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Estradar

Estrada por onde passam músicas, contos e crônicas de uma gente brasileira

Minhoca azul com bolinha rosa (chocante!)


Deus ou Darwin? Já viram com são parecidos?

Ana Cláudia

Sou atéia, mas também sou médium. As pessoas não acreditam em mim, pra falar a verdade, nem eu mesmo acredito bem direitinho. Acreditar, eu acredito, mas não é 100% de certeza. Fico pensando: como pode ter outra vida se não existe Deus, Diabo, Céu, Inferno e outros que tais? Ou uma coisa não tem nada a ver com a outra? Será que, pelo sim pelo não, não era melhor pagar um dizimozinho pra um pastor desses, mesmo que seja só uma vez por ano? Sei não, vou pensar no assunto.

Não acredito em nada, não sou chegada a superstições, mas duvido pegar num jornal e não ler o horóscopo do dia. Duvido. Não consigo. Não acredito, em um segundo eu já esqueci todo o pouco de baboseira que li, mas tenho que ler. Reflexo condicionado? Não é que eu acredite que a posição dos astros no momento do meu nascimento vai determinar a escolha da roupa que eu vou usar na próxima quarta-feira. Não creio de jeito nenhum. Mas leio o horóscopo diário.

Não acredito em destino, mas o que eu faço com o impulso que tenho toda vez que conheço uma figura e imediatamente a tomo como amigo de infância, quiçá um irmão gêmeo? A primeira coisa que eu digo quando constato uma coisa dessas é “a gente tinha que se encontrar. Tava escrito”. Não sei onde é que tava escrito, mas destino não existe mesmo.

E acaso, existe? Eu acho que sim. Mas não é por acaso que, por exemplo, eu estou escrevendo todas essas cretinices. Estou escrevendo isso, porque o Estradar está completando um ano de atividade, eu adoro ler o blog e queria escrever algo para comemorar a data. Mas tô sem tempo nem cabeça. Então eu lembrei que meu amigo Dimas está me devendo uma crônica sobre uma certa médium atéia que nós conhecemos. Estou louca para saber o que vai sair disso.

Não acredito que alguém tenha a idéia cretina de escrever uma crônica-cobrança. Mas é isso que acabo de fazer.

Foi mal aí, Dimas. O Estradar merece coisa muito melhor. Estou aguardando, e de preferência ainda nesta encarnação, quando júpiter cruzar com marte com lua em Áries, e assim determinar o destino do blog!

Ana Cláudia é jornalista e escreve regularmente em seu blog Ninho da Ninha. De vez em quando vou lá e pego algum de seus textos por empréstimos. Não foi o caso desta crônica.

Um ano na estrada

escritor

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Máquina 2 (Belchior)

Dimas Lins

Queria ser escritor. Mesmo que fosse um de fins de semana, embora preferisse ser daqueles contumazes que extraem o sustento da gastura dos dedos e do teclado. Seria a mistura perfeita entre trabalho e prazer. Afinal, haverá maior satisfação que a possibilidade de tocar com as palavras o coração das pessoas? Quem não se envaideceria ao descobrir que, num ponto deste vasto planeta, foi capaz de comover alguém com algo seu?

Ah, do fundo da minha alma, queria tornar-me autor de boa literatura! Puxaria daqui e dali até encontrar o ritmo perfeito de uma cena ou de um texto. Buscaria o equilíbrio entre forma e conteúdo e, nessa busca, ouviria com um prazer inexplicável as batidas de uma velha máquina de escrever, pois, se acaso fosse escritor, por certo eu também teria uma. Como não?

Se fosse escritor de boa cepa, talvez me sentisse mais satisfeito e menos esgotado ao término de uma crônica. Meus personagens certamente ganhariam vida própria e dobrariam a minha vontade, tornando-se criação de si mesmos. Dizem que é assim que acontece com os grandes escritores.

Mas não sou escritor, tampouco um escritor publicado. Talvez um dia. Não importa. O importante é que o Estradar, de alguma forma, me fez sentir como se fosse um. Puro alumbramento, eu sei!

