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Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

A terrível estória do besouro-bosta

Imagem: Vladstudio

Artur Perrusi

Conto aqui uma estória de ninar, contada na minha infância. Anos de análise depois, percebi que todos os meus problemas e traumas tinham relação com esse magnífico conto infantil. Acho interessante sua publicação, pois Dimas acaba de ser pai, sendo uma arte e um aprendizado educar, sem traumatizá-la, uma alma infantil. Espero que Dimas, futuramente, escolha de forma conveniente as estórias de ninar e os contos infantis.

Lá vai:

“Era uma vez uma princesa que morava num belo e magnífico castelo, no meio de um bosque espesso e inacessível. Ela vivia trancada no seu quarto por ordem do rei, seu pai, porque este tinha medo de que algum aventureiro lançasse mão. Mas ela já estava na idade de casar, inclusive batia palminhas, e o próprio rei estava ficando velho, precisando de herdeiros e de dinheiro. Diante disso, ele editou uma nova lei: “o homem que conseguisse soltar a princesa do castelo teria a sua mão e herdaria o trono“. Foram muitos os príncipes que vieram de todos os lugares para tentar a sorte, embora todos malograssem nos seus objetivos. Era triste escutar os lamentos chorosos da princesa em cada desfeita dos seus pretendentes. O rei continuava intransigente e não a liberava da sua prisão sequer um segundo.

Era uma coisa estranha o fato de que os valentes príncipes não conseguissem chegar nem mesmo perto do castelo - mas é que Imangaard, a princesa que batia palminhas, não sabia das condições impostas pelo rei. Para se chegar lá, somente havia dois caminhos permitidos. O primeiro passava pelo bosque que era protegido pelo pavoroso bicho-galo. Monstro bissexual, macho e fêmea ao mesmo tempo, era alumiado e sombrejado de uma vez só. Tinha três carreiras de peitos, cada uma com 35 bicos. Cada bico dava pra mamar 147 homens. Com a força de um peido, derrubava invariavelmente quem ousassem desafiá-l@. Pior do que isso era o castigo da derrota. Por ordem do rei, todo aquele que fosse derrotado pelo bicho-galo era posicionado de quatro pés, calças arriadas, de tal sorte que era, imediatamente, possuído pelo monstro, que penetrava os derrotados com seu membro longo e fino. El@ não errava uma estocada e parecia extrair muito prazer daquela atividade. Quem se desse ao trabalho de olhar, notaria um certo ar de riso malicioso em Seu rosto. As sessões eram chamadas pelo rei de “o que é pior do que o empalamento” e eram assistidas somente pela aristocracia — à plebe só restava boatar.

O segundo caminho seguia por um profundo fosso, cheio de merda e baratas. Quem por ali passasse, teria que andar devagar, atolado de merda e barata até o pescoço. Assim mesmo, alguns corajosos tentaram, desistindo no meio do caminho por não suportarem tanto sacrifício, ainda mais porque a travessia tinha de ser feita na escuridão e em plena meia-noite.

Parece que a princesa morreu de desgosto, embora existam outras versões relatando que ela engravidou de um pajem, com o seu rebento tornando-se depois Bastardus I, para o constrangimento do seu pai”.

Bem, diante da minha incredulidade, minha mãe arredondava a estória e dizia que a saga dessa família real não terminava por aqui, existindo outra história, um tanto constrangedora, que abalava os alicerces da realeza. Mamãe, antes de iniciar a estória, dava uma risadinha meio histérica, e eu sabia que era o sinal de que vinha alguma coisa que faria Allan Poe corar. Havia nas redondezas do castelo do rei um besouro-bosta que, de hábito, alimentava-se do cocô da rainha. Isso não seria um grande problema, talvez apenas uma questão de ecologia, se não fosse a esquisitice desse besouro de só gostar de cocô fresco, precisando assim entrar nas tripas da rainha. O rei passava o tempo todo preocupado, tentando afugentar o besouro, o que raramente acontecia para a total tristeza da rainha. O problema agravou-se a tal ponto que a nobre dama sempre ficava deitada, todas as manhãs, esperando o besouro, para que lhe fosse dado passar o resto do dia mais tranqüila.

