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	<title>Estradar</title>
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	<description>Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira</description>
	<pubDate>Mon, 30 Jun 2008 03:00:25 +0000</pubDate>
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		<title>No dia em que eu vim embora</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/06/30/no-dia-em-que-vim-embora-em-verso/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Jun 2008 03:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Versinhos]]></category>

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		<description><![CDATA[Pintura: Janet Karam

[MEDIA=82]
No dia em que eu vim-me embora - Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)

Dimas Lins

No dia em que eu vim embora,

Não encontrei alegria em nada,

Senti saudade de casa,

Morri de medo aqui fora.

 

No dia em que eu vim embora,

Minha mãe me abraçou,

Meu pai me consolou,

E disse "meu filho, é hora".

 

No dia em que eu vim embora,

Deixei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Pintura: <a href="http://janetsartstudio.blogspot.com/" target="_blank">Janet Karam</a></span><br />
<a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/locomotiva-janet-karam.jpg"><img class="size-full wp-image-303" title="locomotiva-janet-karam" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/locomotiva-janet-karam.jpg" alt="" width="310" height="330" /></a></p>

<p align="center"><span style="font-size: xx-small;">No dia em que eu vim-me embora - Caetano Veloso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)</span></p>
<hr /><strong>Dimas Lins</strong><br />
<hr />
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Não encontrei alegria em nada,</p>
<p>Senti saudade de casa,</p>
<p>Morri de medo aqui fora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Minha mãe me abraçou,</p>
<p>Meu pai me consolou,</p>
<p>E disse &#8220;meu filho, é hora&#8221;.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Deixei tanta coisa pra trás,</p>
<p>Parti aflito, sem paz,</p>
<p>Tremi ao me ver mundo afora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Carregava apenas a esperança,</p>
<p>Saí sem dinheiro ou herança,</p>
<p>Levei só a dor de quem chora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Ir já não parecia tão certo,</p>
<p>Quase desisti, cheguei perto,</p>
<p>Que eu perguntei a Deus: &#8220;e agora?&#8221;</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Deixei discos, cadernos e livros,</p>
<p>Ficaram também os amigos,</p>
<p>Criança, rapaz e senhora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Muita gente na estação,</p>
<p>Tanto adeus, tantas mãos,</p>
<p>Tanta tristeza que aflora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Meu pai disse pra eu ser forte,</p>
<p>Minha mãe desejou boa sorte,</p>
<p>E pediu pr&#8217;eu escrever sem demora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Não prestei atenção na paisagem,</p>
<p>Encolhi e chorei na viagem,</p>
<p>Que nem vi beleza na aurora.</p>
<p> </p>
<p>No dia em que eu vim embora,</p>
<p>Deixei um pedaço de mim,</p>
<p>Dizer adeus foi como um fim,</p>
<p>Pois às vezes a saudade apavora.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma flor nasceu na rua</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/06/25/uma-flor-nasceu-na-rua/</link>
		<comments>http://www.estradar.com/2008/06/25/uma-flor-nasceu-na-rua/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2008 03:00:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Tiquinho de nós]]></category>

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		<description><![CDATA[Pintura: Dale Henry

[MEDIA=45]
Se meu jardim der flor - Boca Livre e MPB4 (Zé Renato/Xico Chaves)













Dimas Lins

Estive sem sono e me pus em pé no breu da noite. Da minha janela, via o tempo atravessar a madrugada sem pressa, enquanto o vento sul levantava as cortinas e espalhava uma brisa benfazeja por todo o quarto. Ainda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span><span><span style="color: #999999;"><span style="font-size: xx-small;">Pintura: Dale Henry</span><br />
</span></span></span><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/flor-dale-henry.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-301" title="flor-dale-henry" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/flor-dale-henry.jpg" alt="" width="310" height="306" /></a></p>

<p align="center"><em><span style="font-size: xx-small;">Se meu jardim der flor - Boca Livre e MPB4 (Zé Renato/Xico Chaves)</span></em></p>
<div><strong></strong></div>
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<div><strong></strong></div>
<div><strong></strong></div>
<p><strong><br />
<hr /></strong><strong>Dimas Lins</strong><br />
<hr />
<p>Estive sem sono e me pus em pé no breu da noite. Da minha janela, via o tempo atravessar a madrugada sem pressa, enquanto o vento sul levantava as cortinas e espalhava uma brisa benfazeja por todo o quarto. Ainda não havia sol. Embaraçada, a luz difusa do luar dividia com a iluminação pública a guarda da cidade, protegendo-nos da escuridão total.</p>
<p>Mesmo sob a penumbra, tornava-se visível aos meus olhos um mundo que até então eu desconhecia pela ausência de curiosidade. Era um minúsculo ecossistema com algum verde, além de insetos, roedores, batráquios e répteis. Havia insignificantes, mas viçosas fauna e flora ao redor de nossas casas, entranhadas no meio de nossa civilização.</p>
<p>Vi, absorto, o balé da copa das árvores e a dança das folhas de um lado para o outro, sob a regência da aragem. Também ouvia, com imenso entusiasmo, o cacarejar do galo, o canto dos pássaros e o estridular dos grilos. Minha insônia fez de mim um atento espectador de um singelo espetáculo de um mundo por trás do nosso mundo.</p>
<p>Durante a aurora, observei do meu mirante que a luz do dia avançava vagarosamente sobre a superfície e dava ainda mais vida à vida e mais forma e cores às coisas.</p>
<p>Um colibri cruzou veloz a minha janela e partiu em direção às flores para beber o néctar. De seus estames, recolheu o pólen derramando-o sobre uma araucária, que fecundou uma semente, que germinou o chão. Assim, uma flor nasceu na rua.</p>
<p>Não era provável, nem mesmo era possível, mas uma flor rompeu o pavimento, diante dos meus olhos descrentes. Embora não fosse crível, ela estava lá, desafiando o impossível, bem debaixo da minha janela.</p>
<p>Mas não havia dúvida! Sim, eu tinha certeza, uma flor nasceu na rua! Ela surgiu ligeira, enganando o tempo, abrindo espaço no asfalto!</p>
<p>Veio-me à cabeça um <em>poema de Drummond</em>* que, da minha janela, recitei para os ouvidos de ninguém:</p>
<blockquote>
<p align="center"><em>Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.</em></p>
<p align="center"><em>Uma flor ainda desbotada</em></p>
<p align="center"><em>ilude a polícia, rompe o asfalto.</em></p>
<p align="center"><em>Façam completo silêncio, paralisem os negócios,</em></p>
<p align="center"><em>garanto que uma flor nasceu</em><em>.</em><em></em></p>
</blockquote>
<p>Certamente era uma flor. Inexplicável, misteriosa e fascinante, mas era uma flor. Nasceu de um solo infértil e rompeu o espaço urbano para brotar com delicadeza e simplicidade.</p>
<p>Pensei em gritar da minha janela na esperança que o vento espalhasse para a cidade hiberne o grande acontecimento. Uma flor rasgou o asfalto e me fez acreditar no impossível. Que todos acreditassem também! Mas me senti um tolo ao imaginar-me acordando a vizinhança por causa de uma flor.</p>
<p>Desci então do quarto e ganhei a rua, para oferecer os meus cuidados. De meu jardim, arranquei pedaços de madeira na intenção de fazer um novo cercado. Seguiu os meus passos um cheirinho de pão no forno. Minha barriga roncou desavergonhada e me imaginei comendo pão com manteiga e bebendo um gole de um café quentinho. O cheiro veio numa bandeja trazida por uma senhora de vistosos cabelos brancos, que acompanhava meu afazer. Comi de seu pão e bebi de seu café, depois sorri agradecido e seguimos juntos até a flor.</p>
<p>Quando retomei minha missão, tentei cavar uma fenda no chão, mas não consegui. Fui vencido pelo mesmo solo derrotado pela flor. Um jovem se aproximou e, enfim, arrebentou o pavimento. Um velho trouxe adubo e uma mulher regou a planta. Timidamente, as pessoas apareceram de todos os cantos e, na esquina, um guarda paralisou o trânsito.</p>
<p>A rua arborizada se encheu de graça. Um casal reconciliou-se na praça, um bêbado jurou largar o vício e uma criança traquina prometeu bom comportamento. Um profeta previu novos tempos e um sábio concordou. Um poeta declamou seus versos e a artista musicou. O prefeito decretou feriado e transformou a flor em monumento público.</p>
<p>Ao fim do dia, entre cânticos e louvores, percebi que havia acontecido uma pequena epifania. Voltei para casa com o coração repleto de alegria e percebi que a esperança se alimenta das mínimas coisas e que elas vêm ao mundo todos os dias, como a flor que nasceu na rua.</p>
<hr />* <em>A flor e a náusea, Carlos Drummond de Andrade</em></p>
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		<title>Eu, robô</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/06/17/eu-robo/</link>
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		<pubDate>Tue, 17 Jun 2008 03:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[
[MEDIA=81]
Máquina II (Belchior)


