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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Capela Dourada

Roque Braz

Quando nada mais resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E, quando nada mais interessar

(Nem o torpor do sono que se espalha),
Quando, pelo desuso da navalha,
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar,
Deixando-te sozinho na batalha
A arquitetar na sombra a despedida
Do mundo que te foi contraditório,
Lembra que, afinal, te resta a vida
– Com tudo o que é insolvente e provisório –
E que ainda tens uma saída:
Entrar no acaso e amar o transitório.


A Solidão e sua porta, de Carlos Penna Filho

Estava entre ligar o som do carro ou apenas ouvir o barulho da rua, o ruído dos motores. Indo pro trabalho, “às tantas da manhã”, o vidro aberto por aproveitar o benefício do sol àquela hora, os olhos imprecisos resguardados pelos óculos escuros. Uma sombra de árvore, um muro pintado de hera, o sinal verde fechando, os carros se enfileirando lentamente.

Não era dia de jogo; nenhuma bandeira do Santa Cruz, do Náutico ou do Sport pendia do teto de algum automóvel na manhã quase sem brisa. Nada prenunciava uma alegria para o momento nem para logo mais. Sinal fechado, carros parados, carros parando, longa fila se formava. Era de crer na existência de algo além do sinal fechado a impedir o trânsito. Cedinho, chovera bastante. Agora fazia pouco sol.

O olhar impreciso flutuava sobre todas as coisas, até que atracou num perfil familiar no veículo ao lado. Ancorou ali e ficou a perscrutar. De repente, do fundo do mar de esquecimento, veio à tona da luz do lampejo da memória toda a história que o delineamento daquele perfil fazia contar outra vez. Ante a visão inesperada, o susto; ante o susto, o retraimento, como a tentar esconder a própria imagem, embora não soubesse exatamente o porquê daquela reação. Talvez o receio de ser flagrado ali, olhando para ela sem lhe dirigir a palavra depois de tanto tempo… Era ela, sim. Aquele perfil inconfundível, tão conhecido e amado outrora.

O perfil foi tomando feição nova e, daquelas linhas, outra imagem surgiu e tentou suplantar aquela visível, real, tão viva ali ao meu lado. Uma sensação alucinante percorria meus nervos e as imagens se mesclavam e separavam e confundiam. O embate foi curto e venceu o rosto novo que não estava em perfil no carro ao lado do meu, mas, tão somente na minha cabeça.

Ficou diante dos meus olhos, sorrindo com toda a graça. Era ela (e não a do carro ao lado) que fazia passeios pelo Cabo de Santo Agostinho. Contou que muitas vezes tomava um ônibus e ia para Suape ou outra praia distante. Ficava tardes inteiras contemplando a beleza do lugar, olhando o mar até o sol sumir… Ou ficava rodando pelas várias pontes da cidade… Telúrica; eu, nefelibata. Ficou de me levar num desses passeios. Um comprometimento e um sonho tão grandes que nunca aconteceu. Falava essas coisas com o sorriso mais natural do mundo. A doçura da voz com sotaque de carioca que era e jovialidade de moça que mostra os dentes perfeitos do magnífico sorriso e convida para um passeio que, antes de ser sensual, é para fazer turismo numa igreja do centro da cidade. Capela dourada do convento de São Francisco. No centro do Recife, na Rua do Imperador.

Normalmente nos encontrávamos à noite, no campus universitário…

– Parabéns pelo nascimento do seu filho! Alguém disse e me abraçou com grande entusiasmo.

– Seu filho nasceu hoje?!

– Você viu os parabéns; é o primeiro.

– Ah, que lindo! Disse e me beijou a boca com sofreguidão de parabéns, carinho e sensualidade.

Fiquei desconcertado. Não esperava o beijo; principalmente como afago pelo nascimento do meu filho. Mas gostei muito. Meu sangue recifense empederniu-se e derreteu no mesmo instante e lá se foi desvairado em busca de misturar-se ao daquela criatura tão bela, com aqueles longos cabelos louros escorrendo até a cintura. Cintura que, no arrebatamento daquele instante, tornei a abraçar e puxar ao meu encontro para novo beijo. Descobrimos ali que esse era o nosso desejo desde o dia em que nos conhecemos.