Um dia, o rei teve que viajar e, preocupado com o estado de sua esposa, mandou chamar um remendão para pregar uma tábua no traseiro da rainha, vedando a passagem preferida do besouro. Acontece que o besouro, inconformado por ter sido privado do seu alimento predileto, havia feito, com muita arte, um buraquinho na madeira, continuando, pois, tranqüilamente, com os seus velhos hábitos. Dizem que a rainha matou-se e o besouro, desesperado com o fim do seu repasto, jogou-se direto na boca de uma lagartixa, o que lhe trouxe uma morte atroz. Contudo, outras versões contam que, no fundo, a rainha gostava do besouro e, principalmente, do que lhe fazia, bem como - pasmem meus queridos estradeiros, porque esta informação é surpreendente - foi a própria rainha que fez o buraquinho na madeira!

Tal versão é bastante difundida entre o populacho, vale dizer. O que convenhamos não significa absolutamente nada, embora muitos freudo-marxistas (ler Lins, Dimas. Freud e o besouro bosta: a pernambucanidade desvelada. Recife: Joaquim Nabuco, 2004) tenham interpretado a figura simbólica do besouro como o povo entrando no forever da realeza. Acho, sinceramente, que é forçar demais…

Artur Perrusi é psiquiatra e doido varrido. Entre um Rivotril com coca-cola e outro, escreve crônicas e fala sobre política, doidice e o escambau no Blog dos Perrusi.

Estradar

Josias de Paula Jr.

Não me aventuro a discorrer sobre o blogue. Não! Não me acho qualificado a conceituar literatura. Proponho-me apenas arrolar alguns furtivos arrebatamentos produzidos por ele em mim e naqueles que, por alguma graça insondável, são de se comover com palavras.

Contar histórias talvez seja a mais imperiosa das necessidades humanas. E a mais desumana das condições, a solidão - unicamente sustentada por um deus ou uma besta irascível - nada mais é do que isso: a impossibilidade de compartilhar histórias. Todos contam, todos narram. Mas há aqueles que o fazem por necessidade mais profunda, pelo premente dever de subtrair ao infinito baú da linguagem os relatos latentes, daquela espécie que todos nós, de certo modo, pré-sentimos. São relatos, no fundo, guardados em cada um de nós, adormecidos no sono vago dos tempos.

A leitura deles suscita em nós o re-conhecimento, a certeza de que nossas aspirações, desejos, medos e sonhos, extrapolam nossos egos pequeninos, são uma senda de comunicação com o(s) outro(s). Isto é, são um exercício de encontro e um safanão na solidão.

Sempre estamos à procura dos caminhos que levem ao contato com o humano, com sua graça, festa, vida e morte. E é sempre por palavras que chegamos a ele. Pois é disso que falo aqui: do ofício genuíno de abrir veredas em tórrido sertão, de abrir picadas na floresta negra. Enfim, do ofício de estradar!

Deixo, por fim, um esboço maltrapilho de um poema retirado de uma das dimensões de uma crônica do Estradar: Maria das Dores de amar.

Maria das dores de Amar

No dia das núpcias o fatídico golpe:

ao invés da festa e do sacramento em ato,

a dor das minúcias da abrupta morte.

 

À Maria o que era dado pensar

ante ao fato do sonho em vida interdito,

além da eterna espera em suposto altar?

Josias de Paula Jr., sociólogo e poeta, escreve - ao menos costumava escrever - com regularidade em seu blog Inscritos em Pedra. Diante do repouso do Inscritos, todos nós gritamos em seu ouvido: “acorda, poeta, acorda!”.

Minhoca azul com bolinha rosa (chocante!)


Deus ou Darwin? Já viram com são parecidos?

Ana Cláudia

Sou atéia, mas também sou médium. As pessoas não acreditam em mim, pra falar a verdade, nem eu mesmo acredito bem direitinho. Acreditar, eu acredito, mas não é 100% de certeza. Fico pensando: como pode ter outra vida se não existe Deus, Diabo, Céu, Inferno e outros que tais? Ou uma coisa não tem nada a ver com a outra? Será que, pelo sim pelo não, não era melhor pagar um dizimozinho pra um pastor desses, mesmo que seja só uma vez por ano? Sei não, vou pensar no assunto.

Não acredito em nada, não sou chegada a superstições, mas duvido pegar num jornal e não ler o horóscopo do dia. Duvido. Não consigo. Não acredito, em um segundo eu já esqueci todo o pouco de baboseira que li, mas tenho que ler. Reflexo condicionado? Não é que eu acredite que a posição dos astros no momento do meu nascimento vai determinar a escolha da roupa que eu vou usar na próxima quarta-feira. Não creio de jeito nenhum. Mas leio o horóscopo diário.