Dimas Lins

Na falta de tempo, na absoluta falta de tempo, resta-me apenas cuidar da menina que ainda não chegou. Corro agora de um lado para o outro, para garantir que ela tenha toda a atenção que eu possa dar, quando nascer.

Se não vim aqui por uns dias, foi por ela. E se não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/tempos-modernos.jpg"><img class="size-full wp-image-299 aligncenter" title="tempos-modernos" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/tempos-modernos.jpg" alt="" /></a></p>

<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Máquina II (Belchior)</span></p>
<p><strong></strong><strong></strong></p>
<hr /><strong>Dimas Lins</strong><br />
<hr />
<p>Na falta de tempo, na absoluta falta de tempo, resta-me apenas cuidar da menina que ainda não chegou. Corro agora de um lado para o outro, para garantir que ela tenha toda a atenção que eu possa dar, quando nascer.</p>
<p>Se não vim aqui por uns dias, foi por ela. E se não rabisquei alguma coisa - algo que tornou de mim um homem tão perdidamente apaixonado - é porque não pude. E embora o coração padeça - pelas crônicas e contos não materializados - e deixe as minhas mãos um tanto trêmulas, pela saudade do toque do teclado, nada havia o que eu pudesse fazer. Entre um tiquinho e outro de tempo que tenho livre das obrigações, o corpo não agüenta. E quer cama, e cai no sono, e apaga.</p>
<p>E mergulhado no cansaço, desorganizo minhas noites para aproveitar melhor o dia. Mas, às vezes, de quando em quando, espio pela janela e olho a estrada em frente da minha casa.</p>
<p>- Tem alguém aí?</p>
<p>Quando vejo uma alma viva, mesmo virtual, boto a cara no mundo e puxo uma conversa preguiçosa, até que o sono me alcance. E ele alcança. Se ter um filho é mesmo padecer no paraíso, acho que eu já estou por conta. Mas não reclamo. Aliás, reclamo, mas só pela falta de tempo.</p>
<p>Mas não é apenas pela garotinha que vem lá que ando tão ocupado. Além do trabalho, de onde tiro o meu sustento, e das palavras que, vez por outra, escorregam da minha mão para atravessar essa estrada, me sinto atraído por esse mundinho danado feito de megabytes, css, plugins e php, que é capaz de ligar Recife, o centro do meu universo, a qualquer parte do planeta. E, de Pernambuco, sigo escrevendo para o mundo, ainda que ninguém leia, e fazendo páginas na internet, somando minhas palavras a tantas outras.</p>
<p>Também resolvi aprender a tocar violão. Por um sonho adolescente e por minha filha, é claro. Já aprendi a tocar - maneira de dizer, pois dói até nos meus ouvidos - duas músicas: <em>Cai, cai balão</em> e <em>Atirei o pau no gato</em>. No ritmo que estou, provavelmente daqui a dez anos, ainda estarei executando as mesmas canções.</p>
<p>- <em>Cai, cai balão</em> de novo, papai?!</p>
<p>- Mas minha filha, é com tanto carinho! Ouve só mais um pouquinho, vai?</p>
<p>- Está bem! Mas só desta vez, viu?!</p>
<p>Talvez eu queira - não sei bem - aproveitar cada dia de sua infância, que já já começa, para reviver um pouco da minha.</p>
<p>Tudo está quase pronto e eu espero descansar um pouco, antes que ela chegue. Mas até lá, me sentirei uma máquina, pois não posso parar, enquanto faltar a mínima coisa.</p>
<p>Eu, robô.</p>
<p>Passa cansaço, passa, que não posso dar conta de tudo com você na minha cola!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>BTI</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/06/09/bti/</link>
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		<pubDate>Mon, 09 Jun 2008 03:00:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Divina comédia humana]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

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		<category><![CDATA[tesão]]></category>

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		<description><![CDATA[Pintura: O Casal, Fauto Brandão 


[MEDIA=80]
Eclipse Oculto (Caetano Veloso)









Dimas Lins

- Anda! Tira tudo, que hoje eu estou muito afim!

- Hum...

- Aí, que eu adoro essas coxas grossas!

- Tá...

- E essa bundinha gostosa, então?! Dá até vontade de morder!

- Sei...

- Sem contar esses pei...

- Peraí, Fernando!

- O que é?!

- Pára, Fernando, pára!

- O que é que há, Noemi?!