Manuel, um tipo exótico metido a teatrólogo e cineasta (no melhor sentido possível), que, apesar de muito jovem, usava uma espécie de barbicha e bigodes que teimava em dar voltinhas nas pontas, foi quem nos apresentou. Eram três: ele, ela e uma outra amiga, também loura. Todos muito sorridentes. Percebemos muitas afinidades entre nós. Faziam teatro, além de estudar.

– E você; faz o quê?

– Sexo. Muito sexo, respondi.

– Estou falando de coisa produtiva, disse com uma entonação linda e sem perder a pose.

– Mais produtivo do que sexo, impossível! Tome como exemplo os animais em extinção!

– No mundo das artes, então, alguma coisa? Manuel disse que você é poeta, entre outras qualidades.

– Outros defeitos, você quer dizer, minha querida, outros defeitos…

– Você, que é poeta, acha que ser poeta é defeito?

– Quando dizem que sou poeta, fico com medo da maldição.

– Maldição?!

– Vou contar uma história que ouvi de uma antiga namorada: o poeta chega para a namorada e diz “Você já disse aos seus pais que sou poeta?”, “Não; disse só que você é alcoólatra e desempregado; temos que ir devagar com meus pais”.

Ela me abraçou em crise histérica de riso. Era linda. Sorria como se fizesse carinho e olhava como quem beija. Angélico seria insuficiente para qualificar seu rosto.

Passamos a nos ver várias vezes por semana. Vinha com Manuel e a amiga ou apenas com Manuel e me arrancava da sala de aula com a simples aparição. A noite virava, então, um barzinho e muita conversa com cerveja e ditos espirituosos. “A frase que tem o mesmo sentido lendo do começo para o fim e do fim pro começo é um anagrama?”. Respondi: “Não, Manuel, isso que você falou se chama palíndromo. Uma na grama é quando a gente não tem uma cama por perto, aí a gente dá uma na grama mesmo”. Ela se derramava em riso até as lágrimas, caindo sobre meu ombro.

Certa vez me ligou cedinho e combinamos um encontro à tarde, no campus. Quando nos encontramos, pedi para passarmos num churrasco na mesma Cidade Universitária, numa casa em que se encontrava uma amiga. Lá, a amiga me recebeu com um demorado beijo na boca. Ela não gostou; via-se no seu rosto. Sorriu secamente quando a amiga, falando comigo e olhando para ela, elogiou sua beleza. Estava deslumbrante. Vestia saia longa até o meio da perna, tecido fino que caía muito bem sobre o corpo e realçava os contornos da cintura e dos quadris. Uma blusa curta, justa, expondo o umbigo perfeito e os suaves músculos divisórios da barriga aveludada pela penugem dourada. Percebi seu desagrado e, abraçando-a, beijei-a com extremo carinho. Saímos. Não fez qualquer comentário.

Alguns dias depois, por telefone, disse que queria me ver; que tinha algo a me dizer. Combinamos de nos encontrar à tardinha, no campus. Fui ao local combinado, ela não estava. Deixou recado com um nosso colega sobre onde encontrá-la. Quando nos encontramos, fomos, a seu pedido, ao Centro de Artes. A noite caía e não falou o que tinha a dizer.

Voltávamos do Centro de Artes na direção da Casa do Estudante quando principiou uma chuva fina, muito fina, e nós, de braços dados, caminhávamos lentamente como se a chuva fosse composta de minúsculos raios de sol. A cor da noite se derramara em todos os cantos da paisagem. Olhei ao redor; ninguém à vista. Prendi ainda mais seu braço contra meu corpo e me dirigi, pisando na grama, a uma das árvores que margeiam a calçada e a pista.

Recostada na árvore, entregou-se com avidez e carinho ao meu apelo sensual. Tentei puxá-la para o chão, mas me afastou suavemente e, olhando nos meus olhos, deitou-se devagar na grama, estendendo completamente a perna direita e deixando a esquerda arqueada, numa pose linda naquele ambiente um tanto escuro. Seus cabelos ainda não estavam completamente molhados e se entreabriram, fazendo emergir a testa redonda, pequena, compondo o arremate para aquele rosto perfeito.

Em sintonia com sua suavidade, levantando seu corpo aqui e ali, consegui estender a camisa sob o seu dorso. Puxou, então, o vestido até a altura dos seios e me sorriu o mesmo sorriso de sempre: aquela imagem que mais parecia um indulto à felicidade. Desnudei-lhe por completo a parte de baixo e contemplei, naquela pouca claridade, sua forma belíssima de corpo feminino. Entrei, por fim, com todo o desvelo, na concretude daquele sonho.

