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Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Amor e paixão: a velha dupla que nunca fará as pazes

Amor

Kalina Paiva

Aos 32 anos, cheguei à conclusão: eu nunca amei ninguém! Pois é, se você ficou admirado (a), leitor(a), com o que leu aqui, lamento decepcioná-lo, mas nunca amei de verdade. Cazuza também disse isso em uma canção e ninguém o levou a sério. Certamente, pessoas que me conhecem também acharão a mesma coisa ao verem isso escrito aqui, no entanto permanecerei com esse acontecimento constatado há quatro semanas: eu nunca amei ninguém!

Alguns poderiam dizer que uma comprovação desse tipo é algo frustrante. Para mim, não. Ao menos, agora, eu sei o que não conheço. Talvez, assim, eu venha amar verdadeiramente um dia. Ao menos, dei o primeiro passo, escolhendo a floresta escura e não o caminho das flores: conheci logo a paixão. Com ela, tive experiências difíceis até de acreditar e de narrar. Hoje, não correria mais certos riscos, sinceramente, desnecessários.

É muito confortável lermos o poema Instantes, falsamente atribuído a Jorge Luís Borges, tagarelando aos nossos ouvidos:

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

[...] correria mais riscos…”

(Don Herold, autor de Instantes)

Até já gostei muito desse poema, no entanto Instantes se encontra no limiar entre o carpe diem horaciano e a falta de responsabilidade, depende de como o leitor olha para ele. Correr mais riscos? Uma vida construída sobre paixões, isso sim é correr riscos! Falo de paixões de todo tipo que levam a descontroles emocionais. A poesia nos testemunha tantos desatinos… O episódio de Inês de Castro que o diga!

Paixões são facilmente reconhecíveis e perecíveis também, pois tiram o nosso chão, a ponto de “funcionarmos” em caráter emergencial. Tudo passa a ser exigido, porém camuflado com as vestes da simpatia. Na paixão, o desejo fica salivando. Visceral e impulsiva, sua moeda é a posse e, automaticamente, o egoísmo.

Nesse terreno, existe um prazo de validade, que, segundo pesquisadores da Universidade de Stony Brooks, de Nova York, não é tão passageiro assim. Recentemente, esses cientistas descobriram, analisando a atividade cerebral de casais que estão juntos há pelo menos 20 anos, que a paixão dos primeiros anos não desaparece facilmente com o passar dos anos. A pesquisa feita pela universidade constatou que 10% desses casais mostraram as mesmas reações químicas em seus cérebros quando viram fotos de seus parceiros.

Tão logo me deparei com essa reportagem, pensei: como se já não bastasse ser difícil diferenciar amor e paixão na prática, agora a pesquisa nos diz que esse sentimento emergencial já consegue durar mais tempo, contrariando a ideia de que a paixão é breve, “um fogo de palha”, conforme nossos experientes avôs e avós – Um ano e três meses? Duas semanas? Um mês? 20 anos? A minha durou quase 12 anos bem distribuídos em picos de angústia, felizmente detectável ainda em idade balzaquiana!

Não sou exímia conhecedora da paixão. Mesmo tendo dela falado, continuo sem conhecer o amor, mas acredito que, quando ele estiver sorrindo para mim, será algo sublime que me levará a uma paz inexplicável e à sensação de estar plena. Quem sabe assim, num futuro próximo ou distante, poderei escrever algo a respeito da experiência com esse sentimento? O xis da questão é: como saberei quando o amor estiver sorrindo para mim, cara a cara? Meu único infortúnio é que não posso estabelecer um prazo para a criação desse novo texto, para decepção dos leitores.

Chá da tarde

Pintura: Elyse

Vinho-Elyse
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Dancin’ Days – As Frenéticas (Nelson Mota/Rubens Queiroz)

A idéia tinha sido de Ana Lu, mas foi Julinha quem reuniu as amigas em sua casa para um chá da tarde. Como não havia razão para postergar o encontro para o dia seguinte, resolveram fazer tudo, assim mesmo de improviso, em pleno sábado à noite. É verdade também que no lugar do chá foi servido vinho – Cecília foi quem sugeriu, para dar uma animada – mas a essência do encontro permaneceu intacta. Jogariam conversa fora, trocariam confidências e falariam da vida alheia.