- [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Pintura: O Casal, Fauto Brandão</span> <br />
<img class="size-full wp-image-294" title="o-casal-fauto-brandao" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/o-casal-fauto-brandao.jpg" alt="" width="310" height="350" /></p>
<div style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;"></span></div>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Eclipse Oculto (Caetano Veloso)</span></p>
<div><strong></strong></div>
<p><strong></strong></p>
<div><strong></strong></div>
<div><strong></strong></div>
<div><strong></strong></div>
<div><strong></strong></div>
<div><strong></strong></div>
<div><strong></strong></div>
<p><strong><br />
<hr /></strong><strong>Dimas Lins</strong><strong><br />
<hr /></strong></p>
<p>- Anda! Tira tudo, que hoje eu estou muito afim!</p>
<p>- Hum&#8230;</p>
<p>- Aí, que eu adoro essas coxas grossas!</p>
<p>- Tá&#8230;</p>
<p>- E essa bundinha gostosa, então?! Dá até vontade de morder!</p>
<p>- Sei&#8230;</p>
<p>- Sem contar esses pei&#8230;</p>
<p>- Peraí, Fernando!</p>
<p>- O que é?!</p>
<p>- Pára, Fernando, pára!</p>
<p>- O que é que há, Noemi?!</p>
<p>- Pô, você não tem a menor sensibilidade! Pois saiba que nem estamos num matadouro, nem eu sou uma vaca indo pro abate!</p>
<p>- Qual é, Noemi! Que papo é esse agora?</p>
<p>- Você bem que podia ser mais romântico, mais sedutor, né?</p>
<p>- É que eu estou com uma vontade daquelas! Vem cá, vem&#8230;</p>
<p>- Pára, Fernando, que saco!</p>
<p>- Pô, Noemi! Eu aqui com o maior tesão e você cortando o barato?!</p>
<p>- É que esse seu papo na cama está me deixando com BTI.</p>
<p>- BTI?!</p>
<p>- Baixo Tesão Imediato!</p>
<p>- Olha o que você fez, Noemi! Agora fui eu que perdi o tesão!</p>
<p>- Melhor assim, pois eu não estou afim.</p>
<p>- Se você não está afim, o que diabos a gente veio fazer num motel?!</p>
<p>- Conversar.</p>
<p>- Conversar?</p>
<p>- É, conversar.</p>
<p>- Se era pra conversar, a gente sentava num banco de praça e eu economizava cem paus!</p>
<p>- Tá vendo só?! É por isso que eu perco a vontade! Você não tem tato nenhum!</p>
<p>- Como não? E eu não estava tateando você agora mesmo?</p>
<p>- Engraçadinho! Você é tão sensível quanto um Tiranossauro Rex, Fernando!</p>
<p>- O que você quer, afinal, Noemi?</p>
<p>- Já disse, conversar!</p>
<p>- Conversar sobre o quê?!</p>
<p>- Como sobre o quê?! Sobre nós dois, é claro!</p>
<p>- Era só o que me faltava discutir a relação num motel!</p>
<p>- Você vai conversar ou não?</p>
<p>- Já vi que eu não vou gostar nenhum pouco dessa conversa. Fala logo o que você quer!</p>
<p>- Que grosseria!</p>
<p>- Você vai falar ou não vai?</p>
<p>- Fernando, você é um chato!</p>
<p>- Desembucha logo, pois quem sabe assim a gente ainda recupera o tempo perdido.</p>
<p>- &#8230;</p>
<p>- Fala de uma vez, Noemi!</p>
<p>- Fernando, faz dois anos que nós estamos juntos.</p>
<p>- Sei.</p>
<p>- Você não pensa no futuro? Em nós?</p>
<p>- Lá vem&#8230;</p>
<p>- Não precisa ficar defensivo.</p>
<p>- Eu não estou defensivo!</p>
<p>- Olha, Fernando&#8230;</p>
<p>- Hum&#8230;</p>
<p>- Eu quero mais do que isso, entende?</p>
<p>- Sei.</p>
<p>- Eu quero casar, ter a minha casa, a minha família, sabe como é?</p>
<p>- Mmmm&#8230;</p>
<p>- E toda vez que eu falo nisso, você dá um jeito de mudar de assunto, percebe?</p>
<p>- Eu sabia que não ia gostar dessa conversa!</p>
<p>- Pô, Fernando! Você acha que a vida é só balada e motel?</p>
<p>- O que é que você quer, afinal, Noemi?</p>
<p>- Eu quero conforto, estabilidade e segurança, entende?</p>
<p>- Noemi, você não quer um homem. Você quer um carro!</p>
<p>- Fernando, eu tentando falar sério e você vem com sarcasmo?!</p>
<p>- Você quer o quê? Eu venho prum motel pra transar e você, pra discutir a relação? Ora, faça-me o favor!</p>
<p>- Você só quer saber de sexo, mais nada!</p>
<p>- E o que tem de errado nisso?!</p>
<p>- Nada, mas já que você gosta tanto, deveria ao menos fazer bem feito!</p>
<p>- O que você quer dizer com isso?</p>
<p>- Deixa pra lá.</p>
<p>- Como assim &#8220;deixa pra lá&#8221;?</p>
<p>- Deixa pra lá, já disse.</p>
<p>- Agora você vai ter que falar!</p>
<p>- &#8230;</p>
<p>- Não era você que queria conversar? Agora fala!</p>
<p>- Não é nada não, Fernando. Vamos ver um filme pornô pra ver se dá vontade, que é o melhor que a gente faz.</p>
<p>- Fala, Noemi!</p>
<p>- Tá bom. Fernando&#8230;</p>
<p>- Sim?</p>
<p>- Nesse tempo todo que a gente está junto, eu&#8230;</p>
<p>- Você o quê, Noemi?</p>
<p>- Eu nunca tive um orgasmo.</p>
<p>- Como é que é?!</p>
<p>- Já tive orgasmos antes, mas nunca com você.</p>
<p>- Noemi, você está querendo me botar complexo, é?</p>
<p>- Que maldade, Fernando! Estou dizendo isso só pra a gente se ajudar.</p>
<p>- Você joga uma coisa dessas na minha cara e ainda diz que é só pra ajudar?!</p>
<p>- Fica assim não, meu amor!</p>
<p>- Se eu nunca mais me recuperar, a culpa é sua, Noemi!</p>
<p>- Sabia que você fica muito sexy com essa carinha de indefeso?</p>
<p>- Não vem, Noemi!</p>
<p>- Adoro homens frágeis!</p>
<p>- Não me toca, Noemi!</p>
<p>- Vem, Fernando, que eu estou doidinha pra te dizer umas sacanagens no ouvido!</p>
<p>- Pára, Noemi, pára!</p>
<p>- Qual é, Fernando?! Agora que eu estou com o maior tesão, você não quer mais?!</p>
<p>- BTI, Noemi. BTI!</p>
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		<title>O encontro</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 03:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Meus caros amigos]]></category>

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		<description><![CDATA[Pintura: Starry Night, de Van Gogh

 
Quando criei o Torcedor Coral, um blog sobre meu amado clube, o glorioso e destruído Santa Cruz, não tinha grandes pretensões. Desejava apenas publicar, vez por outra, notícias sobre meu time do coração.

