa seleção. As crônicas são como filhos e, assim sendo, difícil ter preferência por uma ou outra.</p>
<p>Após a segunda triagem, encontro-me na fase de revisão dos textos ao mesmo tempo em que sigo fazendo nova seleção da seleção. Nesta fase mais rigorosa, já retirei algumas crônicas, ainda que muito relutasse. Outras crônicas ganharam novos títulos, além de uma pinçava aqui e acolá numa e noutra frase. O livro está dividido em quatro capítulos – <em>Nau Minha</em>, <em>Tiquinho de Nós</em>,<em> Tristeza Não Tem Fim </em>e<em> Divina Comédia Humana</em> –<em> </em>onde procuro agrupar os textos por similitude.</p>
<p>A próxima fase será ainda mais rigorosa, pois pretendo submeter o esboço a alguns amigos, leitores vorazes da literatura mundial, que, sem dó nem piedade, terão a missão de passar a faca e corta o que for preciso. Só aí, com o esboço final pronto, tomarei as medidas necessárias para tentar a sua publicação. Tomara que dessa revisão sobre alguma coisa.</p>
<p>A princípio, pretendo submeter o livro a algumas editoras, embora reconheça chances mínimas nessa tentativa. Somente no caso de insucesso, partirei então para a carreira solo e serei eu mesmo escritor, editor e distribuidor de minha própria obra. A dificuldade do mercado editorial brasileiro, em geral, impõe aos escritores iniciantes os custos de publicação e distribuição. No fim, a edição de um livro dá-se mais pelo prazer pessoal de quem escreve do que pelo interesse comercial que uma obra literária pode despertar. Bom seria juntar uma e outra coisa, mas o mundo, mesmo numa obra de ficção, é imperfeito.</p>
<p>Pretendo manter no título do livro os mesmos nome e sobrenome do blog: <em>Estradar, contos e crônicas de uma gente brasileira</em>. Ele englobará textos elaborados no período entre 19 de agosto de 2007 e 09 de maio de 2010.</p>
<p>Adianto ainda que já montei a idéia central de um segundo livro e aguardo apenas a conclusão do primeiro para dar início. Desta vez, trata-se de um romance, cujo tema não pretendo adiantar por enquanto.</p>
<p>O fato é que, de uns tempos para cá, ando numa efervescência de idéias e, aos poucos, estou tentando tirá-las – ou melhor, colocá-las – do (no) papel. E, enquanto minha Bic virtual toma agora novos rumos, preparo também para o blog uma novidade. Passo a disponibilizar na barra lateral recomendações de livros que li ou informações do que ando lendo. Afinal, a leitura é a melhor ferramenta para quem pretende escrever.</p>
<p>Também essa semana, torno a abrir o blog para convidados e volto a publicar um conto de outros autores.</p>
<p>Vamos caminhando, ainda que seja devagar, para não cansar as pernas.</p>
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		<title>O maior amor do mundo</title>
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		<pubDate>Sun, 09 May 2010 03:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
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Água e vinho &#8211; Trio Gótico (Egberto Gismonti)
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<span style="font-size: xx-small;">Água e vinho &#8211; Trio Gótico (Egberto Gismonti)</span></p>
<p>Finalmente chegamos. Tomei a dianteira e abri a porta do consultório para a minha mãe entrar. Era uma consulta de rotina para saber como andava a sua vista, agora perseguida por uma discreta opacidade do cristalino. Tratei de conduzi-la a um dos assentos da sala de espera para, em seguida, me dirigir à recepção, onde trataria da burocracia que se impõe antes de qualquer atendimento médico. Depois retornei e sentei-me ao seu lado.</p>
<p>Em nosso canto, me punha a assistir à TV, menos pelo interesse que a programação me despertava e mais pela falta do que fazer, enquanto mamãe acompanhava o movimento de entra-e-sai dos pacientes. O filme não prendeu a minha atenção por muito tempo e parei para observar minha mãe. Ela mantinha uma quietude pouco habitual e sua fisionomia aparentava cansaço. Embora os cabelos, sem a cor branca natural, buscassem deliberadamente enganar a idade, seu rosto e suas mãos já não disfarçavam tão bem a passagem do tempo. Apesar disso, mamãe conservava, quase intacta, a beleza da juventude.</p>
<p>Mamãe sorriu, tão logo segurei a sua mão. Depois iniciamos uma conversa sobre <a href="../../../../../2007/09/11/ao-meu-avo-uma-bencao/">o meu avô</a>, um homem de generosidade extraordinária e de coração bom. À medida que ela falava, eu sentia no peito, quase me sufocando, uma saudade imensa e concluía que, em vida, talvez pela exagerada juventude, não lhe dera o valor necessário. Por isso, senti nascer em mim naquele mesmo instante o medo de acontecer o mesmo em relação à minha mãe, depois que ela se for. Com ela, não haverá o conforto de pôr a culpa em minha juventude excessiva, pois, desde muito moço, trago comigo, sem deixar margens à imprecisão, a gratidão por tudo quanto ela fez por mim, mas também carrego a certeza inabalável de não ter lhe dado em retribuição nem sombra do que recebi.</p>
<p>Por isso, levado por uma força irresistível, lembrei-me dos tempos de criança, de meter-me em febre de quarenta graus e de tê-la ao meu lado durante toda a madrugada velando e cuidando de mim. De atravessar a cidade sobre os seus ombros, apesar do peso dos meus nove anos, em busca de um cirurgião-dentista que retirasse a raiz de um dente mal extraído, que de tanta dor mal me deixava pisar o chão. De vê-la enfrentar condições adversas para me guiar e me dar a educação que jamais tivera. De ver suas mãos divinas multiplicar o pão, como num milagre, para dar o sustento a oito filhos e a outros tantos enteados. De vê-la chorar por minhas tristezas e rir com as minhas alegrias. De senti-la amar a cada filho, acima tudo e apesar de nós.</p>
<p>Precisei ser pai para compreendê-la bem e aceitar que não é possível, por mais que se ame, amar como ama uma mãe. Hoje sinto o mesmo por minha filha e já amo de maneira igual o meu segundo filho, que espera no ventre de minha mulher a hora de nascer, para sentir de nós, como eu senti da minha mãe, o maior amor do mundo.</p>
<blockquote><p>Para a minha mãe, no seu aniversário.</p></blockquote>
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