Também sei que o alumbramento é uma ilusão, um engano do espírito ou da mente. Mas da mesma forma ele pode ser um sopro criador, uma revelação ou inspiração. Um ou outro caminho não depende da estrada, mas de quem a trilha.

Para mim, tanto faz. Mesmo não sendo escritor, espero o dia em que eu descubra que, num ponto deste vasto planeta, alguém se comoveu com algo meu. Nesse exato instante, garanto que não haverá engano do meu espírito e meu alumbramento se dará como uma inspiração.

Ao Estradar - que permite que a minha alma se abra por inteiro - no seu primeiro aniversário.

PS: Ah, achei essa ilustração a minha cara!

Pau que nasce torto


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Uns (Caetano Veloso)

Dimas Lins

Pau que nasce torto, não precisa morrer torto. Há jeito para tudo na vida. Para a morte também. Ao menos para Norberto, que cria na morte como uma passagem para outro estágio espiritual.

Ele sempre teve um coração de ouro. Quando menino, ajudava a mãe nos afazeres domésticos, sem que ela pedisse. Fazia por sua natureza generosa. Costumava ser visto nas ruas do bairro fazendo pequenas camaradagens. Era cordial com todos, especialmente com os mais velhos, e defendia os que não tinham meios de se defender. Não guardava mágoa ou rancor e possuía uma imensa capacidade de perdoar. Também não dormia à noite, se concluísse que dera a alguém causa a algum embaraço.

Mais velho, tornou-se comerciante. Dono de um pequeno comércio vizinho à sua casa. Aplicava com justiça os preços no armazém e gozava do respeito de sua clientela. Era um homem honrado.

Norberto também se tornou cristão. Primeiro foi católico, depois espírita. Todo domingo de manhã ia aos sinais de trânsito fazer campanha do quilo. Sua generosidade emprestada a um bom combate. Acreditava nas pessoas e numa mudança - ainda que lenta - do mundo em direção a um lugar melhor e mais humano.

Desde criança, Cosme metia-se em encrenca. Na escola, costumava intimidar os mais novos, tirando vantagem do seu vigor físico. Da intimidação passou à ameaça e, em seguida, à extorsão.

Cosme começou com pequenos furtos. Foi preso pela primeira vez aos doze anos. Aos trezes, fez seu primeiro assalto à mão armada e aos quinze matou um homem. Foi preso novamente aos dezesseis.

Norberto e Cosme se conheceram num reformatório. Norberto fazia visitas regulares aos menores. Pensava que um escorpião, se fosse do seu desejo, seria capaz de mudar a sua própria natureza. A alma poderia ser domesticada, assim como um cão. Cosme ouvia os conselhos de Norberto com atenção e respeito.

Quando Cosme saiu do reformatório, Norberto o acolheu. Tratou-o como filho. Deu-lhe casa, comida e ensinou-lhe um ofício. Cosme agora era um trabalhador assalariado.

Certa vez, já tarde da noite, Norberto retornou ao armazém para pegar algumas anotações. Deu de cara com Cosme se apossando do dinheiro em caixa. Norberto foi ao chão. Levou dois tiros. O primeiro no ombro. O segundo no peito foi fatal.

Pau que nasce torto, morre torto. Um escorpião não é capaz de mudar a sua própria natureza, nem tampouco a alma é um cão para ser domesticada. Também não há jeito para tudo na vida. Quem sabe para a morte, se ela for mesmo uma passagem para outro estágio espiritual, como acreditava Noberto.

Uma canção desnaturada

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Uma canção desnaturada - Suely Costa (Chico Buarque)

Publiquei Uma canção desnaturada em 1º de setembro de 2007. O texto surgiu numa época de muito estresse pessoal, por causa do trabalho. Em meio a planejamentos, prazos e pressões para concluir um projeto, decidi consultar um psiquiatra. É verdade que eu não sofria de nenhuma loucura - além, é claro, daquelas por mim já conhecidas - mas compartilho da sabedoria popular quando diz que seguro morreu de velho.