Com o tempo, fui aperfeiçoando o estilo e passei criar artigos e textos opinativos. O Torcedor Coral cresceu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Pintura: Starry Night, de Van Gogh</span><br />
<a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/starry-night-van-gogh.jpg"><strong><img class="aligncenter size-full wp-image-292" title="starry-night-van-gogh" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/06/starry-night-van-gogh.jpg" alt="" width="400" height="311" /></strong></a></p>
<p> </p>
<blockquote><p>Quando criei o <a href="http://www.torcedorcoral.com/" target="_blank">Torcedor Coral</a>, um blog sobre meu amado clube, o glorioso e destruído Santa Cruz, não tinha grandes pretensões. Desejava apenas publicar, vez por outra, notícias sobre meu time do coração.</p>
<p>Com o tempo, fui aperfeiçoando o estilo e passei criar artigos e textos opinativos. O <a href="Torcedor Coral" target="_blank">Torcedor Coral</a> cresceu e atraiu novos colaboradores. Mais livre, passei também a escrever crônicas. Com o tempo, senti vontade de falar sobre outras coisas, além de futebol, pois um blog esportivo limita bastante o raio de ação e criação de quem escreve.</p>
<p>Surgiu assim o <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, que teve sua primeira publicação em 19 de agosto de 2007. Aqui, pude experimentar estilos e rabiscar crônicas e contos.</p>
<p>Mas o <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a> trouxe um efeito colateral que me dá muito prazer. Passei a receber, e a procurar também, textos de outros autores para publicá-los neste espaço.</p>
<p>É por isso que hoje publico um texto de Anderson Aguilar. Anderson conheceu o <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>, depois que publiquei o belíssimo conto de Kalina Paiva, sua amiga.</p>
<p>Aguilar se diz apaixonado pela leitura e por nosso idioma. Por isso, tentou escrever um romance, mas de seus escritos saíram poesias e contos. Anderson se interessa por filosofia e tem Kafka e Augusto dos Anjos entre seus escritores preferidos.</p>
<p>E é um conto filosófico de Anderson que deixo para leitura.</p>
<p> Um grande abraço a todos,</p>
<p> Dimas</p></blockquote>
<p> </p>
<p><strong>Anderson Aguilar</strong></p>
<p>- Adeus!</p>
<p>Foi com essa simples palavra que o homem de cabelos grisalhos se despediu dos poucos amigos, ajeitou a pequena mochila nos ombros, e partiu em direção a uma terra desconhecida.</p>
<p>O homem de semblante duro, olhar sereno, que revelava por trás de algumas rugas que riscavam a face contemplativa, a força de quem acreditava que havia algo mais na vida que a simples rotina do trabalho da maioria dos homens, começou a caminhar lentamente, com os pensamentos ainda um pouco confusos, em direção à colina que deveria marcar o ponto final da busca que empreendera desde muito cedo.</p>
<p>Estava, é verdade, um pouco ansioso. Lembrou-se do velho que encontrara numa taberna em uma distante vila. Na conversa regada a goles da bebida quente, ficou sabendo que a resposta que buscava, poderia ser encontrada no alto daquela distante colina.</p>
<p>Apesar da bebida consumida em goles no balcão de uma taberna, e da aparência de louco do velho, acreditou em suas palavras e partiu.</p>
<p>Após vários dias de caminhada, chegou ao lugar que reconheceu ser a colina de que o velho falara.</p>
<p>Do alto da colina olhou em volta e sentou em uma pedra para esperar aquele que acreditava ter sua resposta.  A colina tinha um aspecto mágico, pairava um ar místico.</p>
<p>Enquanto esperava, pensou em toda a jornada que havia feito, nos lugares em que passou, e nas pessoas que conheceu ao longo dos anos. Imagens flutuavam em sua mente como filme, quando sentiu um leve estremecimento no corpo. Virou lentamente o rosto e o viu.</p>
<p>Ele surgiu do nada, silencioso, como se fosse parte daquele ambiente misterioso.</p>
<p>Vestia um manto escuro que lhe cobria todo o corpo, e que terminava no capuz que escondia o rosto quase por completo. A face encoberta dava-lhe um aspecto sinistro que causava arrepios, os olhos de brilho indefinido, tinham uma expressão dura, apesar da estranha serenidade que transmitia.</p>
<p>Na mão esquerda trazia o instrumento que lhe dera fama ao longo dos séculos. Visão que aumentava a sensação de medo, no entanto, era essa a visão que, embora assustadora, confirmava o encontro.</p>
<p>Estava ali, diante dele, sem um movimento sequer. Parecia não respirar, apenas o fitava. Num misto de medo e coragem tentou iniciar a conversa.</p>
<p>- Que queres comigo? - Perguntou.</p>
<p>- Nada.</p>
<p>- Viestes para dar a resposta que procuro?</p>
<p>- Pode ser.</p>
<p>O diálogo começara seco, distante. Ficou confuso.</p>
<p>Teria que estreitar a distancia e criar um canal de comunicação, um laço que possibilitasse a conversa.</p>
<p>- Por que viestes então?</p>
<p>Não houve resposta.</p>
<p>Mudou a pergunta. Teria que fazer o jogo. Não poderia ser superficial.</p>
<p>- Viestes para levar-me?</p>
<p>- Não. Vim para guiá-lo por um caminho que não conheces e não podes andar sozinho.</p>
<p>- Por quê esconde teu rosto?</p>
<p>- Não escondo. Apenas não consegue vê-lo.</p>
<p>- Usas um manto que vela tua face e me dizes que não consigo vê-lo? Não compreendo.</p>
<p>- Não me olhas com os olhos que deveria.</p>
<p>Ficou por um instante mudo e pensativo. Naquele jogo de palavras, percebeu que ganhava tempo.</p>
<p>Em verdade, seu interlocutor lhe dava esse tempo como se fosse proposital, antes de cumprir a sentença já escrita. Precisava continuar.</p>
<p>- Com que olhos devo olhar-te?</p>
<p>- Com os olhos do coração. Os olhos da vida.</p>
<p>- Embora não possa ver tua face, eu te conheço.</p>
<p>- Não. Não conheces. Tu sabes meu nome, mas não sabes o que significa nem o que sou.</p>
<p>- Tu és a Morte. Aquele que anda envolto pelas sombras do inferno e que ceifa a vida. Chegas sorrateiro, sem hora, sem minuto, sem aviso. Cavalgas invisível, acompanhado de tua ferramenta horrenda e fatal. Viajas pelo terrível vento do norte escolhendo tuas vítimas, aparentemente sem nenhum critério, a não ser tua insensibilidade para com a vida. Simplesmente chega e ceifa a vida, interrompendo-a.</p>
<p>- Não. Não a interrompo. Eu a transformo fazendo cumprir a Lei. Tu me conheces como Morte, mas Eu sou a Vida. Embora não compreendas, sou uma de suas faces.</p>
<p>- Tens razão. Não compreendo. Como explicas a vida interrompida de uma criança que parte no primeiro suspiro, antes mesmo de ter chegado? E a morte de um homem que passa toda a vida praticando o bem, enquanto outro, que passa toda a vida sustentado pela maldade permanece vivo e cheia de regalias, rodeado de subalternos e temido? Existe critério nisso?</p>
<p>- O que chamas de vida é interrompido para que o ciclo possa prosseguir.</p>
<p>- O que chamo de vida é Vida. O sorriso de uma criança, a expressão sublime da mulher que acabou de dar a luz. O orgulho do velho ao transmitir a sabedoria adquirida ao longo dos anos aos mais novos. O olhar de profunda expressão do rapaz ao ofertar a delicada flor para a moça.</p>
<p>O canto melodioso do pequeno pássaro pousado no galho da árvore. Isso é que entendo como Vida. E é essa a Vida que interrompes cruelmente.</p>
<p>- O que chamas apaixonado de vida, não poderia existir se eu não perpetuasse o Ciclo Sagrado.</p>
<p>- Entendo que Vida é movimento que objetiva ascender a um nível de espiritualidade mais puro, enquanto que a Morte é o Fim, o momento que interrompe esse movimento. Um castigo imposto.  É assim que entendo.</p>
<p>- Entendes a Vida com a visão de um mortal no plano de vida material. Quando fazes isso, cometes um erro. A Vida não se justifica no plano material.</p>
<p>- Como posso ver de outra maneira sendo matéria e vivendo pela matéria? O que respiro, o que como, minhas emoções e sentimentos, minhas ambições, minhas alegrias e tristezas, meus amores e desamores, enfim, tudo que me norteia é matéria. Vim do pó, e para o pó hei de retornar.</p>
<p>Como posso ver de outro modo?</p>
<p>- Teu corpo é matéria, mas não a Vida. Enganas quando pensas viver para a matéria. Teu corpo feito matéria serve apenas para abrigar teu Espírito. Tua função é permitir a evolução, o que deves entender como purificação, ou elevação. O sopro da Vida não veio do pó, apenas o corpo físico veio. O sopro da Vida veio da essência do Criador, e é para ele que tu vives. É ele o sentido da Vida.</p>
<p>- Falaste-me de sentimentos e emoções, da criança, do velho sábio, e da moça. - continuou. Dizei-me:- qual o sentido de tais sentimentos, sendo eles passageiros?</p>
<p>- O amor que juras pela mulher termina, de uma forma ou outra, quando essa mulher não corresponde ao teu sentimento, ou quando conheces outra mais atraente. A alegria da mulher no parto termina quando o filho deixa de ser criança, e até mesmo a pureza dessa criança acaba quando se torna adulto.</p>
<p>- Deixas-me confuso.</p>
<p>- À matéria pertence o que é matéria, e ao Espírito o que é Espírito. Está escrito no livro que foi deixado que o joio não se mistura ao trigo. Entenda que a Vida pertence ao Espírito e não à matéria. Esta tem uma existência limitada, enquanto o Espírito segue seu ciclo até o Criador.</p>
<p>Ouvindo o que lhe era dito, começou a perceber que a resposta que tanto procurava nascera antes do primeiro suspiro. Nascera junto com ele, ainda no ventre.</p>
<p>Percebeu que ao longo da existência material, esse conhecimento é encoberto por aspirações desenvolvidas pelas emoções e por anseios materiais.</p>
<p>Não respondeu. Não era preciso.</p>
<p>- É chegado o momento. É preciso fazer com que o Ciclo prossiga.</p>
<p>Esta frase ecoou em seu cérebro de um modo estranho, como se estivesse em outro plano. Viu cenas desfilarem diante de seus olhos numa rapidez que não podia conceber.</p>
<p>Um manto de névoa com um colorido turvo, porém suave, cobriu sua visão, e não teve certeza de onde estava. As lembranças dos últimos momentos começaram a dissipar em sua mente.</p>
<p>Suspirou profundamente e não reconheceu onde estava. Também não viu mais seu interlocutor.</p>
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		<title>Muito além do livro</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/06/02/muito-alem-do-livro/</link>
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		<pubDate>Mon, 02 Jun 2008 03:00:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Divina comédia humana]]></category>