Seu corpo estremecia de quando em quando e eu podia sentir sua pele arrepiar-se, enquanto seus pequenos vagidos de gata no cio me arrebatavam toda a lucidez. Não dá para saber quanto tempo estivemos ligados naquele movimento que torna macho e fêmea inerentes. Ela era, ali, bem mais do que eu imaginara em todas as vezes que a lembrança me trazia sua imagem e me fazia mergulhar na fantástica ilusão de possuí-la.

Mordeu com mais força meu lábio inferior, enquanto se agitava nos estertores máximos do prazer. Do canto esquerdo do seu olho esquerdo, uma lágrima rolou e se perdeu no cabelo úmido. Olhando sempre nos meus olhos, prendeu minha língua nos seus dentes e pôs as mãos nas minhas nádegas de forma a controlar os quadris. Começou, então, a comandar meus movimentos. Sua língua brincava com a minha, que permanecia presa entre os seus dentes. Suas mãos me faziam recuar e avançar de acordo com sua vontade. Suas unhas machucavam de forma agradável minhas nádegas.

Fez um vaivém cada vez mais acelerado e me abraçou fortemente quando sentiu que meu corpo finalmente tombava sobre o seu, com a vitalidade derretida na seiva que ela recebia com semblante de extremo prazer e carinho. Estivemos quietos durante algum tempo, recuperando a respiração. Ela me sustinha abraçado ao seu corpo.

Foi muito divertida a recomposição das roupas. O vestido era marrom, portanto não apresentava senão uma mancha na altura do tórax. A Casa do Estudante parecia indiferente, com suas janelas abertas e iluminadas. Afora o ruído dos carros ao longe sobre o viaduto, tudo era silêncio.

Estávamos úmidos da chuvinha que não cessava. Ela parecia encarar com naturalidade o fato de estar molhada e até um pouco amarrotada e suja. Caminhamos abraçados até a parada de ônibus. Tomou um ônibus e fiquei aguardando o meu. Não me lembrei de perguntar o que tinha para me dizer, também nada falou.

Desde que se fora no ônibus, não mais nos vimos. Não tinha seu telefone, não sabia onde morava, era sempre ela quem ligava ou ia ao meu curso. Dias depois encontrei Manuel e perguntei por ela.

– Ela não falou, não?

– Não, o quê?

– Ela foi pro Rio de Janeiro.

– Como “pro Rio”? Foi embora?

– Não sei. A gente andava muito junto por conta da faculdade e do teatro… Vida privada é outra história.

Fiquei desolado. O que ela quis me dizer? Que ia pro Rio?

– Ela não lhe disse nada mesmo, Manuel?

– Nada. Calma, meu filho, ela é assim mesmo, de lua. Daqui a pouco aparece de novo… Agora, me diga uma coisa: você está apaixonado?

– Vá pra lá com seu teatro, Manuel!

– É fácil se apaixonar por uma criatura linda e doce daquelas, né-não? Disse isto sorrindo por trás dos óculos de moldura preta e lentes grossas, fazendo uma cômica espiral no canto direito do bigode.

Durante algum tempo assediei Manuel em busca de notícias. Nada. Depois de alguns meses já quase não o via. Uns dois anos depois, ele me abordou e me deu o telefone dela. Liguei naquela mesma tarde e uma voz que se identificou como “tia” disse que ela não estava. Pediu para ligar à noite. À noite foi ela quem atendeu. A mesma voz doce, subtraído o antigo entusiasmo. Supus que era o fato de não poder falar claramente comigo. Combinamos encontro para dali a dois dias.

Cheguei mais cedo ao local combinado. Estava um pouco ansioso. Ela apareceu logo depois e não me beijou na boca como se tornara praxe depois do nosso primeiro beijo. Recebi um beijo carinhoso na testa.

Sentada, pediu um suco. Falamos pouco e parecia que evitávamos falar do nosso último encontro. Após o suco, chamou para sair, dizendo que de onde estávamos até a Rua do Imperador era perto; dava para ir a pé.

– Vamos à Rua do Imperador? Que vamos fazer lá?

– Você já visitou a Capela Dourada? Abriu o lindo sorriso ao perguntar.

– Capela Dourada? Nunca ouvi nem falar.