O bate-papo inicial girou em torno de amenidades e houve mesmo debates animados sobre a nova bolsa de Ana Lu, a bebedeira do ex-marido de Regina na festa de aniversário de casamento de Cecília e, principalmente, como a física quântica é capaz de explicar um monte de coisas inexplicáveis, inclusive a razão pela qual os homens não podem ver um rabo de saia.

Foi nesse ponto que Ana Lu, depois da quarta taça de vinho, reconheceu que os homens são mais cúmplices uns com os outros do que as mulheres. E, como prova irrefutável, perguntou se alguma delas já tinha ouvido uma criatura do sexo feminino – umazinha que fosse – dizer que “homem de amiga minha, pra mim, é mulher!”, e caiu na gargalhada. Julinha ainda ensaiou uma contra-argumentação, afirmando que as mulheres não diziam isso por pura obviedade, mas a sua tese foi prontamente rejeitada pelas outras.

Regina, inclusive, deu seu próprio testemunho em favor da teoria de Ana Lu. Ela contou que, alguns meses depois do divórcio, teve o primeiro encontro romântico com outro homem. No taxi, na volta para casa, ela resistiu o quanto pôde à tentativa de seu acompanhante, que queria, a todo custo, que ela desse para ele, até que, para a sua surpresa, o taxista se meteu em conversa tão íntima para opinar que não havia mal nenhum nisso, pois se via que o distinto cavalheiro era um homem de bem.

Depois das palavras de Regina, as quatro amigas concluíram o óbvio, que nenhum homem presta. Ficou, porém, alguma incerteza quanto ao fato de que eles pertençam mesmo a uma sociedade secreta, cuja finalidade é acobertar as safadezas uns dos outros. Se tal sociedade existisse, seria assim como uma fraternidade com códigos e sinais próprios, feito a maçonaria.

E foi para esclarecer de vez a questão que Pedro teve que levantar do sofá, para atender uma ligação da Julinha.

― Alô?

― Pedro? É a Júlia.

― Oi, Julia, tudo bem?

― Eu estou ótima. Olha, você pode chamar o meu marido para eu dar uma palavrinha com ele?

― Jorge?!

― Claro! E eu por acaso tenho outro marido, além do Jorge?!

― Não, Júlia, claro que não…

― Ele saiu daqui dizendo que ia pra sua casa jogar pôquer com você e mais alguns amigos.

― Pois é, o pôquer…

― Pois é, o pôquer. Então chama o Jorge pra mim.

― Não vai dar, Júlia.

― Por que não?!

― É que o Jorge não está.

― Aquele safado mentiu pra mim de novo?! Vai ver foi encontrar alguma sirigaita!

― Que é isso, Júlia?! É que o Jorge está, mas não está, entende?

― Não entendo, não!

― É que ele saiu pra comprar mais cervejas, mas daqui a pouco volta.

― Sei…

― Quando ele chegar, eu digo para ele ligar pra você, está bem?

Quando Pedro ligou para Jorge a fim de preveni-lo que sua mulher estava louca à sua procura, foi Julinha quem atendeu o celular, com todas as amigas a sua volta ouvindo a conversar pelo viva-voz, já que o marido dormia em sua cama, no seu próprio quarto, enquanto o chá da tarde, no sábado à noite, rolava a poucos metros dali, na sala de estar.

A cara de pau de Pedro foi censurada por todas, mas, ao desligar o telefone, elas reconheceram oficialmente a existência da tal sociedade secreta. Mesmo assim, Julinha achou um exagero quando Ana Lu disse que sentia uma pontinha de inveja dos homens, pois eles sim, sabiam se organizar.