Embora em sua totalidade a conversa na ante-sala do consultório não tenha sido verídica, uma pequena parte dela aconteceu e me comoveu profundamente. Uma mulher, uma mãe, com depressão pós-parto me contava a sua dificuldade em estabelecer um vínculo afetivo com sua filha. Em vão, tentei reconfortá-la até perceber que o melhor a fazer era apenas ouvi-la.

Já em casa, não consegui tirá-la dos meus pensamentos e assim surgiu a crônica. Espero que ela esteja bem.

Dimas

Dimas Lins

Havia terminado meus afazeres mais cedo do que imaginava e fiquei naquela incerteza de ir para casa ou seguir para a consulta médica. Percebi que teria de ir direto para o consultório, se quisesse manter o horário do meu compromisso. Chegaria mais cedo e aguardaria pacientemente a minha vez.

Não iria cuidar de nenhuma rinite alérgica ou apenas de uma gripe mal-curada. Cuidaria da força moral do espírito, da alma. Enfim, trocando em miúdos, faria uma visita ao psiquiatra.

Foi quando o relógio deu seis horas que eu toquei a campainha. A consulta estava marcada para as 19h30min e, portanto, aguardaria uma hora e meia. Isso se o médico não atrasasse a agenda. Gosto do horário noturno para ir a um consultório, pois geralmente é mais silencioso e há menos pacientes impacientes com os atrasos habituais.

Tão logo cheguei, a secretária abriu a porta, me recebeu e se despediu. É que o seu horário de trabalho termina antes do horário do psiquiatra. Fechei a porta e sentei. Nessas ocasiões, procuro ler alguma coisa, uma revista ou um livro. No caso do livro, invariavelmente, trago-o de casa e, por coincidência, já andava com ele no carro, preparado para os esperes e pares do mundo. A bola da vez é Clamor - A Vitória de Uma Conspiração Brasileira, do jornalista Samarone Lima, também escritor de Estuário, um livro-blog. Esse aí ao lado, em forma de link.

Não deram cinco minutos de leitura e a campainha tocou. Na ausência da secretária, abro eu mesmo a porta. Dou boa noite, passo a chave e volto ao meu lugar. Do lado de fora, um carro se afasta e o motorista acena para a recém-chegada. No recinto agora, uma jovem na casa dos trinta anos, demonstrando um pouco de ansiedade, senta no outro sofá. E é na hora que eu retomo a leitura que ela puxa conversa.

- Você é paciente ou está esperando alguém?
- Sou paciente.
- É o próximo?
- Não. Eu cheguei mais cedo e ficarei de castigo por algum tempo.
- Ah! Pensei que tinha errado o horário.

Sorri amavelmente e tentei retomar a leitura.

- Depressão?

Já estive naquele mesmo consultório antes e posso assegurar que não é comum este tipo de conversa na ante-sala. Afinal, cada paciente está lá por algum assunto psíquico não satisfatoriamente resolvido. E, nessas ocasiões, melhor o silêncio. Mesmo assim, respondi. Afinal, aquele que não for louco que atire a primeira pedra.

- Não. Um pouco de estresse e um pouco de loucura.

Ela sorriu e emendou, sem perder o ritmo.

- É do trabalho?
- Perdão?
- O estresse… É por causa do trabalho?
- É. É, sim.
- E o senhor trabalha em quê?
- Sou servidor público.
- Servidor público com estresse?!
- Pra você ver como os tempos são outros.

Ela sorriu, provavelmente não acreditando. Fez-se uma pequena pausa e, em seguida, ela retomou a conversa.

- Meu caso é depressão.
- Depressão?
- Isso. Depressão.
- E como você está?
- Deprimida.

Silêncio.

- Tenho depressão pós-parto.
- Eu sinto muito.
- Eu também.

Novo silêncio.

- É uma menina, sabe? - continuou ela.
- Quantos meses?
- Um ano e meio.
- Um ano e meio?!
- É. Depressão pós-parto mal-curada.