Não acredito em destino, mas o que eu faço com o impulso que tenho toda vez que conheço uma figura e imediatamente a tomo como amigo de infância, quiçá um irmão gêmeo? A primeira coisa que eu digo quando constato uma coisa dessas é “a gente tinha que se encontrar. Tava escrito”. Não sei onde é que tava escrito, mas destino não existe mesmo.

E acaso, existe? Eu acho que sim. Mas não é por acaso que, por exemplo, eu estou escrevendo todas essas cretinices. Estou escrevendo isso, porque o Estradar está completando um ano de atividade, eu adoro ler o blog e queria escrever algo para comemorar a data. Mas tô sem tempo nem cabeça. Então eu lembrei que meu amigo Dimas está me devendo uma crônica sobre uma certa médium atéia que nós conhecemos. Estou louca para saber o que vai sair disso.

Não acredito que alguém tenha a idéia cretina de escrever uma crônica-cobrança. Mas é isso que acabo de fazer.

Foi mal aí, Dimas. O Estradar merece coisa muito melhor. Estou aguardando, e de preferência ainda nesta encarnação, quando júpiter cruzar com marte com lua em Áries, e assim determinar o destino do blog!

Ana Cláudia é jornalista e escreve regularmente em seu blog Ninho da Ninha. De vez em quando vou lá e pego algum de seus textos por empréstimos. Não foi o caso desta crônica.

Um ano na estrada

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Máquina 2 (Belchior)

Dimas Lins

Queria ser escritor. Mesmo que fosse um de fins de semana, embora preferisse ser daqueles contumazes que extraem o sustento da gastura dos dedos e do teclado. Seria a mistura perfeita entre trabalho e prazer. Afinal, haverá maior satisfação que a possibilidade de tocar com as palavras o coração das pessoas? Quem não se envaideceria ao descobrir que, num ponto deste vasto planeta, foi capaz de comover alguém com algo seu?

Ah, do fundo da minha alma, queria tornar-me autor de boa literatura! Puxaria daqui e dali até encontrar o ritmo perfeito de uma cena ou de um texto. Buscaria o equilíbrio entre forma e conteúdo e, nessa busca, ouviria com um prazer inexplicável as batidas de uma velha máquina de escrever, pois, se acaso fosse escritor, por certo eu também teria uma. Como não?

Se fosse escritor de boa cepa, talvez me sentisse mais satisfeito e menos esgotado ao término de uma crônica. Meus personagens certamente ganhariam vida própria e dobrariam a minha vontade, tornando-se criação de si mesmos. Dizem que é assim que acontece com os grandes escritores.

Mas não sou escritor, tampouco um escritor publicado. Talvez um dia. Não importa. O importante é que o Estradar, de alguma forma, me fez sentir como se fosse um. Puro alumbramento, eu sei!

Também sei que o alumbramento é uma ilusão, um engano do espírito ou da mente. Mas da mesma forma ele pode ser um sopro criador, uma revelação ou inspiração. Um ou outro caminho não depende da estrada, mas de quem a trilha.

Para mim, tanto faz. Mesmo não sendo escritor, espero o dia em que eu descubra que, num ponto deste vasto planeta, alguém se comoveu com algo meu. Nesse exato instante, garanto que não haverá engano do meu espírito e meu alumbramento se dará como uma inspiração.

Ao Estradar - que permite que a minha alma se abra por inteiro - no seu primeiro aniversário.

PS: Ah, achei essa ilustração a minha cara!

Pau que nasce torto


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Uns (Caetano Veloso)

Dimas Lins

Pau que nasce torto, não precisa morrer torto. Há jeito para tudo na vida. Para a morte também. Ao menos para Norberto, que cria na morte como uma passagem para outro estágio espiritual.

Ele sempre teve um coração de ouro. Quando menino, ajudava a mãe nos afazeres domésticos, sem que ela pedisse. Fazia por sua natureza generosa. Costumava ser visto nas ruas do bairro fazendo pequenas camaradagens. Era cordial com todos, especialmente com os mais velhos, e defendia os que não tinham meios de se defender. Não guardava mágoa ou rancor e possuía uma imensa capacidade de perdoar. Também não dormia à noite, se concluísse que dera a alguém causa a algum embaraço.

Mais velho, tornou-se comerciante. Dono de um pequeno comércio vizinho à sua casa. Aplicava com justiça os preços no armazém e gozava do respeito de sua clientela. Era um homem honrado.