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		<description><![CDATA[
[MEDIA=79]
Acalanto para um punhal - Fagner (Robertinho de Recife, Herman Torres e Fausto Nilo)
Dimas Lins

"Sentado na penumbra, travava em seu consciente a batalha de sua vida. Na varanda e numa pequena parte da sala, o luar ainda insistia em levar para dentro de sua casa os últimos raios de esperança. No quarto, dormia em sua [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/punhal.jpg"></a><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/livro-sabios.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-290" title="livro-sabios" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/livro-sabios.jpg" alt="" width="310" height="250" /></a><br />
<p align="center"><span style="font-size: xx-small;">Acalanto para um punhal - Fagner (Robertinho de Recife, Herman Torres e Fausto Nilo)</span></p>
<p><strong>Dimas Lins</strong></p>
<p><em><span style="font-size: large;">&#8220;</span>Sentado na penumbra, travava em seu consciente a batalha de sua vida. Na varanda e numa pequena parte da sala, o luar ainda insistia em levar para dentro de sua casa os últimos raios de esperança. No quarto, dormia em sua cama a razão de seu martírio e, ao lado dela, deitava-se o estigma da traição. De volta a sala, sobre a mesa do canto, também adormecia um punhal. Quando enfim o ódio venceu a razão, ele empunhou a arma, dirigiu-se até o quarto, aproximou-se da mulher e olhou-a em silêncio. Ela dormia como um anjo, mas certamente acordaria no inferno. Ele segurou a arma com as duas mãos, elevando-a a um ponto acima de sua cabeça, e, antes de baixá-la a toda velocidade, disse com a voz embargada o mantra que o acompanhava desde que partiu da sala em direção ao cumprimento de sua sentença: acorda, punhal!</em><span style="font-size: large;">&#8220;</span></p>
<p align="center">***</p>
<p>Mal terminei de escrever o último parágrafo do meu conto, ouvi um barulho atrás de mim. Era noite e, além do computador ligado, tinha apenas uma pequena luminária acesa no escritório. Propositadamente economizava energia. Afinal, se um escritor não tem vida fácil no Brasil, o que dizer de alguém que publica um ou outro texto na internet?</p>
<p>- Quem está aí? - perguntei, enquanto rodava minha cadeira giratória para que eu pudesse olhar de frente a porta do escritório.</p>
<p>Não me deixei enganar pelo silêncio. Gosto de escrever sobre a morte e coisas do gênero, mas tenho um medo danado de almas penadas. Além do mais, meu instinto deixava claro que havia alguma coisa em meio à escuridão do apartamento.</p>
<p>- Seja quem for, saiba que estou armado! - disse, enquanto empunhava a minha arma, um extrator de grampos.</p>
<p>Nem bem acabei de dizer aquilo, me arrependi. E se da escuridão viesse uma bala em minha direção? Meu extrator de grampos não era comparável a uma pistola. Pus assim o objeto de defesa sobre a mesa e gritei bem alto que não estava mais armado. &#8220;Frouxo, frouxo!&#8221;, pensei.</p>
<p>Estava nervoso, reconheço. É que não estou acostumado a ter minha casa invadida a altas horas da madrugada ou em qualquer outro momento do dia. Pensei em correr em direção à porta, mas se assim o fizesse, estaria indo ao encontro do perigo que desejava evitar.</p>
<p>Finalmente, do negrume do corredor surgiu um homem segurando um punhal. Meu medo transformou-se em pânico. Dizem que um homem que porta uma arma branca tem mais sangue frio do que alguém armado de revólver. E deve ser mesmo, pois a arma branca requer o contato físico do assassino com sua vítima. Imaginei, depois que recebesse algumas punhaladas, as minhas vísceras saltitando pela mesa do escritório e eu, na seqüência, tentando fazê-las saltarem de volta para o meu abdômen. &#8220;Passem já pra cá!&#8221;, ordenaria a intestinos e pâncreas.</p>
<p>Pensei em escrever a cena em meu bloco de anotações, como registro de uma nova idéia para um conto - se eu escapasse com vida, é claro! - mas fiquei com medo que o invasor interpretasse meu gesto como uma tentativa de reação, pois já vi num filme de lutas marciais alguém ferir mortalmente o outro com uma caneta Bic.</p>
<p>Fiquei no dilema &#8220;escrevo, não escrevo&#8221; por alguns segundos até que pedi licença, peguei uma caneta e um bloco de notas e escrevi algumas anotações sob o olhar desconfiado do invasor. Meu lado escritor falou mais alto, embora eu mesmo me achasse bastante estúpido ao arriscar minha vida por uma inspiração. Depois, pus cada coisa de volta em seu lugar e perguntei onde tínhamos parado.</p>
<p>Ah, sim! Paramos assim: eu em pânico e ele com um punhal. Pedi calma ao invasor e disse para ele levar o que quisesse - dinheiro, objetos pessoais e contas de luz - desde que poupasse a minha vida. Se possível, deixasse também o computador, pois sem ele não poderia escrever sobre a invasão ao meu apartamento.</p>
<p>- Não está me reconhecendo, está? - disse o estranho.</p>
<p>Deveria? Provavelmente sim, mas não o reconhecia. Tinha medo de dizer que sim e, sob interrogatório, cair em contradição. Tinha medo de dizer que não e ofendê-lo por eu não ter dado a ele a mesma importância que ele me dera. Como sei que não é bom contrariar alguém armado, não disse nem sim, nem não.</p>
<p>- Não digo nem sim, nem não.</p>
<p>Ele caminhou em minha direção até entrar completamente no raio de ação da luz. Eu quis dar um passo atrás, mas fiquei encurralado pela mesinha do escritório. Tentei discretamente afastar a mesa, mas o peso do computador não deixou que ela se movesse. &#8220;Se sair dessa, juro que compro um notebook!&#8221;, prometi.</p>
<p>Precavido, tentei evitar olhar para o rosto do invasor. Não queria reconhecê-lo, para não dar motivos à minha morte, mas ele ordenou que eu olhasse em seus olhos. Quem tem uma arma, manda mais.</p>
<p>- Ainda não me reconhece?</p>
<p>Não reconheci. Fiquei alguns segundo tentando buscar sua imagem nos arquivos da minha memória, mas não soube dizer quem era. Poderia ser um colega de trabalho chateado com meu último memorando, ou talvez um flanelinha insatisfeito por ter recebido uns trocados abaixo do preço de tabela, ou ainda um atendente de telemarketing que cansou de conversar apenas com a minha secretária eletrônica.</p>
<p>Percebendo que eu não o reconheceria, se apresentou como o personagem que matara a esposa em seu sono angelical no conto que eu acabara de escrever.</p>
<p>- Não!</p>
<p>- sim.</p>
<p>- Não!</p>
<p>Sim. Procurei semelhanças e finalmente reconheci o punhal. Engraçado, não reconheci o personagem, mas sim o punhal.</p>
<p>- Você é o&#8230;</p>
<p>- Nem ao menos você sabe meu nome. Sabe por quê?</p>
<p>- Não.</p>
<p>- Você nunca me deu um nome. É sempre &#8220;ele pra cá, ele pra lá&#8221;. Nome que é bom, nada!</p>
<p>- É verdade, mas é que&#8230;</p>
<p>- Aliás, raramente você dá nomes a seus personagens, já notou?! Estamos cansados de você!</p>
<p>- Como assim &#8220;estamos&#8221;?!</p>
<p>- Por suas mãos nos tornamos assassinos, suicidas ou depressivos! Que tipo de mente doentia é a sua?!</p>
<p>Não sabia que personagens tinham sentimentos. Quero dizer&#8230; Sabia, mas achava que os sentimentos, assim como os personagens, ficavam restritos à estória.</p>
<p>Ele disse mais. Confessou que amava a mulher, mas teve que matá-la, porque eu assim o quis. Depois, olhou-me com um olhar de revolta e gritou que ela não tinha que morrer. Por fim, contou que sua esposa também o amava e a traição foi conseqüência do meu desejo.</p>
<p>Fiquei perturbado. Não sabia de nada disso. Não queria matar ninguém de verdade, nem mesmo ser responsabilizado por qualquer traição. Fazia isso, porque gostava de personagens profundamente melancólicos.</p>
<p>Estava arrependido. Mas arrepender-se não bastava, pois ainda tinha diante de mim um homem, um punhal e uma sentença de morte em meu nome.</p>
<p>Procurei ser gentil e até reconfortei meu personagem. Tratei-o como um pai trata um filho ou um criador, a sua criatura.</p>
<p>Depois de acalmá-lo, ofereci um café e prometi refazer a estória. Reverteria a morte de sua mulher e livraria os dois das cicatrizes da traição. Disse a ele que, diferentemente da vida real, na literatura tudo era possível. Eles agora seriam felizes, como são os casais num comercial de margarina. A trama ficaria sem graça, é verdade, mas o que é uma trama sem sal diante da preservação da vida?</p>
<p>Ele concordou, mas antes de me entregar o punhal, pediu-me que eu lhe desse um nome. Não apenas a ele, mas a sua mulher também. &#8220;Está bem, está bem!&#8221;, cedi. Ele apertou minha mão e, assim como veio, sumiu na escuridão.</p>
<p>Passei o resto da noite reescrevendo a estória. Não ficou a mesma coisa, mas eu até que gostei do final. Ainda guardei cuidadosamente o punhal numa gaveta, antes de seguir para a cama. Fui dormir pensando nos meus personagens e que, mesmo na ficção, os punhais não foram feitos para acordar.</p>
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		<title>Terceira infância</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/05/29/terceira-infancia/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 May 2008 03:00:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[
Conheço Cláudia há tempos. Quinze anos, pelo menos. Sou amigo e compadre de seu irmão. Aliás, já escrevi sobre ele em uma de minhas primeiras crônicas no Estradar. A crônica chama-se Canção da despedida e o amigo e compadre, Arnaldo.