Por isso, pelo sim, pelo não, Julinha concordou que as mulheres deveriam começar a se organizar também, já na próxima segunda-feira. “Antes tarde do que nunca”, enfatizou. Deste modo, pretende perguntar a Jorge, assim que ele acordar, se a tal sociedade secreta é registrada em cartório e tem isenção do Imposto de Renda. Melhor fazer tudo como reza o figurino, para não ter erro.

O labirinto

Pintura: Labirinti, Villeneuve
Labirinti-Villeneuve

Kalina Paiva

Entrei num labirinto, ofuscada pela auto-suficiência. Dado o meu aguçado senso de direção, contumaz, percorri aquele espaço com a intimidade de quem encontra um velho conhecido. Contudo, aos poucos, fui perdendo a noção do quanto eu havia caminhado e adentrado nos idênticos átrios daquela construção. Obstinada, segui achando que saberia transitar por entre aquelas inquebrantáveis paredes.

Orgulhava-me por não precisar da ajuda de um fio que direcionasse os meus passos no momento em que eu decidisse voltar ao hall de entrada. À minha revelia, o destino tramava uma maneira de mostrar que eu não mais podia voltar pela porta que, outrora, eu entrara. Havia, portanto, outra saída me esperando, mas nem de longe eu desconfiara, muito menos tivera percebido, diante da tempestade de emoções enraizada em minhas entranhas.

Depois de caminhar por horas, incansavelmente, eu me convenci de que estava perdida naquele vasto labirinto. Lembrei, inclusive, das recomendações que me fizeram sobre um monstro terrível que habitava o coração daquele lugar. Se bem que, da forma em que eu me encontrava, não saberia dizer ao certo em que parte do corpo daquele lugar eu estava. Convenhamos, era-me indiferente àquela altura! E pensar que meu senso de direção nunca houvera falhado…

De repente, encontrei um corredor que me levava a uma escada. Era um ambiente com pouca luz, no entanto repleto de paz. Ali, eu experimentei uma sensação de segurança, pois eu jurava para mim que monstro algum se esconderia lá. Silêncio e pouca luz. Lá estava eu… perdida! Não tinha nada a perder e tinha muito a perder…

Para a minha surpresa, ouvi uma voz sublime, convidando-me para sentar ao seu lado. Embora aquela voz demonstrasse firmeza, encontrei certa melancolia. Pouca intimidade faz com que nos esquivemos de perguntar sobre o que não nos é devido. Convicta de que estava amparada, achei enfim um lugar seguro onde podia me esconder do monstro que habitava o labirinto. “E ainda tive ajuda”, pensei eu, imersa na minha inocência conspurcada pelo tempo e pela dor.

Falamos de coisas necessárias à vida. Reconheci, também, a essência da vida em seus olhos. Entre o dito, o não-dito e o interdito, conversamos, para não dizer que nos reconhecíamos. Comecei a ter medo de falar. Pouco tempo e muita dor revelam o deserto que há em nós, por isso fiquei reticente, pois eu já estava cansada de ter meus sentimentos turvados pela consternação.

Nunca pensei que, em minha parca existência, eu me sentaria para falar de coisas tão minhas com um ser desconhecido. Eu, simplesmente, nem sabia o seu nome. Minutos depois, falou-me: Eu me chamo Saudade.

Saudade? Eu estava cara a cara com a… Saudade? Não podia ser! Perplexa e espantada, quedei muda. Eu crescera com uma concepção de saudade e essa nova Saudade que se revelava a mim, decididamente, não se encaixava em meus paradigmas tão firmes e metrificados quanto uma obra arquitetônica neoclássica. Como pode a Saudade ser capaz de fazer com que eu me sentisse abrigada em pleno deserto? É lógico que aquilo tudo me inquietou. Eu até pensei em sair correndo, mas e se eu encontrasse o monstro que diziam habitar ali? A partir desse momento, percebi o quanto eu queria cuidar daquela que me cativara tanto.