Norberto também se tornou cristão. Primeiro foi católico, depois espírita. Todo domingo de manhã ia aos sinais de trânsito fazer campanha do quilo. Sua generosidade emprestada a um bom combate. Acreditava nas pessoas e numa mudança - ainda que lenta - do mundo em direção a um lugar melhor e mais humano.

Desde criança, Cosme metia-se em encrenca. Na escola, costumava intimidar os mais novos, tirando vantagem do seu vigor físico. Da intimidação passou à ameaça e, em seguida, à extorsão.

Cosme começou com pequenos furtos. Foi preso pela primeira vez aos doze anos. Aos trezes, fez seu primeiro assalto à mão armada e aos quinze matou um homem. Foi preso novamente aos dezesseis.

Norberto e Cosme se conheceram num reformatório. Norberto fazia visitas regulares aos menores. Pensava que um escorpião, se fosse do seu desejo, seria capaz de mudar a sua própria natureza. A alma poderia ser domesticada, assim como um cão. Cosme ouvia os conselhos de Norberto com atenção e respeito.

Quando Cosme saiu do reformatório, Norberto o acolheu. Tratou-o como filho. Deu-lhe casa, comida e ensinou-lhe um ofício. Cosme agora era um trabalhador assalariado.

Certa vez, já tarde da noite, Norberto retornou ao armazém para pegar algumas anotações. Deu de cara com Cosme se apossando do dinheiro em caixa. Norberto foi ao chão. Levou dois tiros. O primeiro no ombro. O segundo no peito foi fatal.

Pau que nasce torto, morre torto. Um escorpião não é capaz de mudar a sua própria natureza, nem tampouco a alma é um cão para ser domesticada. Também não há jeito para tudo na vida. Quem sabe para a morte, se ela for mesmo uma passagem para outro estágio espiritual, como acreditava Noberto.

Uma canção desnaturada

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Uma canção desnaturada - Suely Costa (Chico Buarque) 

 

Publiquei Uma canção desnaturada em 1º de setembro de 2007. O texto surgiu numa época de muito estresse pessoal, por causa do trabalho. Em meio a planejamentos, prazos e pressões para concluir um projeto, decidi consultar um psiquiatra. É verdade que eu não sofria de nenhuma loucura - além, é claro, daquelas por mim já conhecidas - mas compartilho da sabedoria popular quando diz que seguro morreu de velho.

Embora em sua totalidade a conversa na ante-sala do consultório não tenha sido verídica, uma pequena parte dela aconteceu e me comoveu profundamente. Uma mulher, uma mãe, com depressão pós-parto me contava a sua dificuldade em estabelecer um vínculo afetivo com sua filha. Em vão, tentei reconfortá-la até perceber que o melhor a fazer era apenas ouvi-la.

Já em casa, não consegui tirá-la dos meus pensamentos e assim surgiu a crônica. Espero que ela esteja bem.

Dimas

 

Dimas Lins

Havia terminado meus afazeres mais cedo do que imaginava e fiquei naquela incerteza de ir para casa ou seguir para a consulta médica. Percebi que teria de ir direto para o consultório, se quisesse manter o horário do meu compromisso. Chegaria mais cedo e aguardaria pacientemente a minha vez.

Não iria cuidar de nenhuma rinite alérgica ou apenas de uma gripe mal-curada. Cuidaria da força moral do espírito, da alma. Enfim, trocando em miúdos, faria uma visita ao psiquiatra.

Foi quando o relógio deu seis horas que eu toquei a campainha. A consulta estava marcada para as 19h30min e, portanto, aguardaria uma hora e meia. Isso se o médico não atrasasse a agenda. Gosto do horário noturno para ir a um consultório, pois geralmente é mais silencioso e há menos pacientes impacientes com os atrasos habituais.

Tão logo cheguei, a secretária abriu a porta, me recebeu e se despediu. É que o seu horário de trabalho termina antes do horário do psiquiatra. Fechei a porta e sentei. Nessas ocasiões, procuro ler alguma coisa, uma revista ou um livro. No caso do livro, invariavelmente, trago-o de casa e, por coincidência, já andava com ele no carro, preparado para os esperes e pares do mundo. A bola da vez é Clamor - A Vitória de Uma Conspiração Brasileira, do jornalista Samarone Lima, também escritor de Estuário, um livro-blog. Esse aí ao lado, em forma de link.