– É um lugar lindo! Lembra que você apelidou meus passeios de “passeios de fadário”? Vamos fazer um passeio de fadário…

– Não quero bancar o erudito, mas a palavra fadário é dúbia e até mesmo capciosa. E foi exatamente por isto que a empreguei acerca dos seus passeios…

– É claro que percebi; achei, inclusive, que você tinha acertado em cheio no nome escolhido. E é “exatamente por isto” que vamos à Capela Dourada.

Caminhamos sorridentes entre gracejos e pequenos encontrões dos ombros. Tentei o mais que pude arrancar-lhe aquele sorriso de entrega, de convite, que a tornava deslumbrante. Continuava muito bonita e o seu sorriso mantinha o traço original que me fez enlouquecer desde o primeiro dia.

Chegamos. A Capela Dourada da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, que também recebe o nome de Capela dos Noviços, fica na Rua Imperador Pedro II, no Bairro de Santo Antônio. Foi construída em 1697; é “uma das mais expressivas representantes da arte barroca nas igrejas brasileiras” e o ouro é predominante em sua pintura. Muitos quilos de ouro se derramam por todas as paredes. Fiquei extasiado. Antes olhamos todas as peças do Museu Franciscano de Arte Sacra.

O convento era de um silêncio ensurdecedor. Tudo aquilo incrustado ali, na Rua do Imperador, junto ao Palácio da Justiça, com vários mendigos pela calçada, defronte à OAB, junto dos cartórios, mas um oásis de paz, de serenidade, onde parece impossível computar o tempo.

Apesar dos braços dados, não nos tocávamos. E lá ia ela a me explicar aos cochichos o que sabia e suas impressões acerca daquele paraíso perdido. Tudo na voz mais graciosa do mundo.

Com a mesma graça com que me arrastou até ali me conduziu para fora e se despediu. Vendo seu sorriso de despedida, tive certeza de que não mais a veria, a não ser por mero acaso. Na vã tentativa de retê-la mais uns instantes, perguntei o que tinha para me dizer naquele dia do Centro de Artes. Respondeu que agora era um segredo e que segredo só é segredo quando é do conhecimento de apenas uma pessoa; mais de uma é boato.

– Viu que eu também sei fazer humor? Não tão bom quanto o seu, mas, eficaz. Aliás, você sabe fazer tudo bem, inclusive amor.

– O que você quis me dizer me trazendo aqui, à Capela Dourada? Desconversei.

– Você é perspicaz. Você decifrará. Qualquer dia a gente se vê por aí, tá?

Reagi com a fragilidade grosseira dos homens, que acreditam poder resolver coisas com mulher com beijo ou uma trepada: pedi um beijo. Ela sorriu, veio ao meu encontro, beijou meu rosto, cheirou longamente o meu pescoço e se afastou acenando. Dobrou a esquina do Palácio da Justiça. Não fui atrás.

Enlouqueci. Passei dias tentando decifrar a mensagem da Capela Dourada. Pedia aos amigos para visitá-la na tentativa de traduzir o que vi, mas não entendi. Depois, pedia aos amigos para não tentar descobrir, pois tinha medo do que me fosse revelado. Também o que ela ia me dizer no dia do Centro de Artes me aturdia.

Alguns anos depois, olhando as coisas que lhe escrevi, parecia que ela nunca existiu; que imaginei tudo aquilo; que se desvaneceu na fumaça de todos os cigarros que lhe dediquei… “Fumée, rien que fumée[1]”.

O sinal abriu e aquela que estava ali, no carro ao lado do meu, cujo perfil me trouxe tanta surpresa, acelerou. Tentei acompanhar, mas, quando chegou à esquina em que ficava o sinal, dobrou à esquerda. Fui em frente e nos meus olhos começaram a se projetar novamente todas as lembranças do que também vivemos juntos. Todavia a nova história foi cortada por um pensamento que me ocorreu naquele instante: o homem conta o tempo para não ver a si mesmo; para não ver a própria condição de transitoriedade e assim poder lamentar o tempo que passou. Mas o tempo, ah, o tempo, este fica sempre no mesmo lugar (feito um pescador à beira do rio), espreitando, na celeridade das nossas vidas, a inocência de acreditarmos que ele não pára, apesar de aparentemente inalterado (feito um rio), enquanto nós é que verdadeiramente, inevitavelmente, vamos passando.