Mas falo de Cláudia. Posso dizer, sem nenhum exagero, que eu a redescobri há pouco mais de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/catapora.jpg"><img class="size-full wp-image-287 aligncenter" title="catapora" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/catapora.jpg" alt="" width="300" height="213" /></a></p>
<p>Conheço Cláudia há tempos. Quinze anos, pelo menos. Sou amigo e compadre de seu irmão. Aliás, já escrevi sobre ele em uma de minhas primeiras crônicas no <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>. A crônica chama-se <a href="http://www.estradar.com/2007/08/26/cancao-da-despedida/">Canção da despedida</a> e o amigo e compadre, Arnaldo.</p>
<p>Mas falo de Cláudia. Posso dizer, sem nenhum exagero, que eu a redescobri há pouco mais de um ano. Foi quando tomei conhecimento de seu antigo blog <a href="http://uma_adoradora.zip.net/" target="_blank">Diário de uma Adoradora</a>, que ela, aliás, abandonou no dia 01 de maio de 2007.</p>
<p>Felizmente, Cláudia sempre foi irrequieta e rapidamente criou o <a href="http://ninhodaninha.blogspot.com/" target="_blank">Ninho dA&#8217;Ninha</a>, onde ela trata de coisas tão diversas quanto poesia, política, cotidiano e doideira. Muita doideira.</p>
<p>Eu, é claro, vou lá diariamente beber um pouco da sua perspicácia. De seus textos, inclusive, já saíram alguns motes para meus contos e crônicas.</p>
<p>À Cláudia, um beijo carinhoso e um agradecimento pela canja.</p>
<p>Dimas</p>
<hr /><strong>Ana</strong><strong> Cláudia</strong><strong></strong></p>
<p>&#8220;Doutor, olha essas bolhinhas que apareceram no meu braço, de ontem para hoje&#8221;. Ele olhou, olhou&#8230; Mandou que eu sentasse, examinou com olhar de curiosidade. Parecia não estar acreditando em alguma coisa que eu nem suspeitava que fosse. Mandou abrir a boca. &#8220;Ahhhhhh&#8221;. Como quem teme ser acusado de tarado, irritantemente hesitante, pediu para que eu levantasse &#8220;um pouco&#8221; a blusa para ele avaliar as bolhas que já começavam a invadir costas e barriga. Tirei logo a blusa toda.</p>
<p>- Um minuto, eu já volto.</p>
<p>Coloquei a blusa de novo e fiquei esperando. Quando o médico voltou, vinha carregando um colega. &#8220;Esse é meu colega. Ele é pediatra, você se importa que ele lhe examine?&#8221;. &#8220;Hein? Ser examinada por um pediatra? Claro que não me importo! Isso vai fazer bem ao meu currículo&#8221;, respondi. Aos 37 ser examinada por um pediatra? Hahaha&#8230; Eu sempre disse ter alma de criança.</p>
<p>Foi engraçado ver a cara do pediatra examinando as bolhas ante o olhar incrédulo do clínico. O pediatra parecia estar enxergando, em cada uma delas, o Santo Graal. Maravilhado (médico é esquisito!), ele abre um sorriso largo ao clínico e diz que as suspeitas dele estavam certas: a paciente (euzinha) está com catapora.</p>
<p>- Tá coçando?</p>
<p>- Um pouco.</p>
<p>- Começou quando?</p>
<p>- Ontem à tarde comecei a coçar o braço, mas as bolhas só apareceram agora de manhã.</p>
<p>- Catapora. Isso é catapora. Teve febre?</p>
<p>- Não.</p>
<p>- Bota o termômetro nela.</p>
<p>Lá vem o cheio-de-dedos quase tendo um troço porque teria que colocar o termômetro (obviamente) por baixo de minha blusa.</p>
<p>Enquanto passava o tempo do termômetro, expliquei ao pediatra já ter tido catapora na infância, e pelo que eu sabia, catapora só dá uma vez.</p>
<p>- Você está certa, catapora só dá uma vez. Então você está tendo pela primeira vez agora.</p>
<p>- Não senhor, eu já tive na infância. Peraí, minha mãe (que estava na sala de espera) pode confirmar para o senhor.</p>
<p>Ao meu chamado, entrou a família quase inteira no consultório. Todos confirmaram minha catapora na, digamos assim, primeira infância. E mais: meu irmão mais velho já teve catapora três vezes. Fomos ridicularizados pelos médicos. Para eles, das outras vezes foram feitos diagnósticos errados. E aí, como é que eu posso provar que eu tive o que eles dizem que eu não tive, tanto tempo passado? Sou um objeto de estudo da medicina, e os dois plantonistas dispensando esse material. Paciência.</p>
<p>O pediatra se foi, a família foi dispensada, voltei a ficar a sós com o clínico. Ele pediu então para examinar novamente minhas costas, e eu nem esperei ele pedir para levantar um pouco a blusa. Tirei. Olhou, olhou, cutucou e disse que eu poderia colocar a blusa. &#8220;E a perna, tem bolhas nas pernas?&#8221;. &#8220;Hum&#8230; pouquinho. Acho que tá começando a estourar agora, quando eu saí de casa não tinha nenhuma&#8221;. &#8220;Eu poderia&#8230;&#8221;, &#8220;Sim, sim, claro&#8221;. E desci a calça até o chão. Hahaha&#8230; O médico não sabia se chegava perto ou corria - bom, nem sou tão gostosa assim nem tão horrível assim. Acho que a timidez dele é que causou aquela suadeira.</p>
<p>Pois é, o fato é que estou com catapora. Dessa vez, exigi o exame que comprove a suspeita, para esfregar na cara do próximo pediatra em caso de reincidência. Será que vou chegar aos 50 sendo examinada por pediatra?</p>
<p>PS: acho um desperdício ficar doente quando você não precisa cumprir horário. A única vantagem de ficar doente na &#8220;terceira infância&#8221; é o atestado médico para justificar a falta ao trabalho. Infantilidade? Oras, estou com catapora, você queria o quê?</p>
<blockquote><p><strong>Ana Cláudia Nogueira</strong> é jornalista e escreve periodicamente no <a href="http://ninhodaninha.blogspot.com/" target="_blank">Ninho dA&#8217;Ninha</a>, seu blog pessoal.</p></blockquote>
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		<title>Mar adentro</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/05/26/mar-adentro/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 May 2008 03:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Tristeza não tem fim]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