Não deram cinco minutos de leitura e a campainha tocou. Na ausência da secretária, abro eu mesmo a porta. Dou boa noite, passo a chave e volto ao meu lugar. Do lado de fora, um carro se afasta e o motorista acena para a recém-chegada. No recinto agora, uma jovem na casa dos trinta anos, demonstrando um pouco de ansiedade, senta no outro sofá. E é na hora que eu retomo a leitura que ela puxa conversa.

- Você é paciente ou está esperando alguém?
- Sou paciente.
- É o próximo?
- Não. Eu cheguei mais cedo e ficarei de castigo por algum tempo.
- Ah! Pensei que tinha errado o horário.

Sorri amavelmente e tentei retomar a leitura.

- Depressão?

Já estive naquele mesmo consultório antes e posso assegurar que não é comum este tipo de conversa na ante-sala. Afinal, cada paciente está lá por algum assunto psíquico não satisfatoriamente resolvido. E, nessas ocasiões, melhor o silêncio. Mesmo assim, respondi. Afinal, aquele que não for louco que atire a primeira pedra.

- Não. Um pouco de estresse e um pouco de loucura.

Ela sorriu e emendou, sem perder o ritmo.

- É do trabalho?
- Perdão?
- O estresse… É por causa do trabalho?
- É. É, sim.
- E o senhor trabalha em quê?
- Sou servidor público.
- Servidor público com estresse?!
- Pra você ver como os tempos são outros.

Ela sorriu, provavelmente não acreditando. Fez-se uma pequena pausa e, em seguida, ela retomou a conversa.

- Meu caso é depressão.
- Depressão?
- Isso. Depressão.
- E como você está?
- Deprimida.

Silêncio.

- Tenho depressão pós-parto.
- Eu sinto muito.
- Eu também.

Novo silêncio.

- É uma menina, sabe? - continuou ela.
- Quantos meses?
- Um ano e meio.
- Um ano e meio?!
- É. Depressão pós-parto mal-curada.

Não sabia que tinha isso de depressão pós-parto mal-curada. Talvez não tenha mesmo. Talvez aquele diagnóstico não fosse do médico, mas dela, quem sabe? Meu reino por um diploma em psiquiatria.

- É terrível, sabe? Sinto-me sufocada perto dela.
- Imagino o quanto deve ser difícil.
- Você não tem idéia.

Não tinha mesmo.

- Isso vai passar, você vai ver - disse, já sentindo um nó no coração.
- Eu já tentei me matar, por causa do bebê - disse ela, fazendo da ante-sala o consultório e de mim, o médico.

(Li depois em algum lugar que a depressão pós-parto causa uma tristeza muito grande e de caráter prolongado, com perda da auto-estima, da motivação para a vida, podendo levar ao suicídio. Algumas mulheres apresentam tendência ao abandono do recém-nascido, ou mesmo ao seu extermínio.)

Tive compaixão por ela. Uma jovem mãe tão ansiosa que não conseguia aguardar a consulta para dizer algo tão profundo, tão caro e tão íntimo. E eu, ali na frente dela, incapaz de saber o que dizer. Senti-me impotente. Apelei então à misericórdia divina, meu último recurso.

- Tenha fé em Deus que tudo vai acabar bem.
- Que Deus me perdoe, mas acho que Ele me abandonou.

Não deve haver dor maior para uma mãe do que o sentimento de rejeição pela própria cria. Odiei a mente humana e sua fragilidade. Por causa de uma química que eu não compreendo, estava diante de alguém que lutava desesperadamente para aceitar a sua maternidade. Era como se a natureza traísse a si mesma e mudasse o curso da correnteza, seguindo rio acima.

De repente, a porta do consultório se abriu e o médico convidou-a para entrar. Desejei boa sorte e ela se esforçou para sorrir. Depois disso, não consegui mais me concentrar na leitura. Apenas pensava nessas coisas da vida que estão além da nossa vontade e compreensão. Achei tudo aquilo injusto.

Cinqüenta minutos depois, a porta abriu e ela saiu. Olhou-me com um sorriso sem graça e, mesmo de longe, me disse baixinho que ficaria bem. Tomara que sim.

Depois no consultório, percebi que a minha consulta já não tinha importância. Meu corpo conversava com o médico, enquanto minha alma pensava na maternidade mal-resolvida. No final, fui embora para casa achando a vida uma merda.