[1] Fumaça, não mais que fumaça.

Contos e crônicas de uma gente brasileira

Depois de um longo tempo, estou espanando a poeira de um antigo projeto pessoal: escrever um livro de contos e crônicas, a partir dos textos do Estradar. Para dar início a ele, contei com a colaboração de Ducaldo, amigo e leitor do blog, que fez a primeira seleção de crônicas.

A partir daí, fiz eu mesmo uma nova triagem e incluí umas coisas daqui e excluí outras coisa de lá. A bem da verdade, percebi que, como autor, sou terrível para selecionar meus próprios textos, pois termino por acrescentar mais do que retiro. Creio que o autor acaba se apegando demais ao que escreve e, talvez por isso, perca a objetividade na hora de fazer a justa seleção. As crônicas são como filhos e, assim sendo, difícil ter preferência por uma ou outra.

Após a segunda triagem, encontro-me na fase de revisão dos textos ao mesmo tempo em que sigo fazendo nova seleção da seleção. Nesta fase mais rigorosa, já retirei algumas crônicas, ainda que muito relutasse. Outras crônicas ganharam novos títulos, além de uma pinçava aqui e acolá numa e noutra frase. O livro está dividido em quatro capítulos – Nau Minha, Tiquinho de Nós, Tristeza Não Tem Fim e Divina Comédia Humana onde procuro agrupar os textos por similitude.

A próxima fase será ainda mais rigorosa, pois pretendo submeter o esboço a alguns amigos, leitores vorazes da literatura mundial, que, sem dó nem piedade, terão a missão de passar a faca e corta o que for preciso. Só aí, com o esboço final pronto, tomarei as medidas necessárias para tentar a sua publicação. Tomara que dessa revisão sobre alguma coisa.

A princípio, pretendo submeter o livro a algumas editoras, embora reconheça chances mínimas nessa tentativa. Somente no caso de insucesso, partirei então para a carreira solo e serei eu mesmo escritor, editor e distribuidor de minha própria obra. A dificuldade do mercado editorial brasileiro, em geral, impõe aos escritores iniciantes os custos de publicação e distribuição. No fim, a edição de um livro dá-se mais pelo prazer pessoal de quem escreve do que pelo interesse comercial que uma obra literária pode despertar. Bom seria juntar uma e outra coisa, mas o mundo, mesmo numa obra de ficção, é imperfeito.

Pretendo manter no título do livro os mesmos nome e sobrenome do blog: Estradar, contos e crônicas de uma gente brasileira. Ele englobará textos elaborados no período entre 19 de agosto de 2007 e 09 de maio de 2010.

Adianto ainda que já montei a idéia central de um segundo livro e aguardo apenas a conclusão do primeiro para dar início. Desta vez, trata-se de um romance, cujo tema não pretendo adiantar por enquanto.

O fato é que, de uns tempos para cá, ando numa efervescência de idéias e, aos poucos, estou tentando tirá-las – ou melhor, colocá-las – do (no) papel. E, enquanto minha Bic virtual toma agora novos rumos, preparo também para o blog uma novidade. Passo a disponibilizar na barra lateral recomendações de livros que li ou informações do que ando lendo. Afinal, a leitura é a melhor ferramenta para quem pretende escrever.

Também essa semana, torno a abrir o blog para convidados e volto a publicar um conto de outros autores.

Vamos caminhando, ainda que seja devagar, para não cansar as pernas.

O maior amor do mundo


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Água e vinho – Trio Gótico (Egberto Gismonti)

Finalmente chegamos. Tomei a dianteira e abri a porta do consultório para a minha mãe entrar. Era uma consulta de rotina para saber como andava a sua vista, agora perseguida por uma discreta opacidade do cristalino. Tratei de conduzi-la a um dos assentos da sala de espera para, em seguida, me dirigir à recepção, onde trataria da burocracia que se impõe antes de qualquer atendimento médico. Depois retornei e sentei-me ao seu lado.

Em nosso canto, me punha a assistir à TV, menos pelo interesse que a programação me despertava e mais pela falta do que fazer, enquanto mamãe acompanhava o movimento de entra-e-sai dos pacientes. O filme não prendeu a minha atenção por muito tempo e parei para observar minha mãe. Ela mantinha uma quietude pouco habitual e sua fisionomia aparentava cansaço. Embora os cabelos, sem a cor branca natural, buscassem deliberadamente enganar a idade, seu rosto e suas mãos já não disfarçavam tão bem a passagem do tempo. Apesar disso, mamãe conservava, quase intacta, a beleza da juventude.