Não sabia que tinha isso de depressão pós-parto mal-curada. Talvez não tenha mesmo. Talvez aquele diagnóstico não fosse do médico, mas dela, quem sabe? Meu reino por um diploma em psiquiatria.

- É terrível, sabe? Sinto-me sufocada perto dela.
- Imagino o quanto deve ser difícil.
- Você não tem idéia.

Não tinha mesmo.

- Isso vai passar, você vai ver - disse, já sentindo um nó no coração.
- Eu já tentei me matar, por causa do bebê - disse ela, fazendo da ante-sala o consultório e de mim, o médico.

(Li depois em algum lugar que a depressão pós-parto causa uma tristeza muito grande e de caráter prolongado, com perda da auto-estima, da motivação para a vida, podendo levar ao suicídio. Algumas mulheres apresentam tendência ao abandono do recém-nascido, ou mesmo ao seu extermínio.)

Tive compaixão por ela. Uma jovem mãe tão ansiosa que não conseguia aguardar a consulta para dizer algo tão profundo, tão caro e tão íntimo. E eu, ali na frente dela, incapaz de saber o que dizer. Senti-me impotente. Apelei então à misericórdia divina, meu último recurso.

- Tenha fé em Deus que tudo vai acabar bem.
- Que Deus me perdoe, mas acho que Ele me abandonou.

Não deve haver dor maior para uma mãe do que o sentimento de rejeição pela própria cria. Odiei a mente humana e sua fragilidade. Por causa de uma química que eu não compreendo, estava diante de alguém que lutava desesperadamente para aceitar a sua maternidade. Era como se a natureza traísse a si mesma e mudasse o curso da correnteza, seguindo rio acima.

De repente, a porta do consultório se abriu e o médico convidou-a para entrar. Desejei boa sorte e ela se esforçou para sorrir. Depois disso, não consegui mais me concentrar na leitura. Apenas pensava nessas coisas da vida que estão além da nossa vontade e compreensão. Achei tudo aquilo injusto.

Cinqüenta minutos depois, a porta abriu e ela saiu. Olhou-me com um sorriso sem graça e, mesmo de longe, me disse baixinho que ficaria bem. Tomara que sim.

Depois no consultório, percebi que a minha consulta já não tinha importância. Meu corpo conversava com o médico, enquanto minha alma pensava na maternidade mal-resolvida. No final, fui embora para casa achando a vida uma merda.

Conversa oca

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Ele me deu um beijo na boca (Caetano Veloso)

No próximo dia 19, o Estradar completará um ano de vida. Um ano de publicações de contos e crônicas de uma gente brasileira. É uma satisfação.

Para comemorar o aniversário do Estradar, fiz uma seleção das crônicas que mais me deram prazer em escrever e, durante o mês de agosto, publicarei alguma toda quinta-feira. Para cada texto, farei uma pequena introdução contando algumas curiosidades sobre a crônica. Mas o mês de agosto não sobreviverá apenas de retrospectivas, pois pretendo publicar também textos inéditos.

A primeira crônica desta série comemorativa é Conversa oca, uma das minhas favoritas. A crônica foi publicada em 04 de setembro de 2007, depois de uma conversa com o amigo Artur Perrusi. Perrusi me contava numa mesa de bar que as mulheres não acreditavam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Os homens são capazes de momentos de absoluto vazio, mas elas não crêem nesta verdade incontestável.

Já em casa, relembrando nossa conversa, aparentemente inverossímil, minha esposa me perguntou de que eu estava rindo. Ri ainda mais e acabei encontrando a linha desta crônica. O arremate final veio da inspiração na fantástica música “Ele me deu um beijo na boca” de Caetano Veloso.