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		<category><![CDATA[romance]]></category>

		<category><![CDATA[texto]]></category>

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		<description><![CDATA[[MEDIA=78]
É doce morrer no mar (Dorival Caymmi)


Dimas Lins

Lançar-me-ei ao mar. Arremessarei meu corpo do penhasco mais alto que houver e, ao cortar o vento, descreverei um pequeno arco até colidir com o oceano.

Ao tocar em suas águas, não pedirei clemência nem lutarei por mim. Ao contrário, provocarei a sua impaciência movendo freneticamente braços e pernas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/mar.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-285" title="mar" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/mar.jpg" alt="" width="310" height="250" /></a>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">É doce morrer no mar (Dorival Caymmi)</span></p>
<div><strong></strong></div>
<p><strong>Dimas Lins</strong></p>
<p>Lançar-me-ei ao mar. Arremessarei meu corpo do penhasco mais alto que houver e, ao cortar o vento, descreverei um pequeno arco até colidir com o oceano.</p>
<p>Ao tocar em suas águas, não pedirei clemência nem lutarei por mim. Ao contrário, provocarei a sua impaciência movendo freneticamente braços e pernas deixando que ondas furiosas me empurrem para baixo.</p>
<p>Submerso, meu corpo franzino permitirá ao mar beber-me em pequenos goles. Não resistirei. Deixar-me-ei sorver lentamente e de suas águas beberei também. Gritarei com furor para que, por minha boca, passe todo o sal. Inundarei meus pulmões e asfixiarei a saudade de um amor tragado pelo oceano.</p>
<p>E se de mim o mar for piedoso e tentar me levar de volta à superfície, agarrar-me-ei aos corais até que o fim aconteça.</p>
<p>Só assim meu corpo flutuará sem vida e eu estarei em paz.</p>
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		<title>Trapézio</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/05/22/trapezio/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 May 2008 03:00:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Meus caros amigos]]></category>

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		<category><![CDATA[trapezio]]></category>

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		<description><![CDATA[

Josias, meu dileto amigo Geó, já esteve antes no Estradar. Entretanto, nas ocasiões anteriores ele apareceu como inspiração para as crônicas Conversando na mesa do bar e Vocação.

Agora ele volta. Mas volta como de fato é: um poeta de grande sensibilidade e valor. E, talvez por isso, eu economize as minhas palavras, para rapidamente dar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/trapezio.jpg"><img class="size-full wp-image-282 aligncenter" title="trapezio" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/trapezio.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a></p>
<blockquote><p>Josias, meu dileto amigo Geó, já esteve antes no <a href="http://www.estradar.com/">Estradar</a>. Entretanto, nas ocasiões anteriores ele apareceu como inspiração para as crônicas <a href="http://www.estradar.com/2007/12/20/conversando-na-mesa-de-bar/">Conversando na mesa do bar</a> e <a href="http://www.estradar.com/2007/12/20/conversando-na-mesa-de-bar/">Vocação</a>.</p>
<p>Agora ele volta. Mas volta como de fato é: um poeta de grande sensibilidade e valor. E, talvez por isso, eu economize as minhas palavras, para rapidamente dar vez às suas.</p>
<p>A Geó, o abraço de sempre.</p>
<p> <span style="font-size: 18pt; font-family: "><span style="color: #333333;"><span style="font-size: 18pt; font-family: "><span style="font-size: 18pt; font-family: "><span style="font-size: 18pt; font-family: 'Brush Script MT';">Dimas</span></span></span></span></span></p></blockquote>
<div> </div>
<div>
<hr /></div>
<div><strong>Josias de Paula Jr.<br />
<hr /></strong></div>
<div><strong><br />
</strong></div>
<p style="text-align: center;">Solto no incerto,</p>
<p align="center">salta.</p>
<p align="center">Mãos no vazio,</p>
<p align="center">nada por chão.</p>
<p align="center">Antes do encontro esperado</p>
<p align="center">e redentor,</p>
<p align="center">um salto mortal.</p>
<p align="center">Seria ilusão de vista</p>
<p align="center">o ato do trapezista?</p>
<p align="center">Voa,</p>
<p align="center">ausente de tato.</p>
<p align="center">Perfaz um arco descendente,</p>
<p align="center">cai -</p>
<p align="center">descuidado qual estrela cadente?</p>
<p align="center">Seguem segundos,</p>
<p align="center">surdos.</p>
<p align="center">Frêmitos mudos.</p>
<p align="center">A vida jogada ao acaso,</p>
<p align="center">sustida pelo hábito.</p>
<p align="center">Tocam-se mão e madeira: aplausos.</p>
<p align="center">Segue o show, muda-se o palco.</p>
<p align="center"> </p>
<p align="center">Na platéia, eu, com a alma contida,</p>
<p align="center">Percebi no espetáculo minha vida.</p>
<blockquote><p><strong>Josias de Paula Jr.</strong> é sociólogo e escreve para o <a href="http://inscritosempedra.blogspot.com/" target="_blank">Inscritos em Pedra</a>, seu blog pessoal.</p></blockquote>
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		<title>Cisco no olho</title>
		<link>http://www.estradar.com/2008/05/19/cisco-no-olho/</link>
		<comments>http://www.estradar.com/2008/05/19/cisco-no-olho/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 19 May 2008 03:00:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Dimas Lins</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Tiquinho de nós]]></category>

		<category><![CDATA[cisco]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

		<category><![CDATA[escrever]]></category>

		<category><![CDATA[escritor]]></category>

		<category><![CDATA[leitura]]></category>

		<category><![CDATA[literatura]]></category>

		<category><![CDATA[livro]]></category>

		<category><![CDATA[olho]]></category>

		<category><![CDATA[Renato Russo]]></category>

		<category><![CDATA[romance]]></category>

		<category><![CDATA[solidão]]></category>

		<category><![CDATA[tristeza]]></category>

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		<description><![CDATA[
 


[MEDIA=77]
Olhozinho - Rita Ribeiro (Zeca Baleiro)

Dimas Lins

Digam o que disserem, o mal do século é a solidão.
 Renato Russo

Não gosto da solidão. Tenho medo da solidão. Tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado. Tenho medo de não ter quem chore por mim, quando eu der o meu derradeiro suspiro.