Mamãe sorriu, tão logo segurei a sua mão. Depois iniciamos uma conversa sobre o meu avô, um homem de generosidade extraordinária e de coração bom. À medida que ela falava, eu sentia no peito, quase me sufocando, uma saudade imensa e concluía que, em vida, talvez pela exagerada juventude, não lhe dera o valor necessário. Por isso, senti nascer em mim naquele mesmo instante o medo de acontecer o mesmo em relação à minha mãe, depois que ela se for. Com ela, não haverá o conforto de pôr a culpa em minha juventude excessiva, pois, desde muito moço, trago comigo, sem deixar margens à imprecisão, a gratidão por tudo quanto ela fez por mim, mas também carrego a certeza inabalável de não ter lhe dado em retribuição nem sombra do que recebi.

Por isso, levado por uma força irresistível, lembrei-me dos tempos de criança, de meter-me em febre de quarenta graus e de tê-la ao meu lado durante toda a madrugada velando e cuidando de mim. De atravessar a cidade sobre os seus ombros, apesar do peso dos meus nove anos, em busca de um cirurgião-dentista que retirasse a raiz de um dente mal extraído, que de tanta dor mal me deixava pisar o chão. De vê-la enfrentar condições adversas para me guiar e me dar a educação que jamais tivera. De ver suas mãos divinas multiplicar o pão, como num milagre, para dar o sustento a oito filhos e a outros tantos enteados. De vê-la chorar por minhas tristezas e rir com as minhas alegrias. De senti-la amar a cada filho, acima tudo e apesar de nós.

Precisei ser pai para compreendê-la bem e aceitar que não é possível, por mais que se ame, amar como ama uma mãe. Hoje sinto o mesmo por minha filha e já amo de maneira igual o meu segundo filho, que espera no ventre de minha mulher a hora de nascer, para sentir de nós, como eu senti da minha mãe, o maior amor do mundo.

Para a minha mãe, no seu aniversário.

O pai da noiva

Efeito sobre foto: Dimas Lins
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Gente Humilde – Chico Buarque (Garoto, Chico Buarque e Vinicius de Moraes)

Nota do autor:

Volto à estrada depois de um tempo disperso para reconhecer-me, como suposto escritor, acometido de um transtorno bipolar. Transito entre duas extremidades opostas sem me fixar em nenhuma delas, pois, se há tempos escrevia crônicas em tons mais leves, carrego um pouco mais nas tintas e retorno ao início do Estradar, para tentar me reencontrar com as dores da alma humana mergulhadas no mar profundo, onde a tristeza não tem fim.

Dimas Lins

Seu Antônio chegou à igreja pouco antes do início da cerimônia. Corpo levemente arqueado, ele subiu a escadaria com seus passos lentos e atravessou o átrio até a entrada principal. Seus olhos evitaram encontrar outros olhares, pois a sua criação entre gente tão humilde nunca o fez se sentir à vontade perto de homens de paletó e de outros doutores. Seu Antônio nem percebeu, mas não carecia o excesso de zelo, já que ninguém dera importância à sua presença. Suas roupas simples, suas mãos espessas e endurecidas e sua genética cabocla o tornavam praticamente um homem invisível diante da sofisticação, da alvura da pele e da elegância dos convidados.

O velho cruzou a entrada principal, tirou o chapéu e depois virou à esquerda, esquivando-se das pessoas à sua volta. Deteve-se ao lado de um imenso ornamento de flores e permaneceu em pé, no fundo da igreja, apesar dos seus sessenta e oito anos. Por fim, sacou do bolso da camisa um lenço branco e levou-o ao rosto, enxugando as gotículas de suor que se animavam a brotar de sua testa.