Que me perdoem os poetas, mas agora, para mim, a Saudade tem um rosto, um nome, uma identidade. Falo isso não mais por só dela ouvir falar, mas sim porque tive uma – tão cúmplice, entretanto breve – experiência com ela. E, por mais que tentem os poetas incutir nos corações das pessoas que a saudade dói, se as pessoas conhecessem-na como eu, repensariam seus conceitos.

Convicta, afirmo que nós duas tínhamos dores tão próximas que, teve alguns momentos em que achei que era de mim que ela falava. Ela dói em si mesma e sua dor exala a poesia da vida, transcendendo todos os paradigmas poéticos. É difícil falar sobre a forma com que ela se mostrou a mim. Vejam a que ponto cheguei: tenho até lutado contra palavras e poetas…

A saudade se revelou a mim de um modo tão assustadoramente frágil e sutil, de uma forma tão cuidadosa, que as palavras se harmonizaram em nossos caminhos cruzados repentinamente.

Agora, enquanto escrevo, estou viva. A vida decidiu correr liberta dentro de mim. Não precisei de fio algum para sair do labirinto da Saudade, pois ela me deixou livre, a ponto de ter me prendido. Aliás, no labirinto, nunca encontrei monstros, Minotauro, górgonas ou qualquer ser mitológico. Sempre volto lá para falar com ela, a Saudade.

Foi assim a última vez em que estive sentada ao seu lado: fiquei sem saber o que falar, contemplei o seu rosto e a senti muito forte dentro de mim. Agora, fico a pensar em como deve estar, no que tem feito. Entendi que posso dela cuidar, estando perto ou longe.

Eu hei de encontrá-la novamente…

Muito além do livro 3 – Final

Imagem: Vladstudio
livros
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Palavras não falam – Mariana Aydar (Kavita)

Nota do autor:

Chega ao fim a saga de um escritor às voltas com a insatisfação dos seus personagens. Embora o tom da crônica ainda revele um flerte com a comédia, há, nas entrelinhas, um ar sombrio que se reflete no poder do criador sobre suas criaturas.

Na literatura, a morte, se tiver alguma graça, serve apenas para deleite de quem escreve ou de quem lê. Para o personagem, tudo é real. E observando a tríade envolvida – autor, personagem e leitor – percebemos com mais clareza, porque comédias e tragédias costumam se misturar. O que faz um rir, pode fazer o outro chorar.

Conheça o resto da trilogia:

Muito além do livro
Muito além do livro 2

A noite caía silenciosa. Abri o portão e caminhei sob a luz da lua. Gotículas de uma chuva fina, praticamente imperceptível, se depositavam sobre a superfície resfriada das folhagens. Tirei os sapatos para sentir o frescor da noite e pisei na grama molhada – e também em algo pastoso.

― Bosta!

Não era apenas uma maneira de falar. Tinha mesmo pisado em merda de cachorro. Antes que o segundo palavrão saltasse da minha boca, abri o manuscrito que carregava nas mãos e risquei a cena até meus pés tornarem a ficar limpo. Sentia o poder de estar, em pessoa, dentro da estória que eu mesmo havia criado.

Avancei pelo jardim até chegar à entrada da casa e toquei a campainha. Em poucos instantes, uma mulher abriu a porta e me perguntou amavelmente o que eu desejava. Ela era tão bonita, quanto eu a imaginara. Cabelos soltos, olhos negros e pele clara. Apresentei-me como um amigo de seu marido e fui convidado a entrar. Depois, sentei no sofá da sala de estar e esperei.

Enquanto aguardava, reconhecia cada móvel e cada detalhe do lugar. O lustre de cristal iluminando a mesa de jantar e os porta-retratos com fotos variadas da família sobre a mesa de canto, a mesma que outrora adormecera um punhal, me davam uma sensação familiar.