Não bastasse a infinita tristeza em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/olho.jpg"></a></strong></p>
<p><strong></strong><a href="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/olho.jpg"></a> </p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-278" title="olho" src="http://www.estradar.com/wp-content/uploads/2008/05/olho.jpg" alt="" width="310" height="243" /><br />
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: xx-small;">Olhozinho - Rita Ribeiro (Zeca Baleiro)</span></p>
<hr /><strong>Dimas Lins</strong><br />
<hr />
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><em>Digam o que disserem, o mal do século é a solidão.</em></p>
<p style="text-align: right;"> Renato Russo</p>
</blockquote>
<p>Não gosto da solidão. Tenho medo da solidão. Tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado. Tenho medo de não ter quem chore por mim, quando eu der o meu derradeiro suspiro.</p>
<p>Não bastasse a infinita tristeza em meu peito, passei boa parte do fim de semana com um cisco no olho esquerdo. No começo, achei que fosse uma bobagem, um grânulo qualquer. Por isso, não dei a atenção merecida. Mais tarde, a dor intensa e pulsante me obrigaria a mudar a atitude.</p>
<p>Já era madrugada do domingo, quando reconheci que não dava mais para ignorar a sensação de arranhão na córnea. Enfim, levantei da cama e segui para o banheiro disposto a retirar o cisco e acabar com o sofrimento.</p>
<p>Como primeiro recurso, abri um vão entre a pálpebra e o globo ocular, para deixar escapar o corpúsculo infiltrado em meu olho. Não adiantou. Em seguida, gotejei soro fisiológico sobre a superfície irritada, mas isso também não funcionou. Já cansado, resolvi mergulhar o olho em um recipiente com água. Meu olho esquerdo quase morreu afogado, mas o cisco persistiu.</p>
<p>O sol já visitava a minha varanda, quando joguei todas as fichas numa última tentativa. Ocorreu-me que, se eu chorasse, o fragmento invasor talvez pudesse ser expelido pelas lágrimas. Bastava me concentrar em algo muito triste que a secreção límpida, incolor e salgada faria o resto. Pensaria em minha solidão, que sequer me permitia ter alguém por perto para soprar o meu olho num momento assim.</p>
<p>O choro veio fácil. Difícil mesmo foi conter as lágrimas depois. Contudo, o cisco permaneceu onde estava. Pior. A dor aumentou e a sensação incômoda passou também para o olho direito. Não sabia que um cisco poderia se espalhar de um olho para o outro, como uma doença contagiosa. Talvez esse tenha sido o primeiro caso na história da medicina.</p>
<p>Não quis mais arriscar. Dei-me, enfim, por vencido e resolvi seguir para alguma emergência oftalmológica.</p>
<p>Quando cheguei ao hospital, não havia mais ninguém, além dos funcionários. &#8220;Uma vez sozinho, sempre sozinho&#8221;, pensei. Ainda assim, não sei por qual motivo, tive que aguardar.</p>
<p>Já no consultório, a doutora mal me olhou nos olhos, o que achei um contra-senso, dada a sua especialidade médica. Ela parecia com sono e devia estar aborrecida por ter sido acordada no fim do seu plantão. Egoísta, pensei que minha dor vinha em primeiro lugar. Recusei, em seguida, julgar a mim mesmo como alguém que só pensa em si. &#8220;Já tenho sentimentos de culpa demais!&#8221;, sentenciei. Pois é. Não bastasse a solidão, ainda sofro com sentimentos de culpa. Por isso, nem bem se passaram alguns segundos e eu já havia reprovado meu pensamento, contraindo assim uma nova culpa, um novo tormento. Sou assim mesmo, sinto culpa até onde não há culpa para sentir.</p>
<p>Afetivamente carente e carregando um novo peso na minha mente conturbada, procurei diminuir a habitual distância entre médico e paciente. Busquei seu nome no crachá e tentei ser simpático, apesar dos olhos inchados.</p>
<p>- Leila! Bonito nome.</p>
<p>Ela sorriu apenas por educação e voltou às suas anotações. Por certo, estava mais preocupada em executar os procedimentos médicos de rotina, voltar para a cama e aguardar o fim de seu plantão. Talvez, em casa, tivesse um filho e um marido a sua espera. Por que haveria de perder seu tempo comigo? Eu, ao contrário, tinha apenas a solidão como companheira e me socializava não apenas por educação, mas por necessidade do espírito. Senti pena de mim mesmo por mendigar afeição numa emergência hospitalar.</p>
<p>Ela me conduziu à cadeira oftalmológica e pediu que eu encostasse o queixo no aparelho posicionado à minha frente. A doutora observou meus olhos e pareceu surpresa com o que viu. Perguntei se havia muitos grânulos e ela balançou a cabeça negativamente. Certamente havia algo em meus olhos, ela só pareceu espantada demais para dizer o que era.</p>
<p>Tive medo das possibilidades. A convivência com a solidão me deixou com pânico de doença, pois, como disse antes, tenho medo de morrer sozinho, como um cão abandonado.</p>
<p>Olhos mais abertos pela superação do sono, a doutora tornou a observar meus globos oculares. Alguns minutos depois, ela levantou e me abraçou emocionada. Não disse uma palavra. Apenas me abraçou.</p>
<p>Chorei. Choramos. Perderia a vista, certamente. Quem sabe um câncer comeria meus olhos e depois se espalharia por todo o meu corpo. Apesar do medo, me senti reconfortado pela humanidade pouco usual de uma médica de plantão.</p>
<p>Enchi o peito de coragem e perguntei finalmente se ficaria cego. Ela disse que não. Morreria, talvez? Tive outra resposta negativa. Fiquei sem compreender.</p>
<p>De fato, tudo começou a ficar claro, quando ela começou a retirar os grânulos dos meus olhos. Em verdade, não eram ciscos, mas fragmentos da minha própria vida que estavam presos em minhas retinas. Cada pedaço retirado fazia surgir imagens da minha infância, adolescência e vida adulta.</p>
<p>Ri com algumas coisas e me entristeci com tantas outras. Reconheci a mim mesmo no menino inseguro, no rapazinho sem jeito com as mulheres e no homem solitário e infeliz. Vi meu casamento e minha separação se espalharem pelo consultório. Vi mais. Vi a última conversa que tive com a minha filha. A nossa briga, as palavras duras que dissemos um para o outro e a sua saída de casa. Dez anos de silêncio e solidão se passaram desde então.</p>
<p>A doutora passou as mãos pelos meus cabelos, como uma velha amiga, e me aconselhou a ligar para a minha filha. Enxuguei as lágrimas e peguei o telefone. Para mim, chegava o tempo do perdão.</p>
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