Dimas

Dimas Lins

Ela levantou da rede e foi em direção à cozinha buscar outra garrafa de vinho, enquanto eu permaneci jogado no sofá perdido em nenhum pensamento. Ao retornar desta vez, trouxe à mão um vinho francês com uma composição de uvas cabernet sauvignon-syrah, bastante popular nos supermercados brasileiros. Observei quando ela derramou na minha taça um líquido de cor púrpura muito escuro, quase roxo, com pouca transparência. Depois, encheu também a sua taça e me deu um beijo na boca. Parou alguns segundos e, ainda em pé, ela me olhou de cima e me perguntou em quê eu estava pensando.

- Em nada - respondi.

(Um amigo me disse certa vez que o homem, e só ele, conhece a metafísica do vazio, a nulidade do ser. Ele diz que as mulheres costumam nos apontar o dedo e perguntar “o que você está pensando?”. Elas não acreditam na capacidade masculina de pensar em absolutamente nada. Esta é a sua tese. E a minha também.)

- Ninguém pensa em nada, pois o cérebro não pára. E como ele é o órgão do pensamento e da coordenação neural, você, com certeza, devia estar pensando em alguma coisa.

- Se você entende o pensamento como uma atividade química, eu concordo. Mas há uma grande diferença entre isso e uma atividade psíquica consciente e organizada. No exato momento em que você me perguntou, posso lhe assegurar, meu cérebro agia de maneira livre, independente e incondicionada. Ou seja, ele estava oco, como a touca de um bebê sem cabeça.

E eu ri à beça.

- Toda essa conversa sem pé nem cabeça para ocultar um pensamento?

- Querida, o fato é que mulher nenhuma acredita na intersecção nula, no vão, no oco, no vácuo, no nada.

- Acredito na nulidade de ação dos homens, não do pensamento. O homem existe, logo pensa… Ainda que sejam apenas tolices.

E ela riu e riu e ria. E continuou:

- O nada é a negação da existência ou a não-existência! Então, segundo a sua teoria, se você pensa em nada, logo você não existe. Neste caso, você seria apenas a conseqüência do vazio da minha taça ou o resultado da antimatéria do vinho que eu tomei.

Eu gaguejei e disse sim, mas sim, mas não, nem isso.

- Pensar em nada não nega ao ser a sua existência, embora, nessas circunstâncias, os impulsos elétricos do sistema nervoso central se aproximem de zero tendendo ao infinitivo. É como atingir o Nirvana! Pensar em nada é a supressão da consciência individual!

Ela não respondeu e caímos no silêncio. Tomei minha taça nas mãos e olhei-a como se fosse um filósofo e tivesse criado a frase definitiva do conhecimento humano: “pensar em nada é suprimir a consciência individual!”. Tomei um gole do vinho e abri um leve, mas enigmático sorriso.

- De quê você está rindo?

- De nada - respondi.

- Pensar em nada, eu já nem consigo engolir, mas ri de nada? Impossível! Como a supressão da consciência pode causar espasmo nos músculos faciais?!

- Desta vez o nada não foi absoluto, mas relativo. Não pensava em nada, mas algo que não significava nada. Na gradação do valor do pensamento, o que acabei de pensar não tinha relevância.

- Irrelevante, mas capaz de causar um espasmo muscular?!

Fiquei em silêncio, mas ela manteve-se na ofensiva.

- Você está apaixonado?

- Eu sempre estou apaixonado.

- Por quem?

- Por você, por uma música, por um livro, por um verso… Por muitas coisas.

-Você está apaixonado por outra pessoa?

- Por que essa pergunta oca agora?!

- Quando um homem ri assim e está com a cabeça distante é por que está apaixonado por alguma mulher!

- Meu bem, você está ansiosa e a ansiedade é a expectativa da dúvida.

Sorri, valorizando, por causa do vinho, a frase que acabara de dizer: “a ansiedade é a expectativa da dúvida!”.

- Basta de filosofia! - ela gritou, deixando o nada de lado e partindo para o tudo.

Retrocedi, pois sabia que aquela conversa oca ia dar em nada. Respirei fundo, bebi um pouco de vinho e dei-lhe um beijo na boca. E ela correspondeu aquele beijo.