Tão logo me viu, o dono da casa tomou-se de espanto. Seus olhos se arregalaram e quase pude notar uma gota de suor se formando em sua testa franzida. Na minha mente de escritor, imaginei o suor frio descendo pelos vincos da região frontal da cabeça até se desmanchar no encontro com o chão. Sua pele descorada mostrava o quanto a minha visita era inesperada. Agora os papéis se invertiam e o fator surpresa estava ao meu favor.

― Você não vai apresentar o seu amigo, Antônio Rodolfo? – perguntou a esposa.

― Este é o… Escritor.

― Meu Deus!

― Não chego a tanto. Sou apenas um humilde criador.

― Não falei neste sentido.

― Compreendo.

― Mas já que você tocou no assunto, sendo eu sua criação, isto não significaria a mesma coisa?!

― Embora sua pergunta me envaideça, são coisas diferentes. Sou apenas o seu criador. Já o resto do universo, esse foi feito por outra pessoa, Maria Helena.

― Quem é Maria Helena?

― Você.

― Eu?! Mas eu sou Rosemary Shirley.

― Não é mais. Como criador, posso mudar o nome da criatura. Se não acredita em mim, pegue a sua identidade e confira o nome que está lá.

Maria Helena foi ao quarto e pegou o documento na bolsa. De volta à sala, visivelmente satisfeita, me agradeceu.

― E eu? – perguntou o marido.

― Você será apenas Antônio…

― Gostei. Simples e forte.

― …Mas não por muito tempo.

Antônio notou que eu ainda mantinha um aspecto grave e antes mesmo que ele perguntasse se havia algo errado, eu respondi.

― Você vai morrer, Antônio.

Antônio recebeu a notícia como um paciente terminal, que recebe do médico o anúncio de que lhe restam poucos dias de vida.

― Mas por quê?!

― Porque assim é a vida, Antônio. Até mesmo os personagens nascem, crescem, vivem e morrem.

― Nem todos os personagens precisam morrer. Na literatura, alguns são eternos.

― Você também será, assim espero, mas na memória dos meus leitores, Antônio, pois você não chegará ao último capítulo.

― Por que, meu Deus, por quê?!

― A criatura não pode se rebelar contra o criador. Isso é contra a natureza das coisas. Um escritor não pode viver sob a ameaça de um de seus personagens, porque, quando isso acontece, o criador se sente acuado, como uma presa, e não tem outra saída, senão atacar quem lhe ataca. É tudo uma questão de sobrevivência, Antônio. Se eu não te matar, outros personagens também se rebelarão, pois seguirão o teu exemplo.

Ele chorou, mas eu mantive a firmeza, pois sabia que era ele ou eu.

― Escrevi um novo final, Antônio. Você terá uma morte gloriosa e transformará meu livro numa obra-prima.

Antônio correu para cozinha e vasculhou as gavetas, mas não encontrou nenhuma faca, nem nada cortante ou perfurante. Não encontrou nem mesmo um garfo ou uma colher.

― Tomei minhas precauções antes de vir aqui, Antônio.

Com a sentença de morte anunciada, ele superou seu medo, foi ao quintal e libertou o cachorro. Da porta, ordenou que o Rottweiler me atacasse.

― Não adianta, Antônio. Olhe novamente. Você não tem mais um Rottweiler. Seu cão é agora um Poodle mimado por Maria Helena.

Antônio se ajoelhou no chão e, agarrado às minhas pernas, pediu por sua vida.

― Você me deve isso, Antônio. Se você não morrer, serei assombrado por todos os personagens que eu já matei. Não seria justo com eles, nem comigo.

Antônio e Maria Helena se abraçaram sob forte emoção e depois se retiram para o quarto.

No caminho de volta para a minha casa, senti algum arrependimento por não ter dito a Antônio toda a verdade. O seu destino trágico não passava apenas pela insubordinação da criatura ao criador ou por eu temer a minha própria morte. Lutava por minha sobrevivência, só que de uma forma um pouco mais egoísta.

