A terrível estória do besouro-bosta
- 28 de agosto de 2008 | 0:00h
- Série comemorativa
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Imagem: Vladstudio

Artur Perrusi
Conto aqui uma estória de ninar, contada na minha infância. Anos de análise depois, percebi que todos os meus problemas e traumas tinham relação com esse magnífico conto infantil. Acho interessante sua publicação, pois Dimas acaba de ser pai, sendo uma arte e um aprendizado educar, sem traumatizá-la, uma alma infantil. Espero que Dimas, futuramente, escolha de forma conveniente as estórias de ninar e os contos infantis.
Lá vai:
“Era uma vez uma princesa que morava num belo e magnífico castelo, no meio de um bosque espesso e inacessível. Ela vivia trancada no seu quarto por ordem do rei, seu pai, porque este tinha medo de que algum aventureiro lançasse mão. Mas ela já estava na idade de casar, inclusive batia palminhas, e o próprio rei estava ficando velho, precisando de herdeiros e de dinheiro. Diante disso, ele editou uma nova lei: “o homem que conseguisse soltar a princesa do castelo teria a sua mão e herdaria o trono“. Foram muitos os príncipes que vieram de todos os lugares para tentar a sorte, embora todos malograssem nos seus objetivos. Era triste escutar os lamentos chorosos da princesa em cada desfeita dos seus pretendentes. O rei continuava intransigente e não a liberava da sua prisão sequer um segundo.
Era uma coisa estranha o fato de que os valentes príncipes não conseguissem chegar nem mesmo perto do castelo - mas é que Imangaard, a princesa que batia palminhas, não sabia das condições impostas pelo rei. Para se chegar lá, somente havia dois caminhos permitidos. O primeiro passava pelo bosque que era protegido pelo pavoroso bicho-galo. Monstro bissexual, macho e fêmea ao mesmo tempo, era alumiado e sombrejado de uma vez só. Tinha três carreiras de peitos, cada uma com 35 bicos. Cada bico dava pra mamar 147 homens. Com a força de um peido, derrubava invariavelmente quem ousassem desafiá-l@. Pior do que isso era o castigo da derrota. Por ordem do rei, todo aquele que fosse derrotado pelo bicho-galo era posicionado de quatro pés, calças arriadas, de tal sorte que era, imediatamente, possuído pelo monstro, que penetrava os derrotados com seu membro longo e fino. El@ não errava uma estocada e parecia extrair muito prazer daquela atividade. Quem se desse ao trabalho de olhar, notaria um certo ar de riso malicioso em Seu rosto. As sessões eram chamadas pelo rei de “o que é pior do que o empalamento” e eram assistidas somente pela aristocracia — à plebe só restava boatar.
O segundo caminho seguia por um profundo fosso, cheio de merda e baratas. Quem por ali passasse, teria que andar devagar, atolado de merda e barata até o pescoço. Assim mesmo, alguns corajosos tentaram, desistindo no meio do caminho por não suportarem tanto sacrifício, ainda mais porque a travessia tinha de ser feita na escuridão e em plena meia-noite.
Parece que a princesa morreu de desgosto, embora existam outras versões relatando que ela engravidou de um pajem, com o seu rebento tornando-se depois Bastardus I, para o constrangimento do seu pai”.
Bem, diante da minha incredulidade, minha mãe arredondava a estória e dizia que a saga dessa família real não terminava por aqui, existindo outra história, um tanto constrangedora, que abalava os alicerces da realeza. Mamãe, antes de iniciar a estória, dava uma risadinha meio histérica, e eu sabia que era o sinal de que vinha alguma coisa que faria Allan Poe corar. Havia nas redondezas do castelo do rei um besouro-bosta que, de hábito, alimentava-se do cocô da rainha. Isso não seria um grande problema, talvez apenas uma questão de ecologia, se não fosse a esquisitice desse besouro de só gostar de cocô fresco, precisando assim entrar nas tripas da rainha. O rei passava o tempo todo preocupado, tentando afugentar o besouro, o que raramente acontecia para a total tristeza da rainha. O problema agravou-se a tal ponto que a nobre dama sempre ficava deitada, todas as manhãs, esperando o besouro, para que lhe fosse dado passar o resto do dia mais tranqüila.
Um dia, o rei teve que viajar e, preocupado com o estado de sua esposa, mandou chamar um remendão para pregar uma tábua no traseiro da rainha, vedando a passagem preferida do besouro. Acontece que o besouro, inconformado por ter sido privado do seu alimento predileto, havia feito, com muita arte, um buraquinho na madeira, continuando, pois, tranqüilamente, com os seus velhos hábitos. Dizem que a rainha matou-se e o besouro, desesperado com o fim do seu repasto, jogou-se direto na boca de uma lagartixa, o que lhe trouxe uma morte atroz. Contudo, outras versões contam que, no fundo, a rainha gostava do besouro e, principalmente, do que lhe fazia, bem como - pasmem meus queridos estradeiros, porque esta informação é surpreendente - foi a própria rainha que fez o buraquinho na madeira!
Tal versão é bastante difundida entre o populacho, vale dizer. O que convenhamos não significa absolutamente nada, embora muitos freudo-marxistas (ler Lins, Dimas. Freud e o besouro bosta: a pernambucanidade desvelada. Recife: Joaquim Nabuco, 2004) tenham interpretado a figura simbólica do besouro como o povo entrando no forever da realeza. Acho, sinceramente, que é forçar demais…
Artur Perrusi é psiquiatra e doido varrido. Entre um Rivotril com coca-cola e outro, escreve crônicas e fala sobre política, doidice e o escambau no Blog dos Perrusi.