Pelo celular (em tempos de grampos)

Ana Cláudia (Crônica publicada originalmente no blog Ninho dA’Ninha)

Uma singela homenagem aos meus grampeadores

- Oi. E aí?

- Então, conseguiu?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos? Mas mais pra mais ou mais pra menos?

- É que deu rolo.

- Não fala em rolo, meu telefone tá grampeado. O que houve?

- É que… Não sei se eu posso falar, teu telefone tá grampeado, e se teu telefone tá grampeado, a essa altura do campeonato o meu também tá.

- Fala por código, mas fala.

- Não podia ser pessoalmente? Onde você está?

- Eu tô aqui, mas tá difícil.

- Pera. Você tá onde, e o que é que tá difícil?

- Eu tô aqui, aqui, no QG, sacou? No QG. Mas tá difícil porque eu não posso sair daqui.

- Então eu vou aí.

- Não! Tá louco? Vem não. A figura tá aqui.

- Figura? Que figura?

- “A” figura. Não posso falar o nome, meu telefone…

- … tá grampeado. Já sei, já sei. É o A?

- Aham.

- Tá sacando que eu tô falando “o A” pra disfarçar, né? Que na verdade esse A a que estou me referindo nem tem A no nome nem é mulher. Entendeu né?

- Como é que é?

- Deixa pra lá. O A é quem eu tô pensando que é?

- Deve ser. É o A de sempre, ele mesmo.

- E por que é que eu não posso ir ao QG quando o A está lá?

- Lá onde?

- Lá. Quer dizer, aí, no QG.

- Ah!

- Tá falando comigo ou com o A?

- Hein?

- Eu escutei. Você falou “A”. É um código novo ou você estava falando com o A?

- Eu falei A? Falei não…

- Falou, eu ouvi.

- Deixa eu ver… Ah não… Eu não falei A, eu falei Ah!

- Aaaahhhh… Sei lá, acho que entendi. Mas deixa pra lá. E o treco? Então, conseguiu ou não conseguiu?

- Consegui, mas não tudo. E sem nota. O cara se recusou a entregar a nota.

- E você comprou mesmo sem nota? Tá louco? Como é que vou prestar contas depois? Eita porra, estamos falando demais. O telefone tá grampeado, esqueceu?

- Puxa, eu quase esqueci desse detalhe. Sacanagem grampearem o telefone da gente né?

- É, sacanagem mesmo. Mas deixa pra lá, da gente eles não vão conseguir nada.

- Tudo bem. Mas como é que eu faço pra me livrar do troço, já que eu não posso ir aí?

- Arranja um carro disfarçado de comum. Sabe, do tipo gol branco? Então. Arranja um desses e leva até a esquina do QG. Chegando lá, você dá um toque e meio no meu telefone.

- Pera. Como é isso de dar um toque e meio?

- É fácil. Você… Deixa pra lá, dá dois toques mesmo. Aí eu vou me encontrar com você duas ruas abaixo daqui. Você desce as duas ruas, entra à esquerda, vira na segunda à direita e deixa o pacote embaixo de uma árvore florida que tem na calçada.

- Beleza, estamos combinados. Já vou.

- Valeu.

(Meia hora depois)

- Ô, cadê você? Estou te esperando há mais de meia hora!

- Estou aqui, no lugar combinado. Você não apareceu!

- Eu fiz tudo como você mandou. Desci, dobrei, dobrei de novo e tô embaixo da árvore.

- Caraca, eu não acredito! Você foi para onde eu mandei você ir? Você tá louco? A essa altura do campeonato tem uns 15 PFs disfarçados a seu lado para nos flagrar enquanto você me passa o troço.

- Mas você marcou!

- Dãããã! Era pra fazer tudo exatamente ao contrário, mané. Não lembra? Meu telefone tá grampeado!

- E como é que eu vou adivinhar?

- Deus, contratei uma anta! Já que estragou tudo mesmo, que os policiais federais estão lhe seguindo, então vem direto para o QG e entrega logo essa porra dessa marmita de uma vez, merda!