O fato é que eu temia que as interferências de Antônio fizessem o meu livro encalhar nas prateleiras das livrarias. Isto poderia ser um prenúncio da minha morte literária e eu não queria isso. Antônio morreria para que, quem sabe, de sua morte nascesse um grande escritor.

Na minha cozinha, já tarde da noite, preparei um sanduíche e sentei à mesa. Mas ao dar a primeira mordida, pensei que Antônio talvez morresse em vão, caso eu não me tornasse um grande escritor. Fui dormir com uma pulga atrás da orelha.

Muito além do livro 2

Imagem: Vladstudio
literatura
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Um filho e um cachorro (Zeca Baleiro)

Nota do autor:

Sugiro aos leitores, para que se situem no contexto desta trama, que leiam a crônica Muito além do livro. Ela é elucidativa para ação dos personagens, que teimam em afirmar que é a arte que imita a vida e não o contrário.

“Antônio Rodolfo desceu as escadas e encontrou Rosemary Shirley na cozinha preparando o café da manhã. O sol atravessava a janela e penetrava no interior da casa com vontade. Lá fora, o dia estava lindo. Cá dentro, as paredes claras e os cômodos arejados davam uma sensação de bem-estar. Ele chegou de mansinho e a beijou na nuca. Ela flexionou suavemente o pescoço para frente e revirou os olhos. Depois, voltou-se em direção ao marido e concedeu-lhe um beijo na boca.

Assim que os dois foram à mesa, Valdecir, o filho de quinze anos, se juntou ao casal. Sempre sorridente, o menino falou apaixonadamente da aula de biologia que teria pela frente para, em seguida, convidar os pais a plantar uma árvore no jardim, tão logo ele retornasse da escola.

Ainda às voltas com o café da manhã, Rosemary Shirley, esposa amantíssima e dedicada, passou margarina no pão e, com amor, levou-o à boca de Antônio Rodolfo. Uma parte do alimento caiu no chão, mas foi logo devorado por Athos, o Rottweiler de estimação da família. “Todos acharam graça das peripécias do cachorro e assim teve início mais um dia feliz.”

₀₀₀

Tão logo digitei o ponto final, espreguicei os braços para cima e para trás em sinal de cansaço. Já era bem tarde, pois costumo escrever apenas durante a noite, onde tudo é bem mais quieto. Salva-se a inspiração, sofre o bolso com a conta de energia. É a prevalência do silêncio sobre a luz elétrica. Da literatura sobre a economia doméstica.

Ao girar a cadeira na intenção de me levantar, dei de cara com um homem barrando a passagem da porta. Saltei para trás e empunhei o notebook, tal qual um cavaleiro na idade média seguraria o seu escudo. Cheguei até a janela e pensei em pular, mas desisti, porque certamente não sobreviveria de uma queda do décimo nono andar. “Preciso trocar meu apartamento por uma casa”, pensei. Não havendo outra saída, voltei na direção do invasor e tentei negociar a minha rendição. Foi aí que a cena me pareceu familiar, como um déjà-vu.

― Espere! – disse – Mas você não é o Antônio Rodolfo?

― Finalmente o criador reconhece a sua criatura.

― Pois fique sabendo que eu quase borrei as calças por sua causa.

Ele ficou em silêncio e eu desconfiei que algo estranho – além da própria metafísica envolvida na questão, que consistia na abstração de conversar, em plena madrugada, com um de meus personagens – acontecia.

― Mas, afinal, o que você faz aqui?! – perguntei, intrigado.

Antônio Rodolfo saiu da penumbra e notei que havia em sua mão direita uma adaga, como da outra vez. Meu personagem tornava a me ameaçar com um instrumento pontiagudo e perfurante. Como autor, estava confuso. Também não sabia onde Antônio Rodolfo, que estava preso à minha estória, escondia tantas armas brancas.

― Tenho lido o que você anda escrevendo ultimamente – disse o visitante.

― E?

― Não tem sido do meu agrado.

― Mas eu não fiz tudo o que você me pediu, homem de Deus?!