Enquanto aguardava o início da cerimônia, Seu Antônio sentia-se encolhido diante da suntuosidade da igreja, de suas pedrarias, imagens e arranjos. Tudo era bastante diferente da capela onde ainda hoje, num gesto de fé, costuma, em preces, elevar o pensamento a Deus. Lá, o mármore não arrodeia a meia altura as paredes internas, nem o piso, quase cristalino, o faz enxergar, ainda que com algum esforço, o seu próprio reflexo. Como homem iletrado, não ousava tentar compreender os desígnios do Nosso Senhor, nem Seus intentos em possuir uma morada tão rica na cidade e outra tão pobre no campo. Porém, considerou que a sabedoria do Pai Celestial, por certo, não desejaria chocar, com toda a sua grandeza, a gente simples lá da roça que, por sua própria deficiência, só aprendera nessa vida a lidar com bicho e terra.

Mas se por um lado o esbanjamento de Deus em sua casa na cidade o deixava deslocado, por outro, atentava que a abundância de coisas caras e finas certamente faria parte da nova vida de sua filha mais moça e a agradaria sobremaneira, já que ela nunca fora afeita a viver à míngua e por muitas vezes maldisse pai e mãe por trazê-la a um mundo tão duro e escasso de esperanças.

Seu Antônio saiu de viva inquietude, quando a música anunciou a entrada da noiva. Todos os presentes ficaram de pé e fecharam involuntariamente o seu campo de visão. Por isso, viu-se forçado a avançar em direção à barreira humana, mas, ao alcançá-la, desistiu de tentar superá-la, pois mais uma vez fora contido pela timidez. Ainda assim, pôde ver, com alguma dificuldade, a sua filha metida num lindo vestido branco, com a cabeça coberta por um tecido finíssimo e segurando um enfeite de flores de uma cor rosa muito suave e de folhagens entrelaçadas. Ela avançava em passos pausados e de braços dados com um cavalheiro distinto, a quem Seu Antônio nunca vira antes, mas que agora ocupava o seu lugar.

Foi só na véspera do casamento que a filha anunciou ao pai que entraria na igreja ao lado de outro homem, um tio do noivo que, segundo ela, estava mais habituado às convenções e etiquetas sociais. Seu gesto – justificou – o pouparia do risco de embaraços diante de toda aquela gente estranha, mas atadas à rigidez de costumes requintados, típicos da aristocracia. Seu Antônio fingiu compreensão e aceitou, envergonhado, que lhe fosse retirado o direito natural de levar a filha até o altar. Mesmo assim, sentiu, com rara tristeza, a opressão do sentimento penoso de inferioridade que sua filha lhe impusera.

Seu Antônio acompanhou com os olhos todo o trajeto dos dois e viu o estranho entregá-la, num gesto simbólico, ao noivo. Enterneceu-se com a amabilidade do rapaz ao tomá-la em seus braços e considerou que ela estava em boas mãos. No derradeiro ato, chorou sinceramente ao ouvi-la dizer o sim e trouxe aos olhos opacos o mesmo lenço que enxugara a sua fronte. Depois partiu, antes do fim da cerimônia, com a certeza de que morrera em vida para a filha e que a morte real, ao menos, poupara a sua mulher de sentir tamanha humilhação.

Um dia perfeito

Há dias que são perfeitos.

Num dia assim, eu não trabalho. E muito embora me disponha a ficar na cama por mais tempo, não me demoro deitado. Ainda é cedo, mas minha filha não pensa assim. Antes das seis da manhã, ela caminha decidida em direção ao meu quarto e bate na porta com a força máxima de suas mãozinhas pequenas e delicadas. Diante da minha demora em atender ao seu justo pleito, ela grita de lá em clara demonstração de impaciência. Meio acordado, entre tantas palavras ininteligíveis, sou capaz de distinguir algumas frases inteiras como “abre a porta, papai!” ou “acorda, mamãe!”. Quando enfim minha esposa se levanta e remove o obstáculo que nos separa, ela sorri com satisfação e a abraça com vontade.

Ainda deitado, ouço os seus passinhos ligeiros vindo em minha direção e me preparo para a sua chegada. Ela agarra, puxa, estica e solta a minha máscara de dormir – recurso comum para quem não consegue manter-se em sono regular sem proteger a visão do mais ínfimo vestígio de luz – contra o meu rosto e me intima, com a voz estrídula, a retirá-la sem demora. “Tire, papai, tire!”. Obedeço a sua ordem cândida, mas ela não se satisfaz por inteiro. Em seguida, a menininha pega os meus óculos na mesinha de cabeceira, marcando as lentes com seus dedinhos minúsculos, para me dar a segunda ordem do dia: “bote, papai, bote!”. Para a minha filha, eu não sou eu sem os óculos. Depois, ela me abraça, recosta a sua cabeça na minha perna, repousa seus bracinhos sobre mim e espera que eu a beije. Num dia perfeito é assim. Se me demoro, ela me ordena “beije, papai, beije!”.

Sou um homem de família num dia perfeito. Daqueles que tomam café ao lado da mulher e bota na mesa uma conversa boa já bem cedinho, enquanto devora uma tapioca com coco e queijo. E sou marido, pai, filho, irmão, tio, sobrinho e amigo em tempo integral. Sou um por todos e todos por um. E gosto do abraço, do aperto de mão e da palavra escrita, falada ou cantada.

Na noite de um dia perfeito também tem futebol. E a gente torce, e vibra, e grita gol. E vence, mesmo que aos quarenta e quatro do segundo tempo, porque num dia perfeito a gente merece ser feliz.

Nota do autor:

Publicado simultaneamente com o Torcedor Coral, meu blog sobre um amor incomensurável chamado Santa Cruz.

De tempos em tempos

A última vez que eu publiquei um texto aqui no Estradar foi em 09 de fevereiro, portanto, há quarenta e quatro dias. Se eu ganhasse a vida como escritor, já teria morrido de fome. Não conheço nenhum compositor literário que escreva tão esporadicamente quanto eu. Meu nome deve estar no livro dos recordes, imagino.

No final do ano passado, estive numa palestra de Raimundo Carrero e ele foi enfático ao dizer que o faz o escritor é o treino. Tem de haver, é claro, um mínimo de talento e um pouco de conhecimento da língua, mas é a prática que transforma a capacidade inata ou adquirida em realidade. Para ele, esse negócio de inspiração é conversa fiada. Noventa por cento do trabalho é transpiração. Escritor tem que suar – e muito – a camisa. Carrero foi além. Disse que, apesar do glamour que a mídia reveste os grandes escritores, ele é um operário como outro qualquer. Precisa cumprir horário e atingir metas e objetivos.

Certa vez, li uma entrevista de outro grande escritor – Luiz Fernando Veríssimo, salvo engano – que defendeu a mesma tese. Veríssimo – partindo do pressuposto que teria sido mesmo ele – declarou que é preciso escrever mesmo quando não há vontade ou disposição. Depois resumiu que a escrita nada mais é do que o resultado do exercício diário.

Ando longe da habitualidade – e do talento, obviamente – de Raimundo Carrero e Luiz Fernando Veríssimo. Não é à toa que eles ganham algum dinheiro com literatura, enquanto eu ainda sonho em lançar meu primeiro livro. Ainda assim, juro que já fui mais pontual. Aqui no Estradar, por exemplo, comecei escrevendo de dois a três textos por semana, mas, com o tempo, minha produção caiu para um. Depois, já pelo meio do ano passado, nem isso. O interessante é que, além do Estradar, escrevo em outro blog, o Torcedor Coral, até mais antigo, cuja habitualidade mantenho intacta. De tanto pensar na razão desta discrepância entre um e outro blog, cheguei a uma conclusão. A explicação é complexamente simples. Em primeiro lugar, embora eu seja o editor do Torcedor Coral, tenho compromisso com outros amigos que também assinam seus textos naquele espaço virtual. Dessa forma, não dá para pedir que outros escrevam, enquanto eu durmo em berço esplêndido. Compromisso aqui é a palavra chave. Em segundo, é bem mais fácil escrever sobre o dia-a-dia de um clube de futebol ou mesmo sobre o cotidiano de seus torcedores do que elaborar um texto ficcional.

Mas também há outra verdade que segue na direção contrária. Tenho mais prazer em escrever aqui do que em outro lugar. O motivo é ainda mais simples. Gosto da liberdade de criar, sem precisar ser fiel ao mundo real. Também tenho verdadeira atração pelo encadeamento da narrativa e pela construção dos personagens.

Mas se é assim, então por que só escrevo de tempos em tempos e me falta a habitualidade no Estradar? Bem, para essa pergunta ainda não tenho uma resposta. Sei apenas que não posso mais ficar aqui sentado à beira do caminho, pois é preciso seguir adiante.

Por isso, volto. Volto sem a promessa que daqui pra frente tudo vai ser diferente. Doravante, assumo compromisso apenas com o prazer de escrever. Enquanto ele estiver comigo, eu estarei por aqui e, espero, os leitores também.