― De certa forma, fez.

Não entendi o sentido de sua resposta, já que eu havia mudado toda a estória apenas para satisfazê-lo. Assim, já não fazia parte do destino de sua mulher ter um amante, nem de Antônio Rodolfo matá-la a golpes de punhal.

― Mas tornei vocês felizes, como um casal num comercial de margarina!

― Acontece que ninguém vive num comercial de margarina.

Meu personagem me explicou que sua vida não era o que ele esperava com as mudanças que eu fiz. Reclamou, por exemplo, dos nomes que escolhera para a sua família. Disse ele que Antônio Rodolfo era nome de personagem de novela mexicana e que Rosemary Shirley parecia coisa de Drag Queen. Não era à toa que toda a vizinhança pensava que eles eram gays e que sua esposa tinha feito uma cirurgia de mudança de sexo. Além do mais, seu filho estava freqüentando um psicólogo, já que todos caçoavam dele na escola, pois Valdecir era nome de mulher.

― Até o cachorro tem um nome mais bacana que o meu! – protestou.

Reconheci que não era meu forte escolher nomes para os meus personagens, mas tentei minimizar a questão.

Ele também insistiu para que eu acabasse com essa história de Valdecir ficar só pensando em plantar árvores, que isso pegava mal, já que todos os garotos de sua idade estavam mesmo era pensando em namorar. Achei preconceituosa a sua observação, mas decidi não contestar. No fundo, acreditava que ele iria gostar de ter um filho envolvido em toda essa onda verde.

Pelo que pude notar, o casamento também não ia bem. Antônio Rodolfo disse que agora sua mulher o odeia, pois, por minha causa, ela passava o dia cuidando da casa, lavando e cozinhando, como se fosse uma escrava.

Por fim, ele ainda reclamou do Rottweiler, afinal, onde já se viu criar um animal daquele tamanho como cão de estimação? “Se fosse um poodle, ainda vá lá, mas um Rottweiler?!”, protestou. Antônio Rodolfo confessou que uma vez quase perdeu o braço, na hora de lhe dar comida e que agora só sai de casa quando o cachorro está dormindo, com medo que algo de ruim lhe aconteça.

Depois de ouvir tudo atentamente, respirei fundo e peguei o copo d’água que estava sobre a mesa do computador. Disse, contrariado, que mudaria as coisas novamente, mas com a condição de registrarmos nosso acordo em cartório, para não haver problemas futuros. Ele concordou e apertamos as mãos. Por fim, pedi para que me entregasse a adaga, como garantia da minha segurança, e levei-o até a porta.

― Precisamos parar de nos encontrar desta maneira – protestei.

― De qual maneira?

― Você com uma faca na mão e eu me borrando nas calças.

Ele sorriu e se despediu de mim.

Um pouco mais tarde, pensei na possibilidade de entregar ao personagem o seu próprio destino. Não é assim que acontece com os grandes escritores? Além do mais, seria mais fácil que ele mesmo escrevesse a sua vida do jeito que achasse melhor e me deixasse em paz.

Antes de dormir, porém, não me saiu da cabeça que Rosemary Shirley, afinal, não era um nome tão mal assim.

Céu de Brigadeiro

Airplane: Pop Art Machine
airplane
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Medo de Avião II (Belchior)

Costumo, por esses azares do destino, viajar de avião ao lado de homens que possuem o dobro da minha massa corpórea. Assim, sempre que piso em terra firme, tenho a sensação que durante a viagem fui atropelado, indo e voltando, por um pneu de um Boeing 747.

Daí a minha surpresa quando uma mulher magra, alta e muito bonita sentou-se ao meu lado. Tentei demonstrar naturalidade, mas não pude evitar que me escapasse um “oba!” boca afora no mesmo momento em que cerrei os punhos, como se comemorasse um gol do meu time. A minha admiração, esclareço antes surjam versões inoportunas, veio mais pela perspectiva de conforto e menos pela belíssima companheira de viagem, embora não desprezasse o prazer de uma boa companhia. Mesmo assim, o som baixinho da minha voz – não duvido – pode ter sugerido outra coisa à festejada passageira e mudado a história da viagem.

Ela me pediu licença com um sorriso acolhedor e tomou assento na poltrona do meio. Apesar dos seus sinais exteriores de simpatia, eu permaneci calado. Cuidei apenas de lhe dar passagem, devolvendo o mesmo sorriso amável. Não queria mudar a sorte de ter ao meu lado alguém que cabia perfeitamente em sua cadeira, por uma simples troca de palavras vagas dentro de um avião. Por isso, foi ela quem primeiro puxou conversa, enquanto eu iniciava a leitura da minha revista de atualidades e a tripulação demonstrava os procedimentos de emergência.

― IstoÉ? – perguntou ela, apontando para a minha revista.

― É, mas pode deixar de ser – respondi, surpreso com o meu próprio desembaraço.

Ela sorriu demonstrando alguma timidez para em seguida me perguntar o que eu estava lendo.

― Economia, mas prefiro política.

― Política?

― É. Política da boa vizinhança, principalmente em aviões.

O timing estava perfeito. Ela sorriu novamente de um jeito tímido que durou até o comandante solicitar que a tripulação se preparasse para a decolagem. Ela então se ajeitou na cadeira e checou se o seu cinto estava bem afivelado.

Quando o avião iniciou os procedimentos de decolagem, ela apertou a minha mão com força e jogou seu corpo para trás, como se tivéssemos acabado de decolar numa espaçonave e não num vôo comercial. Quando o avião atingiu a altitude de cruzeiro, ela, um pouco mais relaxada, confessou que sentia calafrios nos momentos de subida e de descida, já que, comprovadamente, há um maior número de acidentes aéreos nessas ocasiões. Em seguida, perguntou se eu não tinha medo de uma queda. Respondi que meu time já havia sido rebaixado tantas vezes, que eu perdi o medo de cair. Ela sorriu novamente e voltou a ficar descontraída.

A viagem prosseguiu e eu não pude deixar de notar que ela só largou a minha mão quando teve início o serviço de bordo. Depois, com delicadeza, ela passou um guardanapo no canto direito da minha boca a pretexto de uma boa higiene, o que serviu para aumentar a minha libido.

― Você tem dedos longos, como os pianistas. Por acaso toca piano?

― Não. Prefiro as curvas de um violão – disse, olhando discretamente para o seu quadril.

Ela deixou a aparente timidez de lado e, a certa altura da conversa, me convidou para sair.

― Não há muito que fazer do lado de fora do avião a esta altitude – respondi, me arriscando a perder a mulher para não perder a piada.

― Não, mas há o que fazer do lado de dentro – retorquiu, levantando-se do assento.

Ela avançou alguns passos e olhou uma vez para trás, antes de seguir em direção ao banheiro.

Sempre tive a fantasia de uma aventura a onze mil metros do chão, mesmo assim, tentei não chamar atenção. Levantei discretamente e também segui em direção ao banheiro. Finalmente, deixava as turbulências para trás, para viajar em céu de Brigadeiro.

Ou

Sempre tive a fantasia de uma aventura a onze mil metros do chão, por isso, saltei da cadeira o mais rápido que pude. Porém, antes que eu ficasse completamente de pé, senti uma forte pancada na cabeça. Ao abrir os olhos, me dei conta que havia atingido um homem com o dobro do meu corpo, que tentava guardar sua mala no compartimento de bagagem.

Já refeito, notei que eu havia caído no sono antes mesmo do avião decolar e tudo não passara de um sonho. A mulher magra, alta e muito bonita dera lugar a um homem que ocupava parte do meu assento, tornando o braço da minha poltrona uma extensão da sua. Começava, como de costume, outra viagem turbulenta.

Para alguns passageiros, céus de Brigadeiro existem apenas nos